Luiz Carlos Azedo: Ampliação dos Brics reposiciona o Brasil na geopolítica mundial

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

Um dos temas mais importantes da cúpula foi a discussão sobre a criação de uma moeda de referência para o comércio internacional, em alternativa ao dólar

Qual o lugar do Brasil no mundo atual? Em termos culturais, é o Ocidente, apesar da nossa herança ibérica. Em termos econômicos, com a globalização e o esgotamento do modelo de substituição de importações, a vocação natural de grande produtor de commodities de alimentos e minérios fez da China nosso principal parceiro comercial, o que desbancou os Estados Unidos. Essa contradição está se tornando um impasse geopolítico, em razão da emergência de uma nova “guerra fria” entre os EUA e a Europa, de um lado, e a Rússia e a China, de outro.

Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou a entrada da Argentina nos Brics (originalmente formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), ao lado de mais cinco países: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã. Foi uma vitória da diplomacia brasileira, apesar do alto risco oferecido pelas eleições no país vizinho. O candidato populista de extrema direita Javier Milei, mais votado nas eleições primárias da Argentina e considerado favorito no pleito, quer dolarizar totalmente a economia do país e é contrário ao ingresso no grupo.

Na entrevista após o encontro, realizado em Joanesburgo, na África do Sul, Lula defendeu um reposicionamento do Brasil na geopolítica mundial. “O nosso não pensa só economicamente, o nosso também pensa politicamente. E é por isso que eu acho que o Brics está consolidado como uma referência. Qualquer ser humano, jornalista, cientista político que quiser discutir a geopolítica econômica, a geopolítica científica e tecnológica, a geopolítica de qualquer coisa vai ter que conversar com o Brics também. Não é só com os Estados Unidos e o G7 (sete países mais industrializados do mundo)”, disse.

Um dos temas mais importantes da cúpula foi a discussão sobre a criação de uma moeda de referência para o comércio internacional, em alternativa ao dólar, assunto que incomoda muito aos EUA. Os bancos centrais e ministérios da Fazenda e da Economia de cada país realizarão estudos para isso. A próxima reunião do Brics será na Rússia, com a participação de Vladimir Putin, que não pôde viajar para a África do Sul porque tem mandado de prisão expedido pela Interpol.

No encontro, Lula se reuniu também com outro chefe de um Estado considerado “tóxico” no Ocidente: o presidente do Irã, Ebrahim Raisi. Em 2022, o Irã foi o maior importador de produtos brasileiros no Oriente Médio. Após o encontro, Lula viajou para Angola e, depois, irá a São Tomé e Príncipe, para a conferência de chefes de Estado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), no domingo.

Lula reivindica um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas, criado junto com a fundação da ONU, em 1945. Hoje, é integrado por EUA, Reino Unido, França, Rússia e China. A China sinalizou que poderia apoiar a pretensão do Brasil, como a Rússia.

Antes, não dera sinais diplomáticos mais claros de apoio à reivindicação do Brasil. A Declaração de Joanesburgo, divulgada ontem, defende textualmente a ampliação do Conselho de Segurança — e nominalmente o Brasil, como aspirante a um papel de destaque nessa instância. África do Sul e Índia também pleiteiam uma vaga cada, assim como a Alemanha e o Japão, que perderam a II Guerra Mundial.

Sul global

A ampliação dos Brics consolida o conceito de Sul Global como espaço geopolítico. O termo foi criado em 1969 pelo ativista político Carl Oglesby, na revista católica liberal Commonweal. Segundo ele, a derrota dos EUA no Vietnã representou o fim da dominação do Hemisfério Norte sobre o Sul Global. O conceito foi consolidado após o fim da União Soviética, em 1991, que tornou obsoleta a divisão entre primeiro (desenvolvidos), segundo (socialistas) e terceiro (em desenvolvimento) mundos.

As implicações da adesão do Brasil a esse conceito são complexas. O termo Sul Global não é geográfico, pois a China e Índia estão fora do Hemisfério Sul — representa uma espécie de pool entre países com semelhanças políticas, geopolíticas e econômicas. Com exceção da Rússia, são ex-colônias das potências europeias, cujos movimentos nacionalistas foram apoiados pela antiga URSS.

Três das quatro maiores economias serão do Sul Global, nessa ordem: China, Índia e Indonésia. Os EUA serão a segunda. O PIB em termos de poder de compra das nações do Sul Global, especialmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, supera o do grupo G7. Há mais magnatas em Pequim do que em Nova York.

Alguns especialistas falam em chegada do “século asiático”, por causa do crescimento econômico e tecnológico da China e da Índia. Essa transição está sendo acelerada no contexto das tensões entre China e EUA e, mais recentemente, a guerra entre Rússia e Ucrânia, que inviabilizou a Rota da Seda na Europa e redirecionou as prioridades da China para a África e a América Latina.

O problema para o Brasil é a reação dos EUA e da União Europeia para manterem a hegemonia na geopolítica mundial. No caso brasileiro, a reestruturação das cadeias de valor norte-americanas são uma oportunidade, assim como a transição da economia do carbono para a economia verde e a sustentabilidade, sobretudo na Amazônia, para a qual os olhos do mundo estão voltados, principalmente os da União Europeia. O eixo do comércio brasileiro se deslocou para os Brics, principalmente a China, mas o preço vem sendo a nossa desindustrialização, por falta de competitividade da indústria tradicional. (Correio Braziliense – 25/08/2023)

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