Pedro Hallal: A impunidade é o problema

A coluna de hoje utiliza, apenas a título de exemplo, um fato ocorrido nos últimos dias: o Ministério da Saúde publicou um documento oficial afirmando que há evidências científicas em favor da cloroquina contra Covid-19 e que não há evidências científicas em favor da vacina contra Covid-19. Ressalto que o caso serve apenas como exemplo, porque no meio científico, não há qualquer dúvida que são duas mentiras. Por essa razão, não vou gastar espaço da coluna repetindo para os leitores que cloroquina não ajuda em nada contra Covid-19 e que a vacina já salvou milhões de vida ao redor do mundo.

A coluna de hoje é sobre as razões pelas quais essas mentiras foram incluídas no documento.

Rios de dinheiro público foram usados para produzir cloroquina. Isso mesmo: os impostos que foram recolhidos como resultado do seu suor, do meu suor, foram usados para produzir um medicamento que não serve para nada no combate ao coronavírus. Se esse mesmo dinheiro tivesse sido usado para distribuir máscaras para a população carente, para comprar testes e criar uma política decente de testagem, ou para pagar mais aos profissionais de saúde que estão na linha de frente, alguns dos seus familiares e amigos que perderam a vida para a Covid-19 ainda estariam aqui conosco.

O presidente é o grande líder do movimento anti-vacina no Brasil, desde os primeiros meses da pandemia. Foi o presidente que chamou as vacinas de experimentais, discriminou a vacina produzida pela Butantan, insinuou que os vacinados poderiam virar jacarés, atrasou a compra de vacinas e agora posicionou-se contra a vacinação de crianças.

Em ambos os casos, o governo federal escolheu o lado errado e perdeu. Com poucos meses de pandemia, os estudos experimentais já confirmaram que a cloroquina não serve para nada no tratamento da Covid-19. A seguir, centenas de estudos confirmaram que as vacinas, desenvolvidas em tempo recorde, reduzem infecções, hospitalizações e mortes.

Ainda havia uma saída menos vexatória para o governo. Nunca mais falar em cloroquina e se aproveitar da cultura vacinal do país para tentar assumir parte dos méritos pelo sucesso da campanha de vacinação.

Mas o governo resolveu dobrar a aposta, seguir mentindo sobre cloroquina e seguir contrário à vacinação.

Isso só acontece pela certeza da impunidade.

Em qualquer país sério, o documento oficial publicado pelo Ministério da Saúde na semana passada geraria pelo menos uma dezena de demissões e, depois de uma investigação, algumas prisões.

É pela certeza de que nada disso vai acontecer que o Ministério da Saúde tem a coragem de publicar aquela tabela.

É pela certeza de que nós, brasileiros e brasileiras pagadores de impostos, já estamos tão acostumados com corrupção e crimes cometidos diariamente por nossos representantes, que não colocaremos a pressão necessária para que as instituições façam a sua parte.

É pela certeza de que as instituições, ou estão corrompidas, ou estão cansadas de investigarem os crimes e serem desmoralizadas por decisões políticas posteriores.

Enquanto o Brasil não colocar na cadeia os responsáveis pelos experimentos macabros com medicamentos descobertos na CPI da Covid-19…

Enquanto o Brasil não colocar na cadeia os empresários e políticos que negociaram propina na compra de vacinas e modificaram a legislação para viabilizar a corrupção…

Enquanto o Brasil não colocar na cadeia quem, ao negar à ciência, é responsável por milhares de mortes por Covid-19…

Seguiremos vendo bizarrices como o tal documento do Ministério da Saúde.

A impunidade gera uma sensação de invencibilidade nos criminosos. (Folha de S. Paulo – 25/01/2022)

Pedro Hallal, epidemiologista, professor da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do Epicovid-19, o maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil

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