#Suprapartidário – Alô, Brasil: Foi golpe ou não foi golpe, afinal?

A indicação ao Oscar do filme #DemocraciaEmVertigem reacende a polêmica: o impeachment de Dilma Rousseff foi golpe ou não foi golpe?

Obviamente, como não poderia deixar de ser, a narrativa escolhida depende dos interesses, do ponto de vista e da proximidade dos envolvidos.
Mas não deixam de ser legítimas, ainda que divergentes, as opiniões de quem acha que foi golpe ou que não foi. E viva a democracia, sem vertigem!

Veja (e essa é a minha narrativa) que até o golpe de 1964 não foi golpe para muita gente, principalmente entre os atuais inquilinos do poder. E não deixam de ter suas alegações históricas e ideológicas, afinal o povo nas ruas, as leis e o Congresso Nacional legitimaram o governo militar. Mas o saldo de 21 anos de ditadura, de tortura e de censura nos permitem chamar de golpe o que outros chamam indevidamente de revolução. E assim a História é escrita e reescrita.

Pois entre os que hoje acham que houve golpe contra Dilma – com a narrativa que chega ao Oscar – estão muitos que julgam que foi golpe também em 1964, outros que entendem que só houve o golpe militar e até quem defenda a tese já mencionada aqui de que não existiu golpe nem agora nem nos anos 60. E cada qual tem os seus motivos, os seus argumentos e as suas convicções.

Nós aqui documentamos passo a passo os acontecimentos que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff. Temos o registro histórico dos fatos no #ProgramaDiferente, desde as primeiras manifestações de rua, os debates incipientes sobre o impeachment (quando ainda parecia uma tese maluca e improvável) e o surgimento de personagens que acabariam chegando ao poder exatamente por terem protagonizado esses atos, como Kim KataguiriJoice Hasselmann, Deltan Dallagnol e Sérgio Moro, por exemplo, apenas para citar alguns.

Foram acompanhadas e registradas absolutamente todas as manifestações pró e contra o governo, seja com defensores do impeachment da presidente Dilma, seja com os maiores críticos da Operação Lava Jato e com vários “jornalistas independentes” (como se proclamaram aqueles que diziam atuar contra os interesses da grande imprensa), como Paulo Henrique AmorimLuis NassifBrasil 247Cynara MenezesLino BochiniPaulo Moreira LeiteBreno AltmanGabriel PriolliAlex SolnikFlorestan Fernandes Jr.Laura CapriglioneRenata FalzoniBob FernandesLeonardo SakamotoAlberto Dines etc.

Documentamos toda a origem do fenômeno do bolsonarismo. Acompanhamos a gênese dos movimentos cívicos, dos pioneiros MBL e Vem Pra Rua aos mais recentes, como Agora!, RenovaBR, Acredito, Livres e RAPS, todos surgidos no rastro das manifestações de 2013. Ou seja, não há como negar a crise pela qual passa a nossa democracia nem os efeitos danosos da aversão de setores da sociedade pela política tradicional e pelos partidos. Chamar isso simplesmente de “vertigem” chega a ser uma licença poética.

Entre os momentos históricos dos nossos registros há um especialmente hilário: em plena manifestação #NãoVaiTerGolpe entrevistamos um militante petista que defendia o impeachment de Dilma. Por outro lado, nas mobilizações da Avenida Paulista contra a corrupção e em apoio à Operação Lava Jato, era uma constante a presença de saudosos da ditadura. Um horror!

Aonde isso tudo vai dar não podemos prever ainda, mas sabemos como chegamos até aqui. Com golpe ou sem golpe, a democracia corre perigo. Que tenhamos sensibilidade, sabedoria e empatia para enxergar quem são os nossos verdadeiros adversários, os nossos aliados estratégicos e os inimigos em comum.

Reveja abaixo alguns dos principais momentos desse período:

Na reta final do julgamento de Dilma, personalidades pró e contra o impeachment debatem o futuro do país e o pós-PT no #ProgramaDiferente
Especial: Meia hora com o #ProgramaDiferente no ato de 20 de agosto

O Brasil sai às ruas contra os governos do PT, Dilma e Lula no já histórico 13 de março

O #ProgramaDiferente acompanha debate sobre a Ética na Política e ouve Pedro Simon e Miguel Reale Jr. sobre o Impeachment

#ProgramaDiferente: PMDB já discute Brasil pós-Dilma com Temer presidente

#ProgramaDiferente: Os dois lados de uma crise política sem precedentes

Sergio Moro, Marina e os tucanos viram alvo do contra-ataque governista

Deputado Orlando Silva defende Lula de “excesso” do juiz Sergio Moro

“Eles que enfiem no cu todo o processo”, diz Lula para a presidente Dilma

Veja a cobertura da Conferência sobre as Cidades no #ProgramaDiferente

Jornalista Alberto Dines afirma ser contra o impeachment da presidente Dilma e defende parlamentarismo para o Brasil sair da crise

No aniversário da República, um momento de nostalgia no #ProgramaDiferente: com FHC, o Brasil era feliz e não sabia!

O #ProgramaDiferente celebra o Dia da Democracia neste 25 de outubro

#NatalSemDilma é o novo bordão das manifestações de rua pró-impeachment

O #ProgramaDiferente revive os anos 90, analisa contexto do impeachment e relembra o “Vamos Sair da Crise” na entrevista com Alexandre Machado

Das páginas amarelas da Veja para a TVFAP.net: o jurista Joaquim Falcão e o lançamento do livro “Reforma Eleitoral no Brasil”

A crise do governo Dilma e a possibilidade do impeachment em debate

“De como Aécio e Marina ajudaram a eleger Dilma”, com Chico Santa Rita

Que país é este? O #ProgramaDiferente segue discutindo a crise

O que seria, de fato, uma ampla e necessária reforma política e eleitoral

TVFAP.net faz série de entrevistas e debates sobre a Reforma Política

Avenida Paulista lotada em mais um dia de #ForaDilma e #ForaPT

#ProgramaDiferente no ar em mais um dia de #ForaDilma e #ForaPT

#ProgramaDiferente acompanha a reta final da Marcha que chega no dia 27 a Brasília, entrevista Roberto Freire e debate o governo Dilma

No clima do #VemPraRua de 15 de março, #ProgramaDiferente entrevista Eduardo Jorge e debate possibilidade do impeachment de Dilma

As reflexões de Lobão: “Em Busca do Rigor e da Misericórdia”
O princípio do fim: o julgamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff no Senado Federal e a piada do golpe na Casa de Portugal

Artigo: “Coxinha Sempre, Acarajé e Enroladinho Nunca”

Marcelo Calero critica declaração de Bolsonaro sobre “armar população” contra golpe de Estado

O deputado federa Marcello Calero (Cidadania-RJ) criticou o presidente da República Jair Bolsonaro, que em discurso durante uma celebração militar, no fim de semana passada, no Rio grande do Sul, falou em “armar a população” para evitar golpes de Estado.

Calero disse que a declaração de Bolsonaro, mesmo feita em um momento de empolgação, é preocupante.

“ Acho que estamos enveredando por um caminho muito perigoso. É uma manifestação bastante preocupante”, afirmou o parlamentar em pronunciamento, nesta terça-feira (18).

No evento, o presidente da República disse ainda que “mais do que o Parlamento, precisamos do povo ao nosso lado para que possamos impor política que reflita em paz e alegria a todos nós”.

Ideologização Cultural

O ex-ministro da Cultura também alertou o plenário para o chamamento que vem sendo feito pelo diretor de teatro Roberto Alvim, nas redes sociais, à classe artística que se alinha “aos valores conservadores”. Segundo o deputado,   Alvim fala em formar um banco de dados com o objetivo de criar uma “máquina de guerra” cultural.

“O que a gente está vendo aqui é uma espécie de sinal trocado. Dizem que passamos por um momento de ideologização. E agora vamos continuar na ideologização do lado inverso?”, criticou.

Roberto Alvim apoia Jair Bolsonaro e poderá assumir um cargo na Secretaria Especial de Cultura.

Moro

Marcelo Calero manifestou ainda apoio ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, e à Operação Lava Jato.

“O ministro está realizando um trabalho digno e merece todo nosso apoio”, afirmou.

Fernando Henrique Cardoso: 1964 – lembranças e tormentos

Cinquenta e cinco anos passam depressa. A memória se vai, mas ficam recordações. No dia 13 de março de 1964 eu estava no Rio, em casa de meu pai. À noite fui à Central do Brasil pegar o trem de volta para São Paulo. Meu pai, general reformado e ex- deputado federal, residia no Arpoador, no mesmo prédio em que moravam minha avó e um tio. Lá também morava Carlos Drummond de Andrade. Por Copacabana inteira, passando por Botafogo e pelo Flamengo, havia velas acesas nas sacadas de muitos edifícios: a classe média, especialmente a mais alta, protestava contra Jango Goulart, presidente da República que convocara seus apoiadores a se reunir naquela noite em comício perto da Central do Brasil, em frente à Praça da República.

Tomei o trem indiferente ao que ocorria. Por acaso estavam no trem vários amigos: o José Gregori, que viria a ser ministro da Justiça em meu governo, Plínio de Arruda Sampaio, que fora meu colega de curso primário no colégio Perdizes, em São Paulo, e se tornaria deputado federal constituinte e o engenheiro Marco Antônio Mastrobono, futuro marido da filha de Jânio Quadros. No jantar, conversas e discussões. O “golpe” estava no ar: de quem seria? Não chegamos a concluir se dos militares e da “direita”, ou das “forças populares”, com Jango à frente, em favor de vagas reformas. Só sabíamos de uma coisa, viesse do lado que viesse, sofreríamos as consequências…

Na época eu era jovem professor-assistente da Faculdade de Filosofia, tinha 33 anos e assento no Conselho Universitário da USP como representante dos livre-docentes. Pouquíssimos sabiam de minhas relações de família com avida política. Meu pai se elegera deputado federal pelo PTB em 1954. No governo de Getulio, um primo de meu pai havia sido governador do Rio e outro, ministro da Guerra, o mesmo cargo ocupado por um tio-avô no início dos anos 1930. No governo de Juscelino um tio havia presidido o Banco do Brasil.

Meu pai e muitos familiares pertenciam à ala nacionalista e eram favoráveis à campanha do “Petróleo é nosso”, na qual também me envolvi. Nunca me esquecerei do vidrinho de petróleo baiano, colocado em uma estante na casa do marechal Horta Barbosa, que eu frequentava quando menino, pois sua filha se casara com um irmão de meu pai.

Eu me interessava sobretudo pela faculdade, na qual me tornei professor em 1953, num ambiente avesso a Vargas e distante dos militares.

Minha participação política até então havia sido fugaz: no começo dos anos 1950, estive próximo da esquerda, do Partidão e do círculo intelectual liderado por Caio Prado Júnior na “Revista Brasiliense” Rompi com o PC quando os soviéticos invadiram a Hungria em 1956. De pois do Relatório Kruschev, da mesma época, agitei bastante contraos dirigentes comunistas. Não simpatizava com o populismo de Jango, embora fosse amigo de seu chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro. Nada disso impediu que a partir de 1964 eu fosse considerado “subversivo” pelos novos donos do poder.

No início dos anos 1960, lutava pela organização da carreira universitária e pela Fapesp. No Conselho Universitário ajudei a derrotar a “oligarquia”: com a ajuda de Hélio Bicudo e Plínio Sampaio, ambos do gabinete do governador Carvalho Pinto, elegemos o professor Ulhôa Cintra para reitor da USP. Por isso eu gozava de prestígio em camadas de professores e, sobretudo, de estudantes.

Recordo-me de duas reuniões na Faculdade de Filosofia na noite de 1° de abril de 1964. Em uma, tentava acalmar os estudantes, pois não entendia bem o que ocorrera e achava precipitado haver manifestações. Na segunda, tentava o mesmo com meus colegas professores. Tamanha era a confusão que houve quem propusesse um manifesto contra os militares golpistas que apoiavam Jango… Precisei telefonar para um colega, professor da Medicina, pedindo que viesse em meu socorro, para evitar o protesto contra Jango que estava sendo deposto.

Em seguida, a polícia tentou prender outro professor, Bento Prado, confundindo-o comigo. Tive que me “esconder”, primeiro em casas de amigos, em São Paulo, depois no Guarujá, num apartamento do Thomas Farkas, na companhia de Leôncio Martins Rodrigues. De lá saí para ir a Viracopos, cercado por familiares e amigos, sob a batuta de Maurício Segall, que se informava e sabia dos aeroportos ainda sem listas de subversivos a serem capturados. Voei para Buenos Aires, onde me hospedei no apartamento de um colega sociólogo, José Num, que mais tarde foi ministro da Cultura de Néstor Kirchner. Da Argentina fui para o Chile, carregando comigo os escritos da tese que pretendia defender para conquistar uma cátedra que vagara com a saída de Fernando de Azevedo.

Ruth, minha mulher, ficou em São Paulo. Ela procurou, então, o professor Honório Monteiro, que representava a Faculdade de Direito no Conselho Universitário e era afilhado de sua avó. Eu me dava bem com ele, assim como com meus vizinhos de cadeira no Conselho, representantes da Faculdade de Direito, Luís Eulálio Vidigal e Gama e Silva (que fora ao jantar de comemoração de meu doutorado. Mal sabia eu, que anos depois ele assinaria o AI-5…). Quando Ruth perguntou ao professor Honório: “O que vai acontecer?” Ele, sabiamente, replicou: “Nada; vai mudar tudo”. Perdi a condição de professor, que só retomaria em outubro de 1968 ao vencer o concurso para a cadeira de Ciência Política. A cátedra durou poucos meses. Em 13 de dezembro, Gama e Silva, então ministro da Justiça, leu o AI-5 que fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus, cassou mandatos e, como vários professores universitários, fui compulsoriamente aposentado em abril de 1969.

A institucionalidade foi quebrada e minha vida mudou. Recordar faz parte da História. Celebrar, o quê? No meu caso, exílio, processos e perda de cátedra. Rancor? Para quê? Olhar para frente e manter a democracia é o que conta. (O Globo – 07/04/2019)