IMPRENSA HOJE

Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais (01/07/2022)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Senado aprova PEC que libera gasto bilionário antes das eleições
Desemprego cai; ocupação e trabalho informal são recordes
Denúncias de assédio sexual disparam no governo federal
Ex-presidente da Caixa xingava funcionários, revelam áudios
TSE limita gastos de candidatos
Festa para lembrar Moïse
Haddad lidera disputa em São Paulo, diz Datafolha
Zona Sul do Rio tem alta de furtos e roubos nas ruas

O Estado de S. Paulo

Senado aprova PEC que eleva benefício e impõe estado de emergência
Desemprego cai para 9,8%, menor nível para maio em sete anos
Nova presidente da Caixa pretende criar comitês para apurar assédio
Imóveis para as classes média e alta superam os populares
Governo paulista congela preços de pedágio e metrô
Catar se desdobra para receber 1,5 milhão de visitantes na Copa

Folha de S. Paulo

Senado aprova PEC que libera R$ 41 bi às vésperas da eleição
Haddad tem 34%; Rodrigo e Tarcísio, 13%
Desemprego recua a 9,8%, o menor nível desde 2015
Líder em contratos da Codevasf chega a custar 87% a mais
Sob Bolsonaro, Brasil desaba em ranking de liberdade de expressão
Auditoria externa vai apurar assédio na Caixa
Quiosque no Rio em memória de Moïse é entregue à família
Ketanji Brown Jackson toma posse com 1ª juíza negra em 233 anos de Suprema Corte dos EUA
Hong Kong acumula prisioneiros 25 anos após reanexação à China

Valor Econômico

Para executivos, inflação é maior desafio
Justiça dificulta corte de emissões nos EUA
Fleury pagará R$ 2,4 bi por Hermes Pardini
Com auxílio-taxista, Senado aprova PEC dos Combustíveis

EDITORIAIS

O Globo

PEC aprovada no Senado é afronta à democracia

Como o placar quase unânime da votação de ontem deixou claríssimo, as balizas do bom senso não serão impostas pela oposição

O Senado aprovou ontem, num congraçamento raro entre governo e oposição, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que desfere um ataque frontal à democracia brasileira. Na superfície, essa PEC da Bondade permite apenas instituir um estado de emergência temporário, até o fim do ano, para ampliar o valor do Auxílio Brasil a R$ 600, beneficiar caminhoneiros, taxistas e consumidores de gás. Seriam medidas eleitoreiras, condenáveis em razão do impacto fiscal no Orçamento, mas até defensáveis diante da alta dos combustíveis e da atual calamidade social — obviamente a situação exige medidas do Congresso. Mas a PEC faz isso do jeito errado e traz consequências inaceitáveis.

Com um olhar mais atento, logo se percebe que o novo instrumento acaba com o equilíbrio na disputa eleitoral e fere, segundo juristas, princípios fundamentais da Constituição. É por isso que, se confirmada a aprovação na Câmara na semana que vem, ele precisará ser revisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As mudanças equivalem a anotar um gol de mão para o time da casa na final do campeonato.

Quanto à decretação do estado de emergência, ainda que ele valha apenas para 2022, terá aberto o precedente para que futuros presidentes busquem aprovar PECs semelhantes. Bastará uma justificativa qualquer para um estado de emergência — e estará liberada a criação ou aumento de benefícios, turbinando aqueles que buscam a reeleição ou candidatos vinculados à situação. Foi justamente para nivelar a disputa eleitoral e evitar abusos dessa ordem que a lei proibiu esse tipo de ação.

Como o placar quase unânime da votação de ontem deixou claríssimo, as balizas do bom senso não serão impostas pela oposição. Receosos de ser penalizados nas urnas por barrar medidas de cunho social, senadores contrários a Bolsonaro seguiram o voto dos governistas. Entre o respeito à democracia e o oportunismo, ficaram com a segunda opção. Entre eles, há até defensores do teto de gastos, atropelado pela PEC da Bondade.

Na escala dos estragos proporcionados pelo estado de emergência em ano eleitoral, o ataque à democracia é certamente o mais grave. Não quer dizer que sejam desprezíveis os efeitos deletérios nas contas públicas. Pelo cálculo do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), relator da PEC, o impacto fiscal do que foi aprovado passa de R$ 41 bilhões. Há números divergentes. Economistas avaliam que só o reajuste do Auxílio Brasil, se mantido, consumirá metade do ganho fiscal da Reforma da Previdência em dez anos. E estará desbravado o caminho. Doravante, a cada ano de eleição com aprovação de medidas semelhantes, os brasileiros poderão esperar cifras maiores.

Entre os eleitores preocupados com a saúde da democracia, muitos são sensíveis à ideia de o governo ajudar a população que passa por emergência, mesmo em anos eleitorais. Mas não é disso que se trata. O governo federal dispõe de um arsenal de programas que poderiam ter sido ampliados. Não é a lei eleitoral que o impede de aliviar a penúria dos brasileiros. O fato de Bolsonaro ter escolhido como beneficiados caminhoneiros ou taxistas mostra que o motivo para a emergência não é ajudar os mais pobres. A PEC da Bondade é pedagógica. É uma tentativa de resolver o estado de emergência da campanha de Bolsonaro. Não passa da legalização do gol de mão.

O Estado de S. Paulo

A conivência de Bolsonaro

Acumulam-se escândalos no primeiro escalão do governo. Em nenhum deles, Bolsonaro defendeu o cumprimento da lei, facilitou a transparência ou colaborou com a Justiça

Os casos de suspeitas de crimes envolvendo o primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro apresentam uma grande – e preocupante – similaridade. Em todos, não foram os órgãos de controle da administração federal que trouxeram o problema à tona. Em todos, o presidente da República, sempre tão radical no discurso contra o crime, amenizou, em detrimento da defesa da lei, a conduta dos amigos. Em todos, descobriu-se que o governo sabia previamente da existência de indícios, mas optou por não agir. E sempre, entre os envolvidos nos diversos escândalos, havia gente muito próxima ao presidente da República.

O caso mais recente é escandaloso. Acusado por diversas funcionárias da Caixa Econômica Federal de todo tipo de assédio sexual, Pedro Guimarães era uma das pessoas mais vistas ao lado do presidente da República. Participou de várias lives de Bolsonaro. Acompanhou o presidente em diversas viagens. Era parte do núcleo íntimo presidencial. As suspeitas precisam ser investigadas, mas desde já dois fatos são significativos: (i) ninguém que acompanha o dia a dia do poder em Brasília ficou surpreso com as denúncias; e (ii) a Caixa já tinha conhecimento de suspeitas de crime. Conforme o próprio banco informou, o canal interno de denúncias da Caixa havia recebido relatos de assédio por parte de Pedro Guimarães.

No entanto, apesar de tudo isso, o caso tornou-se inaceitável para o governo Bolsonaro apenas quando foi revelado pela imprensa. Até então, era um não problema, com Pedro Guimarães desfrutando de toda a confiança de Bolsonaro, sendo inclusive um dos cotados para ser o vice na chapa de Bolsonaro à reeleição. Diante disso, e do silêncio de Bolsonaro, incapaz de condenar toda forma de assédio sexual e de afastar o amigão Pedro Guimarães, é lícito supor que o indigitado não teria perdido o emprego se não estivéssemos em ano eleitoral.

Esse caso, que por si só já é altamente constrangedor, não é o único em que Jair Bolsonaro adotou uma atitude de conivência com as suspeitas de crime. No ano passado, o presidente da República teve seu então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, investigado por corrupção, advocacia administrativa, prevaricação e facilitação de contrabando, em razão de suspeitas de facilitação de exportação ilegal de madeira para os Estados Unidos e a Europa. Em nenhum momento, Bolsonaro defendeu o cumprimento da lei ambiental brasileira. Limitou-se apenas, quando a permanência de Ricardo Salles se tornou politicamente inviável, a aceitar o pedido de demissão.

Durante a CPI da Pandemia, várias suspeitas de mau uso de dinheiro público no Ministério da Saúde vieram à tona. Em vez de se colocar em defesa da lei, Bolsonaro sempre se pôs ao lado dos amigos. No caso relativo às negociações para a compra da vacina Covaxin, tal foi a passividade do presidente que um inquérito foi aberto para investigar possível crime de prevaricação. Depois, a investigação foi encerrada, mas não porque se concluiu que Bolsonaro atuou na defesa da lei, e sim porque a Procuradoria-Geral da República, sempre tão camarada com Bolsonaro, entendeu que o presidente da República não tinha o dever de agir naquela situação.

No caso do Ministério da Educação, o comportamento foi o mesmo. Diante das graves suspeitas reveladas pela imprensa, em vez de assegurar condições para uma investigação isenta, Bolsonaro disse que colocava “a cara no fogo” pelo então ministro da Educação. Depois, quando a operação da Polícia Federal foi deflagrada, alegou que tinha exagerado na defesa do pastor. Mas ainda teve o descaramento de dizer que tráfico de influência, crime previsto no Código Penal pelo qual Milton Ribeiro é investigado, era algo comum, sem maior importância.

Em todos os casos, Bolsonaro teve a mesma reação. Em nenhum deles defendeu o cumprimento da lei, facilitou a transparência ou colaborou com a Justiça. Sua resposta foi sempre negar os indícios, desqualificar o trabalho de quem não se subordina a seus interesses e desviar o tema com outras pautas. Vale lembrar que, até hoje, o presidente da República não esclareceu os 21 cheques de Fabrício Queiroz na conta de sua mulher.

Não se combate a corrupção, ou qualquer outro crime, dessa forma. Agir assim é preparar o terreno para novos escândalos.

Folha de S. Paulo

Fora da Caixa

Acusações de assédio exigem apuração; tolerância à prática, felizmente, diminuiu

A permanência de Pedro Guimarães no comando da Caixa Econômica Federal tornou-se insustentável, e o executivo pediu demissão na quarta-feira (29), um dia depois de virem a público acusações de assédio sexual praticado por ele.

Reveladas pelo portal Metrópoles, tratam de toques íntimos não autorizados, abordagens inadequadas e convites inapropriados —relatos que o agora ex-dirigente da CEF classifica como falsos.

Uma funcionária ouvida pela Folha afirmou que, ao tentar sair da sala, o então presidente do banco a puxou pelo pescoço e disse: “Estou com muita vontade de você”.

Segundo servidoras, os episódios ocorriam dentro e fora da instituição, na frente de outras pessoas ou de forma reservada. Comenta-se que ao componente sexual se somaria o assédio moral.

O caso, de acordo com o Metrópoles, está sob inquérito sigiloso no Ministério Público Federal, e o Ministério Público do Trabalho deu dez dias para a Caixa e Guimarães se manifestarem.

Incluir o próprio banco nas apurações faz sentido porque, segundo pessoas ouvidas pelo jornal O Globo, as denúncias vão além do ex-presidente da instituição e teriam sido recebidas internamente com um esforço para abafá-las.

É possível que essa intenção prevalecesse se não fosse a atuação da imprensa, pois poucas coisas são tão típicas do governo Jair Bolsonaro (PL) quanto as tentativas de bloquear os órgãos de controle.

Dar livre fluxo às investigações, contudo, é sempre o melhor remédio. Se as notícias estiverem equivocadas, como Guimarães alega, sua inocência restará provada ao final do exame minucioso e imparcial dos fatos. Se estiverem corretas, ele será julgado nos termos da lei.

Seja qual for o veredito, o episódio serviu para mostrar o quanto a sociedade amadureceu no repúdio ao assédio sexual, uma conduta intolerável em qualquer ambiente.

Décadas atrás, era comum que vítimas de assédio fossem transformadas em agentes de seu próprio infortúnio e silenciadas numa cultura machista.

Se o Brasil ainda está longe de ser um país no qual as mulheres possam se sentir protegidas desse tipo de comportamento, há sinais de avanço quando a justa manifestação pública força uma reação institucional —para a qual contribuiu, ressalve-se, o temor de um desgaste perto das eleições.

Há de chegar o dia, porém, em que o assédio sexual será exceção, não regra, e em que a reação institucional se dará não por simples medo das urnas, mas pelo reconhecimento do que é justo e ético.

Valor Econômico

Reuniões da Otan e dos BCs consolidam cisão geopolítica

A cisão geopolítica se consolida e dissemina aumento de custos e choques de oferta

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que reúne as maiores potências militares ocidentais, decidiu ontem rever sua estratégia decenal e se preparar para enfrentar o que considera o maior perigo à segurança dos países que a compõem – a Rússia e, por tabela, a China. A Rússia tem o maior arsenal atômico do planeta e Pequim ascende na escalada armamentista aos primeiros lugares. No mesmo dia, em Sintra, em um fórum dos Bancos Centrais, as duas mais importantes autoridades monetárias do planeta, Jerome Powell (Fed) e Christine Lagarde (BCE), disseram que a época da inflação e dos juros baixos terminou. As duas reuniões reforçaram os sinais de uma nova ordem econômica e geopolítica.

Os pontos em comuns entre os dois eventos vão além das sugestões dos presidentes dos BCs de que parte relevante da trajetória da inflação é hoje determinada mais no campo de batalha em solo ucraniano do que nas planilhas dos técnicos que indicam os parâmetros de qual deveria ser a política monetária adequada. Ambas indicam uma cisão determinante, menos relevante em relação à Rússia e mais em relação à China, país que se tornou a segunda maior economia do mundo com base nas regras da globalização – e que estão sendo reescritas radicalmente.

A política oportunista e nacionalista do presidente Donald Trump, que elevou a China ao status de inimiga número um dos Estados Unidos – sem reparos da Rússia, hoje aliada de Pequim, e então do populista americano – revelou-se premonitória. Com a volta dos democratas à Casa Branca, a política agressiva de Trump em relação à China não mudou e até ganhou amplitude. O comunicado da Otan poderia ser tido como um resumo da política americana. Faz um apelo retórico ao diálogo com Pequim, mas adverte: “As ambições declaradas e as políticas coercitivas da China desafiam nossos interesses, valores e segurança”.

Se para a Otan a Rússia, o país mais forte da ex-URSS, é um velho inimigo, parte de um filme antigo com um enredo mais dinâmico e igualmente perigoso, a China é a novidade enigmática, uma potência ascendente em todos os sentidos. A aliança militar segue como sempre os desígnios dos interesses americanos, que, sob Joe Biden, tentam restaurar uma posição global hegemônica em um mundo que se tornou, ao que parece irreversivelmente, multipolar.

O resultado deste embate, que apenas começou e cujos desdobramentos são imprevisíveis, é, em alguns aspectos, uma volta ao passado. Os orçamentos militares crescerão mais uma vez nos países mais ricos da aliança ocidental e continuarão elevados nos Estados Unidos. As forças de deslocamento rápido da Otan deverão saltar de 40 mil para 300 mil homens, um efetivo respeitável e, também, um desperdício de dinheiro e capital humano inimaginável no século XXI.

As precauções de segurança na estratégia da Otan, porém, ratificam em outra dimensão a divisão já delineada entre as duas maiores economias do mundo. A pandemia mostrou que a dependência da China de todos os países em relação aos fármacos e equipamentos médico-hospitalares chegou a um ponto insustentável. Como coração industrial global, o papel chinês na produção de insumos básicos para a produção industrial no resto do mundo tornou-se, em vez de uma benfazeja máquina de cortar custos, um handicap logístico-político enorme.

A divisão que se consolida traz dificuldades enormes, entre outras, para a política monetária. Às voltas com o ressurgimento da inflação depois de três décadas, os bancos centrais reconhecem que o cisma das cadeias de produção globais criam novos problemas e velhos conhecidos, como aumento de custos e nacionalismo retrógrado. O fato de ser os EUA, o país que mais pregou o liberalismo e abertura de mercados, que tenha aberto e mantido uma escalada protecionista global, só agrava o problema.

Em Sintra, os presidentes dos BCs reconheceram que estão em uma encruzilhada perigosa. Não há qualquer segurança de que os preços dos alimentos e combustíveis entrarão em escala descendente ou de que as cadeias de produção, em grande parte centradas na China, voltem a operar como antes. Ou de que uma alta moderada dos juros possa repor algo parecido com a normalidade. A cisão geopolítica se consolida e dissemina aumento de custos e choques de oferta para os quais a política monetária é sabidamente menos eficiente em combater.

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