Pedro Hallal: Zé Gotinha contra ômicron

Nos primeiros meses de 2021, depois de devastar a cidade de Manaus, a variante gama (antes conhecida como P.1.) avançou pelo território brasileiro e manteve a média móvel de óbitos ao redor de 2.000 mortes por dia, durante várias semanas. O Brasil perdeu centenas de milhares de vidas num espaço curto de tempo.

Naquela época, nosso herói Zé Gotinha praticamente não conseguia nos defender. Boicotado pelo próprio Ministério que o tornou um herói nacional, Zé Gotinha nada pôde fazer para evitar que o país fosse derrotado pela variante gama. A vacinação começou no final de janeiro no país, mas nos primeiros meses, ocorreu em contas gotas, devido à negligência do Governo Federal em adquirir as vacinas durante o ano de 2020.

Lembro como se fosse hoje: o Brasil recém se recuperava da devastação causada pela variante gama e o mundo passou a noticiar a descoberta da variante delta. O número de casos explodiu em alguns lugares, inclusive em países onde a vacinação tinha começado antes do Brasil. Naquela época, alguns pesquisadores brasileiros previram o pior: o Brasil será devastado pela variante delta. Alguns chegaram a imaginar que o Brasil poderia alcançar a marca de 5.000 mortes por dia.

Lembro que fui voz dissonante.

Manifestei minha percepção de que seria travado um cabo de guerra, uma verdadeira batalha, entre a vacina e a variante. De um lado nosso herói Zé Gotinha, que naquela época já vinha honrando sua história, distribuindo vacinas para uma grande parcela da população brasileira. Do outro lado a variante delta, a vilã. Uma variante mais transmissível do que o vírus original.

Passados alguns meses, dá para dizer que nosso herói conseguiu vencer o cabo de guerra contra a variante delta. A média móvel de óbitos seguiu diminuindo e hoje mantém-se abaixo de 300 mortes por dia. Nosso herói Zé Gotinha voltou a ser celebrado por quase toda a população brasileira, num país em que 95% das pessoas querem se vacinar contra Covid-19.

O movimento anti-vacina flopou vergonhosamente no Brasil. Entre notícias falsas, propinas, chifres e vídeos banidos, os vilões foram sendo derrubados, um a um, pelo nosso herói Zé Gotinha.

Agora o nosso herói se prepara para uma nova batalha. Depois de derrubar a variante delta e os negacionistas, nosso herói precisará enfrentar um novo vilão: a variante ômicron.

A ciência ainda dispõe de poucas informações sobre o nosso vilão. Um gráfico amplamente compartilhado mostrou que a nova variante tem um potencial de contaminação enorme, fazendo com que a curva de contágio pareça o lançamento de um foguete. Por outro lado, dados preliminares sugerem que a variante ômicron possa ser menos agressiva do que as versões anteriores do vírus. Ainda não se tem dados precisos sobre o comportamento do ômicron em relação às vacinas contra Covid-19.

Assim como nos ensinou o treinador do Palmeiras, Abel Ferreira, conhecer o adversário é essencial para quem planeja ter sucesso numa batalha. Nós, pesquisadores vamos fazer a nossa parte, tentando produzir informações sobre a nova variante rapidamente. E as entregaremos na mão do Zé Gotinha, nosso herói nacional, para usá-las em sua batalha contra o nosso vilão.

Sigo otimista, embora com um pouco de receio. (Folha de S. Paulo – 29/11/2021)

Pedro Hallal é epidemiologista, professor da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do Epicovid-19, o maior estudo epidemiológico sobre coronavírus no Brasil

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