Mauricio Huertas: O que a direita tem na cabeça para se misturar aos bolsonaristas?

Houve um tempo, entre o fim da ditadura e a decadência dos governos petistas, que culminou no impeachment de Dilma Rousseff e na condenação de Lula, que a direita brasileira se escondia no armário.

Vez ou outra botava a cabeça de fora, arriscava uma aventura aqui e ali, como ao eleger Fernando Collor em 1989 ou durante todo o período em que o malufismo predominou em São Paulo, nos anos 90, mas a moda era ser de esquerda e a reação vinha sempre maior.

Tanto era assim que o Brasil elegeu Lula presidente duas vezes, Dilma outras duas, e na capital paulista o PT chegou ao poder em três ocasiões diferentes, apesar do conservadorismo e de todo o preconceito latente. Ser de direita parecia coisa do passado.

A política é cíclica, nós sabemos. Há movimentos eleitorais pendulares entre a esquerda e a direita, ora mais para lá, ora mais para cá, às vezes até com um certo equilíbrio ao centro. Agora o GPS político mudou.

Tendências da moda passam e ressurgem. Mas a onda direitista que varre o Brasil atualmente é estarrecedora e merece reflexão. Afinal, que direita é essa que se vê empoderada com o bolsonarismo?

Liberais na economia e conservadores nos costumes, é a definição que mais se ouve por aí. Ora, mas isso é pura retórica. Na realidade são lunáticos obscurantistas. Meio xenófobos, meio subalternos ao modelo norte-americano de Donald Trump, que parece inspirar os bolsonaristas na cafonice e na imbecilidade.

Não é possível que a direita pensante brasileira se veja representada no governo Bolsonaro. Não há um só princípio do liberalismo, da meritocracia, do estado democrático de direito e essencialmente republicano respeitado pelos bolsonaristas.

São caricaturas de extrema-direita, com traços reacionários, autoritários, totalitários, intolerantes, armamentistas, fascistas. Não abrem mão do Estado; ao contrário, querem um poder centralizado, militarizado, censor, opressor.

São populistas. Desprezam a independência, a separação e a harmonia entre os poderes. Ignoram os freios e contrapesos da democracia. Atropelam liberdades e direitos individuais e coletivos. Calam vozes divergentes. Sufocam e reprimem minorias.

Investem na manutenção dessa polarização burra e estreita, escolhendo a dedo os inimigos reais (entre artistas, jornalistas, cientistas, professores, políticos opositores) e imaginários (carimbando qualquer adversário como comunista). Tática primária para manter a unidade de suas milícias nas redes, nas ruas e nas urnas.

A política, para essa direita quase folclórica, não tem serventia na mediação de conflitos e interesses, muito menos na representação da maioria com respeito ao indivíduo e às minorias organizadas. É mero instrumento para se atingir o poder – e prescinde da democracia quando chega ao objetivo principal.

Antigos aliados – pensadores e ativistas liberais legítimos, conservadores moderados, nacionalistas conscientes, reformistas, constitucionalistas, idealistas e até os chamados lavajatistas, responsáveis diretos pela eleição de Bolsonaro – pularam do barco ou vão sendo abandonados pelo caminho.

Referências anteriores, como Sérgio Moro, por exemplo, cedem espaço para figuras deploráveis da política que essa mesma direita prometia combater, como Roberto Jefferson e toda a turma corrupta e fisiológica do Centrão (os próprios condenados pela Lava Jato).

Quem domina o cenário são bajuladores e fanáticos da bolha ideológica – repetindo na mão inversa tudo aquilo que se criticava até então na esquerda e no PT. Proteção a bandidos de estimação, juízes comprados, fake news, PF e PGR controladas, a família e amigos dando as cartas em benefício próprio.

Saúde, Educação, Cultura, Economia, Meio Ambiente, Relações Exteriores, Justiça, Segurança Pública… tudo travado pela incompetência, dominado ideologicamente e gerando prejuízos internos e externos.

A imagem do Brasil no mundo nunca esteve tão ruim. Se não bastasse a vergonha internacional, negócios são desfeitos e muito dinheiro é perdido. Não se trata mais de esquerda x direita, mas de civilização x barbárie.

Portanto, diante de todo esse contexto político, social e econômico, o que clamamos é a construção de uma ampla frente democrática, que una partidos e movimentos cívicos, brasileiros anônimos e formadores de opinião, à direita, ao centro e à esquerda, para recolocar o Brasil no prumo.

Dos mais progressistas aos mais conservadores, de quem votou no Bolsonaro e de quem não votou, para resgatar o Brasil da mão desses delinquentes, milicianos e psicopatas, retomando o rumo da boa política, do desenvolvimento sustentável e da justiça.

ForaBolsonaro é o primeiro passo de uma trajetória necessária. Precisamos virar mais essa triste página da nossa História. Ter coragem para corrigir um erro crasso, livrar o Brasil de falsos mitos e de mitômanos. Enfim, recolocar o povo brasileiro no protagonismo do seu futuro. Pé ante pé, direito e esquerdo, a saída é em frente.

Mauricio Huertas é jornalista, editor do blog #Suprapartidário , idealizador do #CâmaraMan e apresentador do #ProgramaDiferente

Cidadania se solidariza com STF após ataques de bolsonaristas à Corte

O presidente Nacional do Cidadania, Roberto Freire, manifestou solidariedade neste domingo (14), em nome do partido, ao Supremo Tribunal Federal, alvo de ataques na noite de sábado (13) perpetrados por bolsonaristas, que, em frente à sede da Corte, em Brasília, soltaram fogos e dirigiram xingamentos e ameaças aos ministros Cármen Lúcia, Rosa Weber, Dias Toffoli, Ricardo Lewandovsky e Gilmar Mendes.

“Patrocinados pelo presidente e por seus asseclas, essa turba de bolsonaristas se comporta como seu chefe, sem um mínimo de dignidade e nenhuma capacidade de entender como funciona uma democracia e como viver em sociedade. A tarefa de interpretar e guardar a Constituição cabe à Corte. Uma meia dúzia de milicianos em busca de holofotes não irá mudar isso”, disse Freire.

Ele elogiou nota publicada hoje pelo presidente do STF, Dias Toffoli, em defesa da instituição.

Leia abaixo o texto de Toffoli.

Nota oficial do Presidente do STF

Infelizmente, na noite de sábado, o Brasil vivenciou mais um ataque ao Supremo Tribunal Federal, que também simboliza um ataque a todas as instituições democraticamente constituídas.

Financiadas ilegalmente, essas atitudes têm sido reiteradas e estimuladas por uma minoria da população e por integrantes do próprio Estado, apesar da tentativa de diálogo que o Supremo Tribunal Federal tenta estabelecer com todos, Poderes, instituições e sociedade civil, em prol do progresso da nação brasileira.

O Supremo jamais se sujeitará, como não se sujeitou em toda a sua história, a nenhum tipo de ameaça, seja velada, indireta ou direta e continuará cumprindo a sua missão.

Guardião da Constituição, o Supremo Tribunal Federal repudia tais condutas e se socorrerá de todos os remédios, constitucional e legalmente postos, para sua defesa, de seus Ministros e da democracia brasileira.

Ministro Dias Toffoli

Presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça

Diversidade 23 se solidariza com David Nemer após ameaças de bolsonaristas

O Diversidade 23, núcleo de diversidade do Cidadania, divulgou nota pública (veja abaixo) em solidariedade ao professor e pesquisador David Nemer pelas ameaças sofridas por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em decorrência de suas atividades profissionais. O professor é filiado ao partido.

“Nemer se dedica ao estudo da utilização de ferramentas digitais para impulsionar, por meio de desinformação e fake News, campanhas políticas de todas as ideologias e concluiu, em um de seus trabalhos, que o método é mais praticado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Desde então, suas publicações vêm seguidas de ameaças anônimas”, diz o documento.

NOTA DE SOLIDARIEDADE AO PROFESSOR DAVID NEMER

O Diversidade 23 vem prestar solidariedade ao pesquisador, professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos e filiado ao Cidadania 23, David Nemer, que em decorrência do exercício regular e imparcial de suas atividades profissionais foi ameaçado por radicais apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Nemer se dedica ao estudo da utilização de ferramentas digitais para impulsionar, por meio de desinformação e fake News, campanhas políticas de todas as ideologias e concluiu, em um de seus trabalhos, que o método é mais praticado por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Desde então, suas publicações vêm seguidas de ameaças anônimas.

Na semana passada, as ameaças perpetradas por milicianos digitais, dentre os quais se encontram, segundo seus estudos, nazistas e pedófilos, cruzaram as barreiras virtuais e o seguiram e fotografaram, anexando a imagem a um e-mail, novamente anônimo, como típico de covardes e criminosos, acompanhada de mensagem indicando que ele tivesse cuidado, pois estava sendo monitorado.

A ameaça foi direcionada à pessoa do Professor David Nemer, mas a vítima é muito maior do que um indivíduo, é a viabilidade do Estado Democrático de Direito em si, são as ferramentas que possibilitam o fortalecimento da democracia.

Os grupos que se valem da desinformação como instrumento de exercício do Poder seguirão combativos contra as principais ferramentas capazes de desmantelá-los, a saber, a informação certificada, os estudos científicos e o conhecimento acadêmico, enquanto fortaleza civilizatória. Essa é a sina daqueles que heroicamente se colocam em posição de defesa das ciências, de maneira que desagrada aqueles que visam impor, por vias não democráticas, sua agenda sinistra. Foi assim com Débora Diniz, Ricardo Galvão, Ilona Szabó e agora com David Nemer.

David, para assegurar sua integridade física, precisou antecipar seu retorno aos Estados Unidos, onde mora. Vejam o absurdo: um cidadão brasileiro precisou deixar seu país de origem por exercer com liberdade sua atividade científica, nos termos assegurados pelo artigo 5º, IX da Constituição Federal.

Há que se repetir a exaustão: trata-se de atentado contra Estado Democrático de Direito estimulado, de forma omissiva, ou comissiva, por quem jurou defendê-lo.

Ao David, registramos aqui nosso integral apoio para que siga adiante com seus estudos de maneira livre, tal qual assegurado pela Constituição Brasileira. Lamentamos profundamente que tenha sido vítima de crime tão nefasto, que ultrapassa a sua pessoa. Você honra nosso país com seu trabalho e enobrece o Cidadania 23 com sua filiação.

Diversidade 23