Fernando Gabeira: O diabo em nossas goiabeiras

Não é a primeira vez que a ex-ministra e senadora eleita Damares Alves é acusada de fake news

Analisar uma campanha política implica trabalhar muitas variáveis: pesquisas, ação de candidatos, arco de alianças e redes sociais, estas não apenas para definir a popularidade, mas para seguir as grandes lendas que propagam.

O trabalho de análise das redes sociais é mais difícil, não só pela sua extensão, como também pelos instrumentos que definem sua eficácia. Às vezes, tento colocar a seguinte pergunta: o que dizem essas notícias escandalosas sobre o estado mental de um país?

Compreendo que essa expressão é muito vaga, seria quase como perseguir algo que a antropologia descarta com razão: o caráter nacional.

Já escrevi um artigo sobre a importância do diabo não só na campanha, como na cultura . Satanás continua sendo um personagem dominante nas lendas que circulam nas redes. Num país muito religioso, é natural que isso aconteça.

Talvez possa lançar mão de algum outro instrumento, como o inconsciente coletivo. É uma invenção do psicólogo Carl Jung, que, para mim, tem um valor mais poético. Na visão dele, o inconsciente coletivo são ideias que atravessam os tempos, ideias que herdamos de nossos antepassados e nem sempre sabemos que influenciam nossa visão de mundo. Pode ser que aquele clima da Inquisição, o medo de estarmos ao lado do diabo sem reconhecê-lo, influencie as pessoas. No passado, isso não era uma questão apenas de fé, mas uma escolha de vida ou morte.

O canibalismo é um componente singular da campanha política brasileira neste século XXI. Ele surgiu a partir de uma entrevista de Bolsonaro ao New York Times, em que deu a entender que comeria um índio. Nesse caso, também há toda uma história de pavor em nossas mentes. O primeiro best-seller sobre o Brasil no mundo foi o livro de Hans Staden, que escapou de ser comido pelos índios. O que restou realmente no fundo de nosso inconsciente: o medo de ser comido num ritual indígena ou a malícia das índias que examinavam as carnes brancas do prisioneiro europeu?

O diabo e os canibais ainda sugerem uma linha de investigação possível, embora tão fantasiosa quanto as lendas que os colocam no topo da campanha. O que é difícil explicar são as palavras da senadora eleita Damares Alves sobre exploração sexual infantil na Ilha de Marajó. Ela comete uma ligeira imprecisão geográfica ao colocar Marajó na fronteira. Confundiu com o Amapá, que está um pouco adiante. Ainda assim, descreveu um quadro tétrico de crianças cujos dentes são arrancados para que não mordam ao dar prazer sexual. Ela não tem provas disso. Acossada, diz que ouviu na rua. Possivelmente imaginou essa situação e decidiu usá-la como instrumento de campanha. As crianças exploradas seriam salvas por ela e por Bolsonaro se não fossem impedidos pela imprensa, pelo Supremo e pelo Congresso.

Há poucas pistas para estudar a imaginação que produz esse tipo de história. Damares ficou conhecida porque disse ter encontrado Jesus numa goiabeira. Na época, achei que não deveria ser criticada. Faço documentários sobre andarilhos e ouço histórias, visões fantásticas e, ao mesmo tempo, inofensivas. Reconheço o direito ao delírio. Mas isso de construir uma inominável tortura e se apresentar como a heroína que tentou combatê-la e foi impedida pelas instituições parece-me um pouco doentio, mesmo numa atmosfera de caldeirão do diabo onde ardem alguns adversários que serão comidos pelos canibais do partido rival.

De um modo geral, o TSE tem determinado a retirada de postagens fantasiosas e ameaça com multa caso desobedeçam. Mas Damares foi ministra de Direitos Humanos e tornou-se senadora. Sua história mentirosa foi contada num templo da Assembleia de Deus, no contexto da campanha política de Bolsonaro. Não é a primeira vez que é acusada de difundir fake news. Se considerarmos essa prática natural, o diabo estará subindo em nossas goiabeiras. (O Globo – 17/10/2022)

Fernando Gabeira, jornalista e escritor

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