Cristovam Buarque: Brasil é maior

Em 2006, disputei a eleição presidencial contra Lula e contra Alckmin; o Deputado Paulinho da Força foi meu principal apoio em São Paulo; dezesseis anos depois, Lula e Alckmin compõem uma chapa, com o apoio do Deputado Paulinho e o meu. O que nos colocou nesta posição não foram mudanças em nossas concepções sobre as ações e estratégias para o futuro do Brasil, mas nossa percepção dos riscos imediatos que o país enfrentará se o atual governo for reeleito, e a avaliação de que o único nome capaz de barrar este risco é o Lula.

Enfrentamos aquela eleição com visões diferentes sobre o futuro, agora nos unimos com responsabilidade, diante do presente.

Esta eleição é um plebiscito entre o atual governo autoritário e obscurantista ou um governo com lucidez e diálogo. Plebiscito entre abismo ou esperança. Precisamos nos unir para sair do abismo, depois voltaremos a discordar como construir a esperança.

Lula e Alckmin tiveram o bom senso e a responsabilidade de colocarem de lado divergências e se unirem para os próximos quatro anos. O Deputado Paulinho teve o mesmo comportamento e foi além: manifestou a necessidade de Lula entender que o plebiscito não é do PT contra o resto, mas do Brasil contra o que o atual governo representa. Alertou o PT: precisa entender que a história lhe deu a chance de vencermos um governo nefasto, recuperarmos a democracia, o bom senso e o prestígio internacional. Não foi a chance de tomar o poder para o partido, suas ideias e seus quadros. Neste momento, os não petistas precisam entender que Lula e o PT são meios, mas o PT e Lula precisam ter o mesmo entendimento.

Para isto, eles devem encarnar o país em todas suas cores, não apenas sua cor vermelha. Não devem continuar pedindo votos para eles, mas para o Brasil. Não continuar falar em monólogo com o próprio partido dentro de suas concepções ideológicas, mas para todo o país, com o sentimento nacional com respeito a nossas diferenças. Devem ver a vitória para o Brasil, não para o partido.

Não podem chantagear os que desejam derrotar Bolsonaro, dizendo “se querem se livrar do obscurantismo, vocês têm que nos aguentar, como somos, com as mesmas ideias de nossos 40 anos”. Se fizerem isto, muitos eleitores cederão à chantagem, porque têm consciência dos riscos maiores com a reeleição de Bolsonaro. Votarão, mesmo em posições reacionárias da esquerda nostálgica que caracteriza parte do PT, sem sentimento de futuro. Mas estes votos podem não ser suficientes: Bolsonaro pode vencer com os votos ou com a abstenção dos que consideram equivocadas posições do PT sobre: revogação de leis modernizadoras, interferência na mídia, semelhança entre invasores e invadidos na Ucrânia, descuido com limites dos gastos públicos, primazia dos sindicatos sobre os pobres, dar mais valor ao estatal do que ao público, apoio maior ao ensino superior do que à educação de base…

Lula e o PT não devem ignorar os democratas que não concordam com eles, porque a derrota em 2022 será do Brasil; a vitória, portanto, não deve ser do PT, mas de todos brasileiros democratas.

Depois de termos barrado o negacionismo, o armamentismo, os preconceitos, de termos recuperado direitos, em 2026 podemos nos dividir. Agora precisamos estar unidos em torno ao Lula, mas ele e o PT precisam estar unidos aos milhões que não querem o abismo, mas têm visões diferentes para a esperança. Lula precisa ajudar com a capacidade de diálogo que demonstrou em sua vida política e que nunca foi tão necessária quanto agora. Lembrar que seu governo foi responsável fiscalmente, sensível socialmente e cuidadoso ecologicamente, foi sobretudo democrático e que erros de comportamento ocorreram, mas nenhuma acusação pessoal contra ele se sustentou.

Os que ainda duvidam do Lula e do PT precisam pensar que “o PT é parte do Brasil, e ainda bem que temos Lula”; o PT precisa pensar que: “o Brasil é maior do que nós e é para servir ao país que apresentamos Lula”. (Blog do Noblat/Metrópoles – 07/05/2022)

Cristovam Buarque foi senador, ministro e governador

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