A tríplice Democracia

A Democracia como plataforma para a Governança pode e deve transbordar do terreno institucional, avançando para outras áreas, o que faz com que seja compreendida como uma totalidade. Com efeito, isto se tornará possível se encararmos a Democracia em toda sua real dimensão. Vale dizer, uma dimensão tríplice: política, social e econômica. Trabalho e poder de compra têm que voltar à pauta da Democracia entre nós. Um certo marxismo se debruçou muito mais sobre as questões relativas ao Poder, em detrimento da compreensão do mundo do trabalho e das condições vividas pelo trabalhador. E isso tanto no tocante a um marxismo “acadêmico” quanto às próprias práticas da maior parte dos partidos se reivindicando do campo progressista no mundo, e isso das mais diferentes tendências, incluído aí o próprio marxismo.

Essa visão enxerga o Estado como o centro de tudo.

Na verdade, precisamos ainda entender que o Estado participa da exploração da energia dos trabalhadores: no Brasil de 2023, a carga tributária alcançava 32,4% do Produto Interno Bruto. Mais: no orçamento previsto para 2024, a folha salarial abocanhava 400 bilhões de reais, mais do que as despesas com a saúde e a educação (as quais, somadas, alcançavam, a casa dos 370 bilhões). O Estado existindo em função dele mesmo. O Judiciário brasileiro, por exemplo, consome 1,6% do PIB (a média mundial é de 0,4%). Para se ter uma ideia ainda mais clara, esse montante – da ordem de 159, 7 bilhões de reais em 2022, 82,2% consumidos em salários para magistrados (6.100 pessoas) e servidores (63. 200 pessoas) – supera em muito os 113 bilhões de reais alocados ao programa Auxílio Brasil, envolvendo 21,6 milhões de famílias no mesmo ano.

O fato é que muitos não percebem também que há duas formas de exploração da energia liberada pelo trabalho: a mais-valia e a via fiscal, tão exposta à corrupção, por vezes irmanadas, por intermédio do aparato estatal. Na prática, a raiz disso se encontra no culto ao Estado, considerado equivocadamente como a única instância da esfera pública. 

Ivan Alves Filho, historiador.

Leia também

Lula manda Casa Civil se entender com Lira

NAS ENTRELINHASMas o governo se dispõe a manter apenas...

Lula não tem empatia com o centro conservador

NAS ENTRELINHASExiste um problema de desempenho nos ministérios, mas...

A luz do poeta Joaquim Cardozo na arquitetura de Brasília

NAS ENTRELINHASMuitos arquitetos e engenheiros vieram para Brasília com...

Lira teme efeito Orloff ao deixar comando da Câmara

NAS ENTRELINHASO presidente da Câmara se tornou uma espécie...

Lula deve pôr as barbas de molho com o cenário mundial

NAS ENTRELINHASDa mesma forma como o isolamento internacional se...

Informativo

Receba as notícias do Cidadania no seu celular!