‘Projeto Bolsonaro é golpista na linha da Venezuela’, afirma Alessandro Vieira

Senador diz que ‘o ataque’ do presidente ‘às instituições não começa com a CPI ou com a pandemia’, mas a partir de portaria em que militares passam a receber dois salários no seu governo (Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado)

Em entrevista ao jornal Valor Econômico (veja aqui e abaixo), o líder do Cidadania no Senado, Alessandro Vieira (SE), avalia as conclusões preliminares da CPI da Pandemia e diz que o ‘projeto’ do presidente Jair Bolsonaro ‘é golpista na linha da Venezuela’.

“O ataque do Bolsonaro às instituições não começa com a CPI ou com a pandemia. O projeto Jair Bolsonaro é claramente um projeto golpista, na linha do que aconteceu na Venezuela – uma incorporação do espaço civil pelas Forças Armadas. A partir de uma portaria, eles passaram a receber dois salários. Nas figuras-chave, ele conseguiu encontrar perfis que se arrogam a isso, alguns ganhando 60 mil”, diz o parlamentar.

Segundo ele, a CPI já tem a ‘comprovação’ de que o País chegou a mais de 500 mil mortes por uma ‘série de decisões no mínimo equivocadas’ do governo federal.

“As principais delas: não fazer a aquisição de vacinas no quantitativo necessário e não fazer nenhum tipo de comunicação no sentido de orientar os brasileiros a como se proteger. Nesse ponto, pelo contrário: se fez campanha para reduzir a capacidade do brasileiro entender a gravidade da crise e, assim, se proteger melhor. Mesmo pesquisadores mais cautelosos falam em mais de 100 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. Esse é o grande fato da CPI. Aí a gente passa para a etapa seguinte, que é discutir o porquê. Porque o Brasil não quis comprar vacina, insistiu em hidroxicloroquina”, diz Alessandro Vieira.

“Projeto Bolsonaro é golpista na linha da Venezuela”

Senador defende convocação do ministro da Defesa para depor na CPI

Renan Truffi, Fernando Exman e Vandson Lima — Valor Econômico

Seguem os principais temas tratados na entrevista:

Tensionamento

“O ataque do Bolsonaro às instituições não começa com a CPI ou com a pandemia. O projeto Jair Bolsonaro é claramente um projeto golpista, na linha do que aconteceu na Venezuela – uma incorporação do espaço civil pelas Forças Armadas. A partir de uma portaria, eles passaram a receber dois salários. Nas figuras-chave, ele conseguiu encontrar perfis que se arrogam a isso, alguns ganhando 60 mil. Essa infiltração tem um problema sério de quebra de hierarquia, é o projeto do Bolsonaro. O que chama atenção é a aceleração disso. Está muito acelerado. E uma parte dessa aceleração, provavelmente, decorre do fato de que o Braga Netto (ministro da Defesa e ex-chefe da Casa Civil) está numa posição muito relevante nessa discussão. O Braga Netto não era só o ministro-chefe da Casa Civil. Ele era o coordenador do atendimento à pandemia”.

Convocação de Braga Netto

“Eu apresentei o requerimento de convocação do general Braga Netto já há muito tempo. O senador Omar Aziz (presidente da CPI) e a maioria da comissão entendem que é uma coisa complicada, sob o ponto de vista institucional, de ser o ministro da Defesa. Este é o debate, que vai estar permanente. Eu entendo que numa democracia não existe nenhum problema de colocar sentado para prestar depoimento o ministro da Defesa. Eu sinceramente não vejo problema. O Superior Tribunal Militar (STM) não concorda comigo, mas eu não sou subordinado ao STM. Sou subordinado à Constituição”.

Eduardo Pazuello e Élcio Franco

“Como eles estão diretamente na linha de comando do Ministério da Saúde, eles serão seguramente indiciados. Já são processados na Justiça. A ação ou omissão deles é claramente criminosa. A improbidade é escancarada, esse desleixo e essa briga por espaço em determinados cargos estratégicos, somada à clara infiltração de militares da reserva nos processos de compra… É um governo totalmente desorganizado, informal, bagunçado. E as consequências são essas que a gente está vivendo. Tem áreas que a gente não está conseguindo olhar. É o caso da Educação. Eles estão destruindo a educação ao pó. Vai levar um tempão para rearrumar”.

Projeto de poder x corrupção

“Em todos em todos os casos que eu posso me lembrar rapidamente, tudo começa sempre com um projeto de poder político e acaba descambando em alguns pontos para enriquecimento pessoal. O PT não surgiu para fazer mensalão, mas em dado momento vira o que virou. É a mesma coisa no governo Bolsonaro”.

CPI da Rachadinha

“A ideia é que a gente a tenha logo no encerramento desta, mas não tem entendimento. São fatos graves demais para você deixar sem nenhum tipo de apuração. Se o MPF não faz o papel dele e os órgãos de controle não fazem o papel deles, cabe ao Senado fazer o papel e colocar esse bode na sala: “Olha, tem essa situação aqui? Não é o suficiente? Nós vamos continuar fingindo que não existe”

Conclusões preliminares

O que nós tivemos até agora foi a comprovação, passo a passo, de como nós chegamos ao quadro de pandemia descontrolada e mais de meio milhão de mortos. Aconteceu por uma série de decisões tomadas pelo governo, que são decisões equivocadas, no mínimo. As principais delas: não fazer a aquisição de vacinas no quantitativo necessário e não fazer nenhum tipo de comunicação no sentido de orientar os brasileiros a como se proteger. Nesse ponto, pelo contrário: se fez campanha para reduzir a capacidade do brasileiro entender a gravidade da crise e, assim, se proteger melhor. Mesmo pesquisadores mais cautelosos falam em mais de 100 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. Esse é o grande fato da CPI. Aí a gente passa para a etapa seguinte, que é discutir o porquê. Porque o Brasil não quis comprar vacina, insistiu em hidroxicloroquina”

Motivação do governo

“Há duas vertentes, que não são excludentes e muito provavelmente as duas se confirmarão: a primeira delas é uma ignorância boçal, uma ignorância completa, é o privilégio do tio do WhatsApp. É a destruição institucional de coisas como a Anvisa, o Ministério da Saúde. Você descaracteriza isso tudo e segue o que algum “sábio” do WhatsApp inventou”.

Corrupção

“A segunda vertente é a da corrupção, da vantagem econômica para si ou para terceiros. Por que insistiram tanto com os remédios? E você faz uma ligação entre os fabricantes dos remédios, os grupos de médicos que defendem seu uso e o próprio governo Bolsonaro. E existe a tramitação para a compra de vacinas, onde muito claramente há processos que são facilitados para determinados fornecedores e dificultados para outros”.

Gabinete paralelo

“Comprovamos a existência e que nada daquilo que tecnicamente eles alegam, dos famosos estudos, existe. Eles simplesmente não existem. Pelo contrário, tem vários estudos de alta qualidade que dizem que está tudo errado”.

Missão original da CPI

“Tem que cumprir a missão original. Provamos a omissão? Provamos. Esclarecemos? Sim. Encontramos no trajeto indícios de outros problemas? Sim. Avançamos até onde deu, mas daqui para frente o órgão de controle respectivo vai tocar. No tocante a crime de responsabilidade, isso seguramente vai ter que passar pela apreciação da Câmara dos Deputados. No caso do Bolsonaro, há a hipótese de crime comum e de crime de responsabilidade. Acredito que as duas situações ficarão configuradas”.

Tribunal internacional

“Alguns colegas falam sobre a hipótese de tribunal internacional. É uma hipótese real. É possível fazer, a gente deve fazer, na medida em que a gente encontre fatos que se enquadram nas modalidades que eles atuam. Mas, é um processo longo, um processo de muitos anos. Não é uma coisa que vai dar naquilo que muita gente está na ansiedade. “Ah, vamos fazer a CPI e a CPI vai prender fulano e vai fazer o impeachment do Bolsonaro. A CPI não faz uma coisa nem outra. O trabalho da CPI é um relatório”.

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