Bruno Boghossian: Impasse em vaga do STF é produto da anomalia política de Bolsonaro

Pendurada há 92 dias, a indicação de André Mendonça ao STF é um produto acabado da anomalia política que Jair Bolsonaro instalou no país. O tribunal tem uma cadeira vazia porque o presidente escolheu governar para falanges ideológicas, contratou a proteção de uma coalizão de aluguel e recorreu ao vandalismo institucional para exercer o poder.

O nome de Mendonça ficou travado porque só interessa a um dos lados da aliança disfuncional que mantém Bolsonaro no cargo. O presidente nunca escondeu que a indicação do ministro era o pagamento de uma dívida com líderes evangélicos.

O problema de Bolsonaro é que ele precisa de Silas Malafaia, que endossa manobras golpistas da porta do Planalto para fora, mas também depende de Ciro Nogueira, que protege o governo com base no que é dito a portas fechadas. O centrão conhece o tamanho de seu poder e tenta forçar a troca do nome escolhido.

Bolsonaro experimenta os efeitos dos acordos mal-ajambrados que costurou para sobreviver enquanto exerce sua vocação autoritária. Quem bloqueia a indicação de Mendonça é Davi Alcolumbre, um senador que foi patrocinado pelo governo com verbas oficiais nos últimos anos e agora é comparado pelo presidente a um torturador.

As motivações podem ser nobres ou indecorosas, mas o fato é que Alcolumbre impede que Bolsonaro mande um aliado para a corte que ele tenta destruir. Apesar de ter falsificado uma trégua, o presidente passou o ano em confronto aberto com o STF, espalhou mentiras sobre decisões do tribunal e liderou o protesto golpista que tinha o objetivo de forçar a derrubada de ministros.

Ao longo do processo, Bolsonaro fez com que Mendonça se comprometesse a abrir as sessões do tribunal com uma oração, disse que o novo ministro almoçaria com ele no Planalto uma vez por semana e deu a entender que havia combinado votos “contra as pautas progressistas”. O próprio presidente conduz essa escolha com a mesma esculhambação com que trata o STF. (Folha de S. Paulo – 14/10/2021)

Bruno Boghossian, jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA)

Leia também

Deputados anistiam multas nas prestações de contas dos partidos

A Transparência Partidária estima que o montante total das multas pode chegar a R$ 23 bilhões.

A Europa começa a respirar novamente

A Democracia dá sinais claros de resistência no Velho...

Atropelos em série

Lula está se dando conta de que o desafio ao ser eleito presidente não era bloquear a extrema direita bolsonarista: era fazer o País ingressar em outra rota.

Um alerta para o risco de estrangulamento fiscal

Pelo lado das receitas, as medidas aprovadas em 2023, surtiram efeito na arrecadação de 2024. No entanto, muitos dos resultados não se sustentam no futuro.

Informativo

Receba as notícias do Cidadania no seu celular!