Rosângela Bittar: Eleitores mútuos

Lula livre ou Lula preso, tanto faz para a política, neste momento. A diferença é para ele próprio e os seus: restabelecimento da vida privada. Assim, com estudada “nonchalance”, é avaliada a situação do ex-presidente no ranking sucessório e quando a discussão leva a prospecções para a campanha eleitoral que, já, já, bate à porta do calendário. A eleição municipal já bateu e entrou.

A esperança de que mantenha os pés atados, por causa da inelegibilidade, rompe-se no momento em que tiver sentenças anuladas, cessando as causas. Se a defesa comprovar, diante do tribunal, o vício de um só dos processos, os demais terão sua credibilidade em risco. Então, Lula fora da cadeia não é uma situação improvável, brevemente se saberá.

A questão é ver se terá condição legal para uma candidatura e pique para conduzi-la. Ou se, mesmo não sendo ele próprio o candidato, terá condições políticas de juntar os fragmentos do PT, escolher um candidato viável que não carregue a imagem negativa do partido, promover alianças e dar um salto triplo na volta por cima.

É a viabilidade política de uma atuação de Lula a partir de sua casa, e os resultados que poderá obter no campo eleitoral, o que seus adversários temem e o que divide opiniões apaixonadas (ainda, até hoje).

O lado da minoria congrega petistas e inimigos do PT desencantados com a mudança do governo no Brasil. Muitos acham que daria tudo certo com o Lula retornado, a política brasileira precisaria dele para fazer um contraponto de peso a Jair Bolsonaro. Que, por sua vez, não desceu do palanque e tudo indica que nele permanecerá até o fim, para manter vivo o como adversário, o PT. À semelhança de Lula, igual e da mesma forma.

Se não aparecer ninguém forte para fazer o contraponto e criar os dois polos entre os quais um terceiro possa avançar firme pelo meio, o atual governo pode se perenizar. É uma constatação e também uma ameaça para muitos. O forte seria Lula.

No grupo do vai dar certo estão os que consideram que o ex-presidente passará com facilidade pelo teste eleitoral do crime de corrupção. O argumento é que o petrolão, com o saque promovido pelo PT aos cofres da estatal para fins políticos, eleitorais e pessoais, é muito difícil de ser provado, daí partir-se para questões de mais fácil compreensão, comprovação e punição, como os casos do tríplex e do sítio. Entre esses crimes e aqueles relacionados à Petrobras, porém, há uma distância amazônica a ser demonstrada em campanha eleitoral.

Provavelmente, as privações e tratamento recebidos na prisão tenderão a ser mais fortes eleitoralmente do que os dois casos pelos quais já está sendo punido o ex-presidente. Ao lado disso, há as conversas hackeadas entre o juiz e o procurador da Lava-Jato que poderão comprovar, na argumentação da defesa, falta de isenção dos algozes de Lula. Caso para favorecer a imagem da vítima e garantir votos.

Não sendo ele próprio o candidato, é visto como a única pessoa que conseguiria tornar o PT funcional. É necessário, porém, domar seu ego e evitar confundir-se com o partido. “O PT não sou eu”, deve ser o lema de Lula para conseguir fazer algo pelo partido.

O distanciamento permitirá reconstruir, identificar novas lideranças e cuidar da sua reinserção no sistema político que, como se pode ver por todos os ângulos, está tão perdido quanto o PT. Desse ponto de vista é considerado a pessoa certa no lugar certo: tem cabeça organizada, continua com disposição e densidade eleitoral, que migrou quase totalmente para o Nordeste mas, enfim, ainda vasta.

Por incrível que pareça a volta de Lula, com todas as denúncias e acusações que sofreu, é vista por muitos, desse grupo, como uma contribuição ao processo civilizatório. Baixou muito o nível da política e não há sinais de que Jair Bolsonaro e seu quádruplo de governo (guru e três filhos), consigam levantá-lo. Ao contrário.

O grupo majoritário de apostas é o que acha que a volta de Lula não muda nada. A perspectiva é a política brasileira caminhar mais alguns anos na atual situação de indigência, sem que se permita surgirem opções para o eleitorado.

Bolsonaro não melhora sua agenda de caça aos costumes e ao mundo moderno e aposta na instabilidade. O PT contrapõe-se a Bolsonaro, não para melhorar o país mas para fazer oposição.

Lula não precisa estar livre para embaralhar a situação a seu favor. Afinal, foi trancafiado na prisão de Curitiba que arrebentou Ciro Gomes na eleição presidencial de 2018, determinou a escolha de Gleisi Hoffmann para presidente do partido e fez valer sua vontade na escolha do candidato do PT à sucessão presidencial.

Para esses grupos que não veem mudança favorável à política com a volta de Lula a alternativa petista não só nada resolve como gera novas crises porque sua agenda é tão desestabilizadora quanto a de Bolsonaro.

Num ponto todos concordam: haverá estabilidade se uma força com projeto diferente se enfiar entre os dois polos, mas para isso não é necessário ter Lula de volta à política.

A identificação de Bolsonaro com o PT é impressionante. Um se alimenta do risco da volta do outro, um é eleitor do outro. O escândalo feito pelo presidente com a suposta descoberta da contratação, pelo BNDES, de um quadro técnico que trabalhou nos governos petistas (e também nos governos tucanos e vários outros se mais velho fosse) é uma prova dessa identificação eleitoral. Palanqueiro como Lula, se Bolsonaro fosse demitir todos os funcionários que já trabalharam um dia nos governos do PT a Esplanada ficaria às moscas. Portanto, isso é pretexto, falta do que dizer, campanha permanente em prejuízo de seu governo.

A alternativa PT ajuda Bolsonaro a se manter, bem como governo como o de Bolsonaro facilita a naturalidade com que se vê uma possível volta de Lula à política.

Para os partidários do nada muda com a volta de Lula, o ex-presidente, no máximo, ficará administrando a disputa interna do PT. Não conseguirá criar um programa para o partido e seus grupos políticos, não terá liderança sobre as bancadas parlamentares, instâncias nas quais, hoje, emergem nomes novos, distantes daqueles marcados para perder.

Lula vai capitalizar parte da insatisfação com Bolsonaro, como Bolsonaro capitalizou parte da insatisfação com Lula. Mas há milhões de torcedores querendo sair desse jogo de zero a zero.

Seria um bom momento para aparecer uma carta na manga de algum iluminado da política. As chances de novidade, já mapeadas, seriam mais pela esquerda do que pela direita. Mas a esquerda está desunida e a culpa é de quem? Lula impede a aglutinação em torno de Ciro ou de uma candidatura do PSB. (Valor Econômico – 19/06/2019)

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras – E-mail: rosangela.bittar@valor.com.br

Rosângela Bittar: Guedes, qual o plano?

A Câmara, que vinha tendo um bom diálogo com o ministro da Economia, Paulo Guedes, graças à intermediação do presidente da Casa, Rodrigo Maia, já está saturada do seu estilo. Tanto quanto ele está agastado, ou apenas teatralmente desacorçoado, depois de dois entreveros e vários outros embates provocados pela impaciência do homem de mercado com os difíceis trâmites da negociação política.

Vários líderes têm cobrado ao ministro um plano para depois da aprovação da reforma da Previdência. O mínimo que se precisa saber é o que vem por ai para resolver outros graves problemas, vez que a reforma da Previdência só está inserida apenas na equação do equilibrio fiscal. O grande drama brasileiro hoje é o desemprego que só terá solução com o crescimento. São as medidas para atingir essa meta que estão na agenda de conversas entre o parlamento e o Ministério da Economia.

A reforma da Previdência, segundo afirmam os interlocutores de Guedes, já tem sua aprovação assegurada. Como dizem no próprio Ministério da Economia, é uma aprovação “precificada”. Terá mais impacto se não for aprovada do que quando for. Os parlamentares de liderança também consideram a Previdência resolvida, há uma convicção generalizada e crescente que poucos hoje reagirão a ela.

Com essa constatação, líderes foram ao ministro perguntar, mais de uma vez: “Guedes, qual o plano?” Ou seja, o que o governo fará para resolver os demais problemas que não são o ajuste fiscal? Constatam que o governo, mesmo no superministério, continua sem saber a que veio e para onde vai. O presidente Jair Bolsonaro, repetem os líderes, não sabe governar nem articular-se com os demais Poderes e por isso exige, com suas forças de pressão, que lhe deem de mão beijada e a custo zero o que precisa.

E o que responde Guedes, segundo relatos dos interessados em ouvi-lo: “Não temos nada ainda, vamos ver, vamos ver”. Como dizem seus interlocutores mais frequentes, o ministro da Economia já “pediu estudos”, outro expediente que usa muito no diálogo cotidiano para empurrar para a frente a definição de medidas que ainda não tem.

A ele foi explicado que a venda de armas e a agenda de costumes não resolve os problemas do Brasil. São manobras de distração, a agenda de entretenimento enquanto não se tem um plano.

O governo não se esforça para ter maioria no Congresso, ao contrário, sua base natural é menor do que a minoria, grupo de partidos de oposição que reune os de esquerda e alguns pequenos que não são tão hostis ao governo mas têm a força que vier a ter a minoria, como, por exemplo, a da obstrução. O PT, o PSB, o PDT, o Podemos, o Patriota, o Novo que, aliás, a cada situação muda seu pensamento e até agora não se sabe exatamente onde situá-lo, estão nesse grupo. O governo é menor, em tamanho, do que a minoria. Na maioria estão os partidos do Centrão mais o MDB, o DEM, o PSDB e outros tantos que totalizam cerca de 305 deputados.

O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, desde ontem encarregado da redação do pacto a ser assinado pelos três Poderes em torno da agenda restrita do governo – reforma da Previdência e tributária, pacote anticrime – de vez em quando vai ao Congresso conversar com líderes, sentir o clima, mas não tem se mostrado confiável para uma negociação, pois o governo não sabe o que quer. Tal como o presidente da República, o chefe da Casa Civil e articulador político fala uma coisa de manhã e outra bem diferente à tarde.

Os deputados e senadores governistas, ou que aprovam os pleitos do governo, precisam correr atrás da última versão para saber o que fazer. Segundo os especialistas no manejo do plenário, essa não é uma tarefa fácil. Possivelmente é a mais difícil das atividades do Parlamento. Como o governo não governa, não tem um plano, as três questões do pacto foram reunidas aproveitando os temas de seu teste nas ruas no domingo, ninguém sabe o que dar, de fato, a Jair Bolsonaro. Assim, justifica-se a pergunta ao ministro Guedes: se a Previdência for aprovada hoje, qual o interesse do governo na manhã seguinte?

“Estamos vendo, estamos vendo”, repete o superministro.

Ninguém nega a importância da aprovação da reforma da Previdência, cujo apoio já é majoritário, segundo a contabilidade de governistas. Se ainda não é, falta pouco. É fundamental. Mas só ela não resolve o crescimento, o emprego, todo o desequilíbrio fiscal. É preciso ter um conjunto de propostas que sigam paralelas para que os líderes não tenham que voltar lá atrás, no ponto zero, com um plenário já adiantado e esquentado pela reforma da Previdência e suas negociações.

Previdência, para o ajuste de contas, junta-se às medidas provisórias e decretos, editados às dezenas, para tirar a impressão de paralisia. Para o Congresso constituem agressão, invasão de atribuições.

Em avaliações feitas na Câmara, há o entendimento de que a causa do impacto na economia, que leva ao não crescimento e ao aumento do desemprego, é a desarrumação política, provocada pelo próprio governo. Quando isso fica claro, investidores se retraem e não entram no jogo, por desconfiança. Já foi gasta a expectativa positiva com relação ao governo Bolsonaro, prevista para durar 100 dias. Como nada aconteceu, os simpatizantes refluíram. Em lugar de tomar providências urgentes de governo, o presidente Bolsonaro acabou promovendo um reforço no apoio a ele do seu eleitorado, convocando-o a explicitar a aprovação nas ruas. Um movimento significativo, mas não o suficiente para levantar a gestão. Se não houver resposta, o passo seguinte será a desmobilização, inclusive dos empresários bolsonaristas, do setor produtivo. Há um risco enorme de criar-se um círculo vicioso, com demissões e mais desemprego.

Sem atrasar a Previdência, os principais partidos, na Câmara, defendem que sejam impulsionados, ao mesmo tempo, a reforma tributária, atos de regulação de vários setores, acordos de parcerias público-privadas nos municípios, uma reforma que realmente corrija o guloso e viciado sistema tributário, considerada a grande frustração dessa geração de políticos.

Iniciativas que levem o Estado a entregar à população educação, saúde, segurança, transporte público. Guedes, na visão de líderes, não tem planos para nada disso. Ao defini-lo, seus interlocutores fazem uma caricatura, carinhosamente: “É o vendedor de rede na praia do Nordeste”. O freguês fica satisfeito com o que ouve, o discurso é bem construído, mas há muita coisa que não se faz no espaço de um governo, como a capitalização, por exemplo. O resultado é a confusão dos sonhos com a realidade. (Valor Econômico – 29/05/2019)

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras – E-mail: rosangela.bittar@valor.com.br