Na ONU, Bolsonaro ataca países e “falácia” sobre Amazônia

Em um tom agressivo, em que atacou os governos de França, Venezuela e Cuba, o socialismo e o ambientalismo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) abriu nesta terça-feira (25) a 74ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) com um discurso semelhante ao que permeou sua candidatura à Presidência, no ano passado.

Na fala, o presidente não poupou sequer a própria ONU. Em um discurso ideológico, apontou ações que classificou como ameaças à soberania do Brasil. Ao falar da Amazônia, o mandatário classificou como “falácia” a ideia de que a floresta é um patrimônio da humanidade.

O presidente brasileiro atacou “sistemas ideológicos de pensamento”, que segundo ele estariam invadindo escolas, universidades, meios de comunicação e a “família”, sob a acusação de tentar subverter o sexo biológico das crianças.

As declarações aparecem à sombra da chamada “ideologia de gênero”, expressão que não é reconhecida na comunidade acadêmica, mas vem sendo usada por grupos conservadores e ligados à direita para criticar discussões sobre diversidade sexual e de gênero.

Veja a seguir a íntegra do discurso e abaixo o vídeo.

Senhor Presidente da Assembleia Geral, Tijjani Muhammad-Bande, Senhor Secretário-Geral da ONU, António Guterres, Chefes de Estado, de Governo e de Delegação, Senhoras e Senhores,

Apresento aos senhores um novo Brasil, que ressurge depois de estar à beira do socialismo.

Um Brasil que está sendo reconstruído a partir dos anseios e dos ideais de seu povo. No meu governo, o Brasil vem trabalhando para reconquistar a confiança do mundo, diminuindo o desemprego, a violência e o risco para os negócios, por meio da desburocratização, da desregulamentação e, em especial, pelo exemplo.

Meu país esteve muito próximo do socialismo, o que nos colocou numa situação de corrupção generalizada, grave recessão econômica, altas taxas de criminalidade e de ataques ininterruptos aos valores familiares e religiosos que formam nossas tradições.

Em 2013, um acordo entre o governo petista e a ditadura cubana trouxe ao Brasil 10 mil médicos sem nenhuma comprovação profissional. Foram impedidos de trazer cônjuges e filhos, tiveram 75% de seus salários confiscados pelo regime e foram impedidos de usufruir de direitos fundamentais, como o de ir e vir.

Um verdadeiro trabalho escravo, acreditem…

Respaldado por entidades de direitos humanos do Brasil e da ONU! Antes mesmo de eu assumir o governo, quase 90% deles deixaram o Brasil, por ação unilateral do regime cubano. Os que decidiram ficar se submeterão à qualificação médica para exercer sua profissão.

Deste modo, nosso país deixou de contribuir com a ditadura cubana, não mais enviando para Havana 300 milhões de dólares todos os anos.

A história nos mostra que, já nos anos 60, agentes cubanos foram enviados a diversos países para colaborar com a implementação de ditaduras.

Há poucas décadas tentaram mudar o regime brasileiro e de outros países da América Latina.

Foram derrotados!

Civis e militares brasileiros foram mortos e outros tantos tiveram suas reputações destruídas, mas vencemos aquela guerra e resguardamos nossa liberdade.

Na Venezuela, esses agentes do regime cubano, levados por Hugo Chávez, também chegaram e hoje são aproximadamente 60 mil, que controlam e interferem em todas as áreas da sociedade local, principalmente na Inteligência e na Defesa.

A Venezuela, outrora um país pujante e democrático, hoje experimenta a crueldade do socialismo.

O socialismo está dando certo na Venezuela!

Todos estão pobres e sem liberdade!

O Brasil também sente os impactos da ditadura venezuelana. Dos mais de 4 milhões que fugiram do país, uma parte migrou para o Brasil, fugindo da fome e da violência. Temos feito a nossa parte para ajudá-los, através da Operação Acolhida, realizada pelo Exército Brasileiro e elogiada mundialmente.

Trabalhamos com outros países, entre eles os EUA, para que a democracia seja restabelecida na Venezuela, mas também nos empenhamos duramente para que outros países da América do Sul não experimentem esse nefasto regime.

O Foro de São Paulo, organização criminosa criada em 1990 por Fidel Castro, Lula e Hugo Chávez para difundir e implementar o socialismo na América Latina, ainda continua vivo e tem que ser combatido.

Senhoras e Senhores,

Em busca de prosperidade, estamos adotando políticas que nos aproximem de países outros que se desenvolveram e consolidaram suas democracias.

Não pode haver liberdade política sem que haja também liberdade econômica. E vice-versa. O livre mercado, as concessões e as privatizações já se fazem presentes hoje no Brasil.

A economia está reagindo, ao romper os vícios e amarras de quase duas décadas de irresponsabilidade fiscal, aparelhamento do Estado e corrupção generalizada. A abertura, a gestão competente e os ganhos de produtividade são objetivos imediatos do nosso governo.

Estamos abrindo a economia e nos integrando às cadeias globais de valor. Em apenas oito meses, concluímos os dois maiores acordos comerciais da história do país, aqueles firmados entre o Mercosul e a União Europeia e entre o Mercosul e a Área Europeia de Livre Comércio, o EFTA.

Pretendemos seguir adiante com vários outros acordos nos próximos meses. Estamos prontos também para iniciar nosso processo de adesão à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Já estamos adiantados, adotando as práticas mundiais mais elevadas em todo os terrenos, desde a regulação financeira até a proteção ambiental.

Senhorita YSANY KALAPALO, agora vamos falar de Amazônia.

Em primeiro lugar, meu governo tem um compromisso solene com a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável em benefício do Brasil e do mundo.

O Brasil é um dos países mais ricos em biodiversidade e riquezas minerais.

Nossa Amazônia é maior que toda a Europa Ocidental e permanece praticamente intocada. Prova de que somos um dos países que mais protegem o meio ambiente.

Nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas. Vale ressaltar que existem também queimadas praticadas por índios e populações locais, como parte de sua respectiva cultura e forma de sobrevivência.

Problemas qualquer país os tem. Contudo, os ataques sensacionalistas que sofremos por grande parte da mídia internacional devido aos focos de incêndio na Amazônia despertaram nosso sentimento patriótico.

É uma falácia dizer que a Amazônia é patrimônio da humanidade e um equívoco, como atestam os cientistas, afirmar que a nossa floresta é o pulmão do mundo.

Valendo-se dessas falácias, um ou outro país, em vez de ajudar, embarcou nas mentiras da mídia e se portou de forma desrespeitosa, com espírito colonialista.

Questionaram aquilo que nos é mais sagrado: a nossa soberania! Um deles por ocasião do encontro do G7 ousou sugerir aplicar sanções ao Brasil, sem sequer nos ouvir. Agradeço àqueles que não aceitaram levar adiante essa absurda proposta.

Em especial, ao Presidente Donald Trump, que bem sintetizou o espirito que deve reinar entre os países da ONU: respeito à liberdade e à soberania de cada um de nós.

Hoje, 14% do território brasileiro está demarcado como terra indígena, mas é preciso entender que nossos nativos são seres humanos, exatamente como qualquer um de nós. Eles querem e merecem usufruir dos mesmos direitos de que todos nós.

Quero deixar claro: o Brasil não vai aumentar para 20% sua área já demarcada como terra indígena, como alguns chefes de Estados gostariam que acontecesse.

Existem, no Brasil, 225 povos indígenas, além de referências de 70 tribos vivendo em locais isolados. Cada povo ou tribo com seu cacique, sua cultura, suas tradições, seus costumes e principalmente sua forma de ver o mundo.

A visão de um líder indígena não representa a de todos os índios brasileiros. Muitas vezes alguns desses líderes, como o Cacique Raoni, são usados como peça de manobra por governos estrangeiros na sua guerra informacional para avançar seus interesses na Amazônia.

Infelizmente, algumas pessoas, de dentro e de fora do Brasil, apoiadas em ONGs, teimam em tratar e manter nossos índios como verdadeiros homens das cavernas.

O Brasil agora tem um presidente que se preocupa com aqueles que lá estavam antes da chegada dos portugueses. O índio não quer ser latifundiário pobre em cima de terras ricas. Especialmente das terras mais ricas do mundo. É o caso das reservas Ianomâmi e Raposa Serra do Sol. Nessas reservas, existe grande abundância de ouro, diamante, urânio, nióbio e terras raras, entre outros.

E esses territórios são enormes. A reserva Ianomâmi, sozinha, conta com aproximadamente 95 mil km2 , o equivalente ao tamanho de Portugal ou da Hungria, embora apenas 15 mil índios vivam nessa área.

Isso demonstra que os que nos atacam não estão preocupados com o ser humano índio, mas sim com as riquezas minerais e a biodiversidade existentes nessas áreas.

A Organização das Nações Unidas teve papel fundamental na superação do colonialismo e não pode aceitar que essa mentalidade regresse a estas salas e corredores, sob qualquer pretexto.

Não podemos esquecer que o mundo necessita ser alimentado. A França e a Alemanha, por exemplo, usam mais de 50% de seus territórios para a agricultura, já o Brasil usa apenas 8% de terras para a produção de alimentos.

Sessenta e um por cento do nosso território é preservado!

Nossa política é de tolerância zero para com a criminalidade, aí incluídos os crimes ambientais.

Quero reafirmar minha posição de que qualquer iniciativa de ajuda ou apoio à preservação da Floresta Amazônica, ou de outros biomas, deve ser tratada em pleno respeito à soberania brasileira.

Também rechaçamos as tentativas de instrumentalizar a questão ambiental ou a política indigenista, em prol de interesses políticos e econômicos externos, em especial os disfarçados de boas intenções.

Estamos prontos para, em parcerias, e agregando valor, aproveitar de forma sustentável todo nosso potencial.

O Brasil reafirma seu compromisso intransigente com os mais altos padrões de direitos humanos, com a defesa da democracia e da liberdade, de expressão, religiosa e de imprensa. É um compromisso que caminha junto com o combate à corrupção e à criminalidade, demandas urgentes da sociedade brasileira.

Seguiremos contribuindo, dentro e fora das Nações Unidas, para a construção de um mundo onde não haja impunidade, esconderijo ou abrigo para criminosos e corruptos.

Em meu governo, o terrorista italiano Cesare Battisti fugiu do Brasil, foi preso na Bolívia e extraditado para a Itália. Outros três terroristas paraguaios e um chileno, que viviam no Brasil como refugiados políticos, também foram devolvidos a seus países.

Terroristas sob o disfarce de perseguidos políticos não mais encontrarão refúgio no Brasil.

Há pouco, presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento, tudo por um projeto de poder absoluto.

Foram julgados e punidos graças ao patriotismo, perseverança e coragem de um juiz que é símbolo no meu país, o Dr. Sergio Moro, nosso atual Ministro da Justiça e Segurança Pública.

Esses presidentes também transferiram boa parte desses recursos para outros países, com a finalidade de promover e implementar projetos semelhantes em toda a região. Essa fonte de recursos secou.

Esses mesmos governantes vinham aqui todos os anos e faziam descompromissados discursos com temas que nunca atenderam aos reais interesses do Brasil nem contribuíram para a estabilidade mundial. Mesmo assim, eram aplaudidos.

Em meu país, tínhamos que fazer algo a respeito dos quase 70 mil homicídios e dos incontáveis crimes violentos que, anualmente, massacravam a população brasileira. A vida é o mais básico dos direitos humanos. Nossos policiais militares eram o alvo preferencial do crime. Só em 2017, cerca de 400 policiais militares foram cruelmente assassinados. Isso está mudando.

Medidas foram tomadas e conseguimos reduzir em mais de 20% o número de homicídios nos seis primeiros meses de meu governo.

As apreensões de cocaína e outras drogas atingiram níveis recorde.

Hoje o Brasil está mais seguro e ainda mais hospitaleiro. Acabamos de estender a isenção de vistos para países como Estados Unidos, Japão, Austrália e Canadá, e estamos estudando adotar medidas similares para China e Índia, dentre outros.

Com mais segurança e com essas facilidades, queremos que todos possam conhecer o Brasil, e em especial, a nossa Amazônia, com toda sua vastidão e beleza natural.

Ela não está sendo devastada e nem consumida pelo fogo, como diz mentirosamente a mídia. Cada um de vocês pode comprovar o que estou falando agora.

Não deixem de conhecer o Brasil, ele é muito diferente daquele estampado em muitos jornais e televisões!

A perseguição religiosa é um flagelo que devemos combater incansavelmente.

Nos últimos anos, testemunhamos, em diferentes regiões, ataques covardes que vitimaram fiéis congregados em igrejas, sinagogas e mesquitas.

O Brasil condena, energicamente, todos esses atos e está pronto a colaborar, com outros países, para a proteção daqueles que se veem oprimidos por causa de sua fé.

Preocupam o povo brasileiro, em particular, a crescente perseguição, a discriminação e a violência contra missionários e minorias religiosas, em diferentes regiões do mundo.

Por isso, apoiamos a criação do ‘Dia Internacional em Memória das Vítimas de Atos de Violência baseados em Religião ou Crença’.

Nessa data, recordaremos anualmente aqueles que sofrem as consequências nefastas da perseguição religiosa.

É inadmissível que, em pleno Século XXI, com tantos instrumentos, tratados e organismos com a finalidade de resguardar direitos de todo tipo e de toda sorte, ainda haja milhões de cristãos e pessoas de outras religiões que perdem sua vida ou sua liberdade em razão de sua fé.

A devoção do Brasil à causa da paz se comprova pelo sólido histórico de contribuições para as missões da ONU.

Há 70 anos, o Brasil tem dado contribuição efetiva para as operações de manutenção da paz das Nações Unidas.

Apoiamos todos os esforços para que essas missões se tornem mais efetivas e tragam benefícios reais e concretos para os países que as recebem.

Nas circunstâncias mais variadas – no Haiti, no Líbano, na República Democrática do Congo –, os contingentes brasileiros são reconhecidos pela qualidade de seu trabalho e pelo respeito à população, aos direitos humanos e aos princípios que norteiam as operações de manutenção de paz.

Reafirmo nossa disposição de manter contribuição concreta às missões da ONU, inclusive no que diz respeito ao treinamento e à capacitação de tropas, área em que temos reconhecida experiência.

Ao longo deste ano, estabelecemos uma ampla agenda internacional com intuito de resgatar o papel do Brasil no cenário mundial e retomar as relações com importantes parceiros.

Em janeiro, estivemos em Davos, onde apresentamos nosso ambicioso programa de reformas para investidores de todo o mundo.

Em março, visitamos Washington, onde lançamos uma parceria abrangente e ousada com o governo dos Estados Unidos em todas as áreas, com destaque para a coordenação política e para a cooperação econômica e militar.

Ainda em março, estivemos no Chile, onde foi lançado o PROSUL, importante iniciativa para garantir que a América do Sul se consolide como um espaço de democracia e de liberdade.

Na sequência, visitamos Israel, onde identificamos inúmeras oportunidades de cooperação em especial na área de tecnologia e segurança. Agradeço a Israel o apoio no combate aos recentes desastres ocorridos em meu país.

Visitamos também um de nossos grandes parceiros no Cone Sul, a Argentina. Com o Presidente Mauricio Macri e nossos sócios do Uruguai e do Paraguai, afastamos do Mercosul a ideologia e conquistamos importantes vitórias comerciais, ao concluir negociações que já se arrastavam por décadas.

Ainda este ano, visitaremos importantes parceiros asiáticos, tanto no Extremo Oriente quanto no Oriente Médio. Essas visitas reforçarão a amizade e o aprofundamento das relações com Japão, China, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar. Pretendemos seguir o mesmo caminho com todo o mundo árabe e a Ásia.

Também estamos ansiosos para visitar nossos parceiros, e amigos, na África, na Oceania e na Europa.

Como os senhores podem ver, o Brasil é um país aberto ao mundo, em busca de parcerias com todos os que tenham interesse de trabalhar pela prosperidade, pela paz e pela liberdade.

Senhoras e Senhores,

O Brasil que represento é um país que está se reerguendo, revigorando parcerias e reconquistando sua confiança política e economicamente.

Estamos preparados para assumir as responsabilidades que nos cabem no sistema internacional.

Durante as últimas décadas, nos deixamos seduzir, sem perceber, por sistemas ideológicos de pensamento que não buscavam a verdade, mas o poder absoluto.

A ideologia se instalou no terreno da cultura, da educação e da mídia, dominando meios de comunicação, universidades e escolas.

A ideologia invadiu nossos lares para investir contra a célula mater de qualquer sociedade saudável, a família.

Tentam ainda destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica.

O politicamente correto passou a dominar o debate público para expulsar a racionalidade e substituí-la pela manipulação, pela repetição de clichês e pelas palavras de ordem.

A ideologia invadiu a própria alma humana para dela expulsar Deus e a dignidade com que Ele nos revestiu.

E, com esses métodos, essa ideologia sempre deixou um rastro de morte, ignorância e miséria por onde passou.

Sou prova viva disso. Fui covardemente esfaqueado por um militante de esquerda e só sobrevivi por um milagre de Deus. Mais uma vez agradeço a Deus pela minha vida.

A ONU pode ajudar a derrotar o ambiente materialista e ideológico que compromete alguns princípios básicos da dignidade humana. Essa organização foi criada para promover a paz entre nações soberanas e o progresso social com liberdade, conforme o preâmbulo de sua Carta.

Nas questões do clima, da democracia, dos direitos humanos, da igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, e em tantas outras, tudo o que precisamos é isto: contemplar a verdade, seguindo João 8,32:

– ‘E conheceis a verdade, e a verdade vos libertarás’.

Todos os nossos instrumentos, nacionais e internacionais, devem estar direcionados, em última instância, para esse objetivo.

Não estamos aqui para apagar nacionalidades e soberanias em nome de um ‘interesse global’ abstrato.

Esta não é a Organização do Interesse Global!

É a Organização das Nações Unidas. Assim deve permanecer!

Com humildade e confiante no poder libertador da verdade, estejam certos de que poderão contar com este novo Brasil que aqui apresento aos senhores e senhoras.

Agradeço a todos pela graça e glória de Deus!

Meu muito obrigado.

Presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU

Veja o discurso do Presidente Jair Messias Bolsonaro na abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU ( Nações Unidas em Nova York).

Publicado por Agência Brasil em Terça-feira, 24 de setembro de 2019

 

Discurso de governador do Amapá na ONU sobre Amazônia é barrado pelo Itamaraty

Itamaraty barra discurso de governador do Amapá sobre Amazônia na ONU

Governador do Amapá, Waldez Góes (PDT), falaria em encontro sobre desmatamento

Patrícia Campos Mello, Marina Dias – Folha de S. Paulo

O Itamaraty intercedeu para que o presidente do Consórcio Amazônia Legal, o governador do Amapá, Waldez Góes (PDT), tivesse seu discurso cancelado durante encontro organizado pela França, Chile e Colômbia para discutir o desmatamento na Amazônia, às margens da Cúpula do Clima nas Organizações das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Com isso, na reunião, não houve nenhuma fala sobre Amazônia de um representante brasileiro.

Segundo a Folha apurou com fontes diplomáticas, o governador foi convidado formalmente pelos presidentes Emmanuel Macron, da França, Sebastián Piñera, do Chile, e Iván Duque, da Colômbia, na segunda-feira passada (16), para participar do encontro que foi realizado na manhã desta segunda-feira (23).

Mas segundo relataram fontes diplomáticas, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, protestou contra o fato de um representante de governo estadual ser convidado para representar a Amazônia no encontro enquanto o governo federal não estaria presente. A Colômbia então teria passado a se opor ao convite para o discurso.

“Desde 4ª feira a Colômbia, sob pressão do Ministro Araújo, cria grandes obstáculos à participação de autoridades estaduais”, diz mensagem enviada por organizadores do encontro e obtida pela Folha.

No encontro, o presidente Macron anunciou que o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a ONG Conservação Internacional vão doar US$ 500 milhões para combate ao desmatamento da Amazônia e de outras florestas tropicais.

“Eu tinha recebido convite para participar e falar enquanto autoridade regional, mas depois, pelas informações que tivemos, a Colômbia teria criado problema, dada a relação com o governo do Brasil”, disse à Folha o governador Waldez Góes.

Segundo ele, como o governo federal brasileiro não participou, dependeria do consenso entre Chile, Colômbia e França decidir sobre a possível fala regional, e “a Colômbia disse que vetaria.”

“É lamentável porque queríamos que houvesse um representante brasileiro falando para o mundo sobre a Amazônia. É um debate necessário para a humanidade.”, disse Waldez, que apenas assistiu à reunião.

O Itamaraty nega que tenha havido ingerência para impedir o governador de falar.

“A notícia é falsa e não tem fundamento. Não temos qualquer participação na cúpula, direta ou indiretamente. Não houve qualquer intervenção brasileira direta ou por intermédio de outro país.”, disse o ministério, em nota. Segundo o Itamaraty, o veto pode ter sido iniciativa de “países amigos do Brasil”, o que não quer dizer que tenha havido pedido ou gestão do ministério.

Waldez publicou no Twitter um vídeo em que cumprimenta o presidente Emmanuel Macron na manhã desta segunda (23). Macron trocou farpas com o presidente Bolsonaro por causa das queimadas na Amazônia e de menção do líder brasileiro à esposa do francês.

Waldez também tuitou parte do discurso de Macron: “O Brasil é bem vindo, eu acho que todos devem trabalhar com o Brasil, com os Estados da região. É bom que isso aconteça de forma respeitosa. As próximas semanas permitirão uma solução política que será um avanço.”

Emmanuel Macron, presidente da França, na Cúpula do Clima da ONU: “O Brasil é bem vindo, eu acho que todos devem trabalhar com o Brasil, com os Estados da região. É bom que isso aconteça de forma respeitosa. As próximas semanas permitirão uma solução política que será um avanço”.

O embaixador da França no Brasil, Michel Miraillet, retuitou a mensagem de Waldez, dizendo: “Muito abrigado [sic] governador Waldez Goes pelo trabalho liderando o consórcio dos governadores da Amazônia”.

O Brasil já havia sido excluído da lista de discursos oficiais da cúpula do clima por não ter apresentado nenhum plano para aumentar o compromisso com o clima.

O Consórcio da Amazônia Legal, formado por Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, vem se movimentando para negociar diretamente com o G7 e com países como França, Alemanha, Noruega e Reino Unido projetos de proteção à Amazônia e obtenção de recursos, uma vez que o governo federal vem bloqueando iniciativas.

Os governadores do consórcio da Amazônia se reuniram neste mês com embaixadores da Alemanha, da França, do Reino Unido e da Noruega, entre os principais doadores de recursos para proteção da Amazônia. Eles terão uma segunda rodada de reuniões com esses embaixadores em outubro. Os governadores negociam a manutenção do Fundo da Amazônia e outros programas de financiamento.

“Deixamos claro que, enquanto estados e consórcio da Amazônia, temos personalidade jurídica para negociar”, diz Waldez.

A pedido de Carmen Zanotto, Câmara promove nesta quarta-feira debate sobre gravidez na adolescência

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara promoverá nesta quarta-feira (11) seminário para debater “Gravidez na Adolescência: para além de direitos, uma questão de desenvolvimento”. O evento será realizado, das 10h às 12h, no Auditório Nereu Ramos, no Anexo 2, da Casa. O evento ocorre por proposição da deputada federal Carmen Zanotto (Cidadania-SC). 

Após o debate, também está prevista uma instalação com imagens e informações sobre a situação da gravidez não intencional na adolescência e juventude, produzida pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), e que ficará disponível para visitantes da Câmara no Espaço Mário Covas.

Dados do Ministério da Saúde apontam que cerca de 18% dos nascimentos no Brasil são de mães com 19 anos ou menos. De acordo com a deputada Carmen Zanotto, além dos impactos na vida das adolescentes e de suas famílias, a gravidez não intencional na adolescência tende a representar um agravante também do ponto de vista econômico e na superação de desigualdades.

“Estudos indicam que jovens com melhor nível educacional, melhor saúde e habilitadas a exercer seus direitos e cidadania tendem a ser mais autônomas e produtivas. Isso tem um impacto positivo nas economias dos países”, reforçou.

Participação

Participam da mesa de abertura a representante auxiliar do UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) – organismo da ONU responsável por questões populacionais -, Júnia Quiroga; a coordenadora de Práticas Empresariais do Instituto Ethos, Sheila Carvalho; e o diretor do Departamento de Ações Estratégicas Programáticas (DAPES) do Ministério da Saúde, Maximiliano das Chagas. A mesa de debates será composta pela oficial de programa em Saúde Sexual e Reprodutiva da UNFPA, Anna Cunha; secretária da Mulher do Distrito Federal, Ericka Filippelli; a diretora-adjunta da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea; o representante da empresa Semina, Dimitri Moufarrege; e Laila Moraes da Silva, do projeto Liderança Jovem Salesiana.

O evento terá transmissão ao vivo pelo YouTube e página da Comissão.

Mais de 821 milhões de pessoas no mundo passaram fome em 2018

Relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) revela que uma pessoa a cada 10, na população de todo o planeta, passou fome no ano passado. O número totaliza 821,6 milhões de pessoas. Se considerada pessoas em condição “moderada” de insegurança alimentar, o total chega a 2 bilhões ou 26,4% da população mundial.

Conforme o documento Estado da Insegurança Alimentar e Nutricional no Mundo, desde 2015, a taxa de prevalência de desnutrição em todo mundo parou de cair e manteve-se em 11%.

“A prevalência da insegurança alimentar moderada ou grave é baseada na escala de experiência de insegurança alimentar. Esse indicador vai além da fome e fornece uma estimativa do número de pessoas sem acesso estável a alimentos nutritivos e suficientes durante todo o ano”, diz o relatório.

O estudo destaca a gravidade da situação infantil. É o caso dos 20,5 milhões de bebês que nasceram abaixo do peso (um em cada sete nascidos); dos 148,9 milhões de crianças menores de 5 anos com estatura baixa para a idade (21,9%); e dos 49,5 milhões menores de 5 anos com peso baixo em relação à altura (7,3%).

Continentes

Segundo o relatório, no ano passado, a Ásia – especialmente o sul do continente – teve o maior número absoluto de pessoas com fome: 513,9 milhões no total. Na África, 256,1 milhões de indivíduos estavam nessa situação e na América Latina e no Caribe, 42,5 milhões.

Em termos proporcionais, a situação é mais grave no lado oriental da África, onde uma de cada três pessoas (30,8%) está subnutrida. A ONU aponta como causas os conflitos locais, fenômenos climáticos e a retração econômica.

“Juntos, a África e a Ásia têm a maior parcela de todas as formas de desnutrição, sendo responsáveis por mais de nove entre 10 crianças com atraso no crescimento e mais de nove entre 10 crianças com debilitação em todo o mundo”, assinala a nota da ONU.

Lusófonos

Apesar de identificar fome, a nota da ONU faz destaque positivo entre os países lusófonos – falantes da língua portuguesa -, em especial do Brasil.

“Nos últimos 12 anos, vamos dizer, a prevalência da subalimentação em Angola caiu pela metade, de 55% para 25% da população e em Moçambique também, a prevalência da subalimentação caiu no mesmo período, de 37% para 28%. Ou seja, em ambos os países, a tendência é positiva, porém, a situação continua preocupante. Em Cabo Verde e no Brasil, a situação é melhor. Em Cabo Verde, a fome atingiu 13% da população e menos de 2,5% da população no Brasil”, descreve o relatório.

O documento foi lançado por cinco agências da ONU, a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação); a OMS (Organização Mundial da Saúde); a Acnur, agência da ONU para Refugiados; o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância); o PMA (Programa Mundial de Alimentação); e o Ocha (Escritório das Nações Unidas de Assistência Humanitária).

Além dos problemas de fome e desnutrição, o relatório da ONU aponta para o problema de obesidade.

“Em 2018, a estimativa é de que 40 milhões de crianças menores de 5 anos estavam acima do peso”, diz a nota da ONU. (Agência Brasil)

Andrea Jubé: Fogos de inquietação

Cinco dias após deixar o governo, o general de divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz mantém a agenda cheia. É palestrante convidado do congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no dia 27. Nos dias 10 e 11 de julho, participa de evento sobre missões de paz na sede das Organizações das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

Dispensado pelo presidente Jair Bolsonaro na última quinta-feira, após sucessivos ataques do escritor Olavo de Carvalho e de seus sequazes, Santos Cruz é um quadro concorrido na esfera internacional: depois de chefiar as missões de paz no Haiti (de 2007 a 2009) e no Congo (de 2013 a 2015), tornou-se consultor da ONU. Fluente em inglês, francês e espanhol, e conhecedor de russo, proferiu cursos e palestras em dezenas de países. Quando foi convidado para ser ministro, estava em Bangladesh, ministrando um curso para comandantes militares.

Apesar do bombardeio do grupo de Olavo, Santos Cruz nega que tenha sido uma “guerra” trabalhar no governo. “A política tem uma conotação às vezes não muito boa, mas eu não saio desiludido com a política”, disse à coluna. “Encontrei muitas pessoas boas interessadas em trabalhar. A política é um jogo de interesses, mas não precisa ser desonesto por causa disso”.

Questionado sobre o motivo de sua saída da Secretaria de Governo, ele pondera que só o presidente da República tem a resposta. Para interlocutores de Bolsonaro, Santos Cruz teria adotado uma postura de intransigência à frente do ministério, como se tentasse aplicar à política a rigidez de um quartel. O general refuta essa versão. Forjado no ambiente de diplomacia e política da ONU, ele tem perfil conciliatório. Mas não transige se o impasse implica renúncia a suas convicções, ou dispor irresponsavelmente do dinheiro público.

Questionado se foi compelido a aplicar irresponsavelmente os recursos públicos da Secretaria de Comunicação, como chegou a ser divulgado, ele nega com veemência. Declara estar com a consciência tranquila. “É fácil ficar quieto, não falar nada, ver um monte de absurdo e continuar na função”, afirma.

“Não sou agarrado em questão funcional, o que vale é a consciência estar em paz, o que está errado dizer que está errado, com educação, com jeito”. Reforça que não negocia princípios: “Mostrar a consequência das coisas, tem que ter noção de consequência”. Indagado sobre o que estava errado, o ex-ministro explica que a informação foi levada ao presidente.

Abatido pelo pelotão de fuzilamento do grupo de Olavo, Santos Cruz combateu no front, sob fogo cerrado de artilharia pesada no Haiti e no Congo. Na África, liderou um contingente de 21 mil homens – o maior exército de missões de paz da ONU em todo o mundo.

Em 2013, após meio século de missões de paz, o conflito na República Democrática do Congo se tornou insustentável. Os habitantes da província de Goma – metrópole com mais de 1 milhão de habitantes, na fronteira com Ruanda e Uganda – viram-se encurralados pelas forças rebeldes que ocuparam as colinas do entorno da cidade e bloquearam a entrada de alimentos, lenha e carvão.

Diante desse quadro, o Conselho de Segurança da ONU decidiu requisitar o general Santos Cruz para assumir o comando da missão. A abertura do cerco de Goma, chefiada por ele, entrou para a história das Nações Unidas: foi a primeira vez que o exército do Congo venceu uma ofensiva contra os rebeldes, com o amparo da brigada de intervenção da ONU.

Como Santos Cruz estava na reserva, o Exército brasileiro teve de designá-lo para a ativa, a fim de que ele assumisse a missão. Ele foi escolhido pela ação de força emblemática no Haiti, quando comandou as tropas da ONU contra as organizações criminosas que ocupavam o bairro de Cité Soleil, em Porto Príncipe.

No Congo, os episódios de conflito remontam ao genocídio de 800 mil pessoas em Ruanda, em 1994: durante cem dias, entre abril e junho, uma maioria de hutus assassinou os tutsis. O estopim foi a explosão do avião que transportava o presidente Juvenal Habyarimana, um hutu.

Na esteira do confronto, milhões de hutus e tutsis fugiram para o Congo. Os refugiados formaram máfias, que passaram a controlar o contrabando de ouro, madeira e coltan: matéria-prima para a fabricação de smartphones, tablets e videogames. O Congo possui 65% do coltan de todo o mundo.

A guerra civil ganhou proporções incontornáveis a partir de 2012, quando refugiados tutsis, que haviam sido incorporados ao exército do Congo, deixaram as forças armadas para se reunir no movimento rebelde M-23. O grupo ocupou Goma e interditou o acesso à cidade. Na ocasião, a ONU não contra-atacou, porque não tinha licença do Conselho de Segurança. Mas a omissão dos “capacetes azuis” revoltou a população, que revidou queimando carros da ONU em todo o país.

Enquanto a ONU comandava conversações de paz com o M-23 em Uganda, Santos Cruz obteve mandato para atacar com uma “brigada de intervenção”, formada por mais de 3 mil soldados dos exércitos da Tanzânia, África do Sul e Malawi.

A batalha da abertura do cerco de Goma durou oito dias, sob a chuva de 5 mil granadas de artilharia, morteiros, foguetes. Houve uma parada no quinto dia para reajuste de manobras, mas sem um cessar-fogo. “Foram seis dias de alta intensidade, e dois de fogos de inquietação”, descreveu. Ao fim, os rebeldes tiveram de recuar mais de 20 quilômetros. Uma distância necessária, porque dispunham de artilharia com 18 quilômetros de alcance.

No Congo, Santos Cruz não foi atingido nem de raspão. Quatro anos depois de escapar ileso do front, acabou abatido no front da política por fogo amigo – se é que se pode chamar de “amigo” as forças lideradas pelo guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

O general resistiu ao tiroteio, deflagrado há dois meses com os ataques ostensivos nas redes sociais. Depois veio o aparente cessar-fogo, mas não era uma trégua. Eram os “fogos de inquietação”, que ocorrem quando, no campo de batalha, os tiros refluem, mas não acabam. Depois da aparente calmaria, ressurgiram com força redobrada e abateram o soldado. (Valor Econômico – 18/06/2019)

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília – E-mail: andrea.jube@valor.com.br