IMPRENSA HOJE

Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais (26/08/2022)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Presidente da Funai ofereceu apoio a servidor que foi preso
Com elogios a Alckmin, Lula acena a eleitor moderado e terceiriza erros
‘Estamos com medo votando em um para não ter o outro’
TSE decide proibir celular em cabine de votação
Bolsonaro cobra fundamento de operação contra empresários
Decreto liberará aeródromos a voos regulares e fretados
Farmacêuticas deverão informar benefícios a médicos
Milícias rivais são alvo de operações no Rio
Na Argentina, a vida sufocante sob preços descontrolados

O Estado de S. Paulo

Lula reconhece corrupção na Petrobras e tenta se dissociar da gestão Dilma
TSE aprova uso de detector de metais em seção eleitoral
Em nota, Fiesp defende liberdade de expressão após operação da PF
Correção de tabela do IR pode custar até R$ 226 bi do Tesouro em 2023
Morre o guardião das memórias do regime militar
Rússia incorpora 137 mil homens e mulheres às Forças Armadas

Folha de S. Paulo

Lula admite no JN desvio na Petrobras e erros de Dilma
Reportagem é única base para decisão de Moraes contra bolsonaristas
Para votar, eleitor deixará celular com mesário, define TSE
Bolsonaro convida, e tratores do agro irão a desfile de 7/9
Candidato diz ter criado órgão do governo FHC
Governo usa crise de energia contra críticas ambientais
Ocupação em área de proteção ambiental gera tensão em Trancoso, no Sul da Bahia
Maior milícia do RJ tem acesso a dados d polícia
Europa tem maior aquecimento em 30 anos, diz geógrafo

Valor Econômico

Grande varejo estima perdas de R$ 7,8 bilhões com calotes
China aprova US$ 146 bilhões em estímulos
Lula não nega corrupção em gestão do PT e elogia importância de Alckmin
Tebet critica ‘desistência’ de 3ª via
Inflação cai e anima fundos imobiliários
‘BC faz aposta arriscada’

Correio Braziliense

Parente desiste em busca de unidade contra Ibaneis
MP mira promessas de governador do DF sobre novos hospitais com o Iges
Lula, da defesa ao ataque
Empresários ganham apoio contra Moraes
TSE decide que eleitores não poderão levar o celular à cabine de votação
Em ato do Dia do Soldado, chefe do Exército critica ataques à instituição
Mais jovens com varíola dos macacos em Brasília

EDITORIAIS

O Globo

Só democracia pode resolver conflitos de um país tão diverso

Reportagem do Globo percorreu o Brasil para jogar luz sobre os cinco grupos que decidirão as eleições

Com a eleição indefinida, estima-se que ainda estejam em disputa perto de 48 milhões dos mais de 156 milhões de eleitores aptos a votar, sejam aqueles que não manifestam preferência nas pesquisas, sejam os que não demonstram convicção na própria escolha. Cinco grupos demográficos chamam a atenção por ser considerados decisivos para o resultado: os nordestinos, os evangélicos, as mulheres, a classe média e quem trabalha na cadeia do agronegócio. É especialmente nesses segmentos demográficos que os candidatos concentram esforços para erodir o apoio aos concorrentes.

De domingo até ontem, O GLOBO publicou uma série de reportagens — acertadamente intitulada Brasil Fora da Bolha — para ajudar a entender o que está em jogo na escolha dos brasileiros. As repórteres viajaram por quatro semanas, percorreram quase 2 mil quilômetros por terra, 16 horas em avião e ouviram 57 pessoas para cumprir a principal missão do jornalismo profissional: fornecer um testemunho fidedigno da realidade.

No Nordeste, a vantagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o presidente Jair Bolsonaro é explicada pela memória dos seus dois mandatos e de políticas sociais. A reportagem foi à Bahia, onde há o maior número de beneficiários do Auxílio Brasil de Bolsonaro, e verificou por que ele tem surtido efeito eleitoral aquém do desejado pelo governo. “Pedi para minha filha comprar R$ 5 de carne do sertão. Quando olhei o saco, só vi um tequinho deste tamanho”, disse Maria de Fátima, que mora num bairro violento de Salvador. Os mais pobres são os mais afetados pela inflação.

Entre os evangélicos, a dianteira de Bolsonaro é palpável. Em Manaus, fica claro como o púlpito de muitas igrejas se transformou em palanque. “Queremos orar e interceder por esses homens, desde nosso presidente da República até nosso governador e prefeito”, disse o pastor Sérgio Antônio, da Igreja Comunidade Viva Pai. Na batalha pelo voto, Bolsonaro explora pautas caras aos evangélicos.

A rejeição a Bolsonaro segue alta no público feminino. A defesa das armas, a falta de compaixão com as vítimas da Covid-19 e a inflação despertam antipatia e têm até provocado brigas de casais. A cozinheira Fláusia dos Santos, que mora perto de Cuiabá, votou no PT até 2014. Em 2018, foi de Bolsonaro. Agora deverá trocar de direção de novo, para revolta do marido.

Entrevistas com eleitores de classe média em São Paulo comprovaram a oscilação de preferências. Em julho, Lula estava em vantagem nesse público. Em agosto, o pêndulo passou a favorecer Bolsonaro. No Centro-Oeste, locomotiva do agronegócio, a maioria é bolsonarista. “Bolsonaro rouba menos”, afirmou José Aparecido dos Santos, o Zé do Trator, de Campo Verde (MT).

O retrato do Brasil fora da bolha mostra, antes de tudo, um país amplo e plural. A forma mais eficaz de resolver os conflitos intrínsecos a uma sociedade tão diversa é a democracia. No Brasil, há um sistema eleitoral confiável, de eficácia comprovada. Qualquer que seja a escolha em outubro, precisará ser respeitada por todos. Daqui a quatro anos, haverá uma nova oportunidade de confirmá-la ou corrigi-la.

O Estado de S. Paulo

A democracia segundo Lula

Petista se apresenta como ‘salvador’ da democracia no Brasil, que goza de boa saúde, mas é incapaz de condenar uma real ditadura, como a da Venezuela do ‘companheiro’ Maduro

Lula da Silva, ora vejam, é favorável à alternância de poder na Venezuela. Foi o que o candidato petista à Presidência disse a jornalistas estrangeiros no dia 22 passado. No entanto, recorreu ao conceito de “autodeterminação dos povos” para dizer que não deve “se meter” no que acontece na Venezuela. Mais uma vez, Lula foi incapaz de criticar, mesmo de leve, a ditadura venezuelana. Enquanto poupava o “companheiro” ditador Nicolás Maduro, que no passado já se referiu a Lula como “um pai”, o petista chamou o líder oposicionista venezuelano Juan Guaidó de “impostor”.

O conceito de autodeterminação dos povos é a bengala que Lula usa sempre que é instado a demonstrar algum desconforto com a ditadura venezuelana ou com qualquer outra ditadura camarada. É como se dissesse que Maduro está no poder e governa de maneira tirânica porque é isso o que desejam os venezuelanos. Ora, um povo exerce a autodeterminação quando é capaz de decidir livremente, por exemplo, sua condição política. Na Venezuela, essa liberdade simplesmente não existe, e as cadeias estão cheias de quem deseja a autodeterminação.

Logo, chega a ser cruel esquivar-se de criticar a ditadura venezuelana a pretexto de respeitar o povo daquele país, como se esse povo fosse livre para decidir seu destino. Mas o que Lula faz é ainda pior: trata a tirania chavista como legítima e democrática.

É inesquecível a declaração de Lula, dada em 2005, segundo a qual há “excesso de democracia” na Venezuela. Essa diatribe, que figura com destaque na antologia da pouca-vergonha lulopetista, mal disfarça a vocação autoritária da seita de Lula: para essa turma, a democracia é “excessiva” quando a oposição ousa questionar líderes que tudo fazem pelo “povo”, como era o caso do ditador Hugo Chávez, segundo sugeriu Lula na época.

Essa declaração já tem quase 20 anos, mas é como se tivesse sido feita ontem. Lula não se emendou, a julgar pelo fato de que, passado tanto tempo, continua incapaz de reconhecer uma ditadura de esquerda quando vê uma, muito menos de condená-la. Em compensação, arvora-se em salvador da democracia no Brasil, onde, ao contrário da Venezuela, a imprensa é livre, as eleições são limpas, o Congresso funciona sem restrições e o Judiciário é independente.

A democracia brasileira não precisa ser salva, pois tem demonstrado, nos recentes testes de estresse a que o presidente Jair Bolsonaro a tem submetido, uma formidável saúde. Mas a democracia brasileira ficaria ainda melhor se a esquerda se modernizasse, isto é, se deixasse de ser prisioneira do terceiro-mundismo nostálgico dos anos 60, época em que tipos sanguinários como Fidel Castro eram os heróis da luta contra o imperialismo americano. É essa visão de mundo retrógrada que faz da esquerda brasileira o espantalho perfeito para uma direita igualmente atrasada e francamente reacionária. Não há progresso possível quando um país se encontra acorrentado a um embate ideológico tão anacrônico.

Nesse processo de modernização, se a direita precisa urgentemente parar de se identificar com um liberticida como Bolsonaro e de flertar com o golpismo, é imperativo que a esquerda supere Lula. É muito provável que novas lideranças de esquerda, mais arejadas, estejam lutando para se afirmar nesse campo, mas não encontram oxigênio para florescer porque a figura de Lula as asfixia. Talvez em razão de seu incontestável capital eleitoral, Lula ainda dita os rumos da esquerda, vinculando-a ao ranço bolivariano, kirchnerista e castrista, entre outras manifestações autoritárias e ultrapassadas.

A esquerda, se pretende se legitimar no debate democrático, deve deixar claro que não se alinha a ditadores de nenhuma espécie, que repele regimes autoritários aqui e em qualquer lugar e que se horroriza com os brutais crimes cometidos por tiranos como Fidel, Maduro e Ortega – tratados com deferência e simpatia por Lula e sua grei. A esquerda deve, enfim, solidarizar-se com os povos que padecem sob o tacão desses ditadores, e não, como Lula fez várias vezes, com aqueles que os oprimem. Para os que são verdadeiramente democratas, não é tão difícil.

Folha de S. Paulo

O eleitor que julgue

Combater fake news é um grande desafio, mas TSE precisa conter ímpeto censório

O ministro Mauro Campbell Marques, do Tribunal Superior Eleitoral, parece ter aproveitado um episódio grotesco protagonizado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) para passar um recado em nome da corte a que pertence.

Isso explicaria por que ele determinou a remoção de vídeos que mostram Bolsonaro reunindo-se com diversos embaixadores estrangeiros para apresentar-lhes um conjunto de mentiras a respeito das urnas eletrônicas.

Explicaria, mas não justificaria. Campbell Marques, que também é corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ultrapassou o limite do razoável em sua decisão, acrescentando um erro judicial à aberração presidencial.

É verdade que Bolsonaro reincidiu em conduta indesculpável. Suas reiteradas tentativas de destruir as eleições periódicas e de conturbar a vida cívica nacional merecem o mais forte repúdio das instituições republicanas e dos cidadãos defensores da democracia.

Repúdio, sim; mas não entrar no jogo de quem despreza o Estado de Direito. Se o presidente viola a lei, deve ser punido segundo a sanção prescrita, observados os princípios e a jurisprudência pertinentes.

Isso significa, por exemplo, levar a sério a análise de eventuais crimes comuns e de responsabilidade que Bolsonaro tenha cometido, seja na reunião com os embaixadores, seja em outras circunstâncias de seu mandato.

Isso também significa, no âmbito eleitoral, dar resposta proporcional a eventuais infrações praticadas.
No caso específico, valer-se do Palácio do Planalto e da estrutura estatal para difundir conteúdo utilizado na campanha deixa o presidente exposto aos dispositivos que, na lei eleitoral, punem o abuso de poder político e o uso indevido dos meios de comunicação.

Caso fique comprovado o abuso, a pena estabelecida é a cassação do registro ou do diploma de candidato beneficiado. Que o TSE prossiga com esse julgamento.

Derrubar os vídeos que transmitiram o evento insólito, entretanto, faz pouco sentido neste momento. Primeiro porque a violação, se houve, já está concluída. Mirar alguns poucos canais bolsonaristas tem efeito limitado no combate a fake news e custo alto para a livre circulação de ideias.

Entretanto também faz pouco sentido porque os vídeos, no fundo, são um retrato pronto e acabado de Bolsonaro exposto em seu desvario bonapartista.

Se estivesse em questão uma peça de propaganda sabidamente inverídica destinada a espalhar desinformação, a decisão do TSE teria cabimento. Não sendo o caso, o tribunal faria melhor se contivesse seu ímpeto censório para legar ao eleitor a tarefa de julgar Bolsonaro.

Valor Econômico

Sem dólares, Argentina tenta evitar desvalorização

Ministro da Economia pedirá mais dinheiro ao FMI de nova linha que deverá estar disponível a partir de outubro

A carência de dólares segue estrangulando a economia argentina e pode se agravar a curto prazo. O governo argentino, dividido entre um presidente sem prestígio, Alberto Fernández, e uma vice, Cristina Kirchner, a quem repugnam programas de austeridade, entregou a terrível missão de consertar os desequilíbrios econômicos a um presidenciável, o peronista Sergio Massa, ministro da Economia. O Banco Central argentino tem ao redor de US$ 1 bilhão em reservas líquidas e sua posição dos mercados cambiais futuros, que corresponde a uma promessa de venda de dólares, atingiu 85% da meta acordada com o FMI, de US$ 9 bilhões. (La Nacion, ontem).

Sergio Massa começou a usar a quase inexistente margem de manobra que possui para cumprir o acordo com o Fundo Monetário Internacional, que joga os pagamentos dos US$ 45 bilhões de empréstimos para 2024 em diante, e impedir uma desvalorização do peso, que seria trágica com a inflação a caminho dos 100% até o fim do ano. Para economizar dólares, o governo argentino retoma expedientes largamente usados durante o período de mando dos Kirchners.

Trinta e quatro linhas tarifárias que gozavam de licenças automáticas de importação entrarão no regime não automático, o que envolve de whisky a iates, de placas de memória para PCs a máquinas para fazer mineração de criptomoedas. A ideia é evitar saída de US$ 800 milhões em compras do exterior até o fim do ano. A licença não automática pressupõe prazo para autorização de 60 dias que, no passado, nunca foi cumprido e não há razões para crer que o será agora. As importações de serviços também serão controladas.

Os importadores argentinos já passam por uma via crucis. Para terem acesso ao dólar pelo câmbio oficial, bem escasso, têm de esperar o aval do Banco Central à operação, o que leva de 90 a 180 dias. O dólar paralelo (blue) é cotado a 290 pesos, em média 120% mais que o dólar oficial. Com essa distância, não há qualquer estímulo para pessoas físicas e empresas realizarem transações pelo valor oficial. A diferença cambial tende a aumentar a qualquer sobressalto e os dólares obtidos por argentinos encontram repouso em lugares seguros, como o Uruguai.

A segunda frente em que Massa tenta resolver problemas é igualmente árdua e a que potencialmente pode até lhe custar o cargo. Aperto nas importações e cerco ao dólar foram armas comuns nos governos de Néstor e Cristina Kirchner. Ajuste fiscal e aumento de tarifas, porém, contam com a oposição visceral da vice-presidente. Foi por aceitar um acordo brando que pressupunha as duas coisas que Cristina forçou a saída do ministro que costurou o acerto com o FMI, Martín Gusmán. Não se sabe se Massa terá melhor sorte.

O novo ministro fez um pacote de corte de US$ 1 bilhão no orçamento, em que metade das economias recaiu sobre os ministérios da Habitação, Infraestrutura e Educação. Depois congelou salários nas empresas públicas e reduziu os subsídios, isto é, aumentou preços de luz, gás e água. Ao mesmo tempo elevou as taxas de juros a 96% ao ano, ante uma inflação acumulada em doze meses até julho de 71%. As taxas positivas, raras nos últimos anos, buscam dar atratividade suficiente ao peso para que ele não se desloque em busca de dólares.

Os empresários não foram poupados. Será cobrada um imposto como antecipação de lucros, que envolve principalmente exportadores de commodities primárias, mas também indústrias que tiveram ganhos extraordinários em decorrência da crise com a guerra na Ucrânia. O objetivo de todas as medidas é chegar a um déficit primário de 2,5% do PIB. O déficit corrente, estima-se, está de 0,7% a 1% do PIB acima da meta.

Massa vai ao exterior em busca de dólares. Com a China, país com o qual a Argentina têm déficit em transações comerciais de US$ 6,5 bilhões, tenta-se ampliar o acordo de swap cambial, atualmente em US$ 20 bilhões. O passo mais ousado será o pedido de mais dinheiro ao FMI em uma nova linha que deverá estar disponível a partir de outubro, destinada a fortalecer o balanço de pagamentos de longo prazo para países de baixa e média renda. A Argentina poderia obter até US$ 1 bilhão.

Mas uma das condições para se qualificar ao empréstimo é que o país tenha “dívida sustentável e capacidade adequada de pagamento”, o que a Argentina não tem. Pedir nada custa, mas após receber o maior pacote de ajuda financeira da história do FMI e não ter ainda implantado reformas sequer moderadas, dificilmente o país conseguirá algo a curto prazo, sem mostrar progressos no acordo atual.

Correio Braziliense

A polêmica sobre o tamanho da fome

O estudo do presidente do Ipea e inquérito nacional sobre insegurança alimentar

Quantos famintos vagam pelo país que se vangloria de ser um dos celeiros do mundo? A pergunta entrou no centro de uma cena política já conturbada depois que o atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista Erik Alencar de Figueiredo — ex-subsecretário de Política Fiscal da equipe do ministro Paulo Guedes e no cargo desde março — assinou estudo no qual põe em dúvida resultados de recentes pesquisas que apontam o aumento no número de brasileiros em insegurança alimentar.

Em estudo de 18 páginas intitulado “Expansão do programa Auxílio Brasil: uma reflexão preliminar”, o economista sustenta, abordando impactos do programa social do governo federal sobre indicadores socioeconômicos, que houve aumento da rede de proteção social no país. Segundo ele, foram incluídas mais de 5,7 milhões de famílias no projeto, com injeção de R$ 30,3 bilhões nos oito primeiros meses de 2022 em função do aumento do benefício. O texto procura relacionar ainda a iniciativa com o estímulo ao mercado de trabalho formal, sustentando que “foram gerados, em média, 365 novos empregos formais para cada 1 mil famílias incluídas no programa”.

Mas argumenta que, apesar dos dados que apresenta, “pesquisas recentes têm destacado o crescimento da prevalência de desnutrição e insegurança alimentar no país”, para sustentar que “de forma surpreendente, esse crescimento não tem impactado os indicadores de saúde ligados à prevalência da fome, o que contraria frontalmente a literatura especializada”.

Entre os estudos cujos resultados põe em xeque, o trabalho de Erik Alencar de Figueiredo em sua “Nota da Presidência” do Ipea cita nominalmente o “2º Vigisan: inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia da covid-19 no Brasil”. É uma referência a sondagem feita pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), constituída por pesquisadores, professores e estudantes, com execução do Instituto Vox Populi e apoio de organizações como a Ação da Cidadania, a ActionAid, a Fundação Friedrich Ebert Brasil e o Sesc São Paulo.

Com entrevistas feitas de novembro de 2021 a abril deste ano em todas as regiões do país, abrangendo 12.745 moradias em 577 municípios distribuídos pelas 27 unidades da federação, a pesquisa se apresenta como um retrato representativo do conjunto do país. E sustenta que mais de 33 milhões de pessoas convivem com a fome, o equivalente a 15,5% da população, enquanto mais da metade dos brasileiros (125,2 milhões de pessoas) enfrentam algum grau de insegurança alimentar. Aponta ainda que, entre o último trimestre de 2020 e o primeiro de 2022, a forma mais grave de déficit de alimentação incorporou ao exército de famintos mais 14 milhões de cidadãos.

Enquanto o estudo do presidente do Ipea defende os avanços socieconômicos do programa que é a principal vitrine social da atual gestão, o 2º Vigisan sustenta em seu relatório que, ao lado da progressiva crise econômica e da pandemia, “o desmonte das políticas públicas que poderiam minimizar o impacto das duas primeiras explica o recrudescimento da insegurança alimentar e da fome entre o final de 2020 e o início de 2022”.

Em ano eleitoral, é previsível que dados e estatísticas sobre os desafios sociais que se agravaram durante a pandemia — o que parece ser consenso, embora haja divergências sobre as causas — sejam apropriados de formas diversas, por diferentes correntes, conveniências e narrativas. Sem entrar no mérito de cada uma, parece claro que, menor ou maior, o exército de famintos é uma realidade que deveria envergonhar qualquer pessoa em uma nação que se orgulha de ser uma potência do agronegócio mundial.

Diante dela, mais produtivo do que discutir o tamanho da população com fome — embora o debate não deixe de ser relevante —, parece ser apresentar aos candidatos propostas que deem conta da urgência de se enfrentar essa chaga nacional. E que esse enfrentamento venha de programas economicamente sustentáveis, que não se resumam a benefícios sociais que aumentam ou diminuem ao sabor dos ventos da política — soprem eles da direita ou da esquerda.

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