Cidadania repudia apoio de Bolsonaro a manifestação antidemocrática

O presidente do Cidadania, Roberto Freire, e os líderes no Senado Federal, Eliziane Gama (MA), e na Câmara dos Deputados, Arnaldo Jardim (SP), divulgaram nota conjunta (veja abaixo), nesta quarta-feira (26), criticando Jair Bolsonaro por endossar vídeo que chama a sociedade brasileira para manifestação em defesa do presidente da República e contra as instituições democráticas, como o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal (veja aqui).

No documento, os dirigentes salientam que Bolsonaro atenta contra a liturgia do cargo que ocupa, além de sua atitude ser uma clara afronta contra a democracia brasileira. O Cidadania também expressa defensa incondicional da Constituição, da democracia e da liberdade.

EM DEFESA DA CONSTITUIÇÃO E DA DEMOCRACIA

Mais uma vez, o presidente Jair Bolsonaro atenta contra a Constituição e afronta as instituições democráticas, além da própria liturgia do cargo. Seu endosso às manifestações convocadas para o dia 15 de março, cujos organizadores defendem o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), ainda que por meio de redes privadas de WhatsApp, é inaceitável e merece o repúdio de todos os democratas e das nossas instituições republicanas. Trata-se de ato claramente antidemocrático, de setores de extrema direita que abertamente defendem a instauração de um regime autocrático no país.

O Cidadania soma-se àqueles que defendem a democracia e não aceitam rupturas da ordem institucional vigente a partir da Constituição de 1988. O Estado de direito democrático é uma conquista civilizatória de nosso povo e garante a todos os brasileiros, independentemente de suas diferenças étnicas, políticas, ideológicas e religiosas, a plena representação política no Congresso e o exercício livre dos seus respectivos direitos civis. Defender a democracia é um dever dos cidadãos, dos partidos, das instituições e dos Poderes, inclusive a Presidência da República.

Nesse sentindo, saudamos a pronta reação da sociedade civil e de nossas instituições – tão forte que inclusive, provocou desde logo, um certo recuo do Planalto – ao inaceitável gesto de Bolsonaro, que vem revelando reiterada falta de compromisso com a democracia, ainda que tenha jurado defendê-la ao tomar posse no cargo de presidente da República.

A unidade alcançada pelas forças democráticas da sociedade e especialmente pela altivez das nossas instituições republicanas — só foi possível pela defesa da Constituição, da Democracia e da Liberdade.

E unidos na defesa da Constituição, Democracia e Liberdade devemos permanecer.

Roberto Freire Presidente do Cidadania

Eliziane Gama – Líder do Cidadania no Senado Federal

Arnaldo Jardim – Líder na Câmara dos Deputados

Roberto Freire critica vídeo compartilhado por Bolsonaro que convoca população para ‘manifestação antidemocrática’

“De suma gravidade. Mais do que crime de responsabilidade é claro atentado à democracia e à República, o apoio do presidente Bolsonaro a uma convocação de manifestação nitidamente antidemocrática. Pregação de uma quartela para fechar o Congresso e o STF”, disse o presidente do Cidadania.

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Aprovado projeto de Rubens Bueno que reconhece Jiu-Jitsu como manifestação da cultura nacional

A Comissão de Cultura da Câmara aprovou nesta quarta-feira (21) projeto (PL 422/2019) do deputado federal Rubens Bueno (Cidadania-PR) que reconhece o Jiu-Jitsu como manifestação da cultura nacional. A modalidade esportiva, que ganhou força a partir da década de 1980 graças ao trabalho realizado pela família Gracie, é hoje uma das mais praticadas no país e ganhou o mundo em competições de Artes Marciais Mistas como o UFC.

Rubens Bueno destaca que o jiu-jitsu hoje tem um papel importante na vida de crianças, adolescentes e jovens que viram no esporte uma possibilidade de projeção social e expressão de seu talento, disciplina e persistência.

“O jiu-jitsu brasileiro ainda não foi alçado à condição de esporte olímpico, mas é tal sua força e presença no país e no mundo, que podemos dizer que o mesmo, junto com o judô, vem contribuindo para enriquecer e fortalecer a autoestima e a identidade nacional brasileira no campo dos esportes”, ressaltou no projeto.

Rubens ressalta que a proposta foi inicialmente apresentada pelo ex-deputado João Derly, que como atleta brasileiro foi bicampeão mundial de judô e é praticante de jiu-jitsu.

“Reapresentamos o projeto por reconhecer que como desportista da modalidade, João Derly é testemunha da importância e da capacidade de transformação social que o jiu-jitsu pode desempenhar na vida de crianças e jovens brasileiros e na história desportiva de nosso País”. O projeto segue agora para a Comissão de Constituição e Justiça e, se aprovado, vai ao Senado.

Arte marcial

O jiu-jitsu tem sua origem vinculada ao judô, sendo um desenvolvimento e uma especialização dessa arte marcial. No Brasil, o aprimoramento e difusão deste estilo se deu graças ao trabalho de desportistas inicialmente aglutinados em torno da família Gracie. O talento, a criatividade e a autoconfiança consagrou o Gracie jiu-jitsu, ou jiu-jitsu brasileiro, como a modalidade de arte marcial que mais cresce no Brasil e no mundo. O jiu-jitsu brasileiro contribuiu de forma fundamental para as bases do MMA (Artes Marciais Mistas) e vem sendo parte do treinamento de campeões mundiais de UFC (Ultimate Fighting Championship).

Entidades promovem, nesta terça-feira, manifestação pela aprovação do projeto do censo do autista

Entidades que lutam pelos direitos das pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) promoverão, nesta terça-feira (02), em Brasília, manifestação pela aprovação do projeto (PLC 139/2018), de autoria da deputada federal Carmen Zanotto (Cidadania-SC), que determina a inclusão, nos censos demográficos, de informações específicas sobre pessoas com autismo. O evento será, a partir das 9h, em frente à Biblioteca do Senado Federal.

Participam da manifestação Comunidade Pró-Autismo, Movimento Orgulho Autista Brasil (MOAB), Associação Amigos dos Autistas-DF, Anjos Azuis, Capricha na Inclusão, entre outras.

O projeto sobre o censo do autismo estava pronto para ser votado pelo plenário do Senado, mas foi encaminhado, semana passada, para a análise da Comissão de Assuntos Sociais (CAS). O líder do governo, senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), apresentou requerimento para que o projeto seja debatido em audiência pública.

“O projeto precisa ser votado rapidamente para que os dados sobre a população autista sejam incluídos no próximo censo demográfico do IBGE”, defendeu Zanotto.

TEA

O Transtorno do Espectro Autista é uma condição resultante de uma complexa desordem no desenvolvimento cerebral. Engloba o autismo, a Síndrome de Asperger, o transtorno desintegrativo da infância e o transtorno generalizado do desenvolvimento não-especificado. Acarreta modificações na capacidade de comunicação, na interação social e no comportamento. Estima-se que 70 milhões de pessoas no mundo tenham autismo. No Brasil, os dados são imprecisos.

Greve geral: Manifestantes voltam às ruas do País

Diversas cidades brasileiras registram nesta sexta-feira (14) manifestações por mais recursos para a educação e contra as mudanças nas regras de aposentadoria. Convocada por centrais sindicais e outras entidades representativas de trabalhadores, a paralisação afeta, principalmente, o sistema de transporte público das cidades. De acordo com as centrais sindicais, estão previstos atos em mais de 300 cidades do país de 26 estados.

O Metrô de São Paulo ficou parcialmente paralisado devido a adesão dos trabalhadores à greve contra a reforma da Previdência. A Linha 1 – Azul, funcionava na manhã de hoje (14) entre as estações Luz e Saúde, deixando a zona norte da cidade descoberta pelo serviço. A Linha 3 – Vermelha operava entre as estações Marechal Deodoro e Tatuapé, deixando sem o transporte parte da zona leste e impedindo a interligação dos ônibus e trens metropolitanos na Estação Barra Funda. A Linha 2 – Verde manteve a maior cobertura, circulando entre as Clínicas e o Alto do Ipiranga. O Monotrilho, Linha 15 Prata, foi completamente paralisado.

O Metrô afirmou, por nota, que caso o serviço não seja mantido com um mínimo de 80% de operação nos horários de pico, conforme estipulado em liminar judicial, os empregados poderão sofrer sanções. “Os trabalhadores serão penalizados caso a decisão não seja respeitada. O movimento político, contra a reforma da previdência, prejudica milhões de pessoas em São Paulo”, enfatizou o comunicado.

Parte do serviço de ônibus intermunicipais que atende a região metropolitana da capital também parou. De acordo com a EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo), a greve afetou as linhas que atendem os municípios de Guarulhos, Arujá e Itaquaquecetuba, com a interrupção das atividades em sete empresas da região.

Os ônibus e a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) funcionaram normalmente. Na quarta-feira (12), a Prefeitura de São Paulo havia obtido uma liminar na Justiça para impedir a adesão dos cobradores e motoristas à greve. As linhas Lilás e Amarela do Metrô, que são operadas por empresas privadas, também funcionaram normalmente.

A cidade também enfrentou manifestações em diversos pontos. Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), os protestos interferiram na circulação das avenidas João Dias, na zona sul, na Francisco Matarazzo, na zona oeste, Dona Belmira Marin (zona sul), Santos Dummond (zona norte), Vinte e Três de Maio (centro) e no Elevado Costa e Silva, também no centro. Em alguns desses pontos foram feitas barricadas com pneus em chamas para impedir a passagem dos veículos.

Parte dos trabalhadores do sistema bancário também aderiu à paralisação. Com isso, agências em diversas partes da cidade amanheceram fechadas. O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, afirma que a greve também atingiu centros administrativos do Banco do Brasil, Santander, Bradesco, Caixa Econômica e Itaú.

Curitiba

Manifestantes contrários à reforma da Previdência bloquearam totalmente os dois sentidos do Contorno Sul de Curitiba, das 7h às 9h. Outro bloqueio ocorreu na BR-476, em Araucária, nas imediações da Petrobras. Os manifestantes interromperam o trânsito na rodovia por cerca de uma hora.

Policiais rodoviários federais estiveram no dois locais para garantir a segurança dos motoristas.

Bolsonaro comenta greve

Durante um café da manhã com jornalistas, o presidente Jair Bolsonaro foi perguntado sobre a greve. O presidente disse ver o movimento como algo natural. “[Vejo] com muita naturalidade. Quando resolvi me candidatar, sabia que ia passar por isso”, disse.

Sobre reforma da Previdência, alvo das paralisações de hoje, Bolsonaro voltou a defender a importância das mudanças nas regras da aposentadoria, sem as quais os empresários não terão “segurança para investir”. (Agência Brasil)

Luiz Carlos Azedo: Aprendendo a conviver

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

Hoje é dia da grande marcha a Brasília dos partidários do presidente Jair Bolsonaro, que promete se manter ao largo da manifestação, assim como seus ministros e a maioria das lideranças políticas que o apoiam. Convocada para pressionar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), num momento de esgarçamento das relações entre os poderes, no decorrer da semana, a marcha foi sendo desarticulada e virou um duplo problema: caso seja realmente de grande envergadura, a pressão se voltará contra o recuo do presidente da República e cobrará sua participação no evento; se for um mico, sinalizará seu isolamento político e fragilidade perante o Congresso. Os dados foram lançados, mas é um jogo de perde-perde, porque uma escalada na radicalização política turva os horizontes da economia.

A oposição observa, sem capacidade de iniciativa política e temerosa de que a crise se aprofunde institucionalmente. O PT não quer nem ouvir falar em impeachment, muito menos na renúncia do presidente da República. A contradição principal dessa cena política é uma disputa entre os setores de extrema-direita umbilicalmente ligados ao clã Bolsonaro e as forças mais moderadas de centro-direita que o apoiaram no decorrer do processo eleitoral, sobretudo, no segundo turno. Esses setores têm duas âncoras: os militares, que controlam o Palácio do Planalto, e os políticos, cuja influência na Esplanada se restringe a alguns ministérios mas controlam o Congresso. Há uma certa sensação para o clã Bolsonaro e seus adeptos de que o “mito” ganhou, mas não levou. Será?

Bolsonaro governa como se estivesse numa montanha-russa, se arrasta na subida das reformas institucionais e desce vertiginosamente na agenda dos costumes. A aprovação da reforma da Previdência e outras mudanças com impacto na economia segue a reboque desses altos e baixos, que imobilizam os investidores e causam turbulências no mercado financeiro. Há todo tipo de análises sobre o comportamento do presidente da República, que emite sinais contraditórios em relação aos demais poderes, principalmente o Congresso. Faz um governo de avanços em recuos, em razão dos compromissos de campanha e das reações da sociedade civil e do mercado. Se há algum método no seu estilo de governar, é o do ensaio e erro. Às vezes parece apostar na teoria do caos, como bem disse o ex-presidente José Sarney, mas os militares que não o cercam não estão nessa, foram educados nos princípios da bandeira: ordem e progresso, ou seja, seguem o velho positivismo castrense.

Previdência

A semana passada começou com um cenário de muita instabilidade, no decorrer, o clima foi se desanuviando em razão do alto lá dos militares e do ativismo legislativo dos políticos, que aprovaram a reforma administrativa do governo com poucas modificações, deram início à própria reforma tributária e anunciaram, que vão aprovar a reforma da Previdência em 60 dias na Câmara. As decisões mais polêmicas foram a volta da Funai para o Ministério da Justiça, o que não faz muita diferença para o agronegócio, e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) para o Ministério da Economia, o que afrontou a bancada alinhada com o ministro Sérgio Moro e a força-tarefa da Operação Lava-Jato. O mais importante, porém, foi garantido: auditores-fiscais continuam com suas atuais prerrogativas.

A política como ela é funciona como o movimento dos mares: é preciso respeitar as correntes e marés para se chegar onde quer. A reforma administrativa entrará em discussão no Senado na próxima terça-feira. Se houver alguma modificação em relação às mudanças feitas pela Câmara, a medida provisória caducará e não haverá reforma administrativa. Resultado, o Palácio do Planalto trabalha para que não haja mariola no Senado e a reforma administrativa seja aprovada do jeito que chegou da Câmara.

Também não convém muita onda em relação à reforma da Previdência, que gerou expectativa no mercado e pôs o ministro da Economia, Paulo Guedes, na berlinda. Todos os indicadores são na direção da aprovação da reforma da Previdência com alterações que a torne mais palatável para os principais atingidos, a grande massa de assalariados. O problema do valor da reforma — o ministro da Economia, Paulo Guedes, faz o discurso de que ele precisa valer a economia de R$ 1 trilhão ou o país vai à breca — é o lobby das corporações que gozam de muitos privilégios, entre as quais policiais militares e civis, auditores-fiscais, procuradores e magistrados. Bolsonaro a vida inteira, foi um político corporativista. Defende, por exemplo, o regime especial dessas categorias na aposentadoria. Qual a diferença para os demais aposentados? Em tese, todos estão em casa, com direito a receber seus vencimentos sem fazer nada.

Nesse aspecto, a manifestação de hoje é uma grande incógnita. Seus participantes apoiam a reforma ou estão contra ela? Os discursos de seus líderes, faixas e cartazes traduzirão com mais exatidão seu verdadeiro caráter. Quantos são os que estão contra a reforma da Previdência e defendem privilégios? Logo saberemos. Todos têm direito a se manifestar livremente; o contraditório e o direito ao dissenso são pilares da democracia. Na verdade, estamos numa situação que pode ser comparada a um copo pela metade. Para uns, está quase vazio, e, para outros, está quase cheio. Pode ser que esse processo resulte em mais autonomia entre os poderes da República, o que é muito bom, desde que cada um respeite as prerrogativas do outro poder. O Congresso também precisa aprender a conviver com o governo Bolsonaro. (Correio Braziliense – 26/05/2019)

Reinaldo Azevedo: Qual é o tamanho do exército golpista?

Não é preciso esforço para ver as digitais do presidente na convocatória dos protestos

Há apenas um aspecto positivo nas manifestações marcadas para este domingo. Vai dar para saber o tamanho do exército de Bolsonaro para dar continuidade ao trabalho de assalto às instituições, que começou, a rigor, ainda antes da posse, quando Sergio Moro aceitou o convite para ser ministro da Justiça. A vaidade do doutor vendeu apauta da moralidade, já eivada por agressões à ordem legal, ao consórcio de extremistas que se alinhou com o presidente.

Setores da imprensa passaram a operar no “modo negação” fazendo um esforço danado para tentar dar uma lavada na pauta: “Ah, agora os manifestantes vão defender a reforma da Previdência e o pacote anticrime de Moro (sempre ele…)”. Papo-furado no que anima as convocações é a pregação para fechar o Congresso e o Supremo.

Imagens dos membros do tribunal e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ilustram os ataques mais estúpidos à ordem legal e às instituições. Acho particularmente encantadora a turma que prega a aplicação do artigo 142 da Constituição — que, salvo engano, está em aplicação. Explico.

Lê-se no caput do referido artigo: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, á garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Observem que as tarefas atribuídas às Forças Armadas não são alternativas, mas cumulativas. Não se diz ali que “ou elas defendem a Pátria ou garantem os poderes constitucionais” Se a primeira atribuição é, de fato, vaga, a segunda é bastante específica. E mesmo a atuação na garantia da lei e da ordem depende da “iniciativa” dos Poderes. Isso poderia dar pano para manga, mas deixo o caso para outra hora.

Não é preciso grande esforço para encontrar as digitais do presidente da República na convocatória. A decisão de não comparecer aos protestos, embora compreenda os seus motivos!, só reforça a autoria daquele que já confessou não ter nascido para ser presidente da República.

Quando fez tal afirmação, não exercia nem mesmo a humildade decorosa. O que pretendia era reforçar a fábula de que cumpre uma missão, atribuída, segundo vídeo que ele mesmo divulgou, pelo próprio Deus. É, por si, espantoso? É. Mas não venham me dizer que é inesperado.

Bolsonaro tem mais três anos e sete meses de mandato.

Seus fanáticos, dentro e fora do Parlamento, vivem imersos num universo escatológico, finalista, de quem caminhasse para uma luta definitiva entre o Bem, que eles encarnariam, e o Mal, que reúne todos aqueles que não se ajoelham diante da Verdade Revelada.

Sei bem o quenos empurrou para esse milenarismo mixuruca. Emiti alertas contra essa estupidez logo depois dos primeiros arreganhos autoritários da lava Jato, ainda em 2014. No fim daquele ano, já estava claro que um novo ente de razão lutava para nascer sob o signo do combate à corrupção.

A crença finalista na moralidade da vida pública tinha como espada a agressão permanente ao Estado de Direito. Não por acaso, os valentes do força-tarefa, com Deltan Dallagnol à frente e Moro na retaguarda, identificaram o habeas corpus como o seu principal adversário — o que a ditadura só ousou fazer com o AI-5.

A quase extinção de um dos pilares de um regime democrático compunha o estandarte das “Dez Medidas Contra a Corrupção” com a qual concordou o então relator da estupidez: Onyx Lorenzoni… E estamos como estamos.

Sempre que alguém se aproxima de mim com a conversa mole de que, “se o Brasil fosse uma empresa, já teria fechado as portas” olho para o vazio em busca de um outro assunto que mude o rumo da prosa sem que passe por deseducado. Esse é um daqueles pensamentos impossíveis por-que o que há nele de afirmativo nega o próprio postulado.

O Brasil não é uma empresa. E países não fecham. O que pode lhes acontecer, a depender das escolhas feitas pela maioria ou por quem pode se impor à maioria, é piorar sempre. Qual é o limite? Não há limite.

Interesso-me pouco por aquilo que produzirão neste domingo os templários do golpismo. Suas intenções, assim como as de Bolsonaro, inspirador da patuscada, são claras. A resposta dos outros dois Poderes é que vai nos dizer os riscos que corremos. (Folha de S. Paulo – 24/05/2019)

Reinaldo Azevedo, jornalista, autor de “O País dos Petralhas”

Monica De Bolle: Perdas

Quem já perdeu, sabe. Um amigo ou amiga, um parente, um companheiro ou companheira. Perder algo precioso é muito difícil, há o luto e seus estágios. A negação, a indignação, a barganha, a depressão, a aceitação. É preciso chegar na aceitação para que se possa seguir em frente. Caso contrário, vive-se a perda, continuamente — um ciclo vicioso que leva a lugar nenhum. Diferentes segmentos da população brasileira vivem a perda pós-eleições e sofrem estágios de luto distintos nesse momento. Há os que negam o que as urnas nos entregou: um presidente despreparado, sem qualquer visão para o País, sem ideias para governar, sem saber o que fazer com o Congresso e com as instituições.

Um presidente que espalha factoides por meio de sua máquina de propaganda preferida — o WhatsApp — e conclama manifestações em seu favor, contra os moinhos que movem a democracia meio capenga que ainda temos. Um presidente que, ao convocar tais manifestações, ofende os que foram às ruas protestar pacificamente contra o atraso de suas políticas educacionais e suas guerras ideológicas para lá de bizarras. Os que ainda negam haver um governo fracassado no País com apenas cinco meses de duração terão de atravessar todos os demais estágios do luto. Será duro. Há os que já passaram do estágio da negação para o da indignação.

Esse é grupo diverso, com ex-apoiadores desiludidos com a incompetência do bolsonarismo. A economia que não cresce, o desemprego que não dá alento, a desigualdade que voltou a aumentar no País. Com ela, a informalidade e o desalento de dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras. Há, também, os indignados com a farsa de um governo repleto de idiotas — idiotas inúteis, no caso, mas muito ativos. Os idiotas ativos são o tipo mais perigoso que há, pois muita destruição e retrocesso podem causar. Há os que estão no estágio da negociação. “Se ao menos eles conseguirem aprovar uma reforma da Previdência, as coisas melhoram, não?”.

Para esses só posso dizer o seguinte: nada melhora sem capital humano, nada melhora de forma sustentável sem que os jovens que futuramente haverão de compor a força de trabalho no Brasil tenham as qualificações necessárias para as profundas mudanças que já estão em curso. Nos países avançados, essas mudanças têm se manifestado de forma mais gradual pois é neles que se dá a inovação, sobretudo nas áreas de tecnologia, inteligência artificial, automação dos meios de produção. Ainda assim, elas tem sido a fonte de inúmeros problemas, cuja manifestação política mais evidente é a força dos movimentos nacionalistas-populistas, o apelo da retórica fácil e errada para a solução de problemas complexos.

Em algum momento, essa realidade haverá de se impor, e aqueles que estão em processo de negociação com seu luto particular pelo País passarão para o quarto estágio, o da depressão. Alguns já chegaram lá. Alguns já perceberam que o tamanho dos problemas é de tal magnitude que não há reforma da Previdência que mude o quadro. Tampouco há reforma tributária, financeira, ou venda de ativos públicos que alcancem esse milagre. O Brasil precisa urgentemente sair da balbúrdia de todo o dia e por a cabeça para pensar. Para pensar no que virá depois de Bolsonaro, para refletir sobre as prioridades das políticas públicas.

O trabalho é duro, pois listas de desejos não bastam. É preciso saber fazer o que se quer, procurar os meios de financiar as prioridades sem pôr em risco a estabilidade macroeconômica, sem a qual nada é possível fazer. É preciso entender melhor o que mesmo garante a estabilidade macroeconômica. Dogmas antigos já caíram por terra em alguns lugares do mundo. Talvez o espaço fiscal aberto por uma reforma da Previdência seja maior do que pareça.

Superada a inevitável depressão — pois o que se perde de oportunidades, o que se desperdiça de tempo no Brasil é de fazer qualquer um sofrer profundamente o País — é necessário chegar na aceitação. Somos um País medíocre, nossos pontos de partida estão abaixo do fundo do poço. Só a partir da aceitação dessa realidade é que será possível deixar para trás o lamento das perdas e olhar para a frente com frescor. Países são para sempre, assim como a lembrança boa de pessoas queridas que perdemos no caminho. (O Estado de S. Paulo – 22/05/2019)