Para Alessandro Vieira, Élcio Franco atendia ‘comandos político-ideológicos’ do presidente Bolsonaro

Senador elogia resistência da ex-coordenadora do PNI, Francieli Fantinato, e critica o coronel que concentrava decisões sobre vacinas e insumos (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)

Depoente da CPI da Pandemia nesta quinta-feira (08), a enfermeira Francieli Fantinato, ex-coordenadora do PNI (Programa Nacional de Imunizações) do Ministério da Saúde, afirmou ao líder do Cidadania no Senado, Alessandro Vieira (SE), que nunca contou com a quantidade satisfatória de vacinas contra a Covid-19 para reduzir o crescimento do contágio e das mortes pela doença no País.

Ela responsabilizou diretamente a secretaria-executiva da pasta  pelas decisões tomadas, tendo à frente o coronel Élcio Franco, que mesmo sem conhecimento técnico concentrava todas as decisões sobre vacinas e insumos. Com isso, o PNI não recebeu, na largada da pandemia, o número de doses de vacinas necessárias para reduzir infecções e mortes. Um caso típico foi o imunizante chinês Coronavac, boicotado pelo governo Bolsonaro por sua origem.

“Esse coronel assumiu posição central no processo de negociação de compra de vacinas, e definição de políticas públicas de saúde, sem ter qualificação para tanto, atendendo diretamente comandos político-ideológicos do presidente da República”, disse Alessandro Vieira, que protocolou nesta quarta (07) um requerimento de reconvocação à CPI de Élcio, que hoje atua como assessor especial da Casa Civil.

Francieli criticou a falta de doses de vacina e de campanhas publicitárias efetivas, até porque eram duas campanhas, a de Covid e Influenza.

“Eu não tive nenhum dos dois”, afirmou a enfermeira.

‘Politização’ de Bolsonaro

A ex-coordenadora do PNI disse ainda que deixou o cargo após “politização” de Bolsonaro sobre vacina.

“Não ter dose suficiente para poder iniciar uma campanha forte no início, chamando a população para se vacinar, gerou uma pressão muito forte de grupos, com pedidos para passar na frente da fila”, relatou Francielli, cujo setor recebeu mais de 100 pedidos nesse sentido.

Ela disse que queria a CoronaVac introduzida desde o início da campanha de imunização, mas cuja compra foi dificultada pelo comando do Ministério da Saúde, e ainda é.

“Não houve discussão com o PNI para a retirada da Coronavac [do programa]”, frisou Francielli.

“A negociação era na secretária-executiva”, disse, que segundo ela se mostrava aparentemente insensível à necessidade urgente de reduzir a velocidade de contágio.

Alessandro Vieira frisou que o governo, propositadamente, não fez um grande volume de vacinas, desde o começo da pandemia, optando, inclusive, pela cobertura mínima ao aderir ao Covax Facility, aliança mundial de vacinas contra a Covid-19. O Palácio do Planalto preferiu ficar com os 10%.

O PNI, informou Francieli à CPI, trabalhava, em junho de 2020, diante de “um cenário de incerteza”, com um volume de, no mínimo, 140 milhões de doses, podendo chegar a 242 milhões, tendo em vista uma única dose – porque na época não se sabia que as vacinas exigiriam duas doses, exceto da vacina da Janssen. O Ministério da Saúde contratou apenas 42 milhões de doses.

‘Conduta criminosa’

O senador disse que essa foi mais uma ‘conduta criminosa de quem reiteradamente não aceita a ciência’. Ele lembrou da sua experiência de 20 anos como delegado da Polícia Civil de Sergipe, período em que não faltaram pressões políticas.

“Todo técnico, eu sou técnico de segurança pública, submetido à gestão política, é colocado diariamente diante de um desafio: até onde estou fazendo o que é certo e até que ponto eu sou cúmplice”, pontou Alessandro Vieira.

Para ele, Élcio se tornou cúmplice, e o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), comparou o coronel ao nazista Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela deportação dos judeus europeus durante o Holocausto.

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