Roberto Freire: O Cidadania e a Primavera Negra

O Cidadania entende a decisão sobre os critérios raciais para divisão de tempo de propaganda no rádio e na televisão e do fundo eleitoral no pleito municipal deste ano como uma medida justa e estruturante. Uma decisão que muda para melhor o país. Esse passo, que ocorre em meio a uma campanha nacional e internacional denominada “Primavera Negra”, merece e terá todo o respeito e aval da nossa legenda.

Contamos com o suporte do coletivo Igualdade 23 nos esforços para que essa decisão seja cumprida e valorizada em todas as instâncias do partido. Compreendo que essa não será uma missão árdua em razão do histórico que, iniciado na fase do PCB, o partido sempre teve sobre a importância de promover a igualdade racial e combater o racismo.

Um dos núcleos pioneiros do PCB se chamava Grupo Comunista Zumbi, liderado por Astrojildo Pereira, dirigente reconhecido como um pilar, uma “alma” da legenda. Ele foi um dos primeiros intelectuais a “apontar para a grandeza épica” dos Quilombos dos Palmares, chamando Zumbi de “o nosso Spartacus negro”, como resgata o historiador Ivan Alves Filho.

O PCB contou com expoentes como Edson Carneiro e Décio de Freitas, autor de uma das mais importantes obras sobre o Quilombo de Palmares. O primeiro deputado negro do Brasil, Claudino José da Silva, eleito constituinte em 1946, era do PCB.
Outro marco que deve ser valorizado ocorreu também em 1946, quando o então deputado federal Jorge Amado, eleito pelo PCB-SP, propôs a emenda 3.218 à Constituição, aprovada e promulgada, que tratou do livre exercício da crença religiosa com foco na proteção das religiões de matriz africana. A se ressaltar que, como eu, ele era declaradamente ateu.

Nesse período em que se verificam tentativas de desconstrução da pauta e das conquistas dos movimentos negros, penso que é relevante valorizarmos esses marcos de luta e de vanguarda social e racial. Até porque nós sempre estivemos comprometidos com esses valores da cidadania afrodescendente.

Não seria diferente agora em que esse trágico assassinato ocorrido nos Estados Unidos – me refiro a George Floyd, que pereceu sob o joelho racista de um policial branco – despertou não só naquele país, mas ao redor do mundo, incluindo o Brasil, um sentimento de integração entre as populações negras, revolta contra as injustiças e de protestos por direitos há muito negados a esses cidadãos.

Todos esses levantes da assim chamada Primavera Negra integrados, em grande medida, também por cidadãos brancos e de outras etnias. O antirracismo, afinal, não pode ter cor, uma vez que o apelo que se faz é à nossa humanidade, que é plural, embora uma só.

No caso brasileiro, há um movimento que ganha força dia após dia, em todo o país, que clama por maior representatividade, sem a qual a democracia corre risco e o desenvolvimento econômico e social será permanentemente limitado. Esse resgate da cidadania ao qual nos lançamos passa, necessariamente, por uma mudança de composição nos legislativos e executivos do país afora, em sintonia com esse clamor.

A maior presença de afrodescendentes na política nacional representa, para nós do antigo PCB, um resgate e tem até mesmo uma dimensão revolucionária, embora sem armas. Uma revolução social feita com espírito republicano, por meio das regras democráticas, em linha com o que defende hoje o Cidadania. Os tempos mudam e nós mudamos com eles.

É nesse contexto que o papel do nosso coletivo Igualdade 23 torna-se ainda mais relevante. Que possa, como parte dessa Primavera Negra, levar para o centro das decisões, nas Câmaras Municipais e nas sedes de governo, as múltiplas cores do Brasil real, cooperando com a construção do Cidadania e da sociedade.

E que a diversidade, a criatividade, a inteligência e a vivência de negros e negras, que já fazem a diferença em diversas áreas, façam também na política, com um outro olhar para a construção de uma nação verdadeiramente melhor para todos.

Roberto Freire
Presidente do Cidadania

Livro de Ivan Alves Filho passa a integrar Arquivo Marxista na Internet

Obra “PCB-PPS e a Cultura Brasileira: apontamentos” foi editada pela FAP, fundação vinculada do Cidadania

O livro “PCB-PPS e a Cultura Brasileira: apontamentos”, do jornalista e historiador Ivan Alves Filho e editado pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania, foi selecionado para integrar o Arquivo Marxista na Internet, disponível em 40 idiomas e que é considerado uma ferramenta de grande importância para se pensar a modernidade.

“É fundamental estar nessa batalha das ideias em um mundo sacudido por tantas transformações, do modo de vida ao modo de produzir”, afirma o autor da obra.

Ivan diz que ficou muito feliz ao receber a notícia de que a o seu livro passaria a integrar a plataforma na internet. Foi o editor da edição em língua portuguesa, Fernando Araújo, quem comunicou o autor sobre a divulgação de sua obra no arquivo que reúne diversos autores marxistas.

“Há um predomínio grande das obras clássicas do marxismo, a começar por Marx, Engels, Lenin e Gramsci”, diz o historiador.

O autor diz que concorda com a premissa do arquivo de que existe na realidade uma pluralidade no interior do pensamento marxista, em matéria de campos de reflexão e também de experiências muito marcadas pelo mergulho dessas ideias os diferentes cenários nacionais.

“O marxismo no Ocidente é bem distinto da experiência que essa escola desenvolveu no Oriente. Mas há conexões. A Revolução Russa, ‘oriental’, revigorou o marxismo no Ocidente, por exemplo, após a crise da social-democracia”, analisa ele.

Na avaliação de Ivan, a FAP tem desenvolvido um excelente trabalho, colaborando para a produção do conhecimento.

“A FAP cumpre um papel importantíssimo no plano das ideias”, destaca o autor.

“De um lado, colocando a nossa intelectualidade em contato com que existe de mais avançado no interior do próprio marxismo, como é o caso da contribuição do italiano Antonio Gramsci. De outro, possibilitando, por intermédio de publicações como [a revista] Política Democrática, o acesso a análises de conjuntura política, com destaque, a meu juízo, para os textos de formuladores da qualidade de Luiz Werneck Vianna, Luiz Sergio Henriques e Marco Aurélio Nogueira”, observa Ivan. (Assessoria FAP)

Livro “O PCB-PPS e a cultura brasileira”, de Ivan Alves Filho, passa integrar os Arquivos Marxistas

O livro “O PCB-PPS e a cultura brasileira: apontamentos”, do historiador Ivan Alves Filho passou a integrar os Arquivos Marxistas na Internet (veja aqui), publicação que alcança o mundo inteiro e é divulgada em cerca de 40 idiomas. A obra foi editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania.

O autor tem contribuições na área do cinema e do jornalismo, além de várias obras históricas. É autor de Memorial dos Palmares, História pré-colonial do Brasil, Giocondo Dias: Uma Vida na Clandestinidade, Brasil, 500 anos em documentos, História dos Estados Brasileiros, Cozinha brasileira com recheio de história, Velho Chico Mineiro: diário de uma viagem às cidades barranqueiras do Rio São Francisco, A pintura como conto de fadas: Aparecida Azedo e O historiador e o tapeceiro.