Andrea Jubé: Fogos de inquietação

Cinco dias após deixar o governo, o general de divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz mantém a agenda cheia. É palestrante convidado do congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no dia 27. Nos dias 10 e 11 de julho, participa de evento sobre missões de paz na sede das Organizações das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

Dispensado pelo presidente Jair Bolsonaro na última quinta-feira, após sucessivos ataques do escritor Olavo de Carvalho e de seus sequazes, Santos Cruz é um quadro concorrido na esfera internacional: depois de chefiar as missões de paz no Haiti (de 2007 a 2009) e no Congo (de 2013 a 2015), tornou-se consultor da ONU. Fluente em inglês, francês e espanhol, e conhecedor de russo, proferiu cursos e palestras em dezenas de países. Quando foi convidado para ser ministro, estava em Bangladesh, ministrando um curso para comandantes militares.

Apesar do bombardeio do grupo de Olavo, Santos Cruz nega que tenha sido uma “guerra” trabalhar no governo. “A política tem uma conotação às vezes não muito boa, mas eu não saio desiludido com a política”, disse à coluna. “Encontrei muitas pessoas boas interessadas em trabalhar. A política é um jogo de interesses, mas não precisa ser desonesto por causa disso”.

Questionado sobre o motivo de sua saída da Secretaria de Governo, ele pondera que só o presidente da República tem a resposta. Para interlocutores de Bolsonaro, Santos Cruz teria adotado uma postura de intransigência à frente do ministério, como se tentasse aplicar à política a rigidez de um quartel. O general refuta essa versão. Forjado no ambiente de diplomacia e política da ONU, ele tem perfil conciliatório. Mas não transige se o impasse implica renúncia a suas convicções, ou dispor irresponsavelmente do dinheiro público.

Questionado se foi compelido a aplicar irresponsavelmente os recursos públicos da Secretaria de Comunicação, como chegou a ser divulgado, ele nega com veemência. Declara estar com a consciência tranquila. “É fácil ficar quieto, não falar nada, ver um monte de absurdo e continuar na função”, afirma.

“Não sou agarrado em questão funcional, o que vale é a consciência estar em paz, o que está errado dizer que está errado, com educação, com jeito”. Reforça que não negocia princípios: “Mostrar a consequência das coisas, tem que ter noção de consequência”. Indagado sobre o que estava errado, o ex-ministro explica que a informação foi levada ao presidente.

Abatido pelo pelotão de fuzilamento do grupo de Olavo, Santos Cruz combateu no front, sob fogo cerrado de artilharia pesada no Haiti e no Congo. Na África, liderou um contingente de 21 mil homens – o maior exército de missões de paz da ONU em todo o mundo.

Em 2013, após meio século de missões de paz, o conflito na República Democrática do Congo se tornou insustentável. Os habitantes da província de Goma – metrópole com mais de 1 milhão de habitantes, na fronteira com Ruanda e Uganda – viram-se encurralados pelas forças rebeldes que ocuparam as colinas do entorno da cidade e bloquearam a entrada de alimentos, lenha e carvão.

Diante desse quadro, o Conselho de Segurança da ONU decidiu requisitar o general Santos Cruz para assumir o comando da missão. A abertura do cerco de Goma, chefiada por ele, entrou para a história das Nações Unidas: foi a primeira vez que o exército do Congo venceu uma ofensiva contra os rebeldes, com o amparo da brigada de intervenção da ONU.

Como Santos Cruz estava na reserva, o Exército brasileiro teve de designá-lo para a ativa, a fim de que ele assumisse a missão. Ele foi escolhido pela ação de força emblemática no Haiti, quando comandou as tropas da ONU contra as organizações criminosas que ocupavam o bairro de Cité Soleil, em Porto Príncipe.

No Congo, os episódios de conflito remontam ao genocídio de 800 mil pessoas em Ruanda, em 1994: durante cem dias, entre abril e junho, uma maioria de hutus assassinou os tutsis. O estopim foi a explosão do avião que transportava o presidente Juvenal Habyarimana, um hutu.

Na esteira do confronto, milhões de hutus e tutsis fugiram para o Congo. Os refugiados formaram máfias, que passaram a controlar o contrabando de ouro, madeira e coltan: matéria-prima para a fabricação de smartphones, tablets e videogames. O Congo possui 65% do coltan de todo o mundo.

A guerra civil ganhou proporções incontornáveis a partir de 2012, quando refugiados tutsis, que haviam sido incorporados ao exército do Congo, deixaram as forças armadas para se reunir no movimento rebelde M-23. O grupo ocupou Goma e interditou o acesso à cidade. Na ocasião, a ONU não contra-atacou, porque não tinha licença do Conselho de Segurança. Mas a omissão dos “capacetes azuis” revoltou a população, que revidou queimando carros da ONU em todo o país.

Enquanto a ONU comandava conversações de paz com o M-23 em Uganda, Santos Cruz obteve mandato para atacar com uma “brigada de intervenção”, formada por mais de 3 mil soldados dos exércitos da Tanzânia, África do Sul e Malawi.

A batalha da abertura do cerco de Goma durou oito dias, sob a chuva de 5 mil granadas de artilharia, morteiros, foguetes. Houve uma parada no quinto dia para reajuste de manobras, mas sem um cessar-fogo. “Foram seis dias de alta intensidade, e dois de fogos de inquietação”, descreveu. Ao fim, os rebeldes tiveram de recuar mais de 20 quilômetros. Uma distância necessária, porque dispunham de artilharia com 18 quilômetros de alcance.

No Congo, Santos Cruz não foi atingido nem de raspão. Quatro anos depois de escapar ileso do front, acabou abatido no front da política por fogo amigo – se é que se pode chamar de “amigo” as forças lideradas pelo guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

O general resistiu ao tiroteio, deflagrado há dois meses com os ataques ostensivos nas redes sociais. Depois veio o aparente cessar-fogo, mas não era uma trégua. Eram os “fogos de inquietação”, que ocorrem quando, no campo de batalha, os tiros refluem, mas não acabam. Depois da aparente calmaria, ressurgiram com força redobrada e abateram o soldado. (Valor Econômico – 18/06/2019)

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília – E-mail: andrea.jube@valor.com.br

Andrea Jubé: No Congresso, ao centro, volver!

“A política trabalha com a percepção, não com os fatos; importa a percepção do real, não a realidade”, ensina um influente líder de um dos partidos de centro, empenhado em descolar a sigla do rótulo de Centrão para garantir a sobrevivência eleitoral.

A inflexão não é isolada, segue uma reação em cadeia da maioria dos partidos de centro que hoje se veem direta ou indiretamente associados ao bloco suprapartidário que carrega a alcunha e se tornou alvo preferencial dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Na definição desse líder, o Centrão é um movimento que se iniciou com o ex-deputado Eduardo Cunha, que comandou com mão de ferro um bloco com mais de 200 deputados de diferentes partidos de centro. O time jogava para ocupar cargos no primeiro escalão de “porteira fechada”, garantir nomeações estratégicas nos Estados, a liberação do maior volume de emendas e dava as cartas na Câmara.

Mas Cunha acabou cassado, preso e condenado por lavagem de dinheiro e corrupção. Outros integrantes do grupo também se tornaram alvos de investigações, e todos receberam de Bolsonaro a pecha de “velha política”.

Este líder de bancada de centro argumenta que o resultado das urnas em 2018 e a expressiva adesão aos protestos pró- governo do último dia 26 atestam que o cidadão rejeita a “política antiga”, do toma-lá-dá-cá, que associa ao estilo de Eduardo Cunha.

“Criou-se no imaginário das pessoas que os partidos de centro são aqueles que querem cargos. O Centrão ocupou espaço nas manifestações de rua porque atribuem a ele práticas fisiológicas, como se houvesse resistência às reformas de Bolsonaro, e por isso, todos querem fugir desse estigma”, justifica.

O contraponto entre “percepção” e realidade, segundo este líder, ficou claro na controvertida votação do realojamento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) no Ministério da Justiça. Tecnicamente, ambas as posições tinham consistência: o Coaf teria estrutura e autonomia na Justiça ou no da Economia. Este era o dado de realidade.

Contudo, o debate acabou amplificado nas ruas e nas redes sociais, adquirindo uma conotação passional. Os parlamentares receberam e-mails e mensagens no celular com xingamentos de “canalha”, “patife”, entre outros, caso votassem contra Sergio Moro.

Como resultado dessa pressão, os partidos de centro se dividiram, e Moro perdeu o Coaf por uma diferença mínima de 18 votos. A “percepção” correta, neste caso, era de que votar contra o desejo de Sergio Moro nessas circunstâncias seria “jogar contra a sociedade”.

É com esse instinto, na avaliação desta liderança, que o seu partido e outras siglas de centro começam a se movimentar para se afastar da pecha de Centrão.

O presidente do PRB e 1º vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira, enfatiza que o partido “não é e não será do Centrão”. O dirigente argumenta que o Centrão não é um bloco partidário formal nem informal, mas, sim, uma “expressão que nasceu do imaginário de alguns formadores de opinião a partir do intangível”. Pereira é veemente ao afirmar que “erra e desinforma quem persiste em colocar o PRB e demais partidos no mesmo balaio”.

Desde que comandou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), o partido agiu para se descolar da Igreja Universal. Aproximou-se de empresários, adotou uma postura liberal e mudou o nome para Republicanos. O partido apoia as reformas, indicou o relator da reforma tributária (o deputado João Roma), defende um Estado enxuto, a desestatização de empresas e a redução de impostos para a atração de investimentos.

Na mesma diretriz, os líderes do DEM, Elmar Nascimento (BA), e do PP, Arthur Lira (AL), são veementes na afirmação de que “não existe Centrão”. Lira diz que o papel dos partidos de centro é estimular o diálogo, buscar o equilíbrio e esgotar o contraditório.

Lira compartilhou em suas redes sociais, recentemente, uma declaração de Bolsonaro para o “Jornal do SBT”, afirmando que os “parlamentares do dito Centrão” nunca o procuraram para “discutir partilha de ministérios estatais ou bancos oficiais”.

Elmar Nascimento argumenta que o DEM esteve na oposição nos últimos anos, e não poderia ser identificado com o Centrão. Relembra que Maia derrotou na eleição para a presidência da Casa os candidatos ligados ao bloco: os ex-deputados Jovair Arantes (PTB-GO) e Rogério Rosso (PSD-DF). Projetou-se no início do ano como fiador das reformas e defensor de uma agenda liberal, mas ainda assim, é alvo de bolsonaristas que tentam lhe infligir o rótulo de adversário do governo. Nas manifestações, virou boneco inflável, carimbado de fisiológico e corrupto.

Embora tenha a origem associada à era Eduardo Cunha, a criação do Centrão remonta à Assembleia Constituinte. Desde então, negociar com o bloco majoritário de partidos de centro foi essencial porque sua hegemonia o transforma em avalista da estabilidade de qualquer governo.

O Centrão é uma instituição histórica tão emblemática que mereceu verbete no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (Cpdoc-FGV). Pela definição desses pesquisadores, foi um grupo suprapartidário com perfil de centro e direita, que deu ar sustentação ao presidente José Sarney (PMDB).

O bloco era formado, principalmente, por lideranças conservadoras de orientação liberal, como os deputados Ricardo Fiúza (PFL-PE) e Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA). Com a nomeação do deputado Roberto Cardoso Alves (PMDB, e depois PTB) para o ministério, a imagem do grupo acabou vinculada ao fisiologismo e à corrupção. “Robertão” é lembrado pelas declarações de que “é dando que se recebe”, e “cargo dá voto para diabo”. O grupo garantiu a Sarney o mandato de cinco anos.

Independentemente da denominação, o bloco de mais de 200 deputados continuará sendo hegemônico na Câmara, e determinante para a aprovação das matérias de interesse do governo. O grupo já impôs, na reforma da Previdência, a exclusão das mudanças na aposentadoria rural, no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e vetou a inclusão dos Estados e municípios. Se o governo não caprichar no diálogo e na articulação, arrisca-se a não aprovar nada. (Valor Econômico – 04/06/2019)

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília – E-mail: andrea.jube@valor.com.br

Andrea Jubé: “Imprensa brasileira, tamo junto aí!”

Para quem acompanha as vicissitudes do relacionamento de Jair Bolsonaro com a imprensa, surpreendeu o armistício proposto na semana passada, na esteira do debate sobre censura e liberdade de expressão: “Imprensa brasileira, tamo junto aí! Esse namoro, esse braço estendido estará sempre à disposição de vocês, um abraço a todos aí!”

O presidente reconheceu os “percalços” na relação, mas argumentou que governo e jornalistas precisam se entender “para que a chama da democracia não se apague”. Ensinou: “Melhor uma imprensa capengando do que sem ter imprensa”. Um contraste ante as declarações do candidato recém eleito, que contrariado com uma sequência de matérias investigativas, ameaçou cortar verbas de publicidade de um jornal de grande circulação. “Na propaganda oficial do governo, imprensa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente, não terá apoio do governo federal”, ameaçou.

O pano de fundo da aparente nova postura é a batalha da comunicação, que tem de um lado o grupo alinhado ao filósofo Olavo de Carvalho e ao vereador Carlos Bolsonaro, e do outro, a ala militar que responde institucionalmente por essa área no governo.

Desde o incidente do famigerado vídeo da “golden shower” no Carnaval, a cúpula militar interveio para que o presidente adequasse sua conduta à liturgia do cargo. O cessar-fogo, o tom moderado adotado nas sete “lives” que protagonizou em sua conta no Facebook, resultam das diretrizes de comunicação instituídas pelos generais responsáveis pela área: o ministro da Secretaria de Governo, Santos Cruz, e o porta-voz, Otávio do Rêgo Barros.

Ambos são egressos da “escola de comunicação” do general Eduardo Villas Bôas, que sempre defendeu relações amistosas com a imprensa no posto de comandante do Exército (2015-2019). Villas Bôas hoje despacha no Gabinete de Segurança Institucional, ao lado do ministro, general Augusto Heleno. Ambos são bússolas de Bolsonaro no governo.

Foi por indicação de Villas Bôas que Rêgo Barros tornou-se o porta-voz do governo. Seu bordão remete a São Francisco de Assis: “Paz e bem”.

Logo após o episódio da “golden shower”, os generais tomaram as rédeas da comunicação. Por isso, é sintomático que a interação ao vivo de Bolsonaro com os eleitores – por meio das “lives” no Facebook – tenha começado dois dias após a postagem desastrosa do vídeo obsceno. E foi significativo que Bolsonaro aparecesse no vídeo entre Augusto Heleno e Rêgo Barros, como avalistas da chamuscada imagem do presidente.

E foi nessa conjuntura de aparente pacificação que eclodiu a nova crise de comunicação, provocada por uma publicação de Carlos Bolsonaro, contrapondo Olavo à ala militar. Um vídeo com novas ofensas do professor aos militares foi postado – e depois apagado – na conta de Bolsonaro no YouTube. O conteúdo foi replicado pelas contas de Carlos.

No vídeo, o guru dos Bolsonaro diz que a última contribuição das escolas militares para o ensino brasileiro foram os livros de Euclides da Cunha. Acusa os “milicos” de entregaram o Brasil aos comunistas, de criarem o PT e não terem coragem de confessar.

Foi o estopim de uma tensão que vinha numa escalada havia semanas, com a subsequente postagem de insultos do filósofo ao vice-presidente Hamilton Mourão e ao ministro Santos Cruz.

Houve duas consequências: a primeira, uma nota oficial de Bolsonaro divulgada ontem respondendo as críticas de Olavo aos militares. “Suas recentes declarações contra integrantes dos poderes da República não contribuem para a unicidade de esforços e consequente atingimento de objetivos propostos em nosso projeto de governo”.

A segunda consequência foi o novo anúncio de Carlos – considerado o filho mais influente – de se afastar do controle das redes sociais do pai. A publicação do vídeo de Olavo é atribuída a ele nos bastidores. O aviso foi publicado em tom enigmático na noite de domingo, com uma estocada na cúpula militar. “Começo uma nova fase em minha vida. Longe de todos que de perto nada fazem a não ser para si mesmos. O que me importou jamais foi o poder. Quem sou eu neste monte de gente estrelada?”

O “monte de gente estrelada” é uma possível referência aos generais que, mais do que titulares de ministérios relevantes, consolidaram-se como fiadores do governo.

O controle de Carlos sobre as contas pessoais do pai sempre incomodou a ala militar, pelo conteúdo muitas vezes incompatível com o cargo de presidente. A primeira crise foi quando Carlos chamou o então ministro Gustavo Bebianno de “mentiroso” no Twitter. A conta do presidente replicou a ofensa. A segunda grande polêmica foi a publicação do vídeo pornográfico no Carnaval.

O problema é que no meio dessa guerra, não tem céu de brigadeiro pela frente. A promessa de Carlos de se afastar das redes sociais do pai é reprise de um filme velho: na transição, especulou-se que ele assumiria a Secretaria de Comunicação Social, com status de ministério. Mas sua nomeação configuraria nepotismo. Então ele declarou que não queria cargo, e avisou: “desde ontem não tenho mais, por iniciativa própria, qualquer ascensão [sic] às redes sociais de Jair Bolsonaro”. A ameaça nunca se confirmou.

Há duas semanas, Bolsonaro admitiu em entrevista à rádio Jovem Pan que o filho controlava suas contas nas redes sociais. “Ah o pitbull? Tá atrapalhando o quê, não me atrapalhou em nada, acho até que devia ter um cargo de ministro”, disse o presidente. “Ele que me botou aqui, foi realmente a mídia dele que me botou aqui, e muita gente quer afastá-lo de mim”, lamentou.

Por isso, apesar do anúncio no Twitter, Carlos dificilmente se afastará das redes sociais do pai. Como bom pitbull, ele ladra e morde.

Resta às alas conflagradas no governo seguir a recomendação do presidente em sua última “live”, a propósito da Páscoa: “É para refletir, pensar no próximo e perdoar”. Ele se despediu com “um grande abraço nos homens e um beijo nas mulheres”. (Valor Econômico – 23/04/2019)

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília – E-mail: andrea.jube@valor.com.br

Andrea Jubé: A política nacional em rotações por minuto

Vivemos tempos estranhos em que a surpreendente fotografia de um buraco negro a 55 milhões de anos-luz da Terra, resultado inequívoco dos avanços científicos e tecnológicos, convive com a crença medieval dos terraplanistas de que a Terra é plana, e o Sol e a Lua orbitam dentro de um domo na nossa atmosfera. A Antártida ocuparia as bordas da Terra, que teria a nostálgica forma de um disco de vinil.

Contrariando os novos céticos, as evidências científicas ainda são as de que a Terra é redonda, gira em torno de si mesma, à velocidade média de 1.674 km/h para dar a volta completa em torno de seu eixo. O mesmo fenômeno se repete no estranho “planeta” chamado Brasília, conforme atestam cientistas, astrofísicos e articuladores políticos mais experientes, com milhares de horas de voo no Congresso Nacional.

Para os profissionais da Ciência Política, o mundo e a política dão voltas, em um movimento de rotação como o da Terra, de modo que a história se repete como uma constante, para recomeçar do mesmo lugar. Essa repetição dos fatos é uma oportunidade conferida aos atores políticos – que se revezam em seus papéis – para que aprendam com erros do passado.

Por esse raciocínio, nos últimos três anos, a política nacional girou e girou em torno de episódios dramáticos como um processo de impeachment, as eleições municipais, a greve dos caminhoneiros que paralisou o país, uma conturbada eleição nacional – com o clímax de um atentado a faca contra um dos candidatos – até a posse do presidente Jair Bolsonaro.

Depois de milhares de rotações por minuto, os fatos políticos voltam ao mesmo ponto de partida de 2016: ressurge o temor de nova greve dos caminhoneiros; deputados e senadores se veem novamente às voltas com a votação de uma imbricada reforma da Previdência e de uma reforma ministerial, sob as mesmas pressões enfrentadas pelo então presidente Michel Temer. Uma delas, que promete ganhar corpo nas próximas semanas, é a recriação do Ministério da Cultura.

O pano de fundo desse movimento de rotação política é a capacidade de articulação do governo. Três vezes presidente da Câmara, Michel Temer era considerado um articulador político habilidoso e profundo conhecedor das idiossincrasias do Legislativo – atributos que não se aplicam ao atual chefe do Executivo.

Apesar de toda a expertise, Temer quase viu ruir a reforma ministerial, como relembram alguns de seus aliados a propósito da iminente votação da reconfiguração da Esplanada de Jair Bolsonaro, que ocorrerá em maio, junto com a discussão das novas regras da aposentadoria na comissão especial.

A votação da reforma ministerial de Temer em 2016 foi dramática: a medida foi aprovada na Câmara na madrugada do dia 30 de agosto, após uma rebelião da bancada feminina, e perderia a validade uma semana depois. A votação só se viabilizou com a boa vontade do então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que fazia oposição a Temer, mas garantiu a apreciação da matéria em meio ao feriado de 7 de setembro. Se não fosse analisada, a reforma perderia efeito e o Executivo precisaria editar uma nova proposta. Porém, a Constituição veda a reedição de uma MP derrubada pelo Congresso.

Agora a história se repete com a “MP dos Ministérios” de Bolsonaro. Assim como Temer havia escalado o líder do governo, deputado André Moura (PSC-SE), para relatar a matéria, o líder do governo, senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), assumiu a relatoria da reforma ministerial. Ele tem 541 emendas para analisar neste mês, entre as quais as tentativas de recriação dos ministérios da Cultura, da Segurança Pública, do Trabalho e do Desenvolvimento Agrário.

A mesma falha de articulação que tumultua as negociações em torno da reforma da Previdência afetará a reforma ministerial, diz uma liderança da Câmara. Este parlamentar antecipa que dezenas de deputados não comprometidos com a causa da cultura pretendem endossar a emenda de recriação do ministério, apresentada pelo ex-ministro e deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), como uma “demonstração de força”, uma “resposta do parlamento” à arrogância do Planalto.

Ontem a articulação política do Planalto sofreu nova derrota diante da inversão da pauta na Comissão de Constituição e Justiça para votar a proposta de emenda constitucional do orçamento impositivo antes da reforma da Previdência, que pode ficar para a próxima semana.

O setor cultural tem simpatia pelo ministro Osmar Terra, que herdou as funções da pasta, e pelo secretário de Cultura, José Henrique Medeiros Pires, que não teria autonomia no cargo.

Com Temer, a pressão pela recriação do Ministério da Cultura foi uma questão de dias, depois que o ex-presidente José Sarney e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, entraram em campo.

Agora o partido de Bolsonaro tem representantes a favor da recriação do ministério, como o deputado Alexandre Frota (PSL-SP), ligado aos artistas, e bolsonarista de carteirinha. Ele fez uma postagem nas redes sociais pedindo o retorno da pasta: “Teto proposto por Bolsonaro na Lei Rouanet cortaria R$ 4,9 bilhões em 2018. Precisamos na verdade ter o Ministério da Cultura de volta. #voltaminc”, publicou.

Autor da emenda, Orlando Silva alega que o setor cultural gera 2,7% do PIB e mais de um milhão de empregos diretos, englobando as mais de 200 mil empresas e instituições públicas e privadas. ” O deputado e ex-ministro da Cultura Marcelo Calero (Cidadania-RJ) engrossa o coro: “Não há economia para os cofres públicos, é preciso uma pasta específica para a gestão e a execução das políticas culturais”, reforça.

Terra redonda

O ministro e astronauta Marcos Pontes, da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, fez uma viagem de dez dias ao espaço em 2006, na “Missão Centenário” da Nasa. De lá, constatou que a Terra era redonda. No último dia 10, questionado em uma audiência pública sobre os terraplanistas, ele respondeu que é preciso refletir sobre coisas que existem, como inclusão, ciência e tecnologia. “Tem que pensar em ciência e tecnologia, baseado em fatos e pesquisas. Tudo que é fora disso não é para ser tratado”, alertou. (Valor Econômico – 16/04/2019)

Andrea Jubé é repórter de Política em Brasília – E-mail: andrea.jube@valor.com.br