Soninha Francine debate bailes funk na periferia de São Paulo em comissão

Na avaliação da parlamentar do Cidadania, a discussão trouxe importantes contribuições para tentar resolver o problema (Foto: Luiz França/CMSP)

A vereadora Soninha Francine (Cidadania) , representantes da Prefeitura de São Paulo e da sociedade civil discutiram, nesta quinta-feira (12), na Comissão Extraordinária de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude, os bailes funk dos bairros periféricos da cidade de São Paulo. Também foram debatidas propostas de políticas públicas de lazer e entretenimento para a população jovem dessas regiões.

A discussão é consequência da morte de nove jovens, no início de dezembro, após ação policial no Baile da Dz7, famoso pancadão, como também são chamados os bailes funk, da favela de Paraisópolis, na zona Sul de São Paulo, reunindo em média entre 3 mil e 5 mil pessoas. Outras 12 pessoas ficaram feridas no incidente.

Segundo Renata Alves, uma das coordenadoras da Associação de Mulheres de Paraisópolis, o primeiro passo para a construção de um ambiente saudável de lazer e entretenimento na periferia é o diálogo. “Acho que o início de tudo é escutar os jovens. As pessoas têm mania de não ouvir o que o jovem pensa, o que o jovem quer para ele. As pessoas impõem isso. E não têm como falar de funk e não falar de jovem”, disse Renata.

Outro ponto levantado pela representante da Associação de Mulheres de Paraisópolis é a atribuição de responsabilidades aos envolvidos nos pancadões. “Por que esses nove jovens que morreram, por que tanta gente vem para Paraisópolis? Porque o bairro abraça as pessoas por causa do funk. E há grandes marcas que vendem muito. São 12 mil comércios na comunidade que provam isso”, reforçou Renata, que questionou os projetos promovidos no bairro para os jovens. “É preciso que elas [as marcas] façam a parte delas”, concluiu.

Presente ao debate, o presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, Carlos Alberto de Souza Júnior, também destacou a necessidade de mais investimentos públicos na periferia. “A solução, no momento em que a gente discute o orçamento da cidade, é pensar investimentos em política pública de fato eficazes para as periferias”, disse Souza Júnior. Segundo ele, é preciso pensar nos investimentos ali a partir do diálogo com o poder público.

Para Rubia Mara, representante da Evidência Paralella, empresa de comunicação que presta serviços a afroempreendedores voltados ao mercado funk da periferia, é preciso haver mais valorização das periferias.

“Paraisópolis, por exemplo, tem que ser vista com outros olhos, por sua relevância, uma vez que o que acontece na comunidade reflete em outros lugares. Ela tem que ser notada e entendida como patrimônio imaterial, porque não tem só o funk lá”, disse Rubia.

Cultura local

Participante da discussão, o coordenador de centros culturais e teatros da Secretaria Municipal de Cultura, Pedro Granato, defendeu a proteção ao funk, para ele uma manifestação autêntica e vibrante dos jovens.

“O que acontece é que uma discriminação social e racial acaba gerando uma criminalização de festas e acontecimentos periféricos, muitas vezes, vindos da cultura negra, enquanto você permite coisas muito piores em festas de elite”, disse Granato.

“Música é cultura e cultura você não trata com repressão, você trata com incentivo, com estrutura, com espaço para as pessoas se apresentarem, com liberdade de expressão”, enfatizou.

Na avaliação da vereadora Soninha Francine, a discussão trouxe importantes contribuições para tentar resolver o problema.

“É muito importante ver que tem coisas que são vistas como problema, mas só porque são ligadas à periferia e ao funk, enquanto em outras ocasiões não são consideradas um problema social grave, uma ameaça”, disse Soninha. “E que há coisas problemáticas, sim, que a gente pode lidar com elas de uma maneira a criar formas de lazer e de prazer mais saudáveis”, sugeriu a vereadora do Cidadania.

Segundo Soninha, o poder público tem capacidade de promover ações capazes de impedir novas tragédias.

“É desafiador, é complexo, mas é possível o poder público contribuir para que os adolescentes tenham um espaço para sua diversão, para seus impulsos até de transgressão, em que não se coloquem em perigo, inclusive, pela ação do próprio Estado”, afirmou.

“Afinal de contas, nove meninos e meninas foram assassinados porque a gente, poder público, desencadeou uma ação absurda. Não foi o baile funk que matou os meninos”, disse Soninha.

Também estiveram presentes à reunião da Comissão Extraordinária de Defesa dos Direitos da Criança, do Adolescente e da Juventude o ex-secretário municipal de Promoção e Igualdade Racial, Antonio Carlos Pinto; o representante da Secretaria Municipal de Cultura, Leo Medeiro; e a assessora de gabinete da vereadora Patrícia Bezerra (PSDB), Elizete Miranda. (Com informações do site da Câmara Municipal de SP)

Revista Política Democrática: A arte de protesto mobiliza jovens de periferia pela preservação da vida

O engajamento de jovens de periferias do Distrito Federal em movimentos socioculturais são o destaque da nona edição desa revista Política Democrática online (veja aqui), produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania. De acordo com a reportagem, eles têm saído cada vez mais do anonimato e usam poesias, letras de música e outras formas de manifestação político-cultural como “arte de protesto”.

Os jovens sobreviventes da guerra às periferias se mobilizam, conjuntamente, para fortalecer a maior arma de suas comunidades pela vida: a conscientização. A reportagem destaca que, assim como em outras partes do país, o número de movimentos socioculturais tem aumentado em Brasília e cidades próximas.

Dessa forma, os jovens deixam de ser socialmente invisíveis para travarem uma incessante luta por garantia de direitos. Eles já não se perdem nos números dos mais diversos levantamentos, que, às vezes, até se contradizem por conta das distintas fontes de dados, embora sejam importantes para a definição e a melhoria de políticas públicas. Cada vez mais, eles têm saído do anonimato para ocupar ruas, praças, parques e regiões centrais das cidades e mostrar suas artes. Só no Distrito Federal, há mais de 50 movimentos que reúnem jovens de periferia, conforme apurou a reportagem.

“Na escola, ainda criança, já era xingada por causa do meu cabelo. Por isso, passei a escovar a franja e enchê-lo de creme para não ficar alto. Me chamavam de bombril. O bullying e o racismo são muito perversos, mas o empoderamento veio com o tempo”, afirma  a assistente social Luana Rocha de Queiroz, de 22 anos, conhecida como Nega Lu.

Para o estudante Werick Heslei Pereira da Silva, de 20, é preciso vencer o estigma de que “ser da periferia é feio”. “A periferia é muito rica. O samba veio da periferia e a capoeira ganha força no contexto de pessoas marginalizadas. A guerra pintada contra a periferia reforça uma face cruel do poder simbólico. A burguesia acha que quem é da periferia tem que limpar chão e não pode ascender na vida, mas não é assim”, diz ele.

A poesia como protesto chega de repente para a balconista de padaria Naiara de Jesus Barbosa, de 27 anos, conhecida como Araian Poeta.  “O que me inspira é minha visão sobre a realidade, o sentimento do momento, como revolta, amor, aflição, tristeza. Ultimamente, estou sentindo mais revolta porque cada notícia é gritante”, afirma.

O estudante João Vitor Brito Araújo, de 20, diz que seus sonhos são o impulso para usar a arte como manifestação. “É preciso viver com sonhos. Meu maior sonho é dar uma casa para a minha mãe, mais conforto pra ela. E conseguir ter o conforto que mereço com a minha arte. Quero pelo menos ter sossego onde moro”, acentua.