Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (09/03/2022)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

EUA, Europa e Reino Unido boicotam importação de petróleo russo
Fuga sofrida – Civis saem sob som da artilharia
Zelensky atenua posição sobre Otan e áreas separatistas
Maduro dialoga com americanos para encerrar embargo
Bolsonaro: país em ‘direção’ a evangélicos
Cariocas não abandonam a máscara
Caso de pólio em Israel serve de alerta ao Brasil

O Estado de S. Paulo

Escalada em sanções eleva risco de choque global em energia
Opção de subsídio no lugar de preços congelados ganha força no governo
Planalto e Alvorada viram palanques de campanha de Bolsonaro
Um ponto de fuga para escapar do cerco russo
Estado de SP dispensa o uso das máscaras em locais abertos
Depois de vetar, Bolsonaro libera absorventes grátis
Mobilidade – Como será o ano para líderes que decidem rumos do setor

Folha de S. Paulo

Biden proíbe importação de petróleo e de gás da Rússia
Governo quer cortar tributo para baixar combustível
Explosões e tensão marcam corredores de saída da Ucrânia
À espera do anúncio de Doria, paulistano abandona máscara
SP vacinou 70% das crianças de 5 a 11 anos com 1ª dose
Em um ano como pré-candidato, Lula aposta em viagens
Mulheres do MBL criticam Arthur do Val
Podemos aceita pedido de desfiliação, deputado ainda pode ser cassado
McDonald’s anuncia fechamento de sua operação russa

Valor Econômico

EUA e Reino Unido impõem sanções ao petróleo russo
Níquel dobra de preço e favorece Vale
Congelamento de combustíveis recebe críticas
ESG vai ser o convencional nas empresas
Indigenistas atacam projeto sobre mineração
Investidor vê piora fiscal e inflação de 6% no longo prazo

EDITORIAIS

O Globo

Não existe saída fácil para a alta dos combustíveis

A diferença entre os valores cobrados no mercado local e no internacional passou de 40%

A história do controle de preços no Brasil é uma tragédia — das cenas patéticas dos fiscais do Sarney correndo atrás de gado no pasto ao descalabro que quase levou a Petrobras à bancarrota nos tempos de Dilma Rousseff. Só o passado já recomendaria uma reflexão profunda antes de qualquer decisão sobre controlar o preço dos combustíveis para compensar a alta do petróleo resultante da invasão russa à Ucrânia.

É compreensível que qualquer governante sinta essa tentação. O diesel mais caro aumenta o custo dos fretes; esse aumento é repassado aos produtos transportados; e produtos mais caros alimentam uma inflação já alta. O francês Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI hoje no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), defendeu em fevereiro a adoção de subsídios e isenção de impostos para tentar frear o preço dos combustíveis. Segundo ele, o impacto do aumento na inflação ascendente poderia erodir a confiança nos bancos centrais e provocar uma recessão mais séria.

Japão e Portugal estão entre os países que já anunciaram subsídio para reduzir o custo da gasolina na bomba. Os Estados Unidos estudam medidas similares. O problema desse tipo de intervenção, como o próprio Blanchard reconheceu mais tarde, é que ela pode se revelar inócua. O preço artificialmente baixo acaba por incentivar o uso de carros, ônibus e caminhões, aumentando a demanda e exercendo pressão ainda maior nos preços. Isso num momento em que todo o planeta precisa conter o consumo de combustíveis fósseis para deter as mudanças climáticas.

No Brasil, a Petrobras não reajusta preços há mais de 50 dias. A diferença entre os valores cobrados no mercado local e no internacional passou de 40%. Mantida essa situação, o risco é o desabastecimento. Tanto a Petrobras quanto as refinarias privadas veriam vantagem em vender no exterior por um preço mais alto. Se forçadas a vender aqui, as privadas poderiam desistir de operar no país.

Populistas em diferentes posições no espectro político costumam jogar para a plateia com bobagens do tipo “se temos petróleo, por que pagar o preço internacional?”. O presidente Jair Bolsonaro parece disposto a seguir adiante com o plano de segurar os preços e deixar a conta para os acionistas da Petrobras. Seria mais um erro trágico. Foi com esse raciocínio que o PT, sob Dilma, levou a empresa a um prejuízo de US$ 40 bilhões e a um endividamento recorde, que inibiu investimentos futuros e prejudicou toda a indústria ao redor. Reerguer a empresa exigiu anos de trabalho. Repetir o erro criaria distorções no mercado e incertezas para acionistas e investidores sobre a seriedade das regras de negócios no Brasil. O custo recairia sobre todo o país.

É inevitável que qualquer política de preços adotada acabe contaminada pelo componente eleitoral. Bolsonaro não desistirá de intervir. Mas poderia ao menos seguir a sugestão de economistas sérios como Blanchard: em vez de afundar a Petrobras, todo subsídio deveria ser pago pelo Tesouro, com a devida anuência do Congresso, que deveria apontar a origem dos recursos para pagá-lo. O custo, estimado em R$ 12 bilhões por mês, poderia até caber na folga fiscal gerada com a alta na arrecadação (de 18% em janeiro, na comparação com 2021). É assim que deveria funcionar numa democracia. Se dará certo no mercado às voltas com o choque do petróleo, é outra história.

O Estado de S. Paulo

Putin dita pautas do BC e do Planalto

Pressões inflacionárias causadas pela guerra podem complicar a tarefa do Copom, enquanto o governo insisteem controlar o preço dos combustíveis

A guerra na Ucrânia, as ameaças de Putin e a agitação nos mercados estão presentes na pauta do Palácio do Planalto e na agenda do Banco Central (BC). Petróleo em alta, alimentos mais caros e novas incertezas no mundo financeiro são efeitos diretos e indiretos da insegurança criada pelo autocrata do Kremlin. No Planalto, a preocupação ostensiva do presidente Jair Bolsonaro é conter a alta dos combustíveis e eliminar possíveis obstáculos à sua reeleição. No BC, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) enfrentam novas complicações para cumprir a promessa de conduzir a inflação à meta oficial até 2023.

Diferença fundamental: enquanto a política monetária é concebida e conduzida segundo padrões técnicos, nenhuma norma econômica, de mercado ou de bom senso regula as iniciativas propostas ou impostas pelo presidente da República. Falou-se nos últimos dias em congelar preços de combustíveis, com perdas para a Petrobras e para seus acionistas. Outras fórmulas, com redução de impostos federais e estaduais e criação de um fundo para subsídio, têm sido examinadas no Planalto e no Congresso.

Cortes de tributos poderão causar perdas consideráveis ao poder central e aos governos estaduais e municipais – neste caso, com evidente violação dos valores federativos. Governadores já protestaram, mas o risco de perdas de receitas para os governos subnacionais permanece.

A hipótese de congelamento dos preços da gasolina e do diesel tem afetado as negociações no mercado de capitais. As ações da Petrobras caíram mais de 7% na segunda-feira e a insegurança continuou no dia seguinte, enquanto subiam as cotações do petróleo. As do tipo Brent chegaram a superar US$ 131 por barril, com alta superior a 6%.

Sem reajustar preços há mais de 50 dias, a Petrobras acumula perdas, mas o presidente Jair Bolsonaro insiste em impor esse custo à empresa, sem levar em conta os padrões de gestão financeira e os interesses da maior parte dos acionistas nacionais e estrangeiros.

Nesse caso, como diante de outros problemas, o padrão Bolsonaro tem sido o das soluções improvisadas e de alcance limitado, sem discussão de políticas para diminuição de riscos no médio e no longo prazos. O encarecimento do petróleo afeta quase todo o mundo, mas muitos outros países dependem menos que o Brasil do transporte rodoviário.

Além disso, pode haver amortecedores para crises, como os estoques de segurança de petróleo disponíveis nos Estados Unidos. Discussões sobre a estrutura de transportes, sobre segurança de suprimento de combustíveis e sobre novas fontes de energia são em Brasília muito menos frequentes do que deveriam ser. Grandes problemas e soluções de grande alcance têm sido temas pouco relevantes para o Executivo e o Legislativo federais.

Tem-se mantido um padrão diferente no BC e em seus comitês. O Copom pode ter demorado a reconhecer o caráter duradouro e a gravidade das pressões inflacionárias, no ano passado. Mas o problema foi reconhecido, afinal, e o aperto monetário foi iniciado e em seguida intensificado, mesmo com os previsíveis efeitos negativos para a atividade.

O aperto continuou em 2022, mas, apesar da disposição de seguir elevando os juros, o Comitê estendeu até 2023 o prazo para conduzir a inflação à meta, fixada em 3,25% para o próximo ano. Embora o compromisso principal seja o controle da inflação, o custo da política, neste ano, seria provavelmente muito maior que o benefício alcançável. O mercado projeta juros básicos de 12,25% em 2022 e a inflação estimada, de 5,65%, ainda supera amplamente a meta de 3,5%. Um arrocho adicional, quando já se prevê crescimento econômico inferior a 0,5%, poderia ser desastroso.

As pressões inflacionárias causadas pela truculência do presidente Putin, novo objeto de admiração de Bolsonaro, podem complicar a tarefa do Copom. Na reunião da próxima semana o Comitê deverá indicar se os novos desajustes no mercado internacional motivarão mudanças em seus objetivos, em sua estratégia e nos custos do aperto monetário para os brasileiros.

Folha de S. Paulo

Mentira plantada

Bolsonaro usa potássio russo como pretexto para acelerar agenda antiambiental

Jair Bolsonaro (PL) usou os horrores da guerra na Ucrânia para tentar avançar a mineração em terras indígenas da Amazônia, uma conhecida obsessão de seu governo.

O mandatário alegou que, com a regulamentação do projeto de lei 191, de 2020, poderia diminuir a dependência nacional de fertilizantes da Rússia, como o potássio, com exportação ora suspensa.

Nessa campanha desonesta, conta com a cumplicidade do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para conferir urgência ao que não tem. O deputado não poupa esforços nem manobras para estourar a boiada antiambiental, como propôs o então ministro Ricardo Salles na famigerada reunião do gabinete dois anos atrás.

A poderosa bancada de parlamentares ligados ao agronegócio apoia o projeto —nos piores casos, porque interessa a latifundiários e grileiros a precarização das terras indígenas. Quanto à eventual falta de fertilizantes a ser desencadeada pela crise ucraniana, os argumentos se mostram fragílimos.

Nem sequer há evidência de jazidas significativas de potássio nos territórios cobiçados. O engodo presidencial foi apontado por Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo o pesquisador, dados da Agência Nacional de Mineração e do Serviço Geológico do Brasil escancaram a mendacidade de Bolsonaro na questão.

Levantamento de Rajão com Bruno Manzolli, noticiado pelo Valor Econômico, indica que o Brasil tem reservas de potássio suficientes para abastecer o agronegócio até o final deste século. Mais que isso, dois terços das jazidas estão fora da Amazônia Legal.

Do que se encontra na região, um décimo apenas das reservas conhecidas envolve alguma superposição com terras indígenas —todas não homologadas, diga-se. Entre aquelas com reconhecimento pleno do poder público, há zero de potássio. Reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo autoriza conclusões semelhantes.

A guerra de Vladimir Putin, autocrata visitado por Bolsonaro na antevéspera da agressão à Ucrânia, não oferece justificativa nenhuma para acelerar a anuência da mineração em terras indígenas. É mais uma mentira do presidente.

A Constituição não veda a lavra de riquezas minerais nessas áreas, mas estabelece em seu artigo 231 que, uma vez regulamentada, ela só poderá ser feita após ouvidas as comunidades afetadas. É claro o objetivo de proteger os recursos ambientais necessários ao bem-estar e a perpetuação desses povos.

Não parece plausível que, com uma legislação aprovada no Congresso, Bolsonaro vá conseguir reverter esse direito fundamental de veto fixado pela Carta.

A persistirem na ofensiva, os ruralistas mais afoitos se arriscam a colher obstáculos judiciais e abalar a reputação de seus produtos no mercado internacional.

Valor Econômico

Governo busca saída eleitoral para escalada do petróleo

Há opções técnicas razoáveis para o novo choque do petróleo, mas é inútil esperá-las de Bolsonaro

A economia global encarou em pouco tempo dois choques de extraordinária potência – depois da covid-19, uma guerra em solo europeu, envolvendo Rússia, a agressora, e Ucrânia. Se o primeiro choque provocou uma depressão nas atividades econômicas, o segundo lançou os preços reais do petróleo perto do recorde (US$ 129 o barril ontem), enquanto os da energia e commodities alimentares, como trigo e soja, seguem rota análoga. Não há um bom caminho para escapar dessa escalada a curto prazo.

A pandemia foi enfrentada com extraordinários estímulos fiscais e monetários. Os megachoques do petróleo, agora, o serão com mais política fiscal e a recalibragem provisória da elevação dos juros nos países desenvolvidos, em especial Estados Unidos e Europa. O Fundo Monetário Internacional sugeriu expressamente o uso da arma fiscal para amparar os mais pobres, cujo orçamento tem gasto maior com combustíveis e alimentos.

No curto prazo, os governos ricos, mesmo os muito endividados, como Japão e Itália, estão cortando impostos ou concedendo subsídios diretos porque a majoração dos preços de petróleo e derivados, sem substitutos no curto prazo, explodiu com a invasão da Ucrânia pela Rússia. A conta dessas medidas para eles é ainda suave. Para financiar déficits adicionais, as principais economias ocidentais ainda pagam juros reais negativos.

É impossível prever a duração do conflito e seu desenvolvimento. Entre as certezas está a de que a inflação, que já era a maior em 40 anos na Europa e EUA, ganhou novo ímpeto, enquanto que o nível de atividades, não normalizado por problemas nas cadeias de suprimentos e elevação geral de custos de fretes, tem agora um viés de baixa. Para o Brasil, as turbulências não devem ser asfixiantes pelo canal financeiro e o ciclo de alta das commodities, estacionadas perto do pico, será benéfica aos exportadores. Ainda assim, o cenário se deteriorou rapidamente.

O novo abalo violento de oferta, se durar alguns meses, terá efeitos muito ruins sobre uma inflação já alta. O abastecimento de fertilizantes está ameaçado em nível crítico para a próxima safra, se os embargos múltiplos à Rússia, um dos maiores exportadores mundiais desses produtos, se prolongarem. Após uma seca que jogou para o alto o preço dos alimentos, outra redução da disponibilidade é grande ameaça. O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes e fatia semelhante do trigo que consome – um fogo cruzado inflacionário óbvio.

Em 2021, os aumentos combinados de petróleo, alimentos e energia elétrica somaram 8 pontos percentuais de um IPCA de 10,06%. Os analistas esperavam que a inflação pudesse se reduzir a pouco mais da metade antes da guerra na Ucrânia. Agora, as expectativas voltaram a se deteriorar. A disparada do petróleo acrescentou urgência à adoção de medidas, mesmo as pouco críveis, levantadas pelo governo e outras, com baixo poder de influência de curto prazo, no Congresso.

Não há produção substitutiva imediata ao petróleo russo, 5% da oferta de exportação mundial e 2,7% dos derivados. Arábia Saudita e Emirados Árabes teriam capacidade ociosa de 3,1 milhões de barris diários e é remota a habilidade da produção de shale oil americana suprir o hiato da oferta.

O governo nunca soube exatamente o que fazer para amenizar a escalada do petróleo, de qualquer modo um problema muito complexo até para equipes com capacidade intelectual acima da mínima necessária. Subsidiar os combustíveis ganhou força no comando político do governo, cuja preocupação é monotemática: a reeleição de Jair Bolsonaro. O problema é grave.

Em 2021, a gasolina subiu 47,5% e o gás de botijão, 37%. De janeiro até hoje, o petróleo aumentou 60% no exterior e a Petrobras, que não ajusta preços desde 12 de janeiro, tem algo ao redor de 30% para cobrar. O presidente, cuja ignorância sobre esse e outros assuntos é enorme, voltou a bater na tecla da mudança da política de preços da estatal. Uma das ideias é usar o pagamento de dividendos da empresa, de R$ 37,3 bilhões, para bancar subsídio temporário, de três a seis meses. Esse dinheiro é do Tesouro, mas o governo finge que não é. Entre as piores opções está a do congelamento e a da recriação de um estado de calamidade, que abriria crédito ilimitado para apoio aos combustíveis e o espaço no teto de gastos para despesas que o governo julgar convenientes em ano eleitoral. Há opções técnicas razoáveis para aparar o novo choque do petróleo, mas é inútil esperá-las de Bolsonaro.

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