A profissão do brasileiro é mesmo a esperança

NAS ENTRELINHAS

Na pesquisa sobre governo Lula, 40% dos entrevistados acreditam que a situação econômica do país vai melhorar, ante 28% que preveem piora

O musical “Brasileiro, profissão: esperança” foi uma lufada de ar fresco no ambiente carregado dos anos de chumbo do regime militar. Desde então, o espetáculo criado por Paulo Pontes, talentoso e jovem dramaturgo, foi encenado várias vezes, em versões com Maria Bethânia e Ítalo Rossi (1971), Clara Nunes e Paulo Gracindo (1973) e Bibi Ferreira, viúva de Paulo Pontes, e Gracindo Jr (1998). A mais recente foi a de Claudia Netto e Claudio Botelho, no Teatro Clara Nunes, em 2021, ao comemorar os 50 anos do espetáculo.

O texto de Paulo Pontes e as canções de Dolores Duran e Antônio Maria resgataram um Brasil que parecia definitivamente perdido nos anos 1970, incerto e inseguro, mas cheio de esperança ao mesmo tempo. O espetáculo revelou um aspecto, digamos, antropológico da vida do brasileiro, cuja recidiva ocorre com frequência: acreditar que a vida pode melhorar, em qualquer contexto.

Inspirado nas crônicas de Antônio Maria e canções de Dolores Duran, sua parceira, Paulo Pontes nos legou uma obra-prima da dramaturgia brasileira. Seus protagonistas morreram muito jovens: Dolores; aos 29 anos, em 1959; Maria, aos 43 anos, em 1964; Paulo Pontes, aos 36 anos, em 1976. Entretanto, o espetáculo marcou as gerações seguintes, como a de Chico Buarque, que ontem completou 80 anos, parceiro de Pontes em “Gota d’água” (1975), com música de Dori Caymmi, e autor da “Ópera do Malandro” (1978), dedicada ao amigo dramaturgo.

Quem quiser garimpar pode encontrar a gravação ao vivo da versão interpretada por Clara Nunes e Paulo Gracindo, em LP (1974) e/ou em CD (1997), com o repertório completo: “Ternura antiga” (Dolores Duran , Ribamar), “Ninguém me Ama” (Antônio Maria), “Valsa de uma cidade” (Antônio Maria, Ismael Netto), “Menino grande” (Antônio Maria), “Estrada do sol” (Tom Jobim, Dolores Duran), “A noite do meu bem” (Dolores Duran), “Manhã de carnaval” (Luiz Bonfá, Antônio Maria), “Frevo nº 2 do Recife”, “Saudade” (Antônio Maria), “Castigo” (Dolores Duran), “Fim de caso” (Dolores Duran), “Por causa de você” (Tom Jobim, Dolores Duran), “Pela rua” (Dolores Duran, Ribamar), “Canção da volta” (Antônio Maria, Ismael Netto), “Suas mãos” (Pernambuco Ayres da Costa Pessoa (Antônio Maria), “Solidão” (Dolores Duran), “Se eu morresse amanhã” (Antônio Maria), “Noite de paz” (Dolores Duran).

Era biscoito fino num momento político muito tenebroso da vida nacional. O governo do general Garrastazu Médici, cuja violenta repressão à oposição foi obscurecida pela conquista da Copa do México, em 1970, e pelo chamado “milagre econômico”, que levou a classe média à sensação de que estava no paraíso, até a conta chegar. No imaginário reacionário de ex-presidente Jair Bolsonaro, esse teria sido o melhor momento da história do Brasil.

A melancolia de Dolores Duran, porém, em “Noite de paz”, antecipou aquele momento dramático, quando pede ao Senhor uma noite comum em que possa descansar, sem esperança e sem sonho nenhum: “Por uma só noite assim posso trocar / O que eu tiver de mais puro e mais sincero / Uma só noite de paz pra não lembrar/ Que eu não devia esperar e ainda espero.”

De onde vem

Era uma situação muito, mas muito pior, do que a que vivemos no governo Bolsonaro, marcado pela pandemia. Mais ainda diante das ameaças de retrocesso em relação aos direitos sociais e políticas públicas, protagonizadas por um Congresso conservador, que parece ter perdido a noção de que representa toda a sociedade, inclusive as minorias, e não um ideário “iliberal”, no qual a maioria se impõe pela força.

A posição ambígua do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao equilíbrio fiscal ajuda a tecer o arco de oposição ao governo, que inclui parcela expressiva da classe média e a maioria do empresariado. Essa realidade aparece na pesquisa Datafolha divulgada nesta terça-feira, pelo jornal “Folha de S. Paulo”, embora a aprovação de Lula siga estável quando comparada à rodada anterior, feita em março, oscilando de 35% para 36%, enquanto a reprovação caiu de 33% para 31% e avaliação de regular foi de 30% para 31%. A avaliação é mais negativa entre os que recebem mais de dois salários-mínimos, entre os evangélicos e nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte do país.

E a tal esperança do brasileiro? Na pesquisa, 40% dos entrevistados acreditam que a situação econômica do país vai melhorar, ante 28% que preveem piora, que estão tecnicamente empatados com aqueles que dizem que a situação ficará como está. Os que não sabem são 5%. Vem das mulheres, com saldo positivo dez pontos, enquanto entre os homens é de um. Dos mais pobres, que ganham até dois salários-mínimos: 18 pontos de diferença para ruim e péssimo (entre os ricos é menos 18 pontos).

Entre as donas de casa, essa diferença positiva é de 19 pontos, o dobro da média das mulheres; entre os aposentados, 23 pontos. Lula tem 48% de ótimo e bom no Nordeste e virou a avaliação no Sul do país, onde agora tem 36% de aprovação, contra 33% de ruim e péssimo e 30 de regular, em razão da forte atuação em socorro aos gaúchos. Os mais jovens (47%), os menos escolarizados (50%) e os católicos (45%) são os mais otimistas. (Correio Braziliense – 20/06/2024)

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