Luiz Carlos Azedo: Bolsonaro mira reeleição com ‘economia de guerra’

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

O presidente Jair Bolsonaro considera a guerra da Ucrânia uma oportunidade, e não uma ameaça. Todas as suas declarações sinalizam nessa direção. Embora o Brasil tenha se posicionado contra a agressão de Vladimir Putin, que pôs o mundo diante de uma provável recessão e à beira de uma terceira guerra mundial, Bolsonaro flerta com o perigo, mantendo as relações com a Federação Russa no mesmo patamar em que estavam quando visitou Moscou, no mês passado.

Não é que não esteja levando em conta o impacto das sanções econômicas à Rússia aqui no Brasil, muito pelo contrário. É que esse impacto virou o pretexto de que precisava para a adoção de medidas econômicas de caráter populista, agora com a narrativa de que é preciso mitigar os efeitos da crise internacional com uma “economia de guerra”. Além de se beneficiar da polarização com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que esvazia a chamada terceira via — cujos candidatos não decolam nem desistem, muito menos se unificam —, Bolsonaro aposta na retomada gradativa dos empregos; no efeito dos programas sociais de transferência de renda, como o Auxílio Brasil; e no fim da pandemia de covid-19, graças à vacinação que tanto combateu.

A Quaresma, que começou em 2 de março, quarta-feira de cinzas, e só termina no Domingo de Ramos, em 14 de abril, politicamente, é um período de grandes definições. Por causa da janela para a troca de partidos e do fim do prazo de desincompatibilização para quem pretende ser candidato, como os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), que flerta com o PSD, embora o grupo que o apoiou nas prévias ainda aposte na desistência do tucano paulista.

No momento, o núcleo político do governo — principalmente o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) — trabalha intensamente para dobrar a resistência do ministro da Economia, Paulo Guedes, e promover uma mudança radical na política de preços da Petrobras. Bolsonaro já aderiu à tese e, ontem, sinalizou que isso está decidido. Em entrevista à Rádio Folha, de Roraima, adiantou que o governo vai mesmo acabar com a paridade de preços do petróleo com o mercado internacional por causa da guerra.

“Agora, tem uma legislação errada feita lá atrás, que você tem a paridade com o preço internacional, ou seja, o que é tirado do petróleo, leva-se em conta o preço fora do Brasil, isso não pode continuar acontecendo. Estamos vendo isso aí sem mexer, sem nenhum sobressalto no mercado, e está sendo tratado, hoje à tarde, em mais uma reunião”, disse.

A Petrobras paga pelo barril de petróleo o mesmo preço cobrado no mercado internacional, o que evita perdas, e ainda lucra vendendo óleo para o exterior. O repasse dos aumentos de preços, como os que estão acontecendo agora, acabam impactando não só o bolso de quem abastece seu veículo, mas o da população em geral, porque o preço do combustível acaba incorporado aos custos dos demais bens e serviços, provocando mais inflação.

Ontem, o preço do barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional, saltou 18% e chegou a ultrapassar US$ 139, seu nível mais alto desde 2008, quando atingiu US$ 147,50, em julho. Para repassar esse aumento, a Petrobras teria de elevar em 50% o preço dos combustíveis. “A população não aguenta uma alta por esse percentual aqui no Brasil”, afirmou Bolsonaro.

Passando a boiada

Bolsonaro também quer aproveitar a guerra da Ucrânia para passar a boiada no Congresso. Voltou a defender a aprovação do projeto que libera a mineração em terras indígenas. Essa agenda está há dois anos na Câmara, mas agora entrou na ordem do dia, apesar dos protestos de lideranças indígenas, ambientalistas e personalidades da vida nacional, como Caetano Veloso, que está convocando um ato em Brasília em defesa das terras indígenas, como porta-voz de dezenas de entidades.

A narrativa de Bolsonaro é de que é preciso explorar o potássio da foz do Rio Madeira para produzir fertilizantes, reduzindo o risco de um colapso do abastecimento desse insumo básico para nossa agricultura, em razão das sanções contra a Rússia. A propósito, a ambiguidade de Bolsonaro em relação à Rússia está gerando tensões com os Estados Unidos, que gostariam de um alinhamento maior com o Ocidente. Nesse aspecto, o governo brasileiro está priorizando suas relações comerciais derivadas do agronegócio, em detrimento do alinhamento político e ideológico com o Ocidente. (Correio Braziliense – 08/03/2022)

Leia também

Segurança pública no Brasil: qual o caminho?

A segurança pública no Brasil é uma preocupação central...

Brasil x Argentina e o macaco no espelho

A rivalidade que importa está fora de campo —...

Uma Homenagem ao “Partido da Democracia”

Evento promovido pela FAP e Cidadania-23, com apoio do jornal Correio Braziliense, produziu uma exposição magnífica de fotos, documentos, objetos significativos, palestras e debates.

Cidadania faz evento histórico para comemorar a democracia

Em comemoração aos 40 anos da retomada da democracia...

Historiador analisa trajetória dos partidos em 40 anos de democracia

Os partidos políticos, organismos centrais da vida democrática, são incapazes de se abrirem para a dinâmica de transformações que ocorrem na vida social e econômica.

Informativo

Receba as notícias do Cidadania no seu celular!