Ciência, tecnologia e inovação precisam ser prioridades efetivas do governo, diz ex-presidente da Finep

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) critica em videoconferência da comissão mista da Covid-19 o congelamento de recursos para a ciência e tecnologia por parte do Executivo e cobra o descontingenciamento das verbas (Foto: Reprodução/Internet)

O ex-presidente da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), Glauco Arbix, disse que apesar de a ciência brasileira ser de ‘padrão mundial’ e o Brasil ocupar o segundo lugar como ‘maior produtor de artigos na área de ciências da vida, de agricultura, de ciências da terra’, falta ao País ‘respeitar a prioridade’.

“É preciso que ciência, tecnologia e inovação sejam prioridades efetivas de governo. Nem sempre, muitas vezes os governos falam, mas não atuam de modo correspondente. Então, esse é o primeiro ponto: tem que respeitar a prioridade, porque a prioridade é que vai dizer onde coloco os poucos recursos que temos, porque dificuldade todo mundo tem”, disse Arbix, ao responder questionamento da senadora Elizane Gama (MA) sobre qual o maior desafio da pesquisa de ciência e tecnologia no Brasil quanto orçamento da União, na reunião remota da comissão mista da Covid-19, nesta segunda-feira (17).

Eliziane Gama criticou durante a videoconferência o congelamento de recursos por parte do governo federal para a área, defendeu a aprovação do projeto (PLP 135/2020) que transforma o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) em fundo financeiro e também cobrou que o Executivo deve demonstrar que considera o setor estratégico. 

“A gente teve uma redução orçamentária drástica e não pode pensar em nada que não seja prioritário. Então, não  se pode dizer que é prioridade ciência e tecnologia, se eu não coloco “prioridade” na peça orçamentária. Portanto, eu só devo dizer que é prioridade quando eu também tenho isso na peça orçamentária. Eu acho que o [senador] Izalci [PSDB-DF] apresenta uma alternativa [PLP 135/2020] para resolver isso de fato, proibindo o contingenciamento orçamentária”, argumentou a parlamentar, vice-presidente da comissão mista da Covid-19.

Para a senadora, o não contingenciamento orçamentário é fundamental para o avanço da ciência e da pesquisa no Brasil.

“Sabemos que este é um momento crucial por conta de uma busca que o mundo inteiro faz pela efetividade de uma vacina [contra o coronavírus]. A Rússia, na verdade, apresenta agora [uma vacina], mas a gente sabe que essa tem que ser uma luta de todo o Brasil e de todo o mundo, e o Brasil atualmente não pode ficar em segundo plano”, disse.

Além da presença de Arbix, a videoconferência da comissão que acompanha  as ações do governo federal no enfrentamento à Covid-19 debateu os investimentos em pesquisa e desenvolvimento científico relacionadas à doença com Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências; Ildeu de Castro, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência); e Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Arnaldo Jardim defende preservação de verbas para ciência, tecnologia e inovação

O líder do Cidadania na Câmara, deputado Arnaldo Jardim (SP), disse, em pronunciamento feito nesta terça-feira (04), no plenário da Casa, que o contingenciamento de verbas destinadas à ciência, tecnologia e inovação leva ao comprometimento de projetos que precisam de “alimentação sistemática” para dar frutos  a médio e longo prazos.

O parlamentar falou sobre o manifesto em prol da preservação de recursos destinados à pesquisa assinado pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), ANPEI (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras), CNI (Confederação Nacional da Indústria) e Academia Brasileira de Ciência.  

“Estamos enfrentando a pandemia, mas já começamos a flertar com o pós-pandemia e não há dúvida de que o caminho para retomar o crescimento é o desafio da inovação e da produtividade”, afirmou o deputado.

Arnaldo Jardim é autor de emenda à LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) que impede o contingenciamento de recursos destinados à pesquisa na Embrapa.

Paula Belmonte defende mais investimentos em tecnologia

A deputada Paula Belmonte (Cidadania/DF) defendeu, nesta quarta-feira (24), a destinação de mais recursos para investimentos em tecnologia, durante audiência pública na comissão externa de  acompanhamento de ações do governo relativas ao combate ao coronavírus, com a presença do ministro Marcos Pontes (Ciência, Tecnologia e Inovações. “A tecnologia, a ciência e a inovação serão pauta em todos os ministérios”, disse a parlamentar. Paula Belmonte afirmou ainda que tem um compromisso sério com o setor. “Não podemos ficar dependentes no que diz respeito à tecnologia”.

Segundo Paula Belmonte, esses investimentos na área ajudarão o país a resolver desafios, como seu enorme território.  A deputada Carmen Zanotto (Cidadania/SC) apresentará projeto destinando R$ 5 bilhões à área de ciência e tecnologia.

“Temos de dar acesso à tecnologia, à internet, principalmente em lugares longínquos para dar visibilidade às pessoas que estão invisibilizadas”, argumentou Paula Belmonte. Segundo a parlamentar, por meio da rede de computadores seria possível  “salvar vidas, sonhos e dignidade”.

A parlamentar contou que conversou com um integrante da Marinha do Brasil sobre o estado do Amazonas.  A Força passa pelos rios daquela região de seis em seis meses. “Ele falou com lágrimas nos olhos sobre a situação das populações ribeirinhas,  que as crianças só são registradas a partir de três anos de idade porque os pais não sabem se vão sobreviver”, disse. A deputada acredita que a tecnologia pode ajudar essas pessoas.

Para físico, ‘etanol é uma das maiores realizações do Brasil’ no campo da ciência e tecnologia

Diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique Brito Cruz foi o entrevistado especial da 11ª edição da revista Política Democrática online, produzida pela FAP (Ilustração: Reprodução)

“Somos um país praticamente autossuficiente em energia para o transporte, gasolina e etanol, porque investiu-se muito em ciência, tecnologia e engenharia para achar petróleo no alto-mar e criar um substituto para o petróleo, o etanol, que vai nos automóveis. Essa história do etanol é uma das maiores realizações que o Brasil logrou no campo da ciência, tecnologia e engenharia”. A afirmação é de Carlos Henrique Brito Cruz, engenheiro eletrônico e físico, diretor científico da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ele foi o entrevistado especial da 11ª edição da Revista Política Democrática online (veja aqui).

A publicação digital é produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania 23. Ex-reitor da Unicamp, Carlos Henrique Brito Cruz está há 13 anos à frente da Diretoria Científica da Fapesp, instituição de fomento que, em geral, sofre menos com as intempéries de Brasília. Seu orçamento anual corresponde a 1% da receita tributária de São Paulo.

Brito Cruz destaca que, em todos os países onde se consegue criar desenvolvimento econômico e social usando ciência e tecnologia, há parte expressiva de recursos investidos na pesquisa, tanto pela universidade quanto por institutos de pesquisa governamentais e por empresas.

“No Brasil, há quem ache que o único lugar onde tem pesquisa é nas universidades; nem é assim nem é para ser assim. Nos Estados Unidos, o laboratório de pesquisa da Google tem mais cientistas de computação do que qualquer departamento de universidade americana. O mesmo ocorre com o laboratório da Microsoft. Na Boeing, Airbus, Embraer, a quantidade de engenheiros é impressionante. É desse jeito que funciona. A empresa está conectada com um mercado e com as demandas do consumidor”, diz

Segundo o físico, a universidade precisa também treinar as novas gerações de pesquisadores que vão trabalhar na empresa, no governo, na própria universidade e em institutos de pesquisa orientados a problemas ou temas específicos. Estes últimos, no Brasil, seriam os casos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), para elevar os índices de produtividade da agricultura; do Instituto Butantã, para melhorar a saúde dos brasileiros, ou do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de observação da terra, da floresta, das atividades espaciais. (Assessoria FAP)

Virmondes Cruvinel defende adoção do conceito de cidade inteligente em Goiânia

Pré-candidato a prefeito de Goiânia (GO), o deputado estadual do Cidadania de Goiás, Virmondes Cruvinel, disse em entrevista ao portal do partido que apostara no uso da tecnologia para tornar a administração pública mais eficiente e próxima da sociedade.

“Goiânia hoje é uma grande cidade com diversidade dentro da própria cidade, com bairros e regiões diferentes, mas com problemas comuns. Acredito que o Cidadania com essa pegada de fortalecer a pauta das cidades inteligentes pode avançar. A tecnologia pode ajudar na melhoria dos resultados de políticas públicas que venhamos adotar. Respostas mais rápidas para a sociedade e diminuição da burocracia, para garantir oportunidades com planejamento estratégico. Existe hoje um grande distanciamento e é preciso aproximar as pessoas da prefeitura. Goiânia tem grande potencial em usar essas ferramentas e se tornar uma referência como cidade inteligente”, disse.

Virmondes afirmou que a tecnologia tem grande potencial para otimizar a mobilidade urbana.

“Temos presenciado o uso de aplicativos como alternativas, além claro, do próprio transporte público. A questão dos motoristas de aplicativos é uma realidade. Acredito que bicicletas e patinetes podem ser agregadas e dar mais opções ao cidadão, além de contribuir na diminuição de engarrafamentos, associado com transportes não poluente. No controle de tráfego já usamos a tecnologia e ela passa no controle dos ônibus públicos, cumprimento do horário e rota. Isso tudo pode ser facilitado com o uso da tecnologia”, destacou.

Ele também destacou o uso da tecnologia na saúde pública e até mesmo na limpeza urbana.

“Vemos aí o caos do atendimento na área da saúde. Você percebe que existe grande dificuldade no atendimento primário. Atendimento que deve ser humanizado, mas a tecnologia pode ser usada para identificar onde podem estar os problemas. Vejo isso sendo associado em outras áreas, com a limpeza urbana, por exemplo. Podemos saber se os caminhões estão andando e o lixo recolhido devidamente, controle que pode, inclusive, ser feita via satélite. Acredito que Goiânia pode avançar ainda mais para que a gestão seja de resultados e não só de discurso”, afirmou.

Perfil

Procurador do Estado licenciado e professor universitário, o deputado estadual Virmondes Cruvinel defende a educação, o desenvolvimento sustentável, o empreendedorismo e os direitos sociais. É pré-candidato a prefeito de Goiânia, cidade em que foi o vereador mais votado, para implantar as bandeiras do Cidadania na gestão municipal.

Carmen Zanotto destaca uso de tecnologia no enfrentamento da violência contra a mulher

A deputada federal Carmen Zanotto (Cidadania-SC) destacou o uso da tecnologia no enfrentamento da violência contra a mulheres. Para ela, ferramentas, como aplicativos, podem contribuir para reduzir os alarmantes números do feminicídio no País.

“É importante que a ciência e a tecnologia sejam usadas na prevenção da violência contra as mulheres,  sobretudo no ambiente doméstico, onde acontece a maioria dos casos. Os números do feminicídio continuam alarmantes. Essa matança é uma vergonha para todos nós”, disse a parlamentar.

Carmen é autora do requerimento para a realização do seminário junto a colega do Cidadania, deputada feddelra Paula Belmonte (DF).

A declaração da parlamentar ocorreu durante o seminário realizado, nesta quinta-feira (27), pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados que debateu as novas tecnologias destinadas à prevenção e ao combate à violência contra a mulher.

Durante o evento, foram apresentados pelos palestrantes vários recursos tecnológicos que podem ser colocados à disposição das mulheres, dentre eles os aplicativos que denunciam os agressores e que fazem o reconhecimento facial do criminoso.

O Brasil ocupa 5ª pior posição no ranking mundial de homicídios de mulheres, sendo que 79% dos casos de violência acontecem dentro da própria residência.

A deputada catarinense chamou atenção para a responsabilidade das instituições e da sociedade civil no enfrentamento da violência contra a mulher. Segundo a parlamentar, apesar do aumento do feminicídio, o País começa a “acordar” para a questão, mas o problema nas pequenas cidades, sobretudo na área rural, é ainda mais grave.

“Nestes locais, os gritos de socorro das mulheres ainda não são ouvidos”, alertou.

Carmen Zanotto falou também sobre o aumento da violência contra a mulher em seu estado, Santa Catarina, onde só este ano houve 28 feminicídios, um aumento de 78% em relação a 2018.

Guarapuava é a 2ª cidade do Paraná em número de ideias em programas de inovação

O município de Guarapuava, no Paraná, dá um novo passo em seu processo de formação como cidade inovadora. A cidade foi destaque no maior programa de incentivo à inovação no estado, alcançando a marca de segunda cidade em número de ideias no Sinapse de Inovação (veja abaixo), programa que busca transformar projetos de estudantes, pesquisadores e profissionais em negócios de sucesso. Entre todos os municípios participantes no Paraná, Guarapuava ficou atrás apenas da capital Curitiba, superando cidades com mais tradição nessa área como Toledo, Pato Branco e Londrina.

“Esse é um resultado concreto de uma mudança de perfil, de ambiente em nossa cidade. Percebemos que há um ambiente focado em inovação se fortalecendo aqui e que está levando jovens, empresários e pesquisadores a pensar no ramo de tecnologia e inovação. Para nós, é motivo de orgulho e felicidade, com a sinalização concreta de que estamos no caminho certo”, comemorou o prefeito, Cesar Silvestri Filho, do Cidadania.

No total, Guarapuava teve 185 ideias submetidas neste programa. Em todo o estado, o setor de agronegócios teve grande destaque, alcançando o quarto lugar no número de ideias submetidas.

“Esse é um perfil que se aproxima da vocação de Guarapuava e por isso, fomentar ideias inovadoras neste setor é extremamente válido para nós. Temos em nossa cidade bases para iniciar esse processo com instituições privadas e públicas que favorecem a formação de um ambiente propício a inovação tecnológica”, acrescentou, Cesar Filho.

“Estamos mudando o perfil da nossa cidade. Não há futuro na economia sem que ela esteja atrelada a inovação e é exatamente isso que estamos buscando. Queremos criar na cidade uma vocação natural e um ambiente voltado para a inovação tecnológica, para que investimentos e projetos de sucesso sejam desenvolvidos aqui”, declarou o secretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Sandro Abdanur.

As próximas fases do programa selecionarão as 100 melhores idéias para receber fomento de R$ 40 mil em subvenção da Fundação Araucária. Ao longo de todo o processo, os participantes receberão também diversas capacitações para aprimorar e validar seus projetos. A iniciativa é promovida pela Fundação Certi (Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras) e realizado pelo governo estadual, por meio da Celepar e Fundação Araucária, com apoio do Sebrae e Sistema Fiep. (Prefeitura de Guarapuava)

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Fernando Gabeira: Os dilemas de Moro

Não posso dizer que o ministro Sergio Moro me surpreenda, porque não o conheço bem. Nem posso avaliar o êxito de sua escolha, pois o governo apenas começa, apesar de tantos episódios cheios de som e fúria, significando nada. Nos últimos meses, o Brasil vem reduzindo o número de assassinatos. A queda foi de 12,5% em 2018. Leio que em fevereiro a queda dos assassinatos no Ceará foi de 58%. Já analisei a situação do Ceará em artigos anteriores. Parte da derrocada do crime se deve à suicida ofensiva militar das facções.

Derrotadas, tiveram de unir objetivos e parou a matança mútua. Mas houve trabalho também por trás dessa redução. Do governo petista e de Moro. Um dos fatores foi a apreensão rápida dos carros roubados, graças às câmeras que identificam as placas e acionam o alarme. Carros roubados são fundamentais em ações criminosas. Era o momento de dizer: o índice de assassinatos está caindo, é possível reduzi-los, vamos discutir o que aconteceu e traçar os rumos do próximo avanço. Moro parece-me indiferente a esses dados. É provável que, no caso do Ceará, exista um pequeno incômodo: o sucesso parcial se deve a um trabalho conjunto com o governo petista.

Reconhecer as vantagens de uma ação republicana não repercute bem nas hostes radicais governistas. Mas, no meu entender, existe outro fator que condena o pequeno sucesso ao anonimato. Ele se deve também à tecnologia. Assim como em Guararema (SP), são as câmeras que fazem o trabalho – um trabalho decisivo. Num governo preocupado com espingardas e trabucos, a grande expectativa é a posse de armas para todos. O sucesso não interessa porque ele é resultado do avanço tecnológico, não comprova a ideologia oficial que vê nas armas a única salvação. Moro assistiu meio constrangido à assinatura de um decreto claramente ilegal para a liberação das armas.

É uma espécie de estatuto próprio de Bolsonaro, atropelando o Congresso e a lei. De que adianta ser ministro da Justiça e concordar com esse amadorismo bélico? De certa forma, Moro lembra a obra mestra da literatura alemã: Fausto, de Goethe. Bolsonaro sabe que Moro engole sapos no governo e tende a ser derrotado no Congresso. E relembra a compensação para tantos transtornos: um lugar no Supremo Tribunal Federal. Com todo o respeito pelo Supremo e pelos juízes que querem chegar lá como ápice de suas carreira, isso é um enredo modesto e provinciano diante das oportunidades que se abrem de construir uma eficaz política de segurança pública no Brasil. As afirmações de Bolsonaro sobre o compromisso de levar Moro ao Supremo, entre outras coisas, apenas reduzem a dimensão do que parecia ser até para ele um tema de grande importância.

Isso sem contar o absurdo de indicar um ministro para o Supremo com mais de um ano de antecedência, abstraindo as condições da Corte e os potenciais candidatos, algo que só pode ser levado em conta no momento da escolha. Moro tem um pacote anticrime e se empenha em aprová-lo, o que acho improvável em curto prazo e na integridade do texto. Mas isso não esgota o trabalho. Há muita coisa a fazer no campo da segurança pública e nem tudo está contido no pacote. Uma das coisas mais lamentáveis nos políticos é ocuparem um cargo pensando em outro. Alguns são derrotados por causa disso. Outros escapam pela tangente, como é o caso do governador de São Paulo. Essa história do Supremo acabou colocando Moro no mesmo patamar das pessoas que estão fazendo de seus postos apenas uma espécie de alavanca para o que consideram um salto maior. E nem sempre consideram com precisão.

De fato, seria uma bela carreira começar como juiz no interior do Paraná, conduzir importantes processos e conquistar ainda jovem uma cadeira no Supremo. Mas isso é um capítulo do livro “pessoas que deram certo”, que realizaram seus sonhos. Muitos podem achar que a soma de pessoas que deram certo faz um país vitorioso. Mas é um engano. É preciso um trabalho específico de recuperação do Brasil, que independe de promoções, promessas compensatórias. Uma política de segurança pública é algo essencial. No entanto, apesar de eleito com essa bandeira, Bolsonaro confia apenas nas armas e aponta os dedos como se estivesse atirando. Ao seu lado, numa foto meio patética, políticos e aspones apontam o dedo também como se estivessem atirando.

A base deixada por Temer e implementada por Jungmann precisa ser desenvolvida. Visitei no Ceará um centro de informações que será vital para o Nordeste. Agora foi inaugurado de vez. Inteligência e tecnologia, aos poucos, vão transformando o caos na segurança pública em algo administrável. Movidos por sua ideologia bélica, os dirigentes atuais seguem apontando os dedos como se atirassem. Não há provas da eficácia dessa visão. É um pouco como as cerimônias religiosas dos antigos para garantir a chuva e fertilidade. É preciso problematizar a solução pelas armas e Moro até agora não se dispôs a fazê-lo. Não foi pelas armas que a Lava Jato rendeu muitos elogios e prestígio internacional. Apoiei a operação por considerá- la a única capaz de desatar o nó da impunidade no Brasil, unindo instituições, estabelecendo a cooperação internacional, usando da melhor forma os recursos tecnológicos.

Se alguém me dissesse que o sonho de Moro era fazer tudo isso para ganhar uma cadeira no Supremo Tribunal, perguntaria: mas só isso? Moro decidiu entrar no governo para completar seu trabalho, uma vez que a Lava Jato dependia de novas leis. Agora, corre o risco de retrocesso e tudo o que lhe prometem é uma compensação, um cargo de ministro, uma capa preta, lagosta com manteiga queimada, vinhos quatro vezes premiados e espaço na TV para falas intermináveis. Mesmo o Doutor Fausto queria mais. (O Estado de S. Paulo – 17/05/2019)