Vinicius Torres Freire: Na mesma, PIB ainda despiora, volta a 2019 e deixa o povo para trás, sem emprego e renda

A economia brasileira não cresceu nada no segundo trimestre, em relação ao primeiro. No número exato, caiu um tico, 0,054%, o que continua a ser nada. Isso mexe com aquelas estimativas de que o país cresceria perto de 5% neste 2021? Não. Mas onde está, estará ou estaria esse crescimento?

Trata-se de uma recuperação das perdas de 2020, quase apenas isso, embora mais rápida do que se esperava até fins do ano passado. É uma despiora, de resto horrível em termos sociais: a recuperação do PIB continua desigual e não aparece em consumo, salários, emprego. Na média dos PIBs trimestrais, 2021 vai ser bem melhor do que 2020 e mais ou menos igual a 2019.

O PIB do segundo trimestre foi um pouco pior do que a estimativa média dos economistas que trabalham na finança, “o mercado”. O que houve? Não houve grande coisa, francamente.

Basicamente, de mais importante na numeralha trimestral, o investimento em novas instalações produtivas, casas, equipamentos, máquinas etc. (em “capital fixo”) caiu além da conta (e a economia parou de “investir” em estoques, o tinha engordado o PIB do primeiro trimestre).

O dito “consumo das famílias” (consumo privado) ficou estagnado (todas essas comparações são com o primeiro trimestre). Esperava-se alguma alta, pois as restrições sanitárias oficiais diminuíram, embora o segundo trimestre tenha sido de recorde de mortes por Covid-19. Nos últimos quatro trimestres, o PIB cresceu 1,8%. O consumo privado caiu 0,4%.

O PIB trimestral já voltou ao nível anterior ao da epidemia. Mas, por exemplo, o número de pessoas ocupadas e a massa (soma) dos rendimentos do trabalho ainda não. O número de pessoas ocupadas no segundo trimestre deste ano é ainda inferior ao do segundo trimestre de 2019 (-6%). A massa de rendimentos também está cerca de 6% abaixo do que se registrava em meados de 2019.

Em resumo, os números mais gerais do PIB indicam que quem tem dinheiro não gasta ou não investe tanto (em novas atividades e bens de produção, em “capital fixo”); um monte de gente perdeu renda ou não tem nenhuma. A confiança dos consumidores anda em nível bem abaixo do ânimo dos empresários.

Essa é a história principal do PIB. Grosso modo, o país não está “gastando”, por precaução ou penúria. Uns têm medo do futuro; outros não têm presente.

No mais, ainda dá para crescer, “despiorar”, algo perto de 5%. Isto é, se não houver colapso do fornecimento de energia, se Jair Bolsonaro e Paulo Guedes não destruírem o que sobra da economia, se não houver repique da epidemia ou tumulto político ainda maior. Se a economia não crescer nada, trimestre ante trimestre, até o final do ano, o PIB ainda aumenta 4,9% em 2021: é despiora, crescimento a partir do buraco deixado pela ruína de 2020. A reabertura do setor de serviços, o ritmo ainda forte da economia mundial e o preço das commodities devem ajudar.

No entanto, em termos políticos e trocando em miúdos, o desempenho da economia até agora não refresca em nada a desgraça social que solapa a popularidade de Bolsonaro: os pobres estão mais pobres por falta de renda, de resto carcomida pela inflação. Mas, até o final do ano, mantidas as atuais perspectivas de crescimento, um tanto mais de gente vai sair do sufoco.

Quando se considera o PIB da perspectiva da produção, a agricultura encolheu no segundo trimestre. Mas isso não é lá muito importante, no quadro geral. Estamos falando aqui de décimos de porcentagem aqui (de um décimo, aliás). A indústria de transformação (“fábricas”) foi mal, pois falta matéria-prima, insumos, como nas montadoras, e os custos de produção estão em alta.

Enfim, seria importante prestar atenção à taxa de poupança da economia em geral: chegou a 20,9% do PIB, a maior deste século, e bem maior que a taxa de investimento (em novas atividades e bens de produção).​ (Folha de S. Paulo – 02/09/2021)

Vinicius Torres Freire, colunista da Folha

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