Cristovam Buarque: O Brasil voltou! Para onde vamos?

‘O Brasil voltou’ ao passado, mas precisa avançar ao futuro. Mesmo saindo do presente nefasto em que estávamos, voltar é um verbo conservador

Nestes 100 primeiros dias, Lula já prestou o imenso serviço de trazer o Brasil ao passado anterior a 2019, mas é preciso que acene para o futuro, sintonizado com o mundo adiante, tanto nos riscos quanto nos imensos desafios e oportunidades que surgem para o Brasil, o promissor depositário de recursos para a economia do futuro, baseada em dois capitais: população e natureza. Não temos outra liderança com a sensibilidade, carisma e capacidade de aglutinação do Lula, portanto, não podemos desperdiçar sua presidência apenas e voltar ao passado anterior, até porque o Brasil não estava bem. “O Brasil voltou” ao passado, mas precisa do slogan “o Brasil avança ao futuro”. Mesmo saindo do presente nefasto em que estávamos, voltar é um verbo conservador.

Apenas com o propósito de um passado menos mal que o presente não vamos construir a estrutura necessária para o futuro que desejamos e temos potencial: com eficiência econômica, equidade social, democracia política e sustentabilidade ecológica. Não basta o governo ser novo, ele precisa ser para os novos tempos adiante, com nossos principais recursos: os milhões de cérebros e a imensa biodiversidade que bem usados permitirão aumentar e distribuir a renda, abolir a pobreza, pacificar a sociedade, civilizar as cidades, dar bem-estar à população, oferecer sonhos e esperanças aos jovens.

Respiramos aliviados porque “o Brasil voltou” ao compromisso com a proteção do meio ambiente, mas não definimos como será o progresso sustentável, utilizando a riqueza da biodiversidade. Voltamos ao propósito do desmatamento zero, mas ainda não adotamos a ecologia como questão industrial. Nestes 100 dias, o governo não mostrou um Plano de Metas para a indústria do século XXI, baseada na ecologia e no conhecimento, a economia verde e digital.

Felizmente, Lula trouxe o país de volta do Auxílio Brasil para o Bolsa Família, mas não apresentou a estratégia de como e quando nenhum brasileiro vai precisar de ajuda para sobreviver. O Bolsa Família já tem quase 30 anos, desde que começou no governo do PT no DF; 20 anos desde que FHC levou para o Brasil; mais de 15 desde que foi transformado em Bolsa Família, em 2004, dois anos como Auxílio Brasil. Tomada isoladamente, essa transferência de renda reduz a penúria, mas não elimina a tragédia da pobreza. O futuro exige que esse programa carregue a semente de sua obsolescência, ao ser parte de uma revolução pela educação: a implantação de um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base, com a máxima qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço da família. Esse seria o rumo para a erradicação da pobreza de forma estrutural e não apenas conjuntural por bolsas e auxílios que os próximos governos poderão acabar por revogação política ou por desvalorização monetária.

“O Brasil voltou”, mas falta proposta de como, ao longo dos próximos anos e décadas de seu governo e dos seguintes, o Brasil vai elevar a produtividade, criar emprego, assegurar que todos terão acesso a água, esgoto, paz nas ruas, moradia, transporte público de qualidade. E a garantia de que isso será feito sem concessão à pior inimiga dos pobres: a inflação.

Em 100 dias não se constrói uma década, mas é possível sinalizar rumos e inspirar cinquenta anos. Graças a Lula, “o Brasil voltou” à democracia e recuperou antigos programas sociais, mas precisa definir para onde e como avançaremos a novos tempos e ambições. (Veja – 15/04/2023)

Cristovam Buarque é escritor e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). Foi senador, ministro da Educação e governador do Distrito Federal

Leia também

Lula não tem empatia com o centro conservador

NAS ENTRELINHASExiste um problema de desempenho nos ministérios, mas...

A luz do poeta Joaquim Cardozo na arquitetura de Brasília

NAS ENTRELINHASMuitos arquitetos e engenheiros vieram para Brasília com...

Lira teme efeito Orloff ao deixar comando da Câmara

NAS ENTRELINHASO presidente da Câmara se tornou uma espécie...

Lula deve pôr as barbas de molho com o cenário mundial

NAS ENTRELINHASDa mesma forma como o isolamento internacional se...

Pauta conservadora avança no Congresso

NAS ENTRELINHASPano de fundo é a sucessão dos presidentes...

Informativo

Receba as notícias do Cidadania no seu celular!