O impacto da natureza na logística e seus reflexos econômicos

Quando Thomas Hobbes Disse em 1651 em seu livro Leviatã que “o homem é lobo do próprio homem”, ele sustentava que o homem em estado de natureza é um ser agressivo e violento, por isso a necessidade do limite das leis, dentro disso, com essa percepção da humanidade o filósofo justifica que a vida em comunidade deve ser regida pelas leis e pelo consenso entre os membros da sociedade, que todo ser quando nasce implicitamente assina um contrato social de convivência, de regras e de pensamentos comuns que não necessariamente está normatizado em alguma lei.

Já nos anos de 1844, Karl Marx ao falar de economia trouxe a importância do meio ambiente e a relação entre ambos e a influência do uso da natureza “a continuidade do modo de produção capitalista, orientado, prioritariamente, pela maximização dos lucros, conduz, tendencialmente, a uma crescente exploração, alienação e expropriação da força de trabalho, por um lado, e, por outro, à deteriorização da base de produção econômica, da fonte da riqueza, ou seja, da natureza” ((MARX, 1983a: 58; 1962: 51).

No decorrer da história diversos pensadores se preocuparam em narrar a importância da relação com a natureza, seus reflexos econômicos, seus impactos na geopolítica e na história de diversas comunidade e etnias.

No Brasil o grande marco foi a ECO 92 que chegou a conclusão que as nações mais desenvolvidas eram as maiores responsáveis pelos impactos ao meio ambiente e que os países em desenvolvimento necessitavam de suporte financeiro e tecnológico para desenvolver um modelo sustentável de desenvolvimento. De lá pra cá, diversos encontros e uma evolução muito tímida no controle de emissão de gases e na recuperação de florestas e rios.

Um dos últimos protocolos assinados foi o de Paris que determinou que países desenvolvidos deveriam investir 100 milhões de dólares por ano em medidas de combate à mudança do clima em países em desenvolvimento. Um dos países que deveriam receber esses recursos é o Brasil, dono de grandes reservas de água doce do mundo, além da floresta amazônica que influencia diretamente o equilíbrio do clima de boa parte do globo.

Este ano o Brasil vive o reflexo do El Nino trazendo chuvas intensas no sul e seca na região norte, caminhando para que terminemos o ano com a maior temperatura já registrada.

Essas mudanças climáticas influenciam diretamente na logística, pois impacta diretamente no transporte aéreo e marítimo, tornando mais oneroso o transporte de mercadorias, causando perdas de estoque, elevação dos preços do produto final (indiretamente inflação) e colapso nas estruturas já insuficientes e não organizadas do Brasil.

Na região sul todos os portos encontram-se congestionados, com demora na liberação de mercadorias e filas de espera de embarcações. Nesses últimos meses houve eventos climáticos na região do porto de Rio Grande e mais recentemente no segundo porto em movimentação de carga conteinerizada do Brasil, o porto de Navegantes.

A Portonave (porto de Navegantes-SC) fica as margens da foz do Rio Itajaí, rio que corta todo o vale e por causa das enchentes no alto e médio vale (cidades com 5 enchentes em pouco mais de 2 meses)  a correnteza não permitiu a navegabilidade por mais de 15 dias, após o retorno da normalidade resultou no assoreamento do leito do rio, baixando a profundidade, limitando assim o carregamento nas embarcações.

Os mais de 15 dias de paralisação das operações do terminal causou um grande transtorno, visto que as companhias marítimas tiveram de adequar sua programação descarregando seus containers em Itapoá, Paranaguá e Imbituba.

Em Imbituba foram descarregados mais de 7500 unidades, sendo que o porto não tinha capacidade operacional nem humana para lidar com tamanha demanda, com isso houve uma colapso das operações jamais visto, onde há unidades há mais de 40 dias paradas em que a cobrança de estadia do terminal em alguns casos superam o valor da mercadoria importada.

Em Paranaguá-PR e Itapoá-SC houve atrasos que também impactaram toda cadeia logística, sem falar dos casos de corrupção, dificuldades de ação dos órgãos anuentes e uma ação governamental coordenada.

Ao olharmos o norte do país, mais especificamente o rio Amazonas, vivemos a maior seca registrada em 121 anos, com pontos totalmente secos e regiões onde as águas baixaram mais de 20 metros, causando a paralisação total da navegação de grandes embarcações e quando se buscou a alternativa de balsas, houveram diversos casos de pirataria. O porto de Manaus-AM é o grande responsável pelo abastecimento da zona franca.

Enquanto o sul do Brasil sofre por excesso de água, o norte sofre pela falta, contudo ambos sofrem pela falta de uma política nacional de logística, visto que diante desses acontecimentos, não há uma alternativa, não há um modal a ser utilizado, nem tampouco há uma ação do estado, seja criando alternativas para amenizar os danos, seja criando benefícios fiscais compensatórios, até mesmo a incapacidade das agências reguladoras em fiscalizar os abusos da iniciativa privada tanto de terminais cobrando valores abusivos de armazenagem, seja das companhias marítimas cobrando valor exorbitante em dólares de demurrage.

Os novos fenômenos climáticos são uma realidade e dificilmente conseguiremos evitar esses desastres, os quais devem ser cada vez mais recorrentes. O congresso nacional precisa debater e criar políticas que minimizem os impactos na vida das cidades e das empresas, que de certa forma resguardem a economia. Urge iniciarmos um debate da estrutura e do planejamento logístico do Brasil assim como da convivência pacífica com a natureza, é chegado a hora de deixarmos de sermos nosso próprio algoz, o lobo do próprio homem e cumprirmos o contrato social de convivência presente e futuro.

Alguém um dia disse “não herdamos a terra dos nossos pais, mas pedimos emprestada aos nossos filhos.”

Eduardo Assis é membro da Direção Nacional do Cidadania23 e Bacharel em Direito com pós graduação em comercio exterior e MBA em executivo de portos.

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