O que fazer, desde já?

Como abrir a via para uma política de novo tipo no Brasil, rechaçando os diversos populismos eleitorais que tentam se apresentar como alternativa desde praticamente a redemocratização de 1985?

Não é fácil responder a essa pergunta. Mas é fundamental enfrentá-la, se queremos de fato oferecer uma saída para o país, sob a ótica do Campo Democrático.

Um campo comprometido com a defesa da Democracia, e a sua extensão à esfera da cultura e ao mundo do trabalho. Uma Democracia tripla: política, social e econômica, que se coloque o mais próximo possível do cotidiano das pessoas. Isso, sem esquecer a necessidade de solucionar os problemas que envolvem a segurança pública e as questões relativas à sustentabilidade.

Acredito que as próximas eleições municipais estejam começando a desenhar um mapa político um pouco diferente. De um lado, o Governo Lula, instalado no país há 16 meses, ainda não disse a que veio. Não é muito difícil constatar que este Governo não tem projeto. Pior: despontam, daqui e dali, impasses políticos e administrativos sérios, pontos de estrangulamento preocupantes. Há exemplos abundantes nesse sentido: problemas agudos na gestão da saúde pública, casos mal explicados de corrupção em diferentes esferas, uma sensação crescente de insegurança diante do avanço da bandidagem e das milícias, uma alta considerável dos preços dos alimentos, uma política internacional pessimamente equacionada, uma pauta de costumes confusa ou mal-formulada e por aí vamos.
É possível que o bolsonarismo se valha dessa situação para retomar a dianteira do processo político. Particularmente, vejo com alguma preocupação uma eventual candidatura de Michelle Bolsonaro à Presidência da República. Se Lula voltar a se candidatar, pode perder feio. Um processo eleitoral é um processo político e ao mesmo tempo não é apenas isso, ou seja, possui componentes psicológicos, uma indisfarçável dimensão sensitiva. E Michelle Bolsonaro tem desembaraço, juventude, presença e ainda conta visivelmente com o apoio de parte importante do eleitorado evangélico. Outro trunfo seu: carrega um sobrenome com peso eleitoral.

Mas, isso não deve ser visto como uma espécie de fatalidade. Afinal, a história é feita de possibilidades. E uma delas é a retomada do processo democrático sob bases mais construtivas, na linha de algumas experiências anteriores. Quais? Uma delas foi a chapa JK – Jango em 1955, no bojo da crise do segundo Governo Vargas. Outra, a própria formação do Governo Jango, em 1961, na esteira da Cadeia da Legalidade, após a renúncia de Jânio Quadros. Mais uma seria a Frente Ampla, esboçada desde 1966 e que desembocou na eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 1984. Outra ainda? A composição do Governo Itamar, provavelmente o mais progressista que o país já teve. A última grande aliança formada no interior do Campo Democrático, a meu juízo, foi aquela que se esboçou em torno da candidatura de Eduardo Campos, em 2014. São experiências exitosas, quase sempre.

Pelo que venho acompanhando das movimentações municipais, uma nova frente democrática pode estar surgindo, com a união ou o entendimento entre PSB, Cidadania 23, PSDB, PDT visando a criação de uma proposta política equidistante do populismo, dito de “direita” ou dito de “esquerda”. Aparentemente, este é o sentido das tratativas em curso em algumas capitais, como São Paulo, Fortaleza e Vitória.

Vamos aguardar, mas percebo que elas têm tudo para prosperar.

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