Início Site Página 975

Levantamento mostra que 44 indicadores pioram e outros 28 melhoram no governo Bolsonaro

0

A compilação de quase 90 indicadores nacionais, que vão da economia ao meio ambiente, mostra que a maioria deles regrediu nos primeiros seis meses da gestão Jair Bolsonaro (PSL), revela levantamento feito pela Folha de S. Paulo (veja aqui), na edição deste domingo (11).

De 87 estatísticas oficiais e de estudiosos, 44 pioraram, 15 ficaram estáveis e 28 melhoraram em relação a 2018. Entre os indicadores que apresentaram maior deterioração estão os de educação, saúde e meio ambiente. Piorou a oferta de assistência na atenção básica, com 4.000 médicos a menos no SUS, e apenas 1 em 12 índices do MEC (Ministério da Educação) teve avanço.

O desmate na Amazônia, objeto de polêmica, cresceu 25% em abril, maio e junho.

Na segurança, houve melhora: os homicídios dolosos recuaram 22% no primeiro trimestre em comparação com igual período de 2018.

Na economia, de 47 indicadores, 20 melhoraram, como Bolsa e emprego. Para ministérios, o governo já adota medidas com potencial de resultado. 

Reforma da Previdência já tem mínimo de votos necessários para aprovação no Senado, diz jornal

0

Previdência já tem votos necessários no Senado, revela placar

Aposentadoria – Elaborado pelo ‘Estado’, ‘Placar da Previdência’ aponta 53 votos favoráveis ao texto – mudanças na Constituição exigem o apoio de pelo menos 49 senadores em dois turnos; após chancela da Câmara, governo espera ambiente mais positivo no Senado

Equipe econômica conta com 64 votos de um total de 81 senadores para aprovar a reforma; expectativa é manter o texto que teve o aval Câmara

Bruno Moura, Idiana Tomazelli, Adriana Fernandes – O Estado de S. Paulo

A reforma da Previdência já tem os votos necessários para ser aprovada no plenário do Senado Federal. O Placar da Previdência, elaborado pelo ‘Estado’, aponta 53 votos “sim” ao texto. É mais que o número necessário para fazer uma mudança na Constituição, que requer o apoio de 49 senadores em dois turnos de votação. Antes de ir a plenário, a proposta precisa do aval da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa. O relator, senador Tasso Jereissati (PSDBCE), prometeu entregar o parecer em até três semanas. No levantamento, 13 senadores se declararam contrários à proposta. Quatro se disseram indecisos e outros dez não quiseram responder. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), pode, pelo regimento, se abster de votar e não foi incluído no placar.

A reforma da Previdência já obteve a chancela da Câmara dos Deputados. Nos dois turnos, precisava do apoio de 308 parlamentares, mas obteve margem bem maior: foram 379 votos no primeiro turno e 370 no segundo. No Senado, o governo também espera folga em relação ao placar mínimo exigido. Segundo apurou o Estado, a equipe econômica conta com 64 votos de um total de 81 senadores. Em busca da consolidação de um amplo apoio à proposta, o governo vai reforçar nos próximos dias o diálogo com os congressistas e também tirar dúvidas sobre o texto. A maior parte dos senadores que votam a favor da reforma são de partidos de centro como DEM, MDB, PSDB, PSD, PP, mas há também um parlamentar do PDT que declarou voto a favor: Acir Gurgacz (RO).

O PDT ameaça expulsar deputados que, na tramitação da Câmara, optaram pelo “sim” à proposta. Partido do presidente Jair Bolsonaro, o PSL deve dar todos os quatro votos que possui para a aprovação da reforma. Ambiente positivo. O secretário especial de Previdência e Trabalho, Rogério Marinho, afirmou ao Estadão/Broadcast que o empenho da equipe é para manter a proposta como foi aprovada na Câmara. A versão avalizada pelos deputados prevê a economia de R$ 933,5 bilhões em uma década. “Nossa expectativa é a melhor possível”, disse Marinho. De acordo com o secretário, as declarações de Alcolumbre, da presidente da CCJ no Senado, Simone Tebet (MDB-MS), de Jereissati e de lideranças na Casa sinalizam para um ambiente positivo de votação.

“O tema amadureceu na sociedade, e os senadores acompanharam a discussão na Câmara. É por isso que já temos um número tão alto (apoiando a reforma)”, afirmou o secretário. Da forma como está o texto, a reforma fixa uma nova idade mínima para se aposentar no Brasil – 65 anos para homens e 62 anos para mulheres –, que vai valer apenas para as pessoas que irão entrar no mercado de trabalho. Os que já estão trabalhando poderão escolher a mais favorável, entre cinco regras de transição criadas. A nova idade valerá tanto para trabalhadores da iniciativa privada como para servidores públicos da União.

Placar

Entre os 53 senadores que se manifestaram favoravelmente à reforma, 11 disseram apoiar a inclusão de Estados e municípios nas novas regras previdenciárias. Esse ponto integrava a proposta original do governo, mas acabou caindo diante da resistência de lideranças de centro na Câmara, que temiam assumir o desgaste político da medida no lugar dos governadores de seus Estados, que são de partidos de oposição ao governo Jair Bolsonaro. Para não atrasar a tramitação do texto atual, o Senado vem articulando a inclusão de Estados e municípios por meio de uma proposta paralela. As lideranças na Câmara, porém, continuam resistentes a essa medida. (O Estado de S. Paulo – 11/08/2019)

Eleição Municipal: Arlindo Oliveira explica o que muda na Lei Eleitoral de 2020

0

Duas importantes alterações estarão em vigor pela primeira vez nas eleições municipais de 2020. A primeira trata da propaganda eleitoral e a segunda aborda as coligações partidárias, conforme destaca o analista político Arlindo Fernando de Oliveira.

Em artigo publicado na nova edição da revista Política Democrática (veja aqui), produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania, ele diz que a alteração mais importante, entretanto, é proibição de coligações entre os partidos políticos nas eleições para vereador, assim como para deputado federal, deputado estadual e distrital.Oliveira destaca que existe prazo.

“As regras do jogo para as eleições municipais de outubro de 2020 podem ainda ser alteradas este ano, desde que as modificações ocorram até o dia 4 de outubro, ou seja, um ano antes do pleito”, acentua. “No presente momento, não há grandes movimentações no Congresso, mas até setembro isso pode mudar”, afirma.

O analista político explica que a primeira é a mudança na Lei Eleitoral, no que diz respeito à propaganda eleitoral, determinando que, nas eleições municipais, apenas os candidatos majoritários irão aparecer na TV e no rádio, no horário regular. Os candidatos a vereador terão direito apenas a uma parte (40%) do tempo do partido destinado às chamadas inserções, propagandas de um minuto ou 30 segundos distribuídas ao longo do dia, das 5 da manhã até a meia noite.

Em relação à mudança que considera mais importante, Oliveira explica que ela está definida por uma Emenda à Constituição (EC 97, de 2017), não se aplicou às eleições gerais do ano de 2018, passando a valer nas eleições municipais de 2020.

“Cada partido deverá lançar neste pleito, portanto, uma lista de candidatos capazes de somar votos em número bastante para alcançar o quociente eleitoral’, diz.

O quociente eleitoral é definido pela divisão entre o número de votos válidos da eleição para vereador, pelo número de cadeiras que compõem a Câmara Municipal.

“A maior parte dos municípios brasileiros, mais de 3.200 dos 5.569 existentes, tem seu Poder Legislativo municipal composto por nove vereadores”, observa. O quociente eleitoral é, nesses casos, de 11% dos votos válidos.

A proibição de coligações será um pouco mitigada por outra alteração no sistema eleitoral, ocorrida no Código Eleitoral. Ela permite que todos os partidos participem do rateio das vagas que sobram após o primeiro cálculo dos quocientes eleitorais e partidários. (Assessoria FAP)

Luiz Carlos Azedo: A insensatez e a classe média

0

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

Uma das canções mais famosas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Insensatez é um clássico da bossa nova. Lançada em 1961, seus arranjos de piano, de autoria de Tom, revelam clara influência do Prelúdio nº 4 em Mi Menor de Chopin, ao passo que a letra é uma espécie de autocrítica amorosa de Vinicius, poeta de muitos casamentos e separações: “Ah, insensatez que você fez/ Coração mais sem cuidado/ Fez chorar de dor o seu amor/ Um amor tão delicado”.

Não foi à toa que Insensatez fez uma espetacular carreira musical no Brasil e no exterior, gravada por João Gilberto, Astrud Gilberto e outros grandes artistas brasileiros, como Nara Leão, Elis Regina, Sylvia Telles, Maria Creuza, Roberto Carlos e Fernanda Takai; a versão inglesa, de Norman Gimbel, por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Peggy Lee, Nancy Wilson, Morgana King, Stan Getz, Claudine Longet e Dianna Krall. Na voz de Iggy Poop, mais recentemente, fez parte da trilha do filme Sete Vidas, com Will Smith no papel principal.

O filme é uma história sobre sentimento de culpa e depressão de um homem que se envolve num acidente automobilístico no qual morreram sete pessoas e cuja redenção, ele acredita, depende de salvar sete vidas. A letra de Insensatez mostra como fraqueza as ações desalmadas e apela à razão e à sinceridade como atitudes que levam ao perdão: “Vai, meu coração, ouve a razão/Usa só sinceridade/ Quem semeia vento, diz a razão/ Colhe sempre tempestade”. Termina com uma autoadvertência: “Vai, meu coração, pede perdão/ Perdão apaixonado/ Vai, porque quem não perde perdão/ Não é nunca perdoado”.

A bossa nova foi uma revolução musical que assinalou dois fenômenos interligados: a emergência cultural da classe média e “verticalização” das cidades. Surgiu na euforia dos Anos Dourados do governo Juscelino Kubitschek, protagonizado por um grupo de jovens músicos e compositores da classe média carioca que queriam promover a cultura brasileira internacionalmente. Seu marco fundador é a gravação de Chega de saudade num compacto simples, por João Gilberto, cuja batida de violão se inspirou no tamborim para revolucionar o que, na voz de Elizeth Cardoso, segundo Tom Zé, em Estudando a bossa, “era apenas mais um samba-canção.”

O LP Chega de saudade consagrou a bossa nova um ano depois, projetando Tom Jobim e Vinícius de Moraes nacional e internacionalmente. A seguir, o estrondoso sucesso de Garota de Ipanema, na voz de Astrud Gilberto, com Stan Getz no sax, João no violão e Tom no piano, fez dessa música uma das 50 grandes obras musicais da humanidade, segundo a Biblioteca do Congresso norte-americano. O canto falado de João Gilberto, influenciado pelo samba e pelo jazz, rompeu o paradigma da grande voz operística, sendo considerado a simbiose perfeita do violão e da voz, e passou a ser imitado por sucessivas gerações de instrumentistas e cantores.

Repressão

Com a bossa nova, um banquinho e um violão bastavam para encher de amor e poesia os pequenos bares boêmios e os ambientes apertados dos apartamentos. Com o golpe militar de 1964, a bossa nova passou a abordar temas sociais e políticos e suas letras românticas passaram a ter dupla interpretação, uma forma de contestação política da classe média. Em razão da repressão instaurada pelo regime militar, acabou dando origem à chamada MPB, a moderna música popular brasileira. Entretanto, a estética da bossa nova até hoje serve de referência de para inúmeros artistas.

Em 2012, um estudo feito pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, então sob comando do ex-ministro Moreira Franco, calculou a classe média brasileira em 104 milhões de pessoas. Segundo o levantamento, no curto período de 10 anos, 35 milhões de brasileiros haviam passado à condição de classe média, graças à criação de 18 milhões de empregos formais no período. A renda média desse segmento havia crescido 3,5% ao ano, enquanto a das demais famílias cresceu, no mesmo período, 2,4% ao ano. A nova classe média movimentava cerca de R$ 1 trilhão/ano na economia.

Esse ganho se perdeu com a recessão do governo Dilma Rousseff, que se pautou pela insensatez na economia, levando a classe média de volta aos antigos patamares demográficos. Na política, os que se mantiveram na classe média, diante do risco de perder essa condição, e os que voltaram à pobreza, mas não se conformam com a perda desse status social, promoveram o giro à direita que levou o presidente Jair Bolsonaro ao poder. Entretanto, com a insensatez na política e a persistência do desemprego, há muitos sinais de descolamento desses segmentos do atual governo. Afinal, como na música que até hoje encanta os corações de classe média, nem sempre é mais seguro ser temido do que amado; a maldade pode ser um sinal de fraqueza, como diriam Tom e Vinicius: “Ah, porque você foi fraco assim? / Assim tão desalmado/ Ah, meu coração, quem nunca amou / Não merece ser amado”. (Correio Braziliense – 11/08/2019)

O que pensa a mídia?

0

MANCHETES

O Globo

Governo quer terceirizar benefícios do INSS
Agências reguladoras temem esvaziamento
Presidente assume o controle da comunicação
Brasil bate recorde no Pan
Áreas contaminadas colocam população em risco
Bolsonaro assume o controle da comunicação
Presidente compartilha ataque a Deltan Dallagnol
Na Argentina, Macri sai em desvantagem

O Estado de S. Paulo

Guedes age para evitar que dívida judicial de Estados afete União
Planalto traça estratégias para eleições municipais
Bolsonaro diz que País não precisa de fundo alemão
MPs lideram criação de cargos por assembleias
Mais sete pódios no último dia do Pan
Ministério da Economia estuda reforma sindical
Kirchnerista vence primárias e complica reeleição de Macri
Presidente do Paraguai depõe sobre Itaipu

Folha de S. Paulo

STF arquiva todos os processos de suspeição contra si
Tasso Jereissati – Quanto menos Bolsonaro falar, melhor para a reforma
Sem apoio interno, favorito à PGR elogia presidente
TJ-SP lucra milhões com atraso na liberação de precatórios
Economia do São Francisco volta a crescer após seca
Oposição vence prévias argentinas com boa vantagem

Valor Econômico

BNDES vai assumir mais risco em crédito e liquidez
China avança no mercado argentino
Novo dono vai trocar Walmart por Grupo Big
Gilmar prevê MP de balanços judicializada
BCs garantirão ‘pouso suave’, diz banqueiro
A nobreza do zinco
Artigo – Cem anos depois, tempos de Weimar

EDITORIAIS

O Globo

Mercosul precisa harmonizar acordos com Europa e EUA

O avanço europeu surpreendeu os Estados Unidos, e cabe ao Brasil e à Argentina administrar os interesses

Brasil e Argentina estão diante de uma equação geopolítica: construir um acordo de livre comércio com os Estados Unidos em harmonia com o recém-assina-do compromisso entre o Mercosul e a União Européia.

É um desafio sem precedentes para a diplomacia profissional brasileira e argentina. A começar pelo fato de que a negociação precisa ser em bloco, como foi com os europeus, porque o Mercosul se baseia na política comercial e tarifa externa comuns.

Em recente visita a Brasília e Buenos Aires, o secretário de Comércio americano, Wilbur Ross, formalizou o interesse de Washington num acordo de livre comércio. Com o Brasil, requisito preliminar é concluir um tratado de investimentos.

Embora complexa, seria a etapa mais simples. “Existe uma outra situação”, disse Ross, referindo-se ao acordo Mercosul-União Europeia: “Já tem um pré-acordo político de livre comércio, agora isso precisa se transformar num acordo detalhado. É importante que nada nesse acordo seja um impedimento para um de livre comércio com os EUA”, disse. “Por exemplo” — continuou —, “nós temos questões com a Comissão Europeia sobre padrões nos setores automotivo, farmacêutico, químico, alimentício e em várias outras áreas. É importante evitar obstáculos que, inadvertidamente, podem aparecer na transação do Mercosul com a União Europeia.”

Soou como interessada a advertência americana sobre supostas “armadilhas” embutidas num compromisso arduamente negociado por duas décadas. Há razões objetivas para que, a princípio, assim seja vista. Afinal, até a assinatura do acordo Mercosul-UE as demonstrações de interesse do governo Donald Trump na América do Sul praticamente se restringiam a Cuba, uma ditadura a 150 quilômetros de Miami, e à Venezuela, dona das maiores reservas conhecidas de petróleo na região. Nos dois casos prevalece o interesse eleitoral doméstico de Trump em busca do voto latino para a reeleição no ano que vem, em especial na Flórida, que tem peso relevante no colégio eleitoral.

O avanço europeu no Mercosul, porém, surpreendeu e visivelmente incomodou Washington. Um eventual fracasso dessas negociações com a União Europeia, obviamente, deixaria os EUA em melhor correlação de forças com os países do Cone Sul.

O desafio na mesa da diplomacia do Brasil e da Argentina está em demonstrar capacidade e habilidade para harmonizar pactos abrangentes com europeus e americanos.

Há fatores fora de controle, como o cenário eleitoral argentino, onde o presidente Mauricio Macri tenta a reeleição numa disputa bastante equilibrada. Há, ainda, um relevante lobby da China em contraposição à ofensiva política americana em Brasília e em Buenos Aires.

É jogo pesado, desafiante à competência e à biografia dos responsáveis pela política externa regional.

O Globo

Aumento de recursos públicos para os partidos contraria o bom senso

É como se as legendas houvessem incluído no orçamento o caixa 2 que tiveram em eleições passadas

O calendário eleitoral estimula a imaginação de líderes e burocratas de partidos políticos. Querem ampliar o financiamento público de campanhas de prefeito e vereador no próximo ano. Os recursos extraídos do Orçamento federal passariam dos atuais R$ 1,7 bilhão para R$ 3,7 bilhões.

A justificativa da burocracia partidária é a da insuficiência de caixa para custear campanhas de mais de 500 mil candidatos a prefeito e vereador em 5,5 mil municípios.

Se efetivada a manobra liderada pelo PP no Congresso, com discreto apoio de outros, como PSL, PT e MDB, levaria o custeio total do funcionamento dos partidos a R$ 4,6 bilhões em 2020, somando-se o chamado fundo eleitoral pretendido e o fundo partidário já disponível.

Na prática é como se os partidos estivessem querendo repassar aos contribuintes uma conta adicional na dimensão do caixa 2 apurado em campanhas passadas, como observou em recente entrevista o pesquisador da FGV Humberto Dantas.

É algo que contraria o bom senso, para se dizer o mínimo, num país em grave crise fiscal, com 13 milhões de desempregados nas ruas, um déficit público estimado em R$ 139 bilhões neste ano e uma série de investigações sobre corrupção político-partidária ainda em andamento.

A tentativa de aumentar a provisão de recursos públicos para campanhas revela muito mais do que aparenta. Desnuda uma estrutura partidária inflada, cara, sem controle e incapaz de se reinventar mesmo depois da exposição de sua intimidade financeira na Lava-Jato.

Há três dezenas de partidos com representação no Congresso e outros 76 “em formação”, segundo os registros da última sexta-feira da Justiça Eleitoral. Passa da hora de se promover uma ampla reestruturação do sistema, com restrições efetivas à proliferação, redução de gastos — sobretudo, as mordomias dos chefes burocratas e a contratação de “consultorias” — e mudanças no formato das campanhas, com uso mais intensivo de meios eletrônicos. Há uma cláusula de barreira, mas tênue.

Não há lógica alguma no aumento dos recursos aos partidos. Se as disputas municipais reúnem número maior de candidatos, também é certo que a base territorial do embate por votos é muito menor do que nas eleições gerais, como as do ano passado. E, claro, a rede eletrônica disponível permite aos candidatos focar com mais precisão na mensagem a ser transmitida ao eleitorado.

É mais barato, eficiente, e permite a comprovação digitalizada de despesas, sempre útil na devida prestação de contas à Justiça Eleitoral.

O Estado de S. Paulo

Rede de mentiras

O presidente Jair Bolsonaro se valeu das redes sociais para compensar a baixa exposição de sua candidatura à Presidência da República no ano passado por meios ditos tradicionais, como as propagandas no rádio e na TV. Desde o início da década de 2010, notadamente a partir da onda de protestos de junho de 2013, o papel das redes sociais na vida política do País foi amplificado. Bolsonaro soube identificar e aproveitar como poucos essa transformação no relacionamento entre os políticos e uma significativa parcela do eleitorado.

Não só foi eleito presidente, como consolidou uma base de apoio fiel, acrítica e bastante ruidosa no Twitter e no Facebook, plataforma em que semanalmente faz suas já conhecidas lives, transmissões diretas e informais por meio das quais trata do que lhe vier à cabeça no dia. Essa aguerrida base de apoiadores virtuais, cujo tamanho varia a depender de quem realiza a contagem, serve ao presidente como uma caixa de ressonância para os seus interesses imediatos, que tanto podem ser a defesa de algum projeto do governo como o ataque a seus críticos.

Particularmente em relação a esta segunda “atribuição”, por assim dizer, a rede virtual de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro é implacável. Qualquer instituição, órgão, homem ou mulher que emitam algum tipo de crítica ao “mito”, façam-lhe reparos ou apontem suas incoerências serão alvo de uma campanha de desqualificação que ultrapassa, e muito, o limite do que seria um debate democrático entre grupos sociais antagônicos. O bando de radicais que se põem a serviço do governo, ou melhor, da pessoa do presidente da República, não hesita em caluniar, injuriar e difamar quem quer que seja quando Jair Bolsonaro está sob crítica por seus atos e palavras.

Aqui parece haver uma fina sintonia entre o presidente e sua rede de apoio digital, o que sugere algum grau de coordenação. O Estadão Verifica, núcleo de checagem de fatos do Estado, constatou a falsidade total ou parcial das informações que circularam amplamente por meio de redes sociais sobre pessoas que foram alvos de Jair Bolsonaro em sua recente erupção verborrágica. Quando o presidente Jair Bolsonaro desqualificou publicamente o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e seu então presidente, Ricardo Galvão, classificando como “mentirosos” os dados colhidos pelo instituto a respeito do desmatamento da Amazônia, a rede bolsonarista na internet logo fez circular o “depoimento” de um suposto médico do Amazonas que contestava aqueles dados científicos.

As informações contidas na fala do tal médico, evidentemente, eram falsas, apurou o Estadão Verifica. Em uma mesma ocasião, um café da manhã com a imprensa estrangeira, no dia 19 de julho, o presidente mentiu sobre o passado da jornalista Miriam Leitão, dizendo que teria sido presa a caminho da guerrilha do Araguaia, e disse que “daqueles governadores “de paraíba”, o pior é o do Maranhão. Não tem de dar nada para esse cara”. Ato contínuo, a milícia digital a serviço de Bolsonaro nas redes sociais fez circular a hashtag #MiriamLeitãoTerroristaSim e divulgou a informação de que o governador Flávio Dino (PCdoB) trocou a bandeira do Brasil de seu gabinete pela bandeira do partido comunista.

Mais uma vez, as alegações foram desmentidas pelo Estadão Verifica. Há vários outros casos que seguem o mesmo padrão. Eles revelam, antes de tudo, que o presidente da República e seus apoiadores mais radicais não sabem debater no mundo dos fatos, optando pela ilusão de que a permanente construção da fantasia lhes bastará para impor sem contradita a versão oficial do que quer que seja. Há o desgaste desse próprio modo de atuação, que recorre à mentira com contumácia e, pouco a pouco, ficará cada vez mais restrito às bolhas fanatizadas que orbitam em torno do governo. Há o amadurecimento da sociedade, que haverá de superar o impacto da transformação trazida pelas redes sociais e saberá distinguir o falso do verdadeiro. E haverá sempre a tradicional imprensa profissional a desmentir mentiras e a publicar aquilo que se quer manter escondido.

O Estado de S. Paulo

Parceria com o Japão

O acordo comercial entre o Brasil e o Japão, que um grupo de empresários dos dois países, sobretudo do setor industrial, vem discutindo há bastante tempo, pode tornar-se viável ainda neste ano e incorporar os demais países do Mercosul. O acordo assinado pelo Mercosul com a União Europeia impulsionou o interesse dos japoneses no entendimento comercial com o bloco do Cone Sul da América do Sul e criou, especialmente no Brasil e na Argentina, um ambiente político mais favorável para que o Mercosul amplie seu comércio externo.

Quando concluído, esse acordo aproximará ainda mais o Mercosul dos países industrializados, num movimento inverso ao que o bloco fazia no tempo em que seus principais membros – Brasil e Argentina – estavam submetidos a governos populistas que, com uma visão terceiro-mundista retrógrada, davam preferência a parcerias com países subdesenvolvidos. Além disso, o acordo estimulará o intercâmbio com um país de grande influência e participação no desenvolvimento, produção e comércio de bens de alta tecnologia.

Em reunião realizada em São Paulo, o Conselho Empresarial Brasil-Japão aprovou declaração na qual defende o lançamento de um acordo de parceria econômica entre os dois países. Esse conselho, formado por representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação Empresarial do Japão (Keidanren), vem tratando do acordo desde 2014 e, no ano passado, apresentou um roteiro para a discussão dos principais temas da agenda de comércio, cooperação e investimentos. Como informou o Estado, há a expectativa de que a formalização da parceria comercial ocorra durante a visita do presidente Jair Bolsonaro a Tóquio, programada para outubro, quando ocorrerá a cerimônia de entronização do imperador Naruhito.

Se não for nessa ocasião, o anúncio da parceria poderá ocorrer em novembro, se o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, aceitar o convite para visitar o Brasil naquele mês. A declaração da CNI e da Keidanren lembra o enorme potencial para a ampliação da cooperação econômica e industrial entre Brasil e Japão. Um acordo que torne mais fluido o comércio de bens e serviços entre os dois países terá efeitos benéficos para os dois lados, e também para todo o Mercosul. “Os setores produtivos entendem que é o momento para se iniciar as negociações entre o Brasil e o Japão”, avalia o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.

Takao Omae, representante da parte japonesa na comissão empresarial, diz que o empresariado de seu país está disposto a defender, no governo de Tóquio, as negociações com o Mercosul. Até há alguns anos, o Brasil era o principal destino dos investimentos japoneses na América Latina. Hoje a posição é ocupada pelo México. Mesmo assim, o Japão é o sexto maior investidor no Brasil. Quanto ao comércio exterior, o Japão esteve durante anos entre os cinco principais destinos de produtos brasileiros, mas hoje está na oitava posição, de acordo com dados dos seis primeiros meses deste ano. As exportações brasileiras para o Japão já estiveram perto de US$ 10 bilhões por ano, mas vêm declinando desde 2011. Nos primeiros seis meses de 2019, elas somaram US$ 2,16 bilhões. Da mesma forma, as importações de produtos japoneses pelo Brasil estão em queda desde o início da década, quando alcançaram cerca de US$ 8 bilhões.

Nos primeiros seis meses deste ano, o total foi de US$ 1,98 bilhão. São números que dão a dimensão de quanto se pode avançar nas relações comerciais caso o acordo seja concluído. Há, além do interesse econômico e financeiro que obviamente baliza as negociações de acordos desse tipo, aspectos sociais que estimulam o estreitamento das relações entre Brasil e Japão. A comunidade brasileira no Japão é a terceira maior no exterior, com cerca de 200 mil pessoas. A chamada comunidade nikkei, de japoneses e seus descendentes que vivem no Brasil, é de cerca de 2 milhões de pessoas, a maior população de origem nipônica fora do Japão.

O Estado de S. Paulo

Os problemas da MP 881

Baixada no dia 30 de abril para marcar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro, com o objetivo de reduzir a burocracia e criar um ambiente mais propício aos negócios, a Medida Provisória 881, a MP da Liberdade Econômica, pode, paradoxalmente, produzir resultados opostos aos pensados por seus idealizadores, aumentando a insegurança jurídica e desestimulando investimentos. Quando saiu do Palácio do Planalto, ela continha apenas 19 artigos, tratando exclusivamente desses temas.

Mas, no texto votado pela comissão mista da Câmara e do Senado, ela já está com mais de 50 artigos, muitos dos quais sugeridos pela equipe do Ministério da Economia, e que tratam das mais variadas matérias, alterando dezenas de dispositivos legais. Por isso, se vier a ser aprovada desse modo pela Câmara e pelo Senado, ela repetirá um dos mais graves problemas de técnica legislativa no País, que é o de tratar de temas discrepantes num único texto normativo.

Além das disposições relativas à desburocratização da economia, que é seu objetivo original, o texto da MP votado pela comissão mista trata de matérias que envolvem o Código Civil, o Código de Processo Civil, o Código de Defesa do Consumidor, a Lei de Recuperação de Empresas e a Consolidação das Leis do Trabalho. Envolve, também, disposições nas áreas de direito tributário, direito comercial, direito ambiental e direito urbanístico. Em matéria ambiental, por exemplo, revoga exigências para instalações de sistemas de energia solar. Em matéria de direito urbanístico, limita a discricionariedade dos municípios na elaboração de planos diretores, proibindo as prefeituras de exigir garagens.

As modificações mais polêmicas estão no campo do direito do trabalho, pois restringem direitos dos trabalhadores, limitam o poder dos fiscais do trabalho e colidem com convenções da Organização Internacional do Trabalho, das quais o Brasil é signatário. O texto aprovado na comissão prevê, entre outros pontos, o fim do adicional de periculosidade para motoboy e interfere na autonomia da Justiça do Trabalho, transferindo para a Justiça comum a aplicação das leis trabalhistas no caso do trabalhador que ganha mais de 30 salários mínimos por mês.

Nas vésperas da decisão do plenário, o relator da MP, deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), propôs aos líderes dos partidos na Câmara algumas mudanças no texto aprovado na comissão mista. Ao aprovar um texto confuso e eivado de inconstitucionalidades, cedendo a pressões empresariais e da equipe econômica do governo, a comissão perdeu uma oportunidade ímpar de regulamentar questões relevantes para reduzir a burocracia. Embora esteja entre as dez maiores economias do mundo, o Brasil é um dos piores países em matéria de ambiente de negócios, segundo o relatório Doing Business, do Banco Mundial.

Além disso, o modo como o texto-base da MP foi desfigurado acarreta um problema de caráter institucional. Ao analisar uma MP baixada pelo governo, em que medida a Câmara e o Senado podem se afastar do conteúdo central do texto, indo muito além de fazer eventuais restrições, adequações ou adaptações? Ao julgar há alguns anos uma ação direta de inconstitucionalidade, o Supremo Tribunal Federal (STF) classificou como “contrabando legislativo” a introdução de matérias estranhas ao tema central de uma MP.

“Não se trata de mera inobservância de formalidade, mas de um procedimento marcadamente antidemocrático, na medida em que, intencionalmente, subtrai do debate público e do ambiente deliberativo próprios ao rito ordinário dos trabalhos legislativos a discussão sobre normas que regularão a vida em sociedade”, disse a ministra Rosa Weber, em seu voto. Sindicatos e associações de juízes já advertiram que recorrerão ao STF com base nesse argumento, caso a MP da Liberdade Econômica seja aprovada como está. E, como a Corte já abriu um precedente quando acolheu esse argumento, há o risco de um novo embate entre o Legislativo e o Judiciário. É o tipo de problema que poderia ter sido evitado.

Folha de S. Paulo

Bolsonaro em dados

Levantamento vê piora em 44 de 87 indicadores; atual governo não é o único responsável, mas ainda está por se provar á altura dos desafios que herdou

Em tão pouco tempo de governo, é difícil estabelecer relações de causa e efeito entre as escolhas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e os resultados obtidos pelas políticas públicas, favoráveis ou não.

Levantamento publicado neste domingo (11) pela Folha reuniu 87 indicadores de áreas tão distintas quanto economia, educação, saúde, meio ambiente, segurança, trânsito e opinião pública. No primeiro semestre, 44 deles — pouco mais da metade, portanto — mostraram retrocesso. Em 28, notou-se melhora, e em 15, estabilidade.

Decerto que numa lista de tal amplitude haverá dados a refletir tendências anteriores à atual administração. A estagnação ou queda de recursos destinados a órgãos e programas, em particular, observa-se desde 2015, quando o governo Dilma Rousseff (PT) reconheceu, na prática, o colapso das contas do Tesouro Nacional.

Os cortes orçamentários promovidos na educação ganharam maior visibilidade, o que muito se deveu à atuação caótica do governo nessa área — com troca de ministros, amadorismo e ataques disparatados a universidades. Nesse caso, a falta de racionalidade parece mais preocupante que a de verbas.

Ainda mais evidente é o retrocesso no setor ambiental, e não apenas devido às evidências de alta expressiva do desmatamento.

A investida do presidente contra as estatísticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sobretudo, já trouxe danos quase insanáveis para a credibilidade do governo perante o público interno e a comunidade internacional.

Do lado positivo, o bolsonarismo mais fervoroso celebra a queda geral do ainda escandaloso número de homicídios no pais. Entretanto o fenômeno já havia sido registrado, embora de forma menos acentuada, no ano passado. Ademais, não se percebe alguma iniciativa clara capaz de explicá-lo.

Na economia há maior fartura de indicadores, o que facilita uma avaliação. No plano mais imediato, pode-se dizer que a equipe de Bolsonaro acerta ao manter o controle de gastos e ao conduzir com cuidado um novo ciclo de corte de juros.

Resta saber se terá capacidade de tirar do papel sua agenda promissora de reformas, por ora restrita ao plano das ideias e declarações.

Os números do Produto Interno Bruto decepcionaram, num sinal de que Brasília ainda não conseguiu restabelecer a confiança de empresários e consumidores. Como já se disse à exaustão, a mudança na Previdência é condição necessária, mas não suficiente para tal.

Os indicadores descrevem um país empobrecido, um setor público a ser reformulado e uma sociedade polarizada. Não se deve culpar só o atual governo por esse panorama, mas pode-se apontar que ele até agora não se provou à altura dos desafios que terá pela frente.

Folha de S. Paulo

Usos e abusos da terra

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, em inglês), um órgão do sistema da ONU, publicou na quinta-feira (8) um novo e importante relatório compilando informações científicas sobre o aquecimento global. Desta vez, seu foco recaiu sobre a contribuição dos usos da terra para mitigar ou agravar a crise do clima.

Um pedaço do planeta estar coberto por plantações, pastos ou matas tem conseqüências para a concentração de gases que aceleram o efeito estufa e, assim, para a temperatura da atmosfera.

Uma floresta em crescimento absorve gás carbônico. Além disso, diminui a temperatura atmosférica acima dela por meio da evapotranspiração, como se fosse um ar-condicionado. Derrubada, lança carbono no ar, realimentando a espiral de aquecimento.

Um campo cultivado e até um pasto bem manejado estocam mais carbono que o solo nu. Florestas plantadas ou áreas degradadas em regeneração seqüestram carbono e, portanto, contribuem para arrefecer o processo global.

A pecuária e a utilização de máquinas e fertilizantes também influenciam esse fluxo de gases-estufa. Tudo somado e subtraído, diz o IPCC, o uso da terra e suas mudanças (de floresta para pastagem, por exemplo) respondem por 23% das
emissões mundiais de carbono.

Parece evidente que os setores agrícola e florestal têm uma enorme contribuição a dar para mitigar a emergência que arrisca tornar cada vez mais freqüentes os eventos climáticos extremos, como secas, ondas de calor e inundações.

Tal constatação representa tanto uma oportunidade para os países menos ricos quanto seu interesse, porque os piores impactos vão se abater sobre suas populações.

O relatório alerta, contudo, que é preciso fazer muito mais, mobilizando outras áreas da indústria humana, sobretudo nas de transportes e geração de energia. Claramente, o maior esforço cabe aqui às maiores potências, China inclusive.

O Brasil se acha em posição privilegiada. Conta com enorme espaço para aumentar a produtividade da agropecuária sem seguir expandindo a área de cultivo e pastagem. Apesar disso, o desmatamento está em recrudescimento (dados preliminares indicam avanço em torno de 50% de 2018 para 2019).

O governo de Jair Bolsonaro (PSL), entretanto, não cessa de lançar combustível nessa queimada. Manietou o Ibama e promoveu uma intervenção no Inpe, o que incentiva grileiros, madeireiros ilegais e fazendeiros imediatistas a desencadear um ataque às florestas que não interessa ao país.

Nova edição de Política Democrática destaca protagonismo de jovens da periferia do DF

0

A FAP (Fundação Astrojildo Pereira) lançou a nona edição da revista Política Democrática online (veja aqui), destacando o crescimento de movimentos socioculturais formados por jovens da periferia do Distrito Federal. A publicação, editada e produzida pela instituição, vinculada ao Cidadania, também leva ao público uma entrevista com o antropólogo Roberto Kant de Lima, coordenador do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Administração Institucional de Conflitos da UFF (Universidade Federal Fluminense), além de oito artigos. O acesso a revista é gratuito, por meio do site da fundação.

No editorial, a revista Política Democrática online analisa o que chama de “protagonismo do Congresso e o avanço das reformas”.

“O desempenho do governo, transcorridos seis meses de sua posse, reitera, de um lado, aspectos de sua agenda anunciados na campanha eleitoral”, diz um trecho.

“De outro, a interação com o mundo político em geral, em particular com os demais Poderes, revela características novas, destoantes, em relação ao padrão estabelecido por seus antecessores, na sombra das regras da Constituição de 1988”, prossegue o texto.

No entanto, de acordo com o editorial, “começa a se formar, simultaneamente, um conjunto de fatos novos, por vezes, surpreendentes.” De acordo com a revista, dois ganharam, recentemente, destaque merecido.

“Primeiro, a conclusão do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, estacionado há mais de uma década. Ao que parece, a pressão de um segmento importante da base governista logrou derrotar a aversão governista aos processos de integração regional, mesmo ao preço de recuos importantes em diversos projetos governamentais”, afirma outro trecho do editorial.

Em outra parte, a revista mescla histórias e fotografias de jovens de periferia de Brasília que decidiram assumir o papel de protagonismo em suas próprias vidas e comunidades, para que difundam a conscientização como a maior aliada na luta contra as diversas formas de preconceitos e em favor a preservação da vida. Para isso, conforme mostra a reportagem especial, eles têm se reunido em movimentos socioculturais, como batalha de poesias e de MCs, destacando a importância do hip hop.

Na entrevista, o antropólogo observa que a política de justiça criminal atingiu mais os desiguais. Segundo Lima, “a partir da Lava Jato, o protagonismo da tutela saltou para o juiz, que, articulado com as outras corporações, retoma a mesma ideia de se tornar agente público com visibilidade”.

Os demais artigos abordam o papel dos três Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário –, indicando como se encontram separados e desequilibrados, além de assuntos como controle de armas no Brasil, a Lei Eleitoral de 2020, o Dia Internacional do Orgulho  LGBT+, cidadania e acordo entre o Mercosul e a União Europeia. (Assessoria FAP)

André Lara Resende: O equívoco dos juros altos

0

“For centuries, enlightened opinion held for certain and obvious a doctrine which the classical school has repudiated as childish, but which deserves rehabilitation and honours. I mean the doctrine that the rate of interest is not self-adjusting at a level best suited to the social advantage, but certainly tends to rise too high” – M. Keynes – “The General Theory”

A taxa de juros é tema polêmico por excelência. A usura, entendida como a cobrança de juros abusivos sobre o dinheiro emprestado, sempre foi malvista. Condenada em todas as culturas e por todas as religiões. Com o inexorável avanço do capitalismo e da economia de mercado, os juros perderam a conotação moral, ou mais precisamente de imoralidade, que teve no passado. A teoria econômica, ao sustentar que a taxa de juros é apenas mais um preço determinado por forças competitivas e impessoais, transformou a condenação dos juros em uma velha superstição, cuja origem estaria na ignorância a respeito do funcionamento dos mercados.

Na “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, o livro seminal da macroeconomia, John M. Keynes sustenta que a longa tradição de condenação dos juros altos merece ser reabilitada. Sempre capaz de ver além das ideias estabelecidas, Keynes deixa claro que a taxa financeira de juros não é determinada por forças impessoais no mercado.

Como o seu objetivo primordial na “Teoria Geral” era explicar como a economia poderia ficar presa num equilíbrio com alto desemprego, ainda que a taxa de juros estivesse muito baixa, Keynes não desenvolve o seu raciocínio sobre o mal provocado das altas taxas de juros. Perfeitamente ciente de que já estava comprando muitas brigas, preferiu não abrir mais frentes de controvérsias. Nos capítulos finais, Keynes sugere que a incapacidade da teoria econômica de compreender a milenar resistência aos juros altos estaria associada à confusão entre os diferentes conceitos de taxa de juros. Concordo e acredito que a confusão continue a prevalecer. Vejamos por quê.

Um nome, diferentes conceitos

Sob a denominação comum de “a taxa de juros”, existem inúmeros conceitos. A taxa de juros nominal, a taxa de juros real, a taxa de retorno do capital e a taxa natural de juros são conceitos distintos, todos igualmente referidos como “a taxa de juros” em diferentes contextos. É fundamental entender a diferença entre eles para procurar dissipar a confusão em torno da questão dos juros.

O primeiro conceito é simplesmente o da taxa financeira paga sobre um empréstimo, ou seja, a relação entre as unidades monetárias tomadas emprestadas e as unidades monetárias que deverão ser pagas ao final do empréstimo. Ao tomar emprestado 100 unidades monetárias e prometer pagar 110 da mesma unidade monetária ao fim de um ano, tomou-se emprestado a uma taxa nominal de juros de 10% ao ano. O segundo conceito é o da taxa real de juros, que é a taxa nominal descontada a variação do nível de preços no período. É a taxa de juros em termos de poder aquisitivo do empréstimo, ou seja, a taxa nominal de juros deflacionada pela variação do nível de preços no período.

Esses dois primeiros conceitos são relativamente simples e hoje bem compreendidos por qualquer pessoa minimamente familiarizada com operações financeiras. Já o terceiro conceito, a taxa própria de retorno do capital (“the own rate of interest of capital”), é um conceito abstrato definido como o rendimento real do capital investido. Para aumentar a confusão, é chamado de “a eficiência marginal do capital por Keynes” e de “a taxa de retorno do capital sobre o custo por Irving Fisher”. Para simplificar, usemos a denominação utilizada por Keynes, Eficiência Marginal do Capital (EMK).

Embora seja expressa como um retorno percentual num determinado período de tempo, a EMK não é uma taxa financeira, mas sim uma medida da produtividade do capital. Para uma unidade de capital investido, quantas unidades de capital se obtém ao fim de um período. Essa taxa própria de retorno do capital não é uma taxa financeira que precise ser deflacionada, pois é a taxa em termos do próprio rendimento real do capital.

Já a taxa natural de juros é um conceito introduzido por Knut Wicksell, o economista sueco que, no fim do século XIX, em seu hoje clássico “Interest and Prices”, questiona a Teoria Quantitativa da Moeda (TQM) e introduz uma tese alternativa para a determinação do nível geral de preços. Segundo Wicksell, o nível geral de preços não é função da quantidade de moeda, como sustenta a TQM, mas sim da pressão da demanda sobre a oferta.

Demanda e oferta agregadas seriam funções da taxa de juros, e a taxa de equilíbrio, aquela que manteria estável o nível geral de preços, seria a Taxa Natural de Juros (TNJ). A partir dos anos 90, quando finalmente se reconheceu que os bancos centrais não controlam a moeda, mas sim a taxa básica de juros, a macroeconomia e a política monetária foram reformuladas na direção sugerida por Wicksell. A TNJ de Wicksell não é uma taxa observável, mas uma taxa teórica que neutraliza as pressões sobre o nível de preços.

Os juros na teoria e na prática

Grande parte da verdadeira Babel em torno da questão dos juros advém do fato de que diferentes pessoas, em diferentes circunstâncias, se referem à taxa de juros sem deixar claro, e muitas vezes sem mesmo estar conscientes, do conceito de taxa de juros a que estão se referindo. A teoria econômica é em grande parte culpada por essa confusão, pois no modelo canônico de equilíbrio geral, o modelo de Walras-Arrow-Debreu (WAD), que é a referência lógica da disciplina, todos esses conceitos se confundem numa única taxa de juros.

O modelo de WAD é um modelo microeconômico de competição perfeita, um “idealtipo”, em que o comportamento maximizador de agentes individuais garante o equilíbrio permanente de todos os mercados. Nesse sofisticado “idealtipo”, corretamente denominado de Modelo de Equilíbrio Geral, o equilíbrio é instantâneo e não existe moeda. Existem mercados contingentes futuros e um bem que serve de referência como unidade de valor, ou um “numéraire” na denominação original de Walras. A taxa de juros – e aqui é correto falar em “a taxa de juros” – é, única e simplesmente, o preço de tempo em termos do “numéraire”.

A realidade é bem mais complexa. Mesmo as taxas financeiras de juros variam segundo o risco de crédito e o prazo do contrato. Quanto mais alto o risco e mais longo o prazo, mais alta a taxa de juros. As taxas cobradas do consumidor no varejo refletem o risco de crédito, o prazo e também a competição ou a falta de competição no sistema financeiro. Alta incidência de defaults, prazos mais longos e falta de competição no sistema financeiro levam a taxas de juros mais altas no varejo.

Grande parte da crítica da mídia, do empresariado e dos políticos, em relação às altas taxas de juros, concentra-se, compreensivelmente, nas razões pelas quais as taxas de juros financeiras cobradas do consumidor e do empresariado são significativamente mais altas do que a taxa básica fixada pelo Banco Central. São questões práticas relevantes e merecem atenção, mas como a taxa básica do Banco Central é piso e a referência para toda a estrutura de taxas financeiras de juros na economia, é essa taxa que precisa ser melhor compreendida.

O BC controla a taxa de juros

A taxa financeira básica de juros da economia é a taxa cobrada ou paga pelo Banco Central nas reservas bancárias. Os bancos comerciais têm conta de reservas no Banco Central, onde devem manter um nível mínimo compulsório, essencialmente calculado com base nos seus respectivos depósitos do público. Bancos que têm excesso de reservas estão acima do compulsório, podem vender reservas no mercado interbancário para os que têm insuficiência de reservas e estão abaixo do compulsório, mas o sistema bancário como um todo não tem como criar ou destruir reservas.

A insuficiência ou o excesso de reserva do sistema como um todo só pode ser ajustada pelo Banco Central, que cria ou destrói as reservas necessárias para garantir o equilíbrio do sistema. Para fornecer reservas quando o sistema bancário está abaixo do compulsório, o Banco Central cobra a taxa básica de juros. Da mesma forma, o Banco Central absorve o excesso de reservas do sistema, pelo qual ele paga a mesma taxa básica de juros. A taxa básica da economia, fixada pelo Copom, é a taxa à qual o Banco Central irá fornecer ou tomar reservas do sistema bancário.

No Brasil, esse ajuste diário das reservas bancárias é feito através de operações de compra e venda com recompra de títulos da dívida pública. Nessas operações, chamadas de “compromissadas”, o Banco Central toma ou fornece reservas ao sistema bancário, à taxa básica, utilizando títulos públicos como lastro. Para absorver o excesso de reservas, o Banco Central precisa ter em carteira títulos públicos. Como discuto em “Razão e Superstição”, o sistema poderia ser aperfeiçoado para permitir que o Banco Central pague juros nas reservas acima do compulsório, o que já fazem hoje inúmeros Bancos Centrais, inclusive o Fed americano.

O que importa, para a análise da intuição milenar de que a taxa financeira de juros tende a ser excessivamente alta, é que a taxa básica de juros, aquela que serve de base para toda a estrutura de taxas financeiras da economia, é determinada pelo Banco Central. Este tem completo controle sobre a taxa básica de juros e pode fixá-la onde quiser. Não há nada que impeça o Banco Central de fixar a taxa básica onde bem entender.

A afirmação irá provocar indignação da grande maioria dos especialistas. Ora, exclamarão, o Banco Central tem obrigação de zelar pela estabilidade dos preços e o controle da inflação! Se o Banco Central resolver por conta própria baixar a taxa de juros, irá perder o controle da inflação. Peço ao leitor que tenha paciência, que refreie seus impulsos de abandonar a leitura ao se deparar com uma tal heresia.

O fato de o Banco Central ter efetivamente a capacidade de fixar a básica não significa que ele possa decidir aleatoriamente, sem qualquer critério, onde fixá-la. Ao contrário, justamente porque tem o poder de fixar a taxa básica, deve ajustá-la tendo como objetivo o melhor desempenho da economia. Para isso, é consenso que o Banco Central deve procurar manter a inflação dentro das metas, preservar a saúde do sistema financeiro e não comprometer o crescimento da economia.

Para que fique claro: o Banco Central pode fixar a taxa de juros onde lhe parecer mais adequado, mas sempre com o objetivo de cumprir de forma responsável o seu mandato de guardião da estabilidade da moeda e do sistema financeiro. Para isso, deve estar protegido de pressões espúrias e pautar-se exclusivamente pelos princípios conceituais que inspiram a boa condução da política monetária. A questão-chave é então saber se os princípios conceituais que pautam a atuação do Banco Central estão corretos.

A pergunta pode parecer meramente retórica, pois como poderiam não estar corretos, se são os princípios ensinados nas melhores escolas de economia e aceitos pela absoluta maioria dos especialistas? Ocorre que toda a macroeconomia está sendo questionada. A grande crise financeira das economias avançadas de 2008 deixou claro que algo estava errado na condução da política macroeconômica. Justamente quando a academia se vangloriava de ter entendido como controlar os ciclos e garantir a prosperidade econômica, o sistema financeiro implode numa crise que poderia ter levado a uma depressão ainda mais profunda do que a dos anos 30.

Foi justamente a atuação altamente heterodoxa dos Bancos Centrais, liderados pelo Fed americano, que impediu o colapso da economia mundial. Ao baixar a taxa básica de juros para próximo de zero e expandir as reservas bancárias, isto é, emitir moeda, numa velocidade e proporção nunca vistas, os Bancos Centrais salvaram a economia mundial, mas implodiram a teoria macroeconômica. O que ocorreu desde então – juros básicos próximos de zero por mais de dez anos, base monetária multiplicada por fatores superior a dez e os passivos dos Bancos Centrais chegando a 75% do PIB, como no caso dos EUA, sem que a inflação mostrasse qualquer sinal de aceleração – demonstrou de forma clara e cabal que a teoria monetária não correspondia à realidade. Estava simplesmente errada.

A Teoria Quantitativa da Moeda, que durante todo o século passado inspirou a condução dos Bancos Centrais, sabe-se hoje, não apenas pressupunha que eles pudessem controlar a base monetária, o que nunca, simplesmente nunca, foi verdade, como estava equivocada sobre relação entre a moeda e a inflação. Aposentada sem maiores explicações no início deste século XXI, a TQM foi substituída por uma regra heurística para a fixação da taxa de juros. De inspiração Wickselliana, essa regra, conhecida como a Regra de Taylor, sugere que o Banco Central deva aumentar ou reduzir a taxa básica, mais do que proporcionalmente aos desvios para cima ou para baixo da inflação em relação às metas estabelecidas.

Trata-se de uma regra, uma função de reação para o Banco Central, baseada na suposição de que o aumento da taxa básica tenha efeito moderador sobre a demanda agregada e, através da redução da pressão sobre a oferta, reduza a inflação. Essa relação inversa entre a demanda agregada e o nível geral de preços, entre a capacidade ociosa e o desemprego na economia e a inflação, durante muitas décadas captada pela Curva de Phillips, desde a grande crise financeira de 2008, parece ter se tornado bem menos acentuada, ou até mesmo desaparecido.

A Teoria Monetária Contemporânea

Não pretendo retomar aqui o tema da grande crise que se abateu sobre a macroeconomia, que já discuti em artigos anteriores. Basta observar que a regra de política monetária, hoje predominante e adotada pelos Bancos Centrais, estabelece uma função de reação para a fixação da taxa de juros. Esta Regra de Taylor dita em que condições a taxa de juros deve ser elevada ou reduzida, mas nada tem a dizer sobre o nível da taxa de juros. Supõe-se, inspirado pelo modelo de equilíbrio geral de WAD, que a mesma taxa que mantém a inflação estável dentro das metas coincida com a taxa que equilibra os mercados a pleno emprego. Dito de outra forma: que a taxa natural de Wicksell determine uma taxa financeira real de juros, que coincida com a taxa própria de retorno do capital, a EMK de Keynes.

Assim sendo, de acordo com os corolários de eficiência do modelo de equilíbrio geral de referência, ao manter a inflação estável, seguindo uma regra heurística para a taxa de juros, o Banco Central estaria simultaneamente estabilizando o crescimento e garantindo o pleno emprego. Não é preciso dizer que a evidência é flagrantemente contrária a essa suposição.

Embora pretendam fazer acreditar que tenham um arcabouço teórico sólido e empiricamente comprovado, os Bancos Centrais hoje navegam sem qualquer orientação fundamentada, apenas reagindo aos desvios da taxa de inflação em relação às metas. O sucesso do sistema de metas, acoplado a uma função de reação para a taxa de juros, comprova que a intuição de Knut Wicksell estava correta. A dinâmica do nível geral de preços é como a de um cilindro sobre um plano rugoso cuja inclinação é dada pela pressão da demanda agregada, mas não há nada que ancore o nível geral de preços.

Um século antes da TQM ser aposentada, Wicksell já havia entendido que não é a quantidade de moeda que determina o nível geral de preços, mas, como ele próprio reconhece com indisfarçável desalento, não dispunha de uma teoria alternativa. A ideia de que não exista uma âncora real para o nível de preços, de que a inflação seja exclusivamente uma questão de expectativas, não ocorreu a Wicksell. A importância das expectativas em todas as áreas da economia ainda não tinha sido compreendida.

A pressão da demanda agregada, como sempre se soube, afeta os preços e cria expectativas de inflação, mas não é condição necessária nem suficiente para determinar a inflação. Esta é essencialmente uma questão de expectativas coletivas, onde o que importa é avaliar corretamente as expectativas dominantes. Como são as expectativas da maioria que irão determinar a taxa de inflação, é mais importante saber o que pensa a maioria do que ter uma opinião própria fundamentada. Keynes, com sua habitual perspicácia, fez uma analogia entre situações como essas e os concursos de beleza, onde para acertar o vencedor é mais importante saber quem a maioria acha bonito, do que quem você realmente acha o mais bonito.

Alguns preços relevantes, como a taxa de câmbio, os salários e os preços dos combustíveis, funcionam como sinalizadores das expectativas coletivas. Quando o Banco Central tem credibilidade, as metas anunciadas para a inflação também são importantes balizadores das expectativas. Com o sucesso na estabilização da inflação, desde que adotou o sistema de metas, o Banco Central do Brasil ganhou credibilidade. A inflação está dentro das metas e a taxa básica de juros é hoje a mais baixa desde o Real. A inflação crônica da segunda metade do século XX foi finalmente derrotada, mas a produtividade está estagnada e o crescimento, muito abaixo do observado nas demais economias no mesmo estágio de desenvolvimento. A incapacidade de que a economia, de um país com os recursos e a população que tem o Brasil, possa crescer como as de seus pares causa perplexidade.

No momento, a tese mais em voga para justificar a estagnação da produtividade e o baixo crescimento é de que o crescimento do Estado e das despesas públicas asfixia o setor privado e paralisa a economia. Nas últimas décadas, houve efetivamente um enorme aumento das despesas correntes do governo. A histórica tradição de um Estado inchado, ineficiente e patrimonialista, foi levada ao paroxismo durante os anos do governo do PT.

A rápida desaceleração do crescimento demográfico e o sucesso de grupos organizados, sobretudo de servidores públicos, para garantir condições extraordinárias na legislação, resultou num déficit crescente do sistema de repartição da Previdência. Com a carga tributária em torno de 34% do PIB, equivalente às mais altas entre as economias desenvolvidas, a capacidade de investir do Estado sem provocar grandes déficits orçamentários está seriamente limitada, como atesta a dramática queda das taxas de investimentos públicos dos últimos anos.

Desqualificação a priori

Curiosamente, a possibilidade de que a taxa de juros excessivamente alta possa estar por trás tanto do estrangulamento fiscal como da estagnação da produtividade e da queda do investimento nunca foi levada a sério pelos responsáveis pela condução da política monetária. Tratada como mera ignorância dos fundamentos macroeconômicos, ou mais comumente como pura demagogia, pelos especialistas que pontificam na mídia, nunca houve uma preocupação de refutar racionalmente uma hipótese altamente plausível.

Altamente plausível porque, como é trivial constatar e não há quem discorde, os juros altos aumentam o serviço da dívida e desestimulam o investimento. A opinião dominante é que, como não há alternativa, pouco importa se os juros altos devem ou não ser responsabilizados pelo estrangulamento fiscal e pelo baixo crescimento. Os juros são o que são e nas condições prevalecentes, não haveria como baixá-los. Estão altos porque os investidores exigem taxas altas para refinanciar uma dívida alta de um governo altamente deficitário. São o desequilíbrio fiscal e o peso da dívida pública que impõem os altos juros para o financiamento do governo, não os juros altos que sobrecarregam o custo da dívida, reduzem o crescimento e aumentam a relação entre a dívida e o PIB.

O argumento seria perfeitamente válido se a dívida pública brasileira fosse, como já foi no passado, uma dívida externa, denominada em moeda estrangeira e carregada por investidores externos. Não é o caso, a dívida pública brasileira é hoje uma dívida quase que integralmente, mais de 95% dela interna, denominada em reais. A estrutura de custo do financiamento de uma dívida interna denominada na moeda nacional fiduciária é baseada na taxa básica de juros. Esta, a taxa fixada pelo Banco Central para as reservas bancárias, é que determina a base de toda a estrutura a termo das taxas de juros da dívida.

Como os títulos públicos são negociados com reservas bancárias no Banco Central, no chamado Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic), é o custo das reservas bancárias, a taxa básica de juros, também conhecida como a taxa Selic, que estabelece o custo de carregamento da dívida. No jargão financeiro, o custo de carregamento é o custo de financiamento de um ativo. No caso da dívida pública, o custo de financiamento para o sistema financeiro é dado pela taxa de juros nas reservas bancárias. Como essa é a taxa de referência, que se deve utilizar para calcular se vale ou não a pena comprar títulos do Tesouro, toda a estrutura de taxas para títulos de diferentes prazos de vencimento é função dessa taxa básica.

A taxa básica e o custo da dívida

Títulos de vencimentos mais longos pagam um prêmio sobre a taxa básica porque, como exigem uma estimativa do custo de carregamento até datas mais distantes, implicam maior risco de que possam vir a ter um retorno inferior ao custo de seu financiamento até a data de resgate. Essa é a única razão para que títulos públicos de mais longo prazo paguem juros superiores aos de curto prazo.

As duas razões adicionais por trás de uma estrutura a termo de taxa de juros, o risco de crédito e o risco de iliquidez, não existem quando a dívida é denominada em moeda nacional e de responsabilidade de um Estado que emite a sua moeda fiduciária. Esse é o ponto central da distinção entre uma moeda fiduciária e uma moeda de lastro metálico ou ainda de uma moeda sob o controle de uma instituição que não está subordinada ao Estado emissor da dívida.

Um Estado que emite a sua própria moeda fiduciária só irá deixar de servir a sua dívida se essa for uma opção política, nunca por incapacidade financeira. Pela mesma razão, numa eventual crise de iliquidez, o Banco Central, como agente emissor do Estado, será sempre capaz de recomprar ou de refinanciar os títulos em poder do mercado. Não existem riscos de crédito nem de iliquidez associados a títulos da dívida pública de um Estado emissor de sua moeda fiduciária.

A dívida pública mobiliária brasileira é hoje quase integralmente denominada em moeda nacional e carregada por investidores cuja referência é o custo de financiamento estabelecido pela taxa básica das reservas bancárias. Quase 25% da dívida é efetivamente financiada através de “operações compromissadas”, que são reservas bancárias tomadas do mercado a curtíssimo prazo pelo Banco Central, com lastro em títulos do Tesouro que ele mantém em sua carteira.

Se o Banco Central tivesse permissão para pagar juros sobre as reservas bancárias, as operações compromissadas seriam substituídas por reservas voluntárias do sistema bancário. Como o Banco Central não precisaria mais ter títulos do Tesouro para servir de lastro das reservas tomadas do sistema bancário e as reservas remuneradas seriam consideradas base monetária, a dívida do Tesouro seria reduzida na proporção dessas operações compromissada.

A dívida do Tesouro, que hoje está perto de 75% do PIB, ficaria reduzida a 50% do PIB. O passivo do setor público consolidado, Tesouro e Banco Central, continuaria a ser o que é, mas a dívida do Tesouro teria uma redução expressiva. Como hoje as operações compromissadas correspondem aproximadamente ao valor das reservas internacionais do Banco Central, também quase 25% do PIB, a dívida do Tesouro cairia para o que é hoje o valor da dívida líquida das reservas internacionais.

Assim como as operações compromissadas, também as Letras Financeiras do Tesouro, LFTs, títulos indexados à taxa Selic, poderiam, com vantagens, ser substituídas por reservas voluntárias remuneradas no Banco Central. As LFTs correspondem hoje a mais de 30% da dívida mobiliária. Se somadas às compromissadas e transformadas em reservas remuneradas no Banco Central, que não são computadas como dívida, a dívida mobiliária do Tesouro cairia para menos da metade do que é hoje, ou seja, um pouco mais do que 35% do PIB. Nada de substantivo mudaria, pois o passivo consolidado do setor público, Tesouro mais o Banco Central, continuaria sendo o mesmo, mas o exercício serve para demonstrar quão arbitrárias são as definições de dívida pública. Por isso mesmo, podem ser manipuladas, para assustar ou tranquilizar, de acordo com o interesse do freguês.

Definições contábeis são importantes. A moeda fiduciária é dívida pública. Embora não emitida pelo Tesouro, mas pelo Banco Central, a moeda é dívida pública, pois o Banco Central é uma agência do Estado. O fato de não pagar juros não faz a moeda deixar de ser dívida do Estado, assim como títulos públicos emitidos com juros zero, ou mesmo negativos, como já foram emitidos recentemente pela Suíça e pelo Japão, não os transformam em moeda.

A teoria econômica nada tem a dizer sobre a existência de um limite para a dívida pública, seja ela emitida em forma de moeda do Banco Central, seja em forma de títulos do Tesouro, mas a evidência empírica, sobretudo depois da crise de 2008 e do QE, não deixa dúvida de que, se esse limite existir, é altamente dependente das condições objetivas da economia e das expectativas. O que a experiência histórica demonstra, sem sombra de dúvida e mais uma vez confirmado na crise de 2008, é que a iliquidez, sobretudo quando provocada pela súbita contração de crédito diante de uma reversão das expectativas, é profundamente desorganizadora da economia.

A teoria monetária a reboque da prática

O Estado, através do Banco Central, é o grande supridor de liquidez da economia. É o Banco Central e só o Banco Central, como o agente capaz de suprir reservas bancárias, quem tem capacidade de expandir a liquidez primária – a base monetária – quando a liquidez secundária – o crédito bancário – se contrai em momentos de perda de confiança nos mercados. O Banco Central controla o preço da liquidez, através da taxa básica de juros sobre as reservas bancárias, e garante que a quantidade demandada será ofertada.

A insuficiência de liquidez impede o bom funcionamento dos mercados e da economia. O excesso de liquidez pode levar a bolhas de preços de ativos e a crises quando a confiança se reverte. Tanto a insuficiência quanto o excesso de liquidez são resultantes de fatores institucionais e psicológicos do mercado financeiro, não do preço da liquidez primária, das reservas bancárias, determinado pela taxa básica de juros. Essa constatação, algo que só se tornou evidente após a crise financeira de 2008, é o que levou ao desenvolvimento de novas formas de regulamentação e de atuação dos Bancos Centrais.

Se o preço das reservas bancárias, a taxa básica de juros, é um instrumento incapaz de controlar a liquidez na economia, mas determina toda a estrutura de custos da dívida pública, a taxa de juros deve ser fixada com o objetivo de reduzir o custo da dívida pública. Outras medidas institucionais e regulatórias devem ser tomadas para balizar as expectativas e evitar que a liquidez criada pelo sistema financeiro provoque bolhas especulativas. Ao usar taxa básica para o controle da liquidez e da inflação, os Bancos Centrais se equivocam sobre o papel da taxa de juros. Utilizam um instrumento poderoso com o objetivo errado. O efeito da taxa de juros no controle da liquidez e de inflação é altamente questionável, mas o seu efeito sobre o custo da dívida pública é inquestionavelmente perverso.

Uma vez compreendido que a taxa de juros é o principal determinante do custo da dívida, fica evidente que fixá-la por períodos prolongados de tempo, acima da taxa própria de retorno do capital, da EMK de Keynes, é gravíssimo equívoco. Como a taxa de crescimento da economia a longo prazo é função do investimento, que é determinado pela taxa de retorno do capital, ao se fixar a taxa financeira acima da EMK, garante-se que a relação entre a dívida e o PIB será crescente, na ausência de sustentados superávits fiscais primários.

Keynes compreendeu que, ao longo da história, a taxa financeira sempre foi mais alta do que o desejável e que a teoria clássica, ao confundir a taxa financeira de juros com a EMK, equivocadamente supõe que a taxa financeira não esteja sob controle do Banco Central, mas resulte do equilíbrio de mercado entre a poupança e o investimento.

No penúltimo capítulo da “Teoria Geral”, cujo longo título é “Notas sobre o Mercantilismo, a Lei da Usura, a Moeda Carimbada e o Subconsumo”, Keynes afirma que foi levado a acreditar que a atitude da igreja medieval em relação à taxa de juros era inerentemente absurda. Achava que a elaborada discussão dos jesuítas, com o objetivo de distinguir os juros nos empréstimos monetários do retorno dos investimentos reais, era uma mera tentativa de encontrar uma saída prática para uma teoria tola. Com o tempo, compreendeu que essas discussões eram um honesto esforço intelectual, para desfazer a inextrincável confusão que a teoria clássica havia feito entre a taxa de juros e a eficiência marginal do capital.

Logo a seguir, Keynes dedica toda uma seção do capítulo 23 da “Teoria Geral” para comentar as ideias de Silvio Gesell, um autor, segundo ele, indevidamente negligenciado. Nascido na Alemanha, Gesell fez fortuna na Argentina e foi ministro da Fazenda da Baviera por 15 dias. Keynes afirma que a sua contribuição para a teoria da moeda e dos juros começa pela clara distinção entre a taxa de juros e a eficiência marginal do capital. Para Gesell, é a taxa de juros que impõe um limite à taxa de crescimento do capital.

Sem o freio imposto pela alta taxa de juros financeira, haveria muito mais investimento e o crescimento do capital real seria tão rápido que a queda da EMK obrigaria a taxa de juros a ser ainda mais baixa e até mesmo negativa. Gesell discute a viabilidade de juros nominais negativos, através de um burocrático sistema de cédulas que precisariam ser periodicamente carimbadas, o que imporia um custo a quem quisesse carregar moeda, antecipando a questão de como escapar do limite inferior nulo para a taxa de juros.

No mundo contemporâneo, os juros já estão muito próximos de zero, a moeda digital já permite taxas nominais negativas, mas a teoria econômica ainda não entendeu a distinção entre a taxa de juros e a taxa de retorno do capital, a EMK. Enquanto a EMK é função da tecnologia e de forças econômicas que estão fora do alcance das autoridades monetárias, a taxa de juros está sob o controle direto do Banco Central. A EMK é o principal determinante da taxa de investimento e portanto da taxa de crescimento de longo prazo.

A reponsabilidade primordial do Banco Central, num país onde a moeda é fiduciária, é garantir a oferta de liquidez a uma taxa de juros inferior à EMK. Ao longo da história, enquanto prevaleceu a moeda metálica, prevaleceu uma iliquidez crônica. Com o desenvolvimento do sistema financeiro e do crédito bancário, a liquidez crônica foi superada, mas os surtos de pânico e as corridas bancárias continuaram a provocar graves crises de iliquidez. Depois da Grande Depressão dos anos 30, com o fim do padrão-ouro, os Bancos Centrais passaram a atuar como emprestadores de última instância e garantir a oferta de liquidez, também e sobretudo, em momentos de crise de confiança bancária.

Depois da crise de 2008, os Bancos Centrais compreenderam que, numa situação de reversão das expectativas do mercado de crédito, baixar a taxa de juros não seria suficiente para evitar a crise de liquidez. Criaram então novas formas de emissão primária de liquidez, através da compra de grandes volumes de títulos, tanto públicos como privados, para compensar a contração do crédito bancário. Compreenderam também que, durante o período de euforia, a alta taxa de juros não é suficiente para evitar a expansão excessiva do crédito bancário e a formação de bolhas especulativas. Criaram uma regulamentação com limites mais rigorosos e introduziram uma série de restrições contábeis, que ficaram conhecidas como “medidas macroprudenciais”, para a melhor condução da política monetária.

O Fed americano, ao manter a taxa básica de juros próxima de zero, mesmo depois que a economia deu sinais inequívocos de que estava em recuperação e que o desemprego havia caído, dá sinais de ter compreendido o que a teoria macroeconômica ainda não parece ter incorporado: a taxa básica tem pouca ou nenhuma influência sobre a inflação e muita sobre o custo da dívida e sobre o investimento.

Assim como aconteceu com a substituição da base monetária pela taxa básica de juros, quando a prática se antecipou e obrigou a revisão da teoria, há indícios de que, mais uma vez, a teoria macroeconômica está defasada em relação à prática. Não faz sentido manter a taxa básica acima da EMK e da taxa de crescimento de longo prazo. O objetivo da política monetária deve ser garantir a liquidez e a saúde do sistema financeiro, evitando bolhas especulativas através de medidas regulatórias, “macroprudenciais”, e garantir que a taxa de juros fique abaixo da EMK e da taxa de crescimento de longo prazo da economia.

Diferentemente da regra heurística, hoje adotada para tentar controlar a inflação, esse é um objetivo que tem sustentação intelectual clara e inquestionável. Mas, como Keynes observou, a dificuldade não está nas novas ideias, mas sim em escapar das velhas, das formas arraigadas de pensar e de expressão. A influência da teoria econômica moderna é comparável à das religiões, pois é bem mais difícil exorcizar o óbvio do que levar as pessoas a acreditar no recôndito e no irracional. Mais uma vez, o extraordinário feito da teoria econômica foi superar as crenças do homem comum e, ao mesmo tempo, estar errada. (Valor Econômico – 09/08/2019)

Este texto faz parte de livro a ser publicado pela Companhia das Letras

André Lara Resende é economista

 

Fernando Gabeira: Jogos da nova temporada

0

Com a volta do Congresso e do STF, o delicado equilíbrio de forças entre os três Poderes precisa ser decifrado. Comecei a ler o livro Os Onze, de Felipe Recondo e Luiz Weber, na busca de mais informações sobre os bastidores e a história recente do STF. A ideia era entender melhor como esse Poder se desdobra no futuro próximo. Constatei no livro que um marco profundo na dinâmica do STF foi a morte de Teori Zavascki. Não só foi alterada a correlação de forças entre eles, mas perdeu-se uma figura agregadora. Isso impulsionou a criação de ilhas independentes, com grande desenvoltura para decisões monocráticas. Mas a grande linha divisória desde o princípio foi a Lava Jato.

Poucos sabem, mas a operação chegou de certa forma ao próprio STF. Foi um episódio ligado à Construcap, que doara R$ 50 mil a um membro do PT com nome Toffoli. Parecia ser o do ministro. No mesmo ano, o irmão de Toffoli disputou as eleições como deputado estadual. O mal-entendido deixou cicatrizes. Nas suas mais recentes decisões, Toffoli comportou-se como diante de cerco se fechando contra ele. E se antecipa de uma forma que faz do STF não um contrapeso democrático, mas um novo peso pesado em nossos temores. Toffoli começou criando um inquérito guarda-chuva para combater acusações ao STF. Agregou Alexandre de Moraes como seu delegado.

O que surgiu disso? Buscas na casa de pessoas que apenas criticavam o Supremo. E logo em seguida a censura à revista Crusoé, precisamente a que tinha revelado relações financeiras atípicas entre ele e sua mulher. Num novo passo, Toffoli proibiu as investigações a partir de dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), quebrando o ritmo dos trabalhos, rompendo acordos internacionais, dificultando até a entrada do Brasil na OCDE. Agregou o presidente Bolsonaro, uma vez que atendeu a um pedido da defesa de Flávio. Finalmente, Alexandre de Moraes suspendeu a fiscalização de ministros do Supremo e outras autoridades, alegando serem tendenciosas.

Um manifesto de 195 auditores afirma que são cruzamentos automatizados que definem o objeto de fiscalização mais rigorosa. Não há nada de pessoal ou político nisso. Tanto Toffoli como Gilmar Mendes condenam, com razão, os vazamentos. Mas, ora, basta punir quem vazou. Na realidade, os vazamentos que prejudicam os investigados acabaram se transformando em algo contraproducente no fim das investigações. O presidente Bolsonaro assinou uma medida provisória colocando a Funai no Ministério da Agricultura. Derrotado, assinou de novo, o que é ilegal numa mesma legislatura. O Supremo funcionou como um contrapeso. Mas quem funcionará como contrapeso quando o STF avança? O Congresso, a outra ponta do triângulo, observa com uma resistência localizada no Senado o pedido de CPI da Lava Toga.

Nesses últimos movimentos, Toffoli e Moraes investiram contra a liberdade de imprensa e agora criam um cinturão de aço protegendo alguns ministros e suas mulheres da fiscalização financeira. Para completar o quadro, o diretor do Coaf, Roberto Leonel, está sendo pressionado a sair porque Bolsonaro não gostou de suas críticas à decisão de Toffoli proibindo o Coaf de levantar pistas para órgãos de investigação. Como não protestar contra a decisão de Toffoli, se atinge o núcleo de sua atividade, que é o controle das atividades financeiras? E mais: atinge também compromissos externos do Brasil. A briga pela domesticação do Coaf é uma briga feia. Toffoli e Bolsonaro estão juntos, a esquerda está se lixando para o Coaf. O próprio Moro se vê diante da perda do Coaf e, agora, da de seu indicado para dirigi-lo.

No quesito engolir sapo, segue no seu aprendizado político. Era um governo contra a corrupção e, na hora H, ajuda Toffoli a neutralizar o Coaf… A ideia geral não era seguir o dinheiro? Agora é proibido seguir o dinheiro. O Congresso tem se fixado na reconstrução econômica, o que é a prioridade indiscutível. Por algumas manifestações de Rodrigo Maia, críticas à Lava Jato, sente-se que o clima ali, com exceção do pequeno núcleo no Senado, tende a ser favorável a essa movida de Toffoli e Bolsonaro. Há muito caminho pela frente: plenário do Supremo, resistência institucional, pressão externa – pode ser que o bom senso ainda prevaleça. De qualquer forma, um novo capítulo se abre também com a chegada do inquérito dos vazamentos da Lava Jato. Vem para as mãos de Moraes. O conteúdo das mensagens poderá trazer novas tensões, sobretudo num ponto sensível: investigação de ministros.

Os ministros que divergem da Lava Jato não são só ilhas, mas um arquipélago no STF. Algumas vulcânicas e em erupção, como Toffoli, que neutraliza o controle efetivo de transações financeiras para atender, entre outros, o filho do presidente, as mulheres dos ministros. Parece-me às vezes uma utopia. Nem Trump está livre desse incômodo. A ideia geral é de que a lei vale para todos. De certa maneira, o País terá de chegar a um acordo sobre isso, pois transcende as divergências com a Lava Jato. Um sistema de controle de transações financeiras é essencial para combater o crime organizado, o terrorismo e a própria corrupção. Ele ultrapassa os limites nacionais pela troca de informações. É um sistema de defesa coletivo. O cerne das divergências sobre a Lava Jato é a prisão em segunda instância. Se cair esse dispositivo, os presos por corrupção serão libertados. O impacto real será menor do que bloquear investigações.

Pelo menos foi tudo desvendado. Na situação atual, simplesmente nada saberíamos. Estamos no limbo, uma palavra que significa margem, esquecimento, mas também, no sentido religioso, aquele lugar para onde antigamente iam as crianças inocentes. Hoje não vão mais para o limbo. Vão para o céu. O que certamente não será o nosso caso. (O Estado de S. Paulo – 09/08/2019)

FERNANDO GABEIRA, JORNALISTA

Cidadania recorre ao STF contra indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixada em Washington

0

O Cidadania protocolou no STF (Supremo Tribunal Federal), nesta sexta-feira (9), um mandado de segurança coletivo, com pedido de liminar (veja aqui), para impedir a indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ao cargo de embaixador brasileiro em Washington, nos Estados Unidos.

Segundo a ação, a indicação “seria flagrante violação à Súmula Vinculante nº 13, pois se trataria de evidente nepotismo”, além do filho do presidente não ser capacitado para o cargo, argumenta o partido.

A indicação de Eduardo, que precisa ainda ser enviada ao Senado para aprová-la ou não, já recebeu o sinal verde do governo dos Estados Unidos.

O relator do processo no STF é o ministro Ricardo Lewandowski. Ele pode tomar uma decisão liminar sozinho, ou levar o caso diretamente para decisão do plenário da Corte.

O partido destacou que a efetivação da nomeação abre caminho para a “perpetração do poder familiar na administração pública”, além de ser imoral.

“Feita a análise do caso em sua especificidade, vem à tona a única e real motivação que levaria a autoridade coatora a indicar o Sr. Eduardo Nantes Bolsonaro para função de tamanha importância e complexidade: a relação de consanguinidade.Trata-se de retrocesso civilizatório e institucional para o país, que retorna a práticas antigas e arduamente combatidas durante anos”, diz trecho do pedido do Cidadania.

O partido sustenta na ação que há controvérsia no tribunal quanto à aplicação da súmula para cargos de natureza política. Mas também argumentou que, mesmo nesses cargos, “ainda é necessário observar preceitos como qualificação e pertinência técnica”. Lembrou inclusive decisão do ministro Marco Aurélio Mello que vedou a nomeação de Marcelo Hodge Crivella, filho do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, para secretário na administração do pai.

O Cidadania elaborou uma tabela que mostra os últimos nove embaixadores brasileiros em Washington, de 1986 para cá, passando pelos governos dos presidentes José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

Na comparação com eles, de acordo com a legenda, confirma-se a “patente inexperiência e ausência de qualificação profissional para a assunção do cargo em questão” por parte de Eduardo Bolsonaro. Os antecessores no cargo, diz o partido na ação, “exerciam funções relacionadas à diplomacia há anos”.

“Deslocar um indivíduo para outro País, para desempenhar funções estranhas à sua formação e experiência profissional, é ineficiência que não pode ser arcada pelos cofres públicos”, argumenta o Cidadania.

Outras ações

Esta não é a primeira iniciativa do partido contra a indicação de Eduardo para a embaixada nos Estados Unidos. Em julho, o deputado federal Marcelo Calero (Cidadania-RJ) protocolou um projeto de lei propondo que apenas integrantes do quadro da carreira diplomática do Ministério das Relações Exteriores possam ser designados como chefes de missão diplomática permanente.

Calero, o único diplomata de carreira com mandato no Congresso Nacional, também apresentou um projeto para restringir a concessão de passaportes diplomáticos.

Se o PL 4128/2019 for aprovado, apenas terão acesso ao documento o presidente e o vice, membros do Congresso Nacional, ministros de estado do STF, além de profissionais da carreira diplomática ou pessoas em missões específicas.

Alguns cônjuges e dependentes também poderão ter acesso à benesse — mas não os de deputados e senadores.

Além de dispensar a exigência de visto para vários países, como os Estados Unidos, os passaportes diplomáticos são gratuitos, enquanto os demais brasileiros têm que desembolsar R$ 275 para terem acesso ao documento. (Com informações da agências de notícias)

Bancada no Senado: Veja o resumo das atividades da semana

0

Na semana que marcou a reabertura dos trabalhos legislativos após o chamado “recesso branco” e o início da tramitação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição no Senado, os parlamentares do Cidadania na Casa marcaram presença nos debates em plenário, nas comissões e apresentaram propostas de interesse da sociedade para o Brasil avançar e reduzir as desigualdades regionais. 

A CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) aprovou, na terça-feira (6),  requerimento dos senadores Alessandro Vieira (SE) e da líder do partido na Casa, Eliziane Gama (MA), para ouvir o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, sobre as diretrizes para a concessão de empréstimos para estados e municípios da região Nordeste (veja aqui).

A proposta é que Guimarães também explique a redução no porcentual de novos empréstimos à região neste ano, revelada na semana passada. 

Levantamento feito com base nos números do próprio banco e do sistema do Tesouro Nacional apontou que em 2019, até julho, o banco autorizou novos empréstimos no valor de R$ 4 bilhões para governadores e prefeitos de todo o País.

Para o Nordeste, foram fechadas menos de 10 operações, que juntas totalizam R$ 89 milhões, ou cerca de 2,2% do total – volume muito menor do que em anos anteriores.

Alessandro destacou ser necessário um esclarecimento sobre os empréstimos, “porque o porcentual é substancialmente menor do que no período correspondente em governos passados”.

“Para que os números não fiquem no vazio, é importante abrir esse espaço para que a transparência chegue e a gente possa informar o cidadão, esse é nosso objetivo”, disse o parlamentar.

Prioridade de divórcio para vítimas de violência doméstica

Senador Alessandro Vieira

A CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) aprovou,  na quarta-feira (7) projeto de lei da Câmara (PL 510/2019), relatado por Alessandro Vieira, que assegura prioridade nos processos judiciais de separação ou divórcio à mulher vítima de violência doméstica. O texto seguiu para votação em plenário, em regime de urgência (veja aqui).

Durante a discussão da matéria, o relator, senador do Cidadania de Sergipe comentou que a iniciativa é oportuna, por ter sido aprovada no dia em que a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) completou 13 anos.

“É mais uma medida que se soma na defesa da mulher, na redução da violência doméstica e nessa necessidade que temos de uma civilização moderna e humana”, afirmou Alessandro Vieira.

Lula no sistema prisional

O senador Alessandro Vieira também comentou a decisão da Justiça que determinou a transferência do ex-presidente Lula da sede da Polícia Federal em Curitiba (PR) para um presídio em São Paulo (SP), embora a medida tenha sido vetada pelo STF (Supremo Tribunal Federal).

Para o parlamentar,  Lula já deveria estar no sistema prisional há mais tempo. Ele, no entanto, considerou a medida “extemporânea” diante da proximidade de progressão de pena.

Reforma da Previdência

A líder do Cidadania, Eliziane Gama (MA), se posicionou, na quinta-feira (8), sobre a chegada da PEC da reforma da Previdência à Casa (veja aqui).

A parlamentar disse que ajustes no texto aprovado pela Câmara dos Deputados precisam ser feitos. Ela citou como exemplo de “imperfeições” na proposta as pensões abaixo de um salário mínimo, a constitucionalização do BPC (Benefício de Prestação Continuada) e a nova regra para o acesso do abono salarial.

“A Câmara fez um texto, o Senado é a Casa revisora e a gente revisa. Nós vamos agilizar, mas não vamos atropelar. O Senado precisa ter autonomia e protagonismo para tornar o texto melhor para o povo brasileiro, sobretudo para as minorias. Em especial para os que estão em situação de maior desvantagem, para aqueles que ganham menos e que, no meu entendimento, estão tendo um peso de responsabilidade muito grande nesta reforma”, afirmou.

Combate à violência contra a mulher

No mesmo dia em que a Lei Maria da Penha (11.340/06) completou 13 anos de vigência, na quarta-feira (7), a senadora Eliziane Gama foi indicada para fazer parte da Comissão Permanente Mista de Combate à Violência contra a Mulher no biênio 2019/2020 (veja aqui).

Os nomes foram dos integrantes da comissão foram anunciados pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM-AP), no plenário do Senado, que também aprovou neste mesmo dia duas medidas de aperfeiçoamento da Lei Maria da Penha, como forma de ampliar as medidas de prevenção de violência doméstica no País. 

Um dos projetos aprovados foi o PL 17/2019, que prevê, como medida protetiva a vítimas de violência doméstica, a apreensão imediata de arma de fogo em posse do agressor. O texto segue para sanção presidencial.

Senadora Eliziane Gama

A senadora Eliziane Gama ressaltou que, em meio a discussões sobre o uso de armas, as medidas de prevenção contra violência doméstica ganham ainda mais importância. Ela afirmou que quase 5 mil mulheres são assassinadas por ano no Brasil, sendo que quase metade são mortas por armas de fogo. Neste cenário, segundo a parlamentar, o PL contribui com a prevenção, ao permitir uma ação imediata por parte da polícia, que automaticamente dará uma proteção maior para as nossas mulheres.

Prioridade no divórcio

O outro projeto aprovado pelos senadores foi o PL 510/2019, também de iniciativa da Câmara, que assegura prioridade nos processos judiciais de separação ou divórcio à mulher vítima de violência doméstica. O texto, como foi alterado no Senado, retorna para análise da Câmara dos Deputados. O texto foi aprovado na forma do substitutivo apresentado pelo senador Alessandro Vieira.

“Este dia é emblemático, mas não pode ser apenas mais um dia de comemoração de mais de um ano da Lei Maria da Penha, mas um dia de ação, de atividade e de novos marcos para que realmente nós possamos ter uma redução da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, agradeceu Eliziane Gama.

Classificação de animais como sujeitos

“Este é um anseio da população brasileira. Um sentimento do povo. Precisamos avançar nesta pauta”, comentou a parlamentar do Cidadania do Maranhão durante sessão de votação em plenário, na quarta-feira (7), do projeto que classifica animais como sujeitos de direito. 

O PLC 27/2018 reconhece os animais como seres sencientes, dotados de natureza biológica e emocional e passíveis de sofrimento. Para a senadora, o projeto agrega nossa legislação ambiental.

“O projeto irá adequar uma legislação que nós já temos, a exemplo da lei que veda qualquer tipo de maus tratos a animais [Lei n° 9.605]”, disse.

“A Fé, o Movimento Evangélico e a Política”

A senadora Eliziane Gama presidiu, na quinta-feira (8), em Brasília, o evento “A Fé, o Movimento Evangélico e a Política”, promovido pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira) em parceria com o Cidadania (veja aqui).

Foram palestrantes os pastores Eliazar Ceccon, presidente do CGADB (Conselho Político Nacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil), e Lyndon de Araújo Santos, historiador e professor da UFMA (Universidade Federal do Maranhão).

Compuseram a mesa do encontro e também usaram da palavra o presidente do Cidadania, Roberto Freire; o diretor-geral da FAP, Luiz Carlos Azedo; o senador Alessandro Vieira e o deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP)

Membro da Assembleia de Deus, Eliziane Gama relembrou o início de sua jornada na política e a época em que foi aluna do professor Lyndon na UFMA, e de como os profundos debates acerca da visão progressista e da visão do cristão na política inspiraram diversos jovens, incluindo ela.

Pacote anticrime

A CCJ reuniu representantes das associações dos magistrados, defensores públicos, delegados e outros especialistas em direito, na terça-feira (6), para instruir o relatório de um dos projetos (PL 1.864/2019) do pacote anticrime, relatado pelo senador Marcos do Val (Cidadania-ES).

Senador Marcos do Val

O pacote foi apresentado pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, na Câmara, e reapresentado na Casa pela senadora Eliziane Gama. O texto traz medidas contra corrupção, crime organizado e delitos praticados com grave violência a pessoa (veja aqui).

No início de julho, Marcos do Val o entregou parecer elaborado com sugestões de juristas, com 33 modificações ao projeto original.

PEC que limita escolha de embaixadores

A escolha de chefe de missão diplomática de caráter permanente (embaixada) deve recair sobre servidor integrante da carreira diplomática. É o que estabelece a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 118/2019), que recebeu o apoiamento de Marcos do Val e foi subscrita por outros 28 senadores (veja aqui).

A PEC aguarda a designação de relator na CCJ. A proposta, que altera o inciso IV do artigo 52 da Constituição, foi apresentada pelo senador Alvaro Dias (Podemos-PR).

Atualmente, a Lei 11.440, de 2006, limita a indicação a ministros de primeira ou segunda classe, sendo a indicação de pessoa não pertencente aos quadros do Ministério das Relações Exteriores uma hipótese excepcional. No entanto, ao não estabelecer limites a tal excepcionalidade, acabou-se assumindo essa possibilidade como simples e plenamente aberta, observa Alvaro Dias.