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IMPRENSA HOJE

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Veja as manchetes dos principais jornais hoje (27/12/2024)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Após reunião com Lula, Lira diz que emendas tiveram aval do governo
Avião que caiu no Cazaquistão teria sido abatido pelo sistema de defesa da Rússia
Reunião no Alvorada e remessa pressionam dólar
Copa terá 17 pontos de acesso
Obituário/Ney Latorraca
Obituário/Ruy Rezende

O Estado de S. Paulo

Barroso manda PM de SP usar câmera em ações e após ataques a policiais
Avião de passageiros pode ter sido derrubado pela defesa aéra russa
Lira cobra ministros sobre emendas e diz que dará satisfação ao STF
Em mandato atípico, Campos Neto foi quem mais descumpriu metas
Tarifas de ônibus, metrô e trens sobem em São Paulo
Sai de cena um gigante do teatro e da TV
Israel ataca capital do Iêmen; chefe da OMS estava no local

Folha de S. Paulo

Crise do clima faz governo repartir prejuízo eventual em concessões de rodovias
Inflação de alimentos deve ser menor em 2025, mas seguirá pesando mais
Em 1 ano, Força Nacional no RJ apreendeu apenas 1 arma
Avião da Embraer foi abatido por um míssil russo, dizem investigadores
Tarcísio mais que dobra emendas e privilegia aliados
Nunes decide elevar para R$ 5 tarifa do ônibus em São Paulo
Morre Manmohan Singh, que levou a Índia aos Brics

Valor Econômico

Para analistas, dólar continua no nível de R$ 6 em 2025
Demanda do varejo sinaliza reação maior
Lira prestará esclarecimentos a Dino sobre emendas
Carro elétrico é objeto de desejo de brasileiros
Clima em 2025 preocupa o agronegócio
Luto na arte

Sintomas mórbidos no impasse das emendas

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NAS ENTRELINHAS

Lula não foi capaz de resgatar o controle do Orçamento da União pelo Executivo, porque o volume de emendas impositivas passou a ser ditado pelo Congresso

Desde 2013, por razões conhecidas, entre as quais a crise de liderança moral dos partidos e das instituições políticas do país, há um processo de degeneração das relações entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, que provocou uma sucessão de crises, até a tentativa fracassada de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Esse processo reproduz uma crise de representação política que ocorre em outras democracias do Ocidente, porém, que aqui se manifesta desde os protestos de junho daquele ano.

Seu caldo de cultura é uma “malaise” da sociedade pós-moderna, cujo imaginário social é complexo e incorpora grandes expectativas em relação ao Estado, a maioria das quais acaba frustrada pela realidade. Instabilidade, mutabilidade, fragmentação e fugacidade, no tempo e no espaço, geram perplexidade e angústia existencial na sociedade, que encontra muito mais facilidade de expressão nas redes sociais e seus influenciadores do que nas estruturas político-partidárias e meios de comunicação tradicionais.

Na política, aqui no Brasil, as principais linhas de força desse processo, no plano institucional, são o enfraquecimento do Executivo, o avanço do Legislativo sobre o Orçamento da União e a judicialização da política, sempre que as regras do jogo são atropeladas, o que acaba por exigir a intervenção do Supremo Tribunal Federal (STF), muitas vezes de forma intempestiva. Como se sabe, na democracia representativa, quem faz as leis não as interpreta.

Depois dos protestos espontâneos de 2013, na primeira grande crise entre os poderes, Dilma Rousseff foi apeada do poder, por dois motivos: primeiro, cometeu erros estratégicos que levaram ao colapso a economia; segundo, subestimou o poder de fogo do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB-RJ), em cuja eleição interferiu e perdeu. A narrativa do golpe adotada pelo PT não a exime desses erros, o impeachment foi um processo político. Seu julgamento foi presidido pelo atual ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. A narrativa do golpe é um discurso político, sob medida para quem não quer fazer autocrítica.

O segundo momento desse processo foi resultado da própria a articulação do impeachment. O vice-presidente Michel Teme (MDB), que por três vezes presidira a Câmara, assumiu a Presidência contingenciado pelos aliados que afastaram a presidente Dilma, com os quais compartilhou não somente os cargos da Esplanada, mas também o Orçamento da União. Havia um projeto estratégico por trás disso. Temer é o principal defensor da tese do semipresidencialismo, com base nos modelos francês ou português, não teria razões para se opor ao fortalecimento do Congresso. Esse era o eixo de seu projeto de reeleição, que não ganhou, porém, a tração eleitoral necessária para isso.

O vácuo político-eleitoral deixado pelo PT, pelo PSDB e pelo MDB, com a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o declínio tucano e o desgaste de Temer, respectivamente, devido à Operação Lava-Jato, possibilitou o tsunami eleitoral de 2018. A eleição de Jair Bolsonaro foi reflexo desse apagão político, que abriu espaço para a emergência de uma extrema-direita de massas e a volta dos militares ao poder. Bolsonaro tentou mudar o eixo de negociação política com o Congresso dos partidos para as bancadas temáticas, como a dos evangélicos e a da bala, e as principais frentes parlamentares (da Saúde, da Agricultura e do Meio Ambiente, entre outras). Fracassou.

Orçamento secreto

Ameaçado de impeachment, por causa de ligações com as milícias flminenses e do “escândalo das rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu filho, à época deputado estadual, Bolsonaro jogou a toalha para o Centrão. Entregou a gestão dos investimentos do Orçamento da União ao senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, na Casa Civil, e aos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AC). E passou a tecer, com os militares de seu entorno, um projeto golpista.

Foi então que o chamado “orçamento secreto” se tornou um instrumento de controle do Congresso sobre o Executivo, ampliado e consolidando o poder Centrão, como uma blindagem para reprodução dos mandatos parlamentares. Essa é uma das razões para que a maioria dos políticos não apoiasse a tentativa de golpe de Bolsonaro, pois perderiam esse controle. A outra foi a experiência de 1964, quando os políticos que apoiaram o golpe que destituiu João Goulart também foram escanteados do poder pelos militares, por 20 anos.

Eleito presidente da República, Lula não foi capaz de resgatar o controle do orçamento da União pelo Executivo, porque a ampliação do volume de emendas impositivas passou a ser ditada pelo próprio Congresso. Como o PL tem a maior bancada da Câmara e o PT, tendo a segunda, não opera uma aliança como Centrão, pelo contrário, considera o governo “em disputa”, Lula não tem força para submeter essas emendas impositivas aos projetos prioritários do governo. A alternativa é negociar com o Centrão.

O problema é que o “orçamento secreto” viola as diretrizes constitucionais de elaboração do Orçamento, que exigem transparência e rastreabilidade, e se tornou um instrumento de superfaturamento de obras e serviços e de desvio de recursos públicos para formação de patrimônio pessoal e/ou caixa dois eleitoral, com grande impacto na reprodução de mandatos. Diante de casos comprovados de que isso vem ocorrendo, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino decidiu exigir mais transparência na execução de emendas no valor de R$ 4,2 bilhões, com indicação de seus proponentes e dos projetos aos quais foram destinados. O Congresso considera isso uma intromissão e promete reduzir o poder monocrático dos ministros do Supremo. Mais uma crise contratada, num jogo de perde-perde para a democracia e a sociedade. (Correio Baziliense – 26/12/2024 – https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/sintomas-morbidos-no-impasse-das-emendas/)

A “sombra de futuro” de um Natal memorável

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NAS ENTRELINHAS

O mundo desaprendeu e continua sendo palco de guerras sangrentas. A crise humanitária é significativa, com 76 milhões de deslocados, a maioria por causa desses conflitos

O filme Joyeux Noël (Feliz Natal), de 2005, dirigido por Christian Carion, é um auto de Natal no contexto histórico da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A coprodução reuniu cinco nações europeias (França, Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Romênia) para uma ode à paz em quatro idiomas: francês, alemão, inglês e romeno. Diane Kriger (Anna Sorensen), Benno Fürmann (Tenente Nicolau Sprink), Guilhaume Canete (Tenente Audebert), Daniel Brühl (Hostmayer) e Gary Lewis (Padre Palmer) brilham nos papéis principais.

“Joyeux Noël” é inteiramente dedicado à trégua de Natal de 1914, quando soldados franceses, britânicos e alemães, por iniciativa própria, interromperam os combates e confraternizaram espontaneamente no front. São histórias individuais e coletivas dos soldados que participam daquele momento histórico, com destaque para um cantor de ópera alemão (Nikolaus Sprink) que, ao lado de sua amada Anna Sorensen, canta para os soldados na linha de frente.

Indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, em 2006, o filme mostra como os soldados revelaram compaixão e solidariedade, contrariando as ordens de combate, a partir de um canto natalino que aproximou os dois lados inimigos. Apesar dos diferentes idiomas, havia identidade cultural entre os soldados. “Joyeux Noël” é uma reflexão sobre o poder da empatia e da paz.

Entretanto, empatia e paz fazem muita falta, 110 anos depois. Vivemos um interregno semelhante ao que antecedeu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O mundo desaprendeu e continua sendo palco de guerras sangrentas. A crise humanitária é significativa, com 76 milhões de deslocados, a maioria por causa desses conflitos. Segundo o Índice Global da Paz, houve um pico histórico, com 56 combates registrados em 2024, o maior número desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Em fevereiro de 2022, a Rússia iniciou uma invasão em larga escala na Ucrânia, resultando em combates intensos e significativas perdas humanas, até agora, estimadas em 190 mil. Na Palestina, o conflito de Gaza, iniciado após um ataque terrorista do Hamas ao território israelense, já provocou a morte de 45 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças, durante os bombardeios das Forças de Defesa de Israel (FDI).

No Iêmen, desde 2015, morreram 337 mil pessoas na guerra civil protagonizada por rebeldes houthis. Após o golpe militar de 2021, até hoje Mianmar enfrenta confrontos entre as forças armadas e grupos de resistência, além de tensões étnicas e religiosas. Na Etiópia, desde 2020, a região de Tigré é palco de confrontos entre o governo etíope e a Frente de Libertação do Povo Tigré, com 100 mil mortos. Em Burkina Fazo, insurgências jihadistas, desde 2016, resultaram em deslocamentos e mortes.

Na Nigéria, o Boko Haram e conflitos entre pastores e agricultores causaram 368 mil mortes e deslocamentos de milhões de nigerianos. Desde abril de 2023, o Sudão enfrenta confrontos entre forças militares rivais. Iniciada em 2011, a Síria enfrenta um conflito complexo, que já matou 500 mil pessoas e agora, com a fuga do ditador Bashar Hafez al-Assa para a Rússia, entrou numa nova etapa, também incerta.

Sombra de futuro

Por tudo isso, a confraternização de Natal de 1914 foi um evento extraordinário. Na véspera de Natal e no dia 25 de dezembro de 1914, os soldados cantaram canções natalinas em suas respectivas línguas, como o famoso “Stille Nacht” (“Noite Feliz). Emergiram das trincheiras desarmados, trocaram presentes e se abraçaram. Confraternizaram a ponto de jogar futebol na chamada “terra de ninguém”. O historiador britânico Tony Ashworth conta que o episódio deu origem a um pacto de não agressão do tipo “viva e deixe viver” ao longo de todo o front, que perdurou por dois anos.

Um estudo de estado-maior do Exército britânico sobre o fenômeno, denominado “sombra de futuro”, demonstrou que os soldados dos dois lados ganhavam tempo para permanecerem vivos até a guerra acabar. No “esconde-esconde”, o outro lado sabia onde o adversário estaria e/ou atiraria. A cooperação mútua era uma estratégia “olho por olho” invertida, que alternava retaliação de baixa letalidade, indesejável para os generais, mas muito vantajosa para os soldados. Saiam até das trincheiras para urinar ou fumar.

Na segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um pronunciamento de Natal na linha de um armistício político. “Todas e todos vocês que ajudam a construir esse grande país. O Natal é um bom momento para relembrarmos os ensinamentos de Cristo: a compaixão, a fraternidade, o respeito e o amor ao próximo. Meu desejo é que esses ensinamentos estejam presentes não apenas no Natal, mas em todos os dias de nossas vidas”. Sim, seria muito bom que a política voltasse à civilidade entre adversários, de parte a parte, com menos ódio e mais empatia.

Feliz Natal! (Correio Baziliense – 25/12/2024 – https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/a-sombra-de-futuro-de-um-natal-memoravel/)

IMPRENSA HOJE

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Veja as manchetes dos principais jornais hoje (26/12/2024)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Governadores ameaçam ir ao STF contra decreto de atuação policial
Agentes da PRF atingem mulher de 26 anos no RJ
Avião da Embraer cai no Cazaquistão
Estudo em SP encontra microplástico no cérebro
Contrabandistas levam ouro para países vizinhos
Imagens falsas se espalham no X

O Estado de S. Paulo

Estados mais carentes de recursos podem ficar sem R$ 2 bi do Fundeb
PRF atira em carro de família no RJ e atinge jovem na cabeça
Queda de avião fabricado pela Embraer mata 38 no Casaquistão; 29 sobrevivem
Parente de Tarcísio e apadrinhados de Bolsonaro recebem jetons de São Paulo
TJ-MT contraria corregedor e paga extra de R$ 10 mil a magistrados
Ex-líder de vendas na China, GM agora está em 16º lugar

Folha de S. Paulo

Partos de adolescentes caem pela metade em um década no Brasil
Carga tributária brasileira já chega a 33% do PIB e é maior da região
PRF atinge jovem na cabeça durante uma ação no Rio
Agenda econômica do STF tem bets, marco da internet e trabalho para app
Chefe da PM na Esplanada sugeriu combinação de versões sobre o 8 de Janeiro
Queda de avião da Embraer mata 38 no Cazaquistão
Sugestões da Comissão da Verdade ficaram estagnadas

Valor Econômico

Leilões de saneamento em 2025 vão gerar R$ 69 bi em investimentos
Após surpresa neste ano, crédito deve desacelerar
Ano termina com dúvidas sobre ritmo da economia
Contribuintes se antecipam a mudança do ITCMD
Hotéis do Rio têm ocupação média acima de 70%

Flávio Dino suspende pagamento das emendas de Arthur Lira

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NAS ENTRELINHAS

A partir de 2025, as bancadas e as comissões da Câmara e do Senado deverão registrar, em ata, o nome do parlamentar que sugeriu cada emenda ao Orçamento

Estava escrito nas estrelas que as emendas do “orçamento secreto” se tornariam casos de polícia. Nas últimas semanas, várias operações de busca e apreensão e ordens de prisão foram executadas pela Polícia Federal (PF) em razão de desvios de recursos dessas emendas, por meio de obras e serviços superfaturados, com objetivo de engordar o caixa dois eleitoral e o patrimônio de políticos, servidores e empresários envolvidos. Ontem, o vice-prefeito de Lauro de Freitas, Vidigal Cafezeiro (Republicanos), e outras três pessoas foram presas por suspeita de desvio de dinheiro de emendas parlamentares.

Os mandados foram cumpridos na sede da Prefeitura de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, e em Vitória da Conquista, no Sudoeste da Bahia. Além do vice-prefeito, foram presos Lucas Moreira Martins Dias, secretário de Mobilidade Urbana de Vitória da Conquista, Carlos André de Brito Coelho, ex-prefeito de Santa Cruz da Vitória, e o policial federal Rogério Magno Almeida Medeiros. Também houve o afastamento de Lara Betânia Lélis Oliveira, servidora da Prefeitura de Vitória da Conquista.

A Polícia Federal afirma que o esquema movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão, por meio de contratos firmados com o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Não é um caso isolado. Sorteados aleatoriamente para fiscalização de rotina, diversos municípios auditados pela Controladoria Geral da União (CGU) registram suspeitas de desvios de recursos e superfaturamento de obras e serviços. Como diria o falecido ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki, ao investigar, a PF puxa uma pena e aparece uma galinha. Há mais de dez inquéritos envolvendo deputados federais em sigilo de justiça, todos por causa do desvio de recursos das emendas parlamentares.

Não por acaso, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), ontem, decidiu suspender o pagamento de R$ 4,2 bilhões em emendas parlamentares e determinou que a Polícia Federal (PF) abra um inquérito para apurar a liberação desses valores. Foi uma resposta a um pedido do Psol, que apontou irregularidades na destinação de R$ 4,2 bilhões em emendas de comissão da Câmara e do Senado, que não têm pagamento obrigatório. O Psol questionou no STF o ofício assinado por 17 líderes de bancada, no dia 12 de dezembro, que autorizou o Executivo a fazer o repasse dos recursos das emendas de comissão, sem que os colegiados se reunissem.

O governo cedeu às pressões do Congresso durante as negociações para votar a reforma tributária e o ajuste fiscal. Houve uma manobra liderada pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para redirecionar esses recursos e burlar as novas regras de rastreabilidade e transparência adotadas pelo próprio Congresso, por exigência do STF. A Constituição estabelece diretrizes para aplicação dos recursos do Orçamento que são obrigatórias para todos os poderes e entes federados, entre as quais a transparência da autoria e rastreabilidade da sua destinação.

Como a sua aprovação acabou ficando para o próximo ano, o Orçamento de 2025 subiu no telhado, porque os líderes ameaçam não o apreciar até que as emendas sejam pagas. Também querem mudar a Constituição para limitar o poder monocrático dos ministros do Supremo, insatisfeitos com o ministro Dino.

A manobra

O presidente da Câmara é o líder do sindicato. No mesmo dia em que enviou o ofício, Lira cancelou todas as sessões de comissões que estavam marcadas até 20 de dezembro, com o argumento de que havia “necessidade de o Plenário da Câmara dos Deputados discutir e votar proposições de relevante interesse nacional”. Com a decisão, as comissões não deliberaram sobre a destinação das emendas.

Cerca de 5,4 mil indicações de emenda, no valor de R$ 4,2 bilhões, deixaram de ser examinadas, muitas delas do Psol. Uma parte teve a destinação alterada. Alagoas, o estado de Lira,proporcionalmente, foi dos mais beneficiados. Diante do recurso do Psol, Dino determinou que a Câmara publique em até cinco dias as atas das reuniões das comissões nas quais as emendas foram aprovadas, para que a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, chefiada pelo ministro Alexandre Padilha, de posse dessas informações, efetue os pagamentos.

A partir de 2025, as bancadas e as comissões da Câmara e do Senado que desejarem indicar emendas deverão registrar, em ata, o nome do parlamentar que sugeriu cada proposta. Atualmente, isso não acontece; a autoria é coletiva. Internamente, o expediente é importante para empoderar os líderes em relação às próprias bancadas. Em termos eleitorais, é uma blindagem dos atuais mandatários, que utilizam os recursos das emendas, quase R$ 60 milhões para cada deputado, com objetivo de garantir a própria reeleição.

Isso cria uma distorção na relação entre o Congresso e os demais poderes, entre os líderes e suas bancadas e uma grande disparidade de armas na disputa eleitoral, entre quem tem mandato e quem não tem, com objetivo de impedir a renovação política. A face mais obscura desse processo são as fraudes em licitações e o superfaturamento de obras e serviços, que já transformaram muitas emendas parlamentares em caso de polícia. (Correio Braziliense – 24/12/2024 – https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/flavio-dino-suspende-pagamento-das-emendas-de-arthur-lira/)

IMPRENSA HOJE

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Veja as manchetes dos principais jornais hoje (24/12/2024)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Dino suspende R$ 4,2 bi em emendas e manda PF apurar
Dólar deve se manter acima de R$ 6 no curto prazo
Lula diz que país tem ‘economia forte’
Se não explorar nova área, país pode perder autossuficiência, defende diretora da Petrobras
Policiais se unem ao PCC para lavar dinheiro do crime
Extinção de povos originários abre disputa sobre demarcação
Mortes por acidentes aéreos crescem 92%
Após queda de ponte, 16 continuam desaparecidos
Biden comuta pena de 37 condenados à morte

O Estado de S. Paulo

Dino susta pagamento e aciona a PF para investigar emendas
Senador ameação com votação do Orçamento
Alta do dólar e do juro ameaça negócios no Brasil, alerta Fitch Ratings
Após colapso de ponte, governo anuncia verbas e obras
CNJ afasta juiz de MS suspeito de comprar fazenda com propina
Controladora do iFood anuncia compra da Decolar por US$ 1,7 bilhão
No litoral paulista, furtos preocupam, apesar de crimes estarem em queda
Motorista de carreta envolvida em tragédia se entrega à polícia
Biden converte 37 penas de morte em prisão perpétua

Folha de S. Paulo

Brasil tem 727 pontes federais em estado igual ou pior ao da que caiu
Dino suspende pagamento de R$ 4 bi em emendas e pede apuração da PF
Mortes por dengue superam soma dos 8 anos anteriores
Lula exclui de indulto presos por atos golpistas de 8/1 e beneficia mães e avós
Foragidos do 8/1 se frustaram sem ajuda da gestão Milei
Dono do iFood e OLX compra Decolar por US$ 1,7 bilhão
De olho em Trump, Biden anula pena de morte de 37 presos

Valor Econômico

Mercado projeta juro básico em 15% no fim de 2025
Estoques baixos levam o dólar mais caro para as lojas
Queda de avião em Gramado mata consultor Luiz Galeazzi e família
Pouco se fez 20 anos após o tsunami
As notícias de 2024 contadas pelas plataformas do Valor

IMPRENSA HOJE

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Veja as manchetes dos principais jornais hoje (23/12/2024)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Queda de avião em Gramado mata dez da mesma família
Petrópolis ainda tem 17 mil vivendo sob risco de deslizamento
Parceria com crime: policiais dão apoio a ações do PCC
Povo isolado Kawahiva vive em terras não demarcadas
Parlamentares barram corte de verbas do Congresso
Após Assad, sírios voltam para casa

O Estado de S. Paulo

Diferenças entre governadores e União travam PEC da Segurança
Bimotor cai no centro de Gramado e deixa 10 mortos
Número de mortos vai a 41; motorista de carreta estava com CNH suspensa
Economistas veem risco de perda de poder do BC para calibrar economia
‘Claramente, há reação exagerada do mercado’
Famosos investem em nova atividade e viram corretores de imóveis
Ponte desaba e deixa um morto e dez desaparecidos
Trump faz críticas a tarifas e ameaça reaver controle do Canal do Panamá

Folha de S. Paulo

Brasileiro teme mais a polícia do que confia nela, aponta Datafolha
Ronilson Pacheco – É preciso dar destaque às características africanizadas de Jesus, que vão além da cor
Ponte que liga Maranhão e Tocantins desaba e deixa ao menos um morto
Bimotor pilotado por empresário cai e mata 10 em Gramado
Sob a sombra da Síria, Xinjiang vive com forte segurança

Valor Econômico

Mercado projeta juro básico em 15% no fim de 2025
Estoques baixos levam o dólar mais caro para as lojas
Queda de avião em Gramado mata consultor Luiz Galeazzi e família
Pouco se fez 20 anos após o tsunami
As notícias de 2024 contadas pelas plataformas do Valor

O dólar, entre o populismo e o patrimonialismo

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NAS ENTRELINHAS

Assistimos um reality show de populismo e patrimonialismo, cujo resultado foi um grande estresse cambial, com a disparada do dólar, que continua acima dos R$ 6

O populismo sustenta-se no tripé liderança carismática, promessas além do exequível e críticas às elites. Não se pode dizer, porém, que o populismo seja o principal responsável pelas nossas desigualdades sociais e que, necessariamente, derive para o autoritarismo. Esse tipo de narrativa, ao contrário, justificou retrocessos políticos como o regime militar implantado a partir da destituição de João Goulart, em 1964.

Nosso populismo surge com Getúlio Vargas, a partir da Revolução de 1930, como resposta à república oligárquica. Sua retórica voltada ao trabalhador foi amparada por direitos sociais que incluíram os trabalhadores assalariados na vida política nacional, como a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e o reconhecimento dos sindicatos. Ao mesmo tempo, o golpe de 1937, que implantou o Estado Novo, consolidou a tese de que o populismo deriva para o autoritarismo, o que viria a ser desmentido pelo próprio Vargas, após voltar ao poder pelo voto, na crise que o levou ao suicídio, em 1954.

Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros também recorreram a narrativas populistas para mobilizar apoio e chegar ao poder, bem como Fernando Collor de Mello, em 1989. Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff também adotaram narrativas populistas, amparadas por programas de inclusão social, como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida. Lula teve êxito ao enfrentar as elites do país; Dilma fracassou, ao adotar uma estratégia nacional-desenvolvimentista anacrônica diante da globalização e perdeu o poder. Nenhum dos cinco confirma a tese de que seu populismo desaguaria no autoritarismo.

Quem tentou esse caminho foi Jair Bolsonaro, que chegou ao poder pedalando o triciclo do carisma, do apelo às massas e do confronto com as elites. Depois de Jânio Quadros, é o maior representante do populismo de direita no Brasil, com retórica antissistema, apelo nacionalista e bandeiras reacionárias. Defendeu a volta do regime militar e os costumes tradicionais, para “salvar” a pátria e a família unicelular patriarcal.

Nosso populismo amálgama o mito “sebastianista” do salvador da pátria. Morto D. Sebastião em Alcácer Quibir, aos 24 anos, e tendo sido anexado pela Espanha em 1580, Portugal perdeu a opulência e a grandiosidade do início daquele século, juntamente com o melhor da sua juventude e do seu Exército. Como o corpo do rei nunca foi encontrado, o mito de que D. Sebastião estava vivo e voltaria um dia alimentou o nacionalismo português e o messianismo no Brasil. Teria aparecido durante a batalha que expulsou os franceses no Rio de Janeiro, em 1565; no reino Encantado da Pedra Bonita (1834-1836), em Pernambuco; e em Canudos (1893-1897), com Antônio Conselheiro.

Patrimonialismo

As promessas de reformas rápidas e profundas, com soluções simples para problemas estruturais complexos, hoje, são narrativas populistas anabolizadas pelas redes sociais. Fomentam a polarização e a desconfiança nas instituições democráticas; a tensão entre Executivo, Legislativo e Judiciário; a divisão profunda da sociedade, a descontinuidade de projetos estruturais e políticas de clientela; e, consequentemente, a instabilidade econômica e volatilidade do mercado.

O outro lado dessa moeda é o patrimonialismo, mais vivo do que nunca. Por definição, é um tipo de dominação tradicional na qual o governante utiliza o poder como extensão de sua própria casa. Como o Estado brasileiro antecedeu a nação, a administração pública colonial e imperial foi moldada por um sistema onde cargos públicos e privilégios eram concedidos como favores pessoais. Isso promoveu uma cultura que está em contradição com o regime republicano.

Fenômeno já muito estudado, o patrimonialismo brasileiro nasceu associado à figura do “homem cordial” e destaca o papel das relações pessoais e afetivas na dominação do espaço público, uma herança ibérica avessa à formalidade institucional, que mistura o público e o privado. O poder centralizado e burocrático serve a interesses privados e sustenta uma elite dirigente que controla o Estado em benefício próprio, a partir de uma estrutura patrimonialista herdada de Portugal.

Essa característica também marcaria o desenvolvimento capitalista e a modernização do país, sobretudo o nosso capitalismo de Estado, ou “de laços” visíveis a olho nu. O sociólogo Luiz Werneck Vianna, recentemente falecido, destacava o papel dessas raízes históricas (colonização portuguesa) e culturais (laços familiares e paternalismo) na resistência às relações institucionais impessoais e ao funcionamento do sistema político e administrativo em bases democráticas e modernas.

Nas últimas semanas, assistimos a um reality show de populismo e patrimonialismo, cujo resultado foi um grande estresse cambial, com a disparada do dólar, que continua acima dos R$ 6. A promessa de isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, feita pelo governo, e a gana pelo dinheiro das emendas parlamentares, de parte do Congresso, criaram um ambiente de incerteza econômica muito além do que seria razoável diante da realidade econômica do país. (Correio Braziliense – 22/12/2024 – https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/o-dolar-entre-o-populismo-e-o-patrimonialismo/)

General preso não faz democracia

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crédito: Maurenilson Freire

A democracia tem razões para sentir otimismo com a prisão de um general golpista, mas deve entender que generais presos não fazem tropa democrática

Há uma parede na sede do Correio Braziliense onde estão as páginas mais criativas e expressivas já publicadas pelo jornal. Neste domingo, a primeira página com a palavra “Preso” acima da foto do general Braga Netto merece ir para esse panteão de manchetes. Em uma palavra, todo um discurso: “as instituições civis são capazes de prender um general quatro estrelas que conspirava contra a democracia”. O discurso e a manchete seriam ainda mais fortes se tivessem colocado a foto do general fardado. Ao escolher a foto com traje civil, o Correio teve o cuidado de não expor as Forças Armadas. O mesmo cuidado os democratas devem ter ao comemorar o fato de um militar golpista estar preso, sabendo que um general preso não faz a democracia.

Para tanto, é preciso que a instituição militar, toda a tropa, e que a política, todos políticos, sejam comprometidos com a ética no comportamento e nas prioridades. A democracia tem razões para sentir otimismo com a prisão de um general golpista, mas deve entender que generais presos não fazem tropa democrática. É preciso promover nova mentalidade entre os militares; e que os políticos civis sejam comprometidos com a causa pública, sensíveis aos interesses da população e íntegros no exercício dos cargos. Sem isso, ameaçam a democracia apodrecendo-a por dentro.

Apesar do farto noticiário sobre o inusitado de um general golpista preso, nenhuma pesquisa apurou ainda qual a reação da tropa à prisão. Sabe-se que os comandos estão respeitando a decisão da justiça e o trabalho da polícia, mas não se sabe se a caserna está mais indignada com a postura dos golpistas querendo impedir a posse dos vitoriosos, e até com intenção de assassiná-los, ou se estão indignados com a incompetência para levar adiante o plano. O Ministério da Defesa não parece saber ou estaria escondendo se a tropa considera Braga Netto e sua turma como criminosos golpistas traidores da Constituição e da pátria ou se patriotas incompetentes para vencer uma batalha pelo futuro do país livre do que os militares consideram corruptos civis. Não há manifestação de repúdio da tropa aos golpistas, mas há descontentamento com a falta de respeito de Braga Netto aos colegas que ele teria chamado de covardes por serem legalistas.

Em quase meio século de democracia, nenhum dos presidentes enfrentou a questão militar no Brasil: adotar formação legalista, comportamento hierárquico e não apenas protocolar em relação ao poder civil eleito, consciência democrática, respeito às instituições. Nenhum presidente expôs aos militares de hoje o conhecimento pleno dos crimes nos 21 anos de ditadura, tortura, assassinatos, covas anônimas, censura; não tentou punir os culpados. Aceita-se a permanência de um sistema que põe as armas com poder moderador sobre as urnas, contra o que julgam incompetência, corrupção ou simplesmente ideias exóticas. Sobretudo, todos os oito presidentes civis se comportam assustados e temerosos diante do poder militar.

Os políticos democratas precisam entender que os golpes ocorrem mais pelo apodrecimento interno da democracia dos civis do que por reação golpista de militares. Lembrar que parte substancial da população apoiou o golpe em 1964 e que, em 2022, apenas um milhão de eleitores barrou o presidente golpista nas urnas. O eleitorado prefere a democracia, mas não está satisfeito com o Brasil construído nos últimos 40 anos: sente que diminuiu a penúria, mas a pobreza continua, a concentração de renda se mantém e a desigualdade se transformou em apartheid social; os privilégios e benefícios foram ampliados; a produtividade não aumentou; a economia não sai de uma renda média baixa; a corrupção se espalhou e ficou normal; a violência chegou ao nível de uma guerra civil; o número de analfabetos adultos não diminuiu; o número de crianças matriculadas aumentou, mas não cresceu a percentagem dos que concluem educação de base com qualidade; o presente pode até parecer melhor, mas os anos de democracia não estão acenando para um país eficiente, sem privilégios e sem corrupção, sem pobreza, com renda bem distribuída, com juventude esperançosa e motivada.

Feliz a democracia em que um juiz legalista tem poder para prender um general golpista, mas nenhum juiz empoderado ou general preso constrói a democracia; é preciso que os políticos civis sejam respeitados e usem o sistema democrático para abolir a corrupção no comportamento e nas prioridades, atendam aos sonhos da população, enfrentem a secular questão militar do Brasil, ao ponto que a ideia de golpe não faça mais parte do imaginário dos militares. (Correio Braziliense – 18/12/2024 – https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2024/12/7014051-general-preso-nao-faz-democracia.html)

Cristovam Buarque, professor emérito da UnB (Universidade de Brasília)

Turbulência e esperança

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Vivemos entre a incompletude radical das soluções locais e a precariedade dos instrumentos multilaterais criados a duras penas

Frases e reflexões de Antonio Gramsci, um clássico moderno, costumam correr livremente na barafunda das redes sociais, e não por acaso. Uma delas é particularmente expressiva e trata de transições turbulentas, como a que o sardo viveu há cem anos e como a que agora vivemos nós. É quase certo que já tenhamos lido aqui e ali sua definição de “interregno” – um tempo estranho e incerto, nebuloso até, em que o velho morreu e o novo ainda não nasceu. Um tempo por isso mesmo povoado de monstros e anomalias políticas. Palavras de fogo, certamente, cuja utilidade presente não é preciso ressaltar.

Naturalmente, para ele a novidade histórica, apesar da sua reconhecida fineza analítica, teria o perfil delineado pelos acontecimentos que se desdobravam desde 1917, ou seja, a ruptura com o capitalismo. Seu paradigma era o de algum tipo de revolução, ainda que severamente danificado pelas dificuldades próprias do Ocidente político e pela emergência de uma enorme reação conservadora – o fascismo, do qual, como é bem sabido, se tornaria prisioneiro.

Paradoxalmente, soltos e dispersos na hipermodernidade, estamos em condição relativamente mais desfavorável. Não podemos nos escorar, nem sequer de modo problemático, numa filosofia da História que garanta futuro radioso. Homens e mulheres de esquerda que abraçaram com convicção a democracia constitucional – e assumem a necessidade de incorporar os valores do liberalismo – veem-se às voltas, na nova trincheira, com recuos e derrotas. A unificação do gênero humano, bem como a compreensão da interrelação de crises e desafios globais, são realidades que demoram a se impor e não se pode excluir que jamais se imponham de fato.

Vivemos dramaticamente entre a incompletude radical das soluções locais e a precariedade dos instrumentos multilaterais criados a duras penas. Permanece sem solução razoável a contradição entre a mundialização da economia, apesar de todos os passos para trás, e o âmbito nacional das decisões políticas. A História, retirados ao menos parcialmente seus determinismos, mostra-se novamente como uma tarefa em aberto, o que em princípio seria um convite auspicioso à criatividade. No entanto, no mesmo lance ela acaba por atemorizar a imaginação. É que em geral aparece sob a forma de perigos e ameaças inéditos, como a crise climática ou a ruptura que parece anunciar a inteligência artificial.

A revolução conservadora em curso retoma tópicos essenciais daquela outra já secular. Cada Estado-nação, sem excluir os mais poderosos, procura fechar-se em si mesmo, buscando um tempo heroico e uma identidade perdida – e, no mais das vezes, fictícios. A economia política de agora apregoa abertamente a atualidade de tarifas e barreiras comerciais que, segundo comprovada experiência, em outros momentos foram a antessala das guerras propriamente ditas. Neste quadro mesquinho, se algum simulacro de Welfare acaso se realizar, estará na melhor hipótese circunscrito aos pátrios limites, com exclusão de imigrantes e outros elementos supostamente alheios à pureza étnica ou cultural.

Com a segunda presidência Trump, entre as ilusões perdidas está a de que seu primeiro termo não passou de um parêntese casual. Internamente, não é difícil antever a pressão sistemática e deliberada sobre as instituições, abrindo certamente menos a possibilidade de um regime abertamente fascista do que a de uma destas arriscadas situações híbridas que têm assinalado o declínio relativo das democracias liberais. Externamente, para usar uma dicotomia relevante, Donald Trump equivalerá a um abandono das aspirações propriamente hegemônicas do país na ordem global baseada em regras, em benefício de uma visão puramente corporativa, dominada por ganhos econômicos imediatos.

Em tal horizonte corporativo, as alianças orientadas por valores comuns são postas em plano secundário ou desaparecem completamente. A consigna “primeiro a América” impede que se incorporem, no próprio cálculo, interesses e orientações de aliados tradicionais ou que se imaginem políticas de cooperação como as que aconteceram no pós-guerra, a exemplo do Plano Marshall ou das iniciativas para garantir o comércio e a resolução pacífica de conflitos.

O cosmopolitismo entra em crise, o multilateralismo se arruína e não é irrazoável pensar na multiplicação de pequenos Trumps, como os que rondam regularmente a União Europeia e também nuestra América. Isso sem falar na rede de autocratas em guerra permanente contra os direitos humanos, a universalidade do voto e as instituições responsáveis pelo controle do poder. Numa palavra, a rede mobilizada contra o legado das revoluções modernas, o que exige cada vez mais o firme compromisso histórico entre liberais e socialistas.

Nota: repetindo a fala do carpina para o retirante, no poema de João Cabral, não temos resposta às questões acima. No entanto, para os de boa vontade é tempo de renascimento. É tempo, pois, de celebrar a vida, que nunca deixa que se rompa o fio severino da esperança, “belo como um sim numa sala negativa”. (O Estado de S. Paulo – 22/12/2024 – https://www.estadao.com.br/opiniao/luiz-sergio-henriques/turbulencia-e-esperanca/?)

Luiz Sérgio Henriques, tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das Obras de Gramsci no Brasil