Reinaldo Azevedo: Na política, existem as mentiras que salvam e as que matam

Todo político mente um pouco. Há nessa frase possível ranço de preconceito. Em algum grau, mentimos todos. Por simpatia, benevolência, etiqueta… Sem o tempero do engano e do autoengano, terminamos na guilhotina ou na fogueira, com os inquisidores, claro!, a rezar por nossa alma em nome do bem, do belo e do justo. Uma mentira aqui e outra ali são uma forma de ajuste social. Garantem o funcionamento do sistema.

Como tudo na vida, também as inverdades estão submetidas a uma escala. Há aquelas que são moralmente irrelevantes, a que o homem ou a mulher que fazem política recorrem para evitar os impasses. Um dos esforços, por exemplo, consiste em evidenciar um pensamento coerente, submetendo as próprias contradições a uma releitura interessada. Assim, a hipocrisia pode ser apanágio da eficácia do discurso.

Imaginem um colegiado de representantes do povo em que ninguém jamais mudasse de ideia ou jamais fizesse concessões. Max Weber já cuidou do assunto ao distinguir a “ética da responsabilidade” da “ética da convicção”. Preocupo-me sempre com a formação de um público leitor. Sugiro pesquisa a quem não conhece o autor e a distinção que ele estabelece. Aqueles que o fizerem descobrirão mais um dos caminhos da tolerância e da convivência entre divergentes.

Se notaram, escrevi três parágrafos sobre o que ousaria chamar “hipocrisias de salvação”. Elas nos livram de juízos peremptórios e da razia que o moralismo ensandecido costuma produzir, destruindo o meio ambiente político, buscando substituí-lo por suas verdades e virtudes consideradas puras, imanentes e eternas. Afinal, o Savonarola de plantão —mais um nome a pesquisar?— é o verdadeiro pervertido. É sempre ele a nos conduzir para a fogueira e para a terra dos mortos.

E estamos na terra dos mortos, imagem a que tenho recorrido com constância. Quase 500 mil, como sabem. Vacinação, educação e disciplina poderiam tê-las reduzido drasticamente. A ela chegamos por obra daquele moralismo que já não é o túmulo da moral, como escrevi, mas um cemitério superpovoado.

É erro fatal confundir a mentirinha como chave da eficácia com a indústria de manipulação que corrói as instituições e destrói as políticas públicas. Cumpre não igualar desigualdades.

Governos mentiram menos ou mais ao longo da história. Assim é em qualquer país. No Brasil, ninguém transformou o engodo num desiderato, num objetivo a ser alcançado, como faz Jair Bolsonaro. As coisas assombrosas que diz e faz o transformam em algo mais do que o ser meio apalhaçado. Ele não fala no vácuo. É uma força mobilizadora para o caos.

Na era das redes sociais, Umberto Eco —outro a ser visitado— não temeu que o chamassem de apocalíptico ao caracterizar a barbárie. O presidente do Brasil não teve nenhuma vergonha de afirmar, por exemplo, num evento religioso nesta quarta (9), que as vacinas ainda são experimentais, sustentando que os imunizantes se igualam à hidroxicloroquina, que estaria sendo desprestigiada apenas porque é um remédio barato. Está mentindo. A informação falsa alimenta o colapso do sistema de Saúde.

No mesmo evento, afirmou ter provas de que, em 2018, foi eleito no primeiro turno e de que houve fraude, demonizando, uma vez mais, as urnas eletrônicas. Está mentindo. Não tem prova nenhuma. Põe desde já o sistema eleitoral em dúvida e antecipa possível pantomima golpista se vier a perder a eleição.

Em conversa com seguidores, atribuiu ao TCU armação urdida pelo filho de um “parça”, que apontava suposta superestimação no número de mortos de Covid-19. A partir da mentira, urdiu uma outra: o Brasil seria um dos países mais bem-sucedidos do mundo no combate à doença.

Há, em suma, diferença entre as mentiras que garantem a funcionalidade do sistema e o crime. As contadas por Bolsonaro matam pessoas, agridem as instituições, ferem princípios civilizatórios.

Tratar as suas afirmações e postulações como expressões legítimas num arco de opiniões possíveis corresponde a compactuar com seus crimes. Ser tolerante com a intolerância não é nem bondade nem prudência. Ou é estupidez ou é conivência. (Folha de S. Paulo – 11/06/2021)

Reinaldo Azevedo, jornalista, autor de “O País dos Petralhas”

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