Eliziane Gama participa de eventos sobre participação da mulher na política

Líder do Cidadania no Senado participou do Fórum da Mulher Vereadora e de debate no TRE-MA sobre a atuação feminina na política (Foto: Reprodução)

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) participou na semana passada de dois eventos que pautaram a participação da mulher nos espaços de poder. 

Na última quinta-feira (31), a líder do Cidadania no Senado participou do Encontro Nacional de Legislativos Municipais e Fórum da Mulher Vereadora realizado em São Luís (MA).

O encontro debateu vários temas, entre eles a representatividade e empoderamento feminino. 

Eliziane Gama parabenizou a organização do evento e destacou a importância do engajamento das mulheres para debater o tema. Ela falou ainda sobre a importância da defesa do fundo eleitoral para as mulheres como forma de incentivo.

“Temos que trabalhar para ter mais mulheres na política. Precisamos incentivar que essas mulheres continuem na luta para que ocupem os espaços, pois ainda somos muito poucas”, disse a senadora durante o encontro.

Debate no TRE

Eliziane Gama também participou no começo da semana passada de evento realizado no plenário do TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Maranhão que reuniu mulheres para discutir sobre a atuação delas na política.

O debate foi promovido pela comissão estadual da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica presidida pela advogada Valéria Lauande e que tem a juíza Sônia Amaral como vice-presidente.

O evento contou com a presença do desembargador Cleones Cunha, presidente do TRE, que ressaltou que a presença da mulher na política precisa ser levada muito a sério, já que elas são metade do eleitorado no Maranhão.

A senadora Eliziane Gama, uma das debatedoras convidadas, agradeceu ao desembargador Cleones Cunha pela oportunidade do debate. Ela enalteceu a importância da conscientização do papel da mulher na sociedade brasileira e disse que debates como esse precisam ser levados para os bairros e as cidades do interior do Maranhão.

A senadora agradeceu à magistratura pelo peso de responsabilidade social e respeito que tem na sociedade, principalmente porque quando fomenta um tema tem uma repercussão diferenciada no resultado.

“Precisamos encontrar mecanismos para melhorar a participação da mulher na política nem que inicialmente sejam eles, por meio de cotas. Por razões diversas, temos que superar várias adversidades, sejam elas culturais, sociais, acesso ao mercado de trabalho etc”, destacou a parlamentar.

‘Retrocesso na democracia já ocorreu. O risco é que piore’, diz ex-presidente do BC

Arminio Fraga: ‘Retrocesso na democracia já ocorreu. O risco é que piore’

Instabilidade política abala a confiança e afeta a economia, alerta o ex-presidente do BC. Ele avalia que o Brasil vive crise de valores e diz que as ‘instituições têm sido severamente testadas’

Luciana Rodrigues e Cássia Almeida – O Globo

A instabilidade política abala as instituições e já afeta a economia, afirma Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio da Gávea Investimentos. Ele vê, nas ações do governo e nas declarações do presidente Jair Bolsonaro , um retrocesso na democracia, em seu sentido mais amplo, que dificulta a retomada da confiança e dos investimentos. Arminio alerta para pressões contra o combate à corrupção e avalia que o país vive uma crise maior, de valores da sociedade, com efeitos inevitáveis para a economia.

— Cria um ambiente que não inspira o gasto e o investimento.

Havia uma avaliação de que a agenda liberal poderia blindar a economia de ruídos políticos. O senhor acha isso possível?

Não. A política sempre afeta a economia, diretamente através das expectativas e indiretamente através de fatores que, à primeira vista, não parecem ser econômicos, mas que, na prática, são. Por exemplo: o tema da Amazônia está nas manchetes do mundo inteiro. A maneira como o assunto vem sendo conduzido (pelo governo) desde seu início afeta decisões em outras áreas. As pessoas param para pensar. Será que o que nós estamos vendo no meio ambiente e na educação vai se repetir em outras áreas? É claro que é possível. Está tudo muito imbricado com a questão maior do investimento, da confiança, até mesmo do gasto das pessoas, que ficam com medo. Além disso, o Brasil segue com um desemprego muito alto, muita gente vai ficando para trás e o ambiente de negócios fica prejudicado. Muita gente elogia a economia publicamente, mas não investe.

O senhor citou educação e meio ambiente, mas houve um acirramento no tom das declarações do presidente. Isso afeta o clima de negócios?

Sim, claro, deveria ter mencionado antes dos outros. O presidente é quem dá o tom, e ele tem feito mudanças na sua equipe que reforçam o seu estilo, muitas para um governo tão novo. É claro que a direção do governo vem de cima.

Como vê o funcionamento das instituições? Elas podem afetar a economia?

Com certeza. Sobre o Executivo já falamos. O Judiciário tem tido enorme protagonismo recentemente com a Lava-Jato, que representou uma grande novidade para o Brasil, e que hoje volta à cena mais fragilizada. Parece que está se firmando a opinião de que, infelizmente, houve exageros. O Supremo, que no caso do mensalão agiu de maneira rápida e coerente, de uns tempos para cá vem tomando mais decisões de forma monocrática, e as coisas têm sido mais erráticas, ou não têm andado. Quando se desce para as instituições menores, mas que têm enorme importância, o quadro complicado se mantém. Por exemplo, as agências regulatórias. O bom funcionamento da economia depende do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que está com um número grande de conselheiros a nomear. Alguns tinham sido indicações dos Ministérios da Economia e da Justiça. Do além, essas indicações foram revogadas. Pegou mal para os ministérios e deu um sinal paralisante e velho. Cria um ambiente que não inspira o gasto e o investimento.

As instituições estão abaladas pela instabilidade política?

Olhando o Brasil como um todo, tudo indica que o Mensalão e a Lava-Jato foram pontas de iceberg. Deve ter muito mais coisa por aí, nas esferas inferiores de governo, infelizmente um cacoete generalizado. As tensões aumentaram, com grupos claramente procurando atrapalhar o funcionamento da Lava-Jato. Mais recentemente, questões ligadas à família do presidente criaram uma “aliança” surpreendente contra as investigações, contraditória em relação ao que se viu na campanha. As instituições têm sido severamente testadas.

Como avalia as consequências desse quadro?

O quadro geral inspira cuidados. Estamos olhando não apenas instituições, mas valores. Essa questão está presente desde a campanha, e diz respeito a preconceitos os mais variados, de questões raciais à misoginia e ao obscurantismo. Esse clima afeta as decisões das empresas e das pessoas, e representa um retrocesso no desenho de país que temos que construir. Há no ar também uma certa forma truculenta de agir. O aparelho de Estado não pode ser pressionado ou usado para ameaçar pessoas. As discussões públicas precisam ser civilizadas e substantivas.

A sociedade brasileira está reagindo a esse retrocesso?

Vejo a sociedade civil se mobilizando, e isso num momento econômico dificílimo. O terceiro setor vem se posicionando com firmeza, e a imprensa livre é crucial nesse momento. Essa é a principal arma de defesa, a liberdade de expressão, de grupos se organizarem, se posicionarem, e isso nós ainda temos. Não tem sido suficiente, mas ainda temos isso. Espero que em algum momento essa maré vire.

Vê algum risco de retrocesso na nossa democracia?

Não há risco algum, há certeza: o retrocesso já aconteceu. O risco é que piore mais ainda. Sempre há esse risco. Isso é o que se vê no mundo afora. Existem dois aspectos do que vem acontecendo no planeta que são muito negativos para o Brasil. Do lado econômico, o mundo parece estar no fim de um ciclo de crescimento, com algum risco de recessão já visível a olho nu em várias regiões importantes enquanto nós, por outro lado, ainda estamos tentando sair do fundo do poço. O segundo ponto é político. O que se vê é uma proliferação de regimes onde as pessoas votam, mas que não são verdadeiramente democráticos. São com frequência populistas, autoritários, inimigos das instituições, inimigos da liberdade. E mais, com frequência descambam para o nacionalismo, que não deve ser confundido com patriotismo e outros sentimentos que podem ser bons.

O senhor mencionou o nacionalismo, surgiu um novo tema durante a crise das queimadas que é a soberania, depois que o presidente francês Emmanuel Macron introduziu a questão da internacionalização da Amazônia. Como vê este debate?

Essa coisa da soberania é sempre um fantasma. Não vejo nossa soberania ameaçada, nem acho que vai haver uma invasão, que vão tomar a Amazônia. Isso é meio uma desculpa. Ameaçado está o planeta, e nós mesmos, se a Amazônia não for preservada. Se tem gente querendo nos ajudar, que se decida, ou sim ou não, dentro do que for do nosso interesse nacional. Acho que é natural que outros países queiram influenciar esse debate, matéria de primeira página de jornais do mundo inteiro. Essa é uma discussão quase infantil (sobre soberania). Se outros países fizeram bobagem no passado, não quer dizer que nós devamos fazer o mesmo agora. Eu penso que o Brasil, do tamanho que tem, com a população que tem, com a tendência demográfica atual, o Brasil cabe muito bem no seu espaço. É do nosso interesse preservar a Amazônia, acabar totalmente com o desmatamento, eu até defenderia o reflorestamento. É totalmente do nosso interesse ter um papel de liderança nesse processo. O Brasil poderia dar o exemplo para outros países, e assim acumularia um capital político enorme pelo mundo afora. Como em quase tudo, a minha preocupação é com o que está acontecendo aqui dentro, que sinais nós estamos dando a nós mesmos em relação ao futuro da Amazônia. E eu iria mais além, em relação a temas ambientais que têm a ver com a qualidade de vida nossa, do nosso povo, é o ar que nós respiramos, a água que bebemos, a comida que comemos, tudo isso. Para não falar em saneamento, que segue um antigo escândalo aqui no Brasil.

Uma piora na imagem do Brasil pode dificultar a atração de investimentos?

O Brasil segue sendo um captador de investimentos pela sua escala. Do ponto de vista estratégico, é difícil imaginar grandes empresas do mundo não tendo uma presença aqui. Ocorre que o investimento estrangeiro é pequeno perto do local. Portanto, a minha preocupação maior é conosco, aqui dentro, pois o investimento de nós mesmos no nosso próprio país anda muito baixo, tanto o privado quanto o público. O privado por razões de confiança. E o público porque o governo quebrou. O investimento público no Brasil está próximo a 1% do PIB, enquanto no passado estava em 5%. O governo vem trabalhando em algumas frentes de reformas na área econômica, que são positivas, mas esse quadro geral ainda não permite que se destrave um processo (de retomada dos investimentos e do crescimento à altura do que em tese seria possível.

Havia a expectativa de que, com a reforma da Previdência, o clima ficaria favorável a investimentos. Agora, qual deve ser a reforma prioritária?

A reforma tributária já está em discussão e é prioritária. A grande área de reforma do Estado, reforma administrativa e liberdade econômica é também prioritária. Mas outras áreas precisam melhorar, e muito. É fundamental tratar da nossa imensa desigualdade. E não é uma questão “apenas” de cunho social, como se isso não bastasse, mas vai além. Um trabalho mais profundo nesta área teria consequências positivas para o crescimento. Primeiro, porque é algo que, se não tratado, vai continuar a polarizar o nosso país, vai nos fazer vítimas fáceis de populismo e, portanto, tem um impacto indireto gravíssimo sobre a capacidade de o Brasil melhorar. Há também no campo da igualdade de oportunidades, que não existe no Brasil, um espaço enorme para investir. O Brasil precisa obedecer ao comando constitucional de ter saúde de qualidade para todos. A educação, além de ser o instrumento mais clássico de uma agenda de igualdade, contribui para aumentar a produtividade e o crescimento. Mas essa agenda da desigualdade anda largada. Não vejo como prioridade clara deste governo. De vez em quando alguém solta alguma ideia, fala alguma medida, mas são pontuais num quadro geral bastante deficiente.

O senhor pensa em ampliar sua participação na política?

Eu não penso em ter uma participação direta na política, eleitoral, isso está fora dos meus planos. Mas me mantenho ativo, me dedicando a estudos e a conversas com muitos. Continuo aberto a conversas, com Luciano Huck, com o ex-governador Paulo Hartung (do Espírito Santo) e vários outros. Tem muita gente mobilizada, muitos movimentos importantes com os quais me identifico, como Renova, Agora, Livres, Acredito e outros. Essa é a hora de se debater os grandes temas, em busca de convergências.

 

Luiz Carlos Azedo: Romantismo, ciência e fé

Nas entrelinhas

“Diante da revolução tecnológica global, a subordinação da ciência à religião e da razão à fé não tem a menor chance de dar certo”

O romantismo não foi apenas um movimento artístico e cultural, cujos grandes expoentes foram o espanhol Francisco Goya e o francês Eugène Delacroix, na pintura, o inglês Lord Byron e o alemão Johann Wolfgang von Goethe, na literatura. Foi também um movimento político e filosófico, que surgiu na Europa em meados do século 18 e durou quase todo o século 19. Caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao Iluminismo, marcadamente nacionalista, que viria a ter um papel importante na consolidação dos estados nacionais, inclusive no Brasil. O romantismo valoriza o individualismo, a criatividade e a imaginação popular, a inspiração fugaz e a fé para remover os obstáculos da vida.

O teólogo alemão Friedrich Schleiermacher, professor da Universidade de Berlim, bebeu das águas do romantismo na virada do século 18 para 19. Ao morrer, em 1934, deixou duas obras radicais sobre teologia — Sobre a religião e A fé cristã – e uma nova doutrina, o liberalismo teológico, que teve grande influência na Europa e nos Estados Unidos. Seu esforço intelectual foi voltado para dar uma resposta à Teoria da Evolução de Charles Darwin, que, ao publicar sua obra-prima, A origem das espécies, gerou a grande tensão entre a visão conservadora da Bíblia e a ciência que permanece até hoje. Essa tensão era preexistente, remonta à teoria do astrônomo polonês Copérnico, publicada em 1543, na qual já afirmava que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário, embora haja quem ainda acredite que a Terra é plana.

Durante certo período da Idade Média, a convivência pacífica entre a ciência e a religião foi estimulada pela Igreja Católica, sob inspiração de Tomás de Aquino, para quem uma compreensão maior da Criação levaria ao entendimento melhor do Criador. Entretanto, quando cientistas e teólogos começaram a chegar a conclusões diferentes, o confronto se instalou, como aconteceu, por exemplo, em relação ao cálculo infinitesimal estudado pelos monges católicos, que abalava os fundamentos da geometria aristotélica. No fim do século 18, com o avanço da ciência e do Iluminismo, os teólogos foram em busca de novas explicações para os fenômenos que preservassem a coexistência entre a religião e a ciência, a razão e a fé, para evitar que o cristianismo fosse ultrapassado pelo materialismo.

O pulo do gato de Schleiermacher foi equiparar a crença aos sentimentos, seguindo a trilha do romantismo, que colocava a emoção acima da razão, em vez de utilizar os mesmos critérios do conhecimento científico, equiparando experimentação e “revelação”, para provar a verdade do cristianismo. A ciência usa a razão humana para descobrir as coisas do mundo e explicar como ele existe; a Bíblia registra a experiência religiosa de seus autores, explica por que o mundo existe como ele é. Como e porque são perguntas complementares, logo, na visão do teólogo alemão, o avanço da ciência não invalidava a Bíblia.

Reino de Deus

Schleiermacher redefiniu a natureza da religião, estabelecendo três níveis para a vida humana: o conhecimento, a ação e o sentimento. Dessa forma, a ciência pertence ao conhecimento, a ação à ética e o sentimento, à religião. “Deus existe” é um sentimento que depende de algo maior do que nós mesmos, não precisa de comprovação. Essa visão foi batizada como “liberalismo protestante”, mas acabou sendo muito contestada por teólogos neo-ortodoxos, porque afastava a autoridade religiosa do âmbito público, já que sentimentos são atributos pessoais. Qual seria o lugar do Reino de Deus?

Por essa razão, o teólogo suíço Karl Barth, na sua Carta aos Romanos, no começo do século 20, criticou duramente Schleiermacher por sua indiferença às necessidades do mundo externo. Os fatos corroboraram os riscos desse alheamento: o liberalismo protestante foi acusado de omissão diante do nazismo, do genocídio, da corrida nuclear e do armamentismo. Na sequência do debate, a polêmica avançou para discussão se Deus existe fora dos limites do tempo, ou seja, se é capaz de prever o futuro. A teologia tradicional lhe atribui onisciência (ou seja, total conhecimento do passado, do presente e do futuro), mas teólogos modernos questionam esse entendimento de que o futuro a Deus pertence. Nesse caso, a presciência comprometeria a bondade divina, pois Deus nada faz para evitar o mal. Se assim fosse, argumentam, de nada adiantaria rezar. Quando o futuro é aberto, a reza funciona como ferramenta da mudança, uma construção humana.

Esse debate parece apartado da nossa política, mas não é, quando nada porque o governo Bolsonaro é “terrivelmente evangélico”. Não apenas no bordão “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, que adota desde a campanha eleitoral. Em suas decisões, predominam a emoção, a intuição, as ideias preconcebidas, os preconceitos e a fé, em detrimento da razão, da experiência vivida, dos indicadores estatísticos e das pesquisas científicas que, na gestão democrática e moderna, fundamentam as políticas públicas. Diante da revolução tecnológica global, a subordinação da ciência à religião e da razão à fé não tem a menor chance de dar certo.“Eppur si mueve!”, esse é o dilema teológico desde o julgamento de Galileu Galilei pela Inquisição Católica. (Correio Braziliense – 04/08/19)

Luiz Carlos Azedo: Eixo na política

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

O governo anunciou, ontem, mudanças nas regras para saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) com objetivo de aquecer a economia com estímulos ao consumo popular. Os trabalhadores poderão sacar até R$ 500 de cada conta que possuírem no FGTS, ativa ou inativa (do emprego atual ou dos anteriores), a partir de setembro. A previsão é de um impacto de R$ 42 bilhões na economia até 2020. Anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro, a medida é uma tentativa de construir um cenário econômico mais otimista para o mercado, uma vez que as projeções de crescimento do PIB para este ano estão abaixo de 1%. Mira também uma parcela da população na qual crescia a insatisfação com o governo federal.

O mercado recebeu a medida com cautela, muitos avaliam que mais da metade dos recursos a serem liberados serão utilizados pelos trabalhadores para pagar dívidas. Segundo a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), 37% dos consumidores que estão com contas atrasadas devem menos que R$ 500, o valor liberado pelo governo para cada trabalhador este ano. O presidente da entidade, José César da Costa, diz que “os saques devem atender às necessidades de quem mais sofre neste momento, os cidadãos das classes C, D e E, que estão há muito tempo sem liquidez”.

As projeções do mercado financeiro para o crescimento deste ano são de 0,8%. Caso haja realmente melhora no ambiente econômico a partir de setembro, os mais otimistas fazem uma previsão de crescimento do PIB de 1,7 a 1,9% em 2020. “É um impacto de curto prazo, que não muda a trajetória de crescimento, apenas estimula transitoriamente a economia. A gente não vai ver empresário contratar e aumentar planta por causa de um impulso temporário. É uma medida de curto prazo para elevar temporariamente a demanda e não a capacidade produtiva”, segundo a economista Zeina Latif, da XP Investimentos.

Começa a cair a ficha de que a reforma da Previdência não é uma varinha de condão, que num passe de mágica resolverá os problemas da economia, como se dizia no começo do ano. Mesmo a venda de ativos das estatais, como o controle acionário da BR Distribuidora pela Petrobras, na terça-feira, que sinaliza um avanço efetivo na política de privatizações, não está sendo suficiente para motivar os investidores. Na verdade, a aprovação da reforma da Previdência pela Câmara em primeiro turno não foi capaz de alterar a percepção do mercado sobre o ambiente econômico; deixar a segunda votação para agosto frustrou expectativas e gerou uma grande interrogação em relação à capacidade de o presidente da República liderar as reformas.

O problema é comportamento dispersivo e radicalizante do presidente da República, cuja agenda é focada na questão dos costumes e nas disputas ideológicas com a oposição, ou seja, está descolada das medidas estruturantes da economia. A estratégia de exacerbação de tensões com a oposição e a sociedade civil é vista como um complicador para aprovação da reforma da Previdência em segunda votação na Câmara. Essa dificuldade política é agravada pelas contradições internas do próprio governo, que funciona como um arquipélago, com redutos corporativos, núcleos ideológicos e religiosos e centro de excelência insatisfeitos, com é o caso do Itamaraty e órgãos como Inpe, Fiocruz e IBGE. A percepção do mercado é de que o problema político está instalado no governo e não no Congresso, como seria o normal, mas acabará se refletindo no Parlamento. O eixo da estagnação econômica é mais político do que fiscal, pois há um ambiente favorável à aprovação das reformas.

Hackers

A Operação Spoofing, autorizada pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Criminal, investiga supostas ligações de quatro hackers presos pela Polícia Federal com a invasão dos celulares do ministro da Justiça, Sérgio Moro, e outras autoridades para obter mensagens privadas trocadas pelo Telegram. Spoofing é o termo em inglês que define a “falsificação tecnológica que procura enganar uma rede ou uma pessoa fazendo-a acreditar que a fonte de uma informação é confiável quando, na realidade, não é”. As investigações realizadas pela Polícia Federal concluíram que os supostos hackers tiveram acesso ao código enviado pelos servidores do aplicativo Telegram ao celular de Moro para abrir a versão do aplicativo no navegador.

O site Intercept Brasil, que divulgou as mensagens trocadas por Moro e procuradores da Lava-Jato, classificou de precipitadas as conclusões de que teria ligação com os hackers, mas essa é a linha de investigação da Polícia Federal. Veja e Folha de S. Paulo, que também divulgaram as mensagens, reiteraram a convicção de que as mensagens são autênticas, com a ressalva de que receberam o material do jornalista Glenn Greenwald, responsável pelo site, que diz ter recebido as informações de fonte anônima. A Constituição garante à imprensa o sigilo da fonte, mas considera a invasão de celulares um crime cibernético. O caso ainda vai longe. (Correio Braziliense – 25/07/2019)

Alessandro Vieira: Precisamos de novas formas de representação política

O absoluto desencanto dos brasileiros com a sua representação política, que explodiu nos atos de rua em 2013, lançou sementes em diversas direções e seus frutos continuaram em expansão ao longo dos anos, fenômeno que, somado a um quadro agudo de crise econômica e moral, resultou em 2018 na maior renovação da história no Congresso Nacional.

Alguns dos frutos mais visíveis nesse processo são os movimentos de renovação, como MBL, Agora, Acredito, Livres, Bancada Ativista e Brasil 200. Todos eles, cada um ao seu modo, defendem a ocupação do espaço de representação política por pessoas que estão fora do esquema tradicional da política partidária.

Por conta do sistema eleitoral brasileiro, absolutamente engessado e arcaico, a participação no processo demandou o ingresso individual em partidos políticos, o que gerou um previsível potencial de atrito entre cúpulas partidárias que não demonstram o menor interesse na renovação política e parlamentares que representam diretamente este anseio popular.

Há partidos que abraçam com clareza os movimentos de renovação, caso do Cidadania23, que incluiu no próprio Diretório Nacional integrantes dos movimentos Agora, Livres e Acredito, e que está reconstruindo seu estatuto para incorporar a forma fluida de uma democracia mais aberta e participativa.

Outros, por outro lado, como PDT e PSB, preferem virar as costas para a renovação, chegando ao extremo de vetar novos ingressos de cidadãos vinculados aos movimentos, renegar cartas formais de compromisso mutuamente assinadas e ameaçar com expulsão supostos dissidentes.

Não surpreende, ainda que seja lamentável, a postura anacrônica desses partidos, comandados no velho estilo cartorial. Mas surpreende a postura do presidente do partido Novo, que não só endossou as reprimendas como ditou o que ele entende ser o único caminho: criar um novo partido político para cada posicionamento ou forma de pensar e seguir rigidamente as regras que o Novo adota.

Com todo o respeito, parece-me manifestação evidente de incompreensão do que nosso momento histórico exige. Não precisamos de novos partidos ou de novos caciques ditando regras. Precisamos de novas formas de exercer a representação política, cada vez mais próxima da sociedade, mais transparente e mais aberta ao diálogo com a diversidade de pensamentos e comportamentos existentes.

Precisamos de democracia real, participativa e viva. (O Estado de S. Paulo – 24/07/2019)

ALESSANDRO VIEIRA, SENADOR DA REPÚBLICA (CIDADANIA-SE) E INTEGRANTE DO MOVIMENTO ACREDITO