Cristovam Buarque: Aniversário do futuro

Nesta semana, Brasília completou 59 anos, provocando muitas manifestações sobre as características da nossa cidade. Apesar do belíssimo caderno no Correio Braziliense sobre as mãos femininas que constroem Brasília, a maior parte das comemorações refere-se, em geral, à arquitetura e ao urbanismo da capital. Há poucas referências à outra Brasília, a de seus feitos.

Em carta à seção Desabafo (16/4), Francis Serafim ressaltou que o programa Bolsa Família foi criado no governo Fernando Henrique e não no governo Lula. O leitor tem razão ao dizer que, antes de Lula lançar o Bolsa Família, em 2004, FHC tinha levado a todo o Brasil o Bolsa Escola, implantado no DF, em 1995, depois de concebido na UnB, em 1986. Mas o leitor e correspondente talvez não saiba que o programa hoje aplicado em dezenas de países nasceu aqui.

Os restaurantes populares, que estão em todo o DF e em várias cidades do país, surgiram primeiro no Paraná. Mas foi no DF que o governador Roriz (1999-2002) criou a mais bem-sucedida rede desses restaurantes, que se mantêm até hoje. Aqui também, desde 1996, tornamo-nos exemplo para todo o Brasil sobre como respeitar o trânsito e, sobretudo, a faixa de pedestres. Isso foi ação do governo da época, com a colaboração decisiva do Correio Braziliense e da nossa população que adotou a prática civilizada.

Brasília deve comemorar personalidades e suas realizações. Esportistas como os jogadores de futebol Lúcio e Kaká, o atleta Joaquim Cruz, que conquistou o ouro no atletismo, nas Olimpíadas de 1984, a campeã Leila do vôlei, que hoje é nossa senadora. Daqui saíram alguns dos maiores nomes da música brasileira e do rock com sotaque candango, como Renato Russo, Cassia Eller, Zélia Duncan, Osvaldo Montenegro. Ainda temos o Clube do Choro, que é referência nacional e internacional, revelando grandes músicos do gênero que estudaram na Escola de Choro Raphael Rabello.

E tivemos Cláudio Santoro, na música erudita. No cinema nacional, nomes marcantes como Vladimir Carvalho, de uma geração que ajudou a inspirar novos cineastas como José Eduardo Belmonte. E agora temos mais um destaque internacional, nascido em Brasília, para aplaudir. O repórter fotográfico brasiliense Ueslei Marcelino ganhou, na semana passada, o Pulitzer, o mais prestigioso prêmio de jornalismo nos Estados Unidos.

Quando Brasília foi idealizada, o plano era oferecer ao Brasil uma pequena cidade que servisse de capital do país. Quase seis décadas depois, ela tem as virtudes planejadas e problemas imprevisíveis, mas com potencial que surpreende a cada dia a quem presta atenção às características humanas e não físicas. É para a alma de Brasília, seu povo, que devemos olhar na comemoração de nosso aniversário, projetando nosso futuro. Quais problemas devemos superar e que cidade precisamos construir muito além da simples capital que o Brasil queria décadas atrás?

O editorial do domingo do nosso Correio Braziliense, outro de nossos belos produtos, lembra que no início se imaginava que as “mazelas como atraso, pobreza, miséria, corrupção, violência, desigualdade, ignorância, poluição” não continuariam na urbe traçada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Mas é obvio que continuem, porque não somos uma cidade esterilizada dos problemas brasileiros. Se fôssemos, não poderíamos ser a capital do Brasil.

Com os mesmos problemas do país, temos a chance e a obrigação de querer resolver nossas dificuldades urbanas, sabendo que será preciso ajudar o Brasil a sair de nossas questões nacionais. Brasília e sua gente deve participar da busca por novo rumo para o país; daqui formatarmos propostas, como fizemos no passado, e levarmos adiante a mobilização necessária para pressionar autoridades aqui sediadas a adotarem o caminho que o Brasil precisa.

Na década de 1950, o Brasil se uniu ao esforço de construir a nova capital. Quase 60 anos depois, é hora de Brasília se unir agora para ajudar a construir um novo país. Pelo exemplo de política sem corrupção, com prioridades na solução dos problemas de nossos pobres, mostrando como se implanta bons sistemas de saúde, segurança e educação, governando sem populismo e com responsabilidade. Parabéns a Brasília pelos feitos ao longo dos 59 anos passados e desde já pelo futuro a ser construído. Brasília é brasileira, ou não é Brasília. (Correio Braziliense – 23/04/2019)

Cristovam Buarque é ex-senador e professor emérito da UnB (Universidade de Brasilia)

59 anos: Paula Belmonte defende uma Brasília menos desigual

Na sessão solene que comemorou os 59 anos de Brasília, nesta segunda-feira (15), a deputada federal Paula Belmonte (DF) disse que a cidade é a concretização de um sonho que precisa continuar até que sejam conseguidas oportunidades de trabalho para os que precisam, menos desigualdades e dignidade para todos.

“Temos pessoas com potencial e garra para levar esse sonho adiante”, salientou.

Paula chegou a Brasília com três anos de idade. No discurso feito na Câmara, ela saudou os trabalhadores que vieram construir a cidade os que nela nasceram e aqueles que adotaram a capital como sua terra natal.

“A união de esforços, coragem e culturas formou uma cidade diversa, rica e que criou uma identidade própria”, disse a deputada.

Ao falar das dificuldades enfrentadas pelos brasilienses, a parlamentar repudiou a desigualdade, a fome e a miséria que grassam em muitas regiões de Brasília.

“Muito perto do Congresso Nacional, há famílias enfrentando a pobreza e a falta de creches, há crianças sofrendo violência e jovens sem emprego”, afirmou.

Segundo Paula Belmonte, falta muito para que crianças e jovens possam desfrutar de tudo o que Brasília tem a oferecer.

A parlamentar defendeu educação de qualidade e qualificação profissional para as crianças e jovens, além de oportunidade para que a vocação inovadora de Brasília floresça. Paula quer uma cidade mais próspera, justa e acolhedora.