Bolsonaro divulga vídeo de ato convocado a seu favor e contra o Congresso

Presidente partilhou vídeo que convoca público a ato favorável a seu governo em 15 de março, que pede para “rejeitar os inimigos do povo” (Foto: Reprodução)

Bolsonaro expõe apoio a protestos a seu favor e contra o Congresso

CARLA JIMÉNEZ – EL PAÍS

O presidente Jair Bolsonaro injetou tensão na reta final do Carnaval ao partilhar um vídeo por Whatsapp, nesta terça, que convoca o público para uma manifestação no dia 15 de março de apoio ao Governo. A informação foi revelada pela jornalista Vera Magalhães, do jornal O Estado de S. Paulo, que teve acesso à mensagem e checou que partiu do celular utilizado pelo presidente. O protesto, segundo o jornal O Globo havia sido sugerido, inicialmente, pelo general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que aventou a ideia de protestos contra o Congresso Nacional depois da queda de braço sobre controle de execução de emendas parlamentárias no orçamento da União. Na última terça, 19, Heleno se reuniu com o presidente e teria proposto “convocar o povo às ruas”.

No screenshot da tela de celular publicado por Vera Magalhões, é possível ler: “– 15 de março. – General Heleno/Cap Bolsonaro. – o Brasil é nosso. – Não dos políticos de sempre”. O texto era a introdução para apresentar o vídeo, que apela para a emoção com imagens de Bolsonaro sendo esfaqueado durante a campanha de 2018, imagens dele no hospital, entremeadas de legendas como “Ele quase morreu por nós”, “Ele está enfrentando a esquerda corrupta e sanguinária por nós”. Vem ainda com adjetivos como “patriota”, “cristão” e chamando para mostrar “a força da família brasileira” e para rejeitar “os inimigos do Brasil”.

A manobra, que repete o estilo adotado por Bolsonaro desde a sua campanha eleitoral, pode, no limite, configurar crime de responsabilidade pela legislação brasileira, que proíbe a um presidente cometer atos que atentem contra a Constituição e contra o “livre exercício do Poder Legislativo”. A manifestação, porém, já estava sendo incentivada por bolsonaristas desde antes da refrega do General Heleno na semana passada.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se manifestou no Twitter alegando uma possível crise institucional pelo fato de o próprio presidente convocar uma manifestação. FHC, porém, escreveu que Bolsonaro tuitou, mas na verdade ele partilhou o vídeo do seu celular. “A ser verdade, como parece, que o próprio Pr tuitou convocando uma manifestação contra o Congresso ( a democracia) estamos com uma crise institucional de consequências gravíssimas. Calar seria concordar. Melhor gritar enquanto de tem voz, mesmo no Carnaval, com poucos ouvindo.”

De folga no Guarujá, litoral paulista, Bolsonaro buscou interação popular passeando de moto pela cidade, e cumprimentando apoiadores na cidade e também na vizinha Praia Grande. Partilhou também imagens de homenagens de apoiadores durante o Carnaval. A festa, porém, teve mais registros de protestos contra ele, inclusive com uma escola de samba do Rio de Janeiro, São Clemente, fazendo uma crítica direta a sua figura, protagonizada pelo humorista Marcelo Adnet.

Até as 22h23 o presidente não havia se manifestado sobre o vídeo, nem os seus filhos. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e David Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, também preferiram os silêncio nas redes sociais. O assunto deve pautar a quarta-feira, num momento em que o Brasil encara a possibilidade de ter um primeiro caso concreto de coronavírus, algo que afeta o humor nacional, bem como o ambiente econômico.

A crise aberta na semana passada pelas falas do general Heleno contra o Congresso, assim como a convocação do ato do dia 15, também abriram outra frente de tensão dentro do Exército. O ex-ministro da Secretaria do Governo, General Santos Cruz, mostrou-se irritado com a divulgação de um banner sobre a manifestação que sugere o apoio do Exército ao ato. Nele, se lê “Vamos as (sic) ruas em massa. Os generais aguardam as ordens do povo. Fora Maia e Alcolumbre”. Santos Cruz partilhou a imagem nesta segunda, 24, e escreveu em seu twitter: “IRRESPONSABILIDADE Exército Brasileiro – instituição de Estado, defesa da pátria e garantia dos poderes constitucionais, da lei e da ordem. Confundir o Exército com alguns assuntos temporários de governo, partidos políticos e pessoas é usar de má fé, mentir, enganar a população.”

Fonte: https://brasil.elpais.com/politica/2020-02-26/bolsonaro-expoe-apoio-a-protestos-a-seu-favor-e-contra-o-congresso.html

Educação: Manifestações ocorrem em 22 estados e no DF

Protestos pela Educação são registrados em pelo menos 22 Estados e DF

André Guilherme Vieira, Carolina Freitas, Isadora Peron, Cristian Klein e Marcos de Moura e Souza – Valor Econômico/Folhapress

Até às 21h28, foram registrados no portal “G1” e em redes sociais atos contra os cortes na Educação em 136 cidades, distribuídas em 25 Estados e no DF. Este é o segundo protesto nacional contra os cortes feitos pelo governo Bolsonaro. O último ocorreu no dia 15 de maio.

Entre as maiores mobilizações estão as de Salvador, onde há uma greve estadual da educação há mais de 40 dias, além de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em algumas cidades, houve paralisação com adesão de professores em instituições federais de ensino. Há bloqueios em prédios de instituições e também em algumas rodovias. No Amambaí, no Mato Grosso do Sul, um grupo de indígenas bloqueou uma rodovia.

Os primeiros atos ocorreram em 220 cidades de 26 Estados e do Distrito Federal.

Em decreto publicado em março que bloqueou R$ 29 milhões do orçamento deste ano, o governo federal contingenciou R$ 5,1 bilhões da área da Educação. Desse montante, R$ 1,7 bilhão envolve diretamente o ensino superior federal.

Rio

Ainda que menor do que o primeiro ato do dia 15, a manifestação ocupa toda a avenida Rio Branco, no Centro Rio. Milhares de manifestantes, cerca de um terço do protesto de duas semanas atrás, que registrou por volta de 150 mil pessoas, lotam a principal via do centro carioca, da Candelária à Cinelândia.

No primeiro ato, houve greve e as escolas e universidades não funcionaram, facilitando a mobilização durante todo o dia, concentrando a mobilização já no meio da tarde. Dessa vez, o protesto cresceu em onda, rapidamente, depois das 17h, com o fim do horário de expediente tradicional.

Manifestantes portam faixas, cartazes e adesivos contra os cortes do orçamento de universidade e institutos federais, contra o presidente Jair Bolsonaro e a favor do ex-presidente Lula. Numa cartolina, lê-se: “Reforma da Presidência”, numa ironia à proposta do governo de reformar o sistema de previdência.

Para a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), já era esperado que esse ato fosse menor, embora a parlamentar considere que ele reúna mais pessoas do que a manifestação de apoio a Bolsonaro, feita em Copacabana, no domingo.

Jandira diz que o protesto do dia 15 foi maior porque se tratava de uma greve nacional de educação. Hoje o funcionamento das escolas foi normal, tanto o setor público quanto o privado, lembra. E a manifestação foi convocada por entidades estudantis, sem o aparato de sindicatos.

A menos de cem metros da parlamentar, o ex-deputado federal Chico Alencar, do Psol, considerou um sucesso a presença de manifestantes. “A bandeira contra as atrocidades do governo na educação está mais firme do que nunca”, disse.

O ex-deputado afirmou ser “remanescente de 1968” e lembrou que as manifestações contra a ditadura militar foram cumulativas. “Tinha umas maiores, outras menores, mas havia uma chama acesa de prosseguir, de lutar”, disse.

Os manifestantes fazem muito barulho com bumbos e carregam cartazes como “Educação é ordem; ciência é progresso”,

“A burrice no poder é toda orgulho” e “Idiota inútil é o conje”, numa alusão à fala do ministro da Justiça, Sergio Moro, ao querer expressar a palavra “cônjuge”. O protesto seguirá rumo à Cinelândia.

São Paulo

Em São Paulo, estudantes se concentraram no Largo da Batata, na zona oeste da capital paulista, e depois seguiram em caminhada em direção à avenida Paulista. Estão representados em bandeiras e bancas que vendem camisetas e livros PT, Psol, PDT e MST.

Centrais sindicais também se fazem presentes com balões gigantes e um boneco inflável de Bolsonaro com a faixa de presidente do “Laranjal do PSL”. A presidente da União Nacional dos Estudantes, Marianna Dias, avaliou bem os protestos pela manhã e prometeu um ato “gigante” em São Paulo, Rio e Belo Horizonte agora à tarde.

Circula abaixo-assinado contra a reforma da Previdência, que também é criticada em uma grande faixa preta em frente à Kombi com alto falantes da Sintusp em que lideranças do movimento discursam, em uma aula pública. Um jovem representante do PT falou ao microfone e pediu aplausos para os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff.

A convocação para uma greve geral em 14 de junho dá o tom dos discursos e palavras de ordem em São Paulo. Lideranças dos estudantes e de sindicatos reforçam a mobilização para a próxima manifestação da esquerda, para manter quente a mobilização contra o governo.

Os organizadores estimaram o público na concentração em 60 mil pessoas. Pedro Gorki, presidente da Ubes, discursou em jogral com os manifestantes: “Nós estudantes hoje viemos dar uma aula ao presidente e ao ministro da Educação. Se eles querem nos ver na fila do sistema penitenciário, que eles saibam que a juventude não arreda o pé até mostrar para esse ministro que a educação é importante”.

A deputada estadual e cantora Leci Brandão, do PCdoB, pediu que Bolsonaro pegue sua “caneta” e assine um texto dizendo que está indo embora. Foi muito aplaudida.

Guilherme Boulos, líder do MTST, foi uma das lideranças mais aplaudidas pelo público ao ser anunciado.

Salvador

Milhares de estudantes concentram-se em Salvador na praça do Campo Grande, de onde sairão em passeata. Com faixas e cartazes, manifestantes protestam contra Bolsonaro. Em cima de um trio elétrico, líderes estudantis discursam e puxam gritos de guerra. O ato trava o trânsito na região central de Salvador.

O protesto na capital baiana também tem como alvo o governador da Bahia, Rui Costa (PT). Professores das universidades estaduais, em greve há mais de 40 dias, criticam os cortes no orçamento e pedem reposição salarial. “A luta pela educação une toda a esquerda, independente de quem é o alvo do protesto”, afirma o Laurenio Sombra, 52, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana. Há ainda faixas em apoio a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Brasília

Em Brasília, a concentração começou em frente à Biblioteca Nacional e seguiu para o Congresso.

Um grupo de manifestantes parou em frente ao Ministério do Meio Ambiente e protesta contra o ministro Ricardo Salles. Além de pedir a saída do ministro do cargo, gritam palavras de ordem contra a gestão de Salles. “Ricardo Salles, incompetente, é inimigo do Meio Ambiente”, dizem. O grupo está vestido de verde e carrega bandeiras da associação do Ibama.

Recife

O ato no Recife reúne um público visivelmente menor do que a manifestação realizada no último dia 15. A concentração, na rua da Aurora, área central da cidade, conta em sua grande maioria com estudantes secundaristas da rede pública de ensino.

Além dos protestos contra o contingenciamento promovido por Bolsonaro, os manifestantes atacam a reforma da Previdência e exaltam Lula.

Belo Horizonte

O ato na capital de Minas Gerais saiu com uma hora de atraso do horário previsto e caminhava em direção à avenida Afonso Pena. Às 20h30, uma multidão bloqueava parcialmente o trânsito em frente à Praça da Estação – o endereço que nas eleições é o preferido de candidatos do PT.

Em faixas, slogans e nas camisetas, os participantes faziam criticas à reforma da Previdência e também contra outras medidas do governo Jair Bolsonaro, como o decreto das armas. O mote “Lula Livre” também esteve presente.

Sindicatos de professores e de servidores, CUT e outras entidades ajudaram a organizar o ato. A Polícia Militar não fez estimativa de publico, mas os organizadores chegaram a falar em 30 mil pessoas. É o mesmo número citado por apoiadores de Bolsonaro que se reuniram domingo (26) na cidade.

“A gente sabia que haveria muita gente, mas ficamos felizes de ver que houve essa resposta maior. A pauta é importante”, diz Maria Rosaria Barbato, vice-presidente do Sindicato de Professores da UFMG (Apubh). Ela diz ainda que o ato desta quinta é uma preparação para a greve geral do dia 14 de junho, contra a reforma da Previdência.

Curitiba

Estudantes e professores que participam do ato em Curitiba instalaram uma nova faixa na fachada do prédio histórico da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

No domingo (26), uma faixa com a frase “em defesa da Educação” pendurada no mesmo local havia sido retirada sob aplausos por manifestantes pró-Bolsonaro.

A nova faixa é maior que a anterior e foi colocada num local mais alto da fachada do prédio da UFPR, numa operação que contou com andaimes.

“Isso mostra que toda vez que a educação for atacada estaremos aqui para defendê-la e colocá-la num ponto ainda mais alto”, disse Paulo Vieira Neto, presidente da Associação dos Professores da UFPR, uma das entidades que participam do ato em Curitiba.

A nova faixa traz novamente a frase “em defesa da Educação”.

A retirada repercutiu. Nesta quinta, diferentes campi da UFPR receberam uma faixa parecida com a do prédio histórico. Faixas com os dizeres “em defesa da Educação” também foram instaladas em universidades do Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo.

“A faixa virou um símbolo”, disse o professor Vieira Neto.

Governo reduz cortes na Educação depois de protestos de rua na semana passada

Após protestos, governo diminui corte no MEC em R$ 1,6 bi

Orçamento – Equipe econômica resolveu tirar de reserva R$ 1,58 bilhão para recompor orçamento do MEC que, ainda assim, continuará com R$ 5,4 bilhões contingenciados; secretário especial de Fazenda admitiu que a medida foi fruto de “decisão política”

Idiana Tomazelli, Lorenna Rodrigues – O Estado de S. Paulo

Após protestos contra cortes na Educação se alastrarem por diversas cidades do País, o governo decidiu reduzir em R$ 1,59 bilhão o bloqueio de recursos para a pasta. O dinheiro sairá da reserva que a equipe econômica vinha mantendo para fazer frente a emergências ou a novas frustrações na arrecadação, diante do cenário pessimista para a economia neste ano. A medida não tornou o Ministério da Educação (MEC) imune ao arrocho orçamentário. A pasta continuará com R$ 5,4 bilhões contingenciados. Houve, na verdade, um alívio no contingenciamento que já estava programado desde março e a pasta ficou livre de bloqueio adicional.

O secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, admitiu que a medida foi fruto de “decisão política”, mas evitou carimbá-la como reflexo das manifestações ocorridas na semana passada. Segundo ele, o fôlego dado ao MEC e ao Ministério do Meio Ambiente (de R$ 56,6 milhões) foi baseado em critérios técnicos e ratificado pelo conselho de ministros. “Governar é estabelecer prioridades”, disse Rodrigues. “O cobertor é curto.” Em março, o governo anunciou que R$ 29,8 bilhões do Orçamento teriam de ser contingenciados. A medida atingiu todas as pastas e colocou a máquina pública sob risco de apagão nos serviços.

Apesar disso, o governo identificou a necessidade de bloquear outros R$ 2,2 bilhões para assegurar o cumprimento da meta fiscal deste ano, que permite déficit de R$ 139 bilhões. Isso ocorreu porque a equipe econômica reduziu a estimativa de alta no PIB de 2,2% para 1,6% – o mercado está ainda mais pessimista, esperando avanço de apenas 1,24%. Quando o País cresce menos, entram menos receitas com tributos nos cofres do governo. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) determina que, caso haja risco de descumprimento da meta fiscal, o governo deve contingenciar recursos para segurar gastos. Lideranças políticas chegaram a relatar que o presidente Jair Bolsonaro pediu ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, para reverter a situação e não impor novos bloqueios à área.

À época, Casa Civil, MEC e Economia negaram solicitação nesse sentido. Em meio ao desgaste político provocado pelas manifestações, a Junta de Execução Orçamentária (formada pelos ministros da Economia e da Casa Civil) decidiu barrar o aperto adicional a órgãos públicos como um todo, numa decisão chancelada pelos demais ministros. Para isso, o “colchão de segurança” que até então contava com R$ 5,4 bilhões, foi reduzido. Foi dessa reserva que “saíram” recursos para desafogar MEC e Meio Ambiente. A reserva ficou com margem menor, de só R$ 1,56 bilhão, para emergências e absorver nova baixa das expectativas de arrecadação.

Carlos Andreazza: O bolsonarismo na prática

Não se pode analisar o governo Bolsonaro sem examinar a natureza ressentida do bolsonarismo — o desejo de forra contra o inimigo fabricado. Trata-se de dimensão fundamental, talvez mesmo aquela que amalgame os sentimentos disruptivos que decidiram a eleição de 2018.

Note-se que o ataque à universidade pública ora em curso não raro vem de gente formada pela universidade pública — contradição que é uma das marcas distintivas do rancoroso.

Abraham Weintraub, ministro da Educação, bolsonarista de primeira hora, é um ressentido. Vélez Rodríguez também o é, mas um desapetrechado para tocar a agenda de corrosão institucional. Sob a lógica reacionária que ora dirige o presidente, Weintraub, um executivo do desmonte, burocrata cujo rancor se mostra operacional, é escolha cor-reta para o ministério, consistente com aquilo que o bolsonarismo sempre —e sem esconder — pregou para a educação pública por meio da máquina estatal: nunca um corpo com o qual mover um programa positivo de reformas sobre os tantos e tão graves problemas que há, especialmente no ensino fundamental, mas uma estrutura aparelhável dentro da qual promover a tal guerra cultural.

O bolsonarismo também depende do “nós contra eles”. É preciso ter clareza sobre a essência do projeto de poder bolsonarista e a forma como se desenvolve —para o que o Ministério da Educação é a superfície perfeita, ali onde se pode fetichizar as figuras, logo facções, do estudante vítima indefesa de doutrinação ideológica (que derivaria de um comando central comunista) e do professor prosélito esquerdista que, sob ordens do partido, corrompe inteligências e multiplica desinformados.

A compreensão desse esquema binário — forja de conflitos — é crucial ao entendimento de que há, hoje, dois ministérios da Educação: um, o público, de todo inerte e incapaz de tocar adiante a mais modesta política pública, para prejuízo de crianças e jovens os mais pobres; e o interno, um cupinzeiro no cio, aquele em que se trava a eterna guerrilha, a que mobiliza as tropas, contra os inimigos inventados, os agentes do establishment (militares incluídos), incrustados no Estado para defenderos aparatos que transformaram escolas e universidades em fábricas de analfabetos petistas.

É dessa batalha fantasiosa havida dentro do ministério que emerge, para alguma expressão
do ministério de fora, o senso de “balbúrdia” que explica o anúncio —para posterior recuo — do bloqueio arbitrário em parte do orçamento de um punhado de universidades federais. Weintraub não retrocedeu em seguida porque pressionado pela reação da sociedade. Diria mesmo que ele não voltou atrás, sendo ambos os movimentos—o avanço e o recuo — produtos de cálculo tipicamente bolsonarista: de início, um afago discricionário à militância cujo ódio bebe ainda melhor o sangue que jorra de poucas mas representativas cabeças, como a da UFF; depois, ante a previsível resistência, o comunicado que anula a arbitrariedade que resultara na seleção original de afetados para estender o contingenciamento de recursos, também arbitrariamente (porque sem qualquer critério),atodas as universidades —o que terá sido sempre o objetivo.

Vélez Rodríguez era um péssimo ministro — como o é Weintraub, conforme grita a inação do ministério. Não caiu porque ignorasse as funções do cargo e as responsabilidades da pasta, mas porque incapaz de desdobrar o projeto bolsonarista de desidratação de tudo quanto possa ser identificado como musculatura institucional razoavelmente autônoma — no caso da educação, claro, a universidade.

Ressalto, então, um ponto relevante, outro entre os caráteres do bolsonarismo a respeito do qual tenho escrito: a necessidade permanente de cultivar confrontos e cevar crises como semeadura para a própria subsistência. Não nos iludamos. Nenhum bolsonarista — tanto mais um antigo professor universitário — bloqueia dinheiros de universidades, no tranco, sem saber exatamente onde e por que mexe; para que mexe. Sim, é o que quero dizer: a ação espera—quer, deseja — o contragolpe; se violento, tanto melhor.

Seria o cenário dos sonhos bolsonaristas, a mais límpida maneira de sustentar o terceiro turno em que encontra seu ar: provocar a reação do que seja facilmente designado como extrema esquerda, de preferência com greves, com protestos destrutivos nas ruas, tudo quanto possa projetar polarização e ser caracterizado como movimento paralisador de um país já paralisado, e que sublinhe os que se manifestam como aqueles que, agindo em defesa de interesses pessoais e mesquinhos, jogariam contra o país, a turma que não quer ver o Brasil dar certo —o paraíso caótico, o estado de conflagração, por meio do qual o bolsonarismo, em campanha constante, melhor consegue falar, sem intermediários, à população.

Lembre-se, leitor, da revolta dos caminhoneiros e de como o bolsonarismo a instrumentalizou. Tem método. (O Globo – 14/05/2019)