Mariliz Pereira Jorge: Senador Marcos do Val deveria ser cassado

Parlamentar do Podemos do Espírito Santo brinca com a democracia brasileira, que se equilibra em alicerces fragilizados

Num país sério, o senador Marcos do Val [Podemos-ES] deveria ser cassado. No mínimo. O que seus colegas fizeram, no entanto, foi acionar a advocacia da Casa para recuperar o celular do parlamentar apreendido pela Polícia Federal. Do Val está brincando com a democracia brasileira, que se equilibra em alicerces muito fragilizados.

Sua postura de agora em nada se difere da que teve durante os anos em que vem apoiando o bolsonarismo, da sua atuação vergonhosa ao defender o indefensável durante a CPI da Covid-19. Ele vai conforme o vento. Já mudou a versão sobre um plano de golpe de Estado meia dúzia de vezes.

Diz que foi coagido por Jair Bolsonaro a armar uma arapuca para Alexandre de Moraes com intuito de melar as eleições. Depois contou que o plano era do ex-deputado Daniel Silveira, mas que o então presidente pensaria a respeito. Então tirou Bolsonaro da reta e disse que ele era apenas um ouvinte da tramoia. Numa gravação, Do Val implica o presidente e o GSI, para então dizer que ele mesmo concluiu que o gabinete estaria envolvido. Por fim, acusa Moraes de mentir sobre a oferta que teria sido feita pelo ministro de formalizar a denúncia.

Fala sério. O país vive uma crise democrática que não mostra melhoras consistentes. Estamos presos a 2022 e à corja encabeçada por Jair Bolsonaro, que mesmo à distância alimenta a extrema direita e seus delírios antirrepublicanos. O Gabinete do Ódio pode não operar mais nas entranhas do Planalto, mas continua a todo vapor no submundo das redes bolsonaristas.

Nessa lambança toda promovida por Marcos do Val, o único lampejo de comprometimento com o país foi o anúncio de que renunciaria. Como sua palavra não vale nada, a decisão não durou. Bons tempos em que político era cassado por aparecer de samba-canção em revista, como aconteceu com Edmundo Barreto Pinto. Isso foi lá em 1949. Em 2023, prevaricação e golpismo não dão em nada. (Folha de S. Paulo – 08/02/2023)

Mariliz Pereira Jorge, jornalista e roteirista de TV

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