Paulo Siqueira: A ventura de Orestes e a república dos ressentidos

“Canta-me a cólera –ó deusa– funesta de Aquiles Pelida causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos ficando eles próprios aos cães atirados e como pasto das aves.” Homero, A Ilíada.

A Deusa da discórdia, sempre ela, por não ter sido convidada a um casamento no Olimpo, enviou um pomo de maçã para a Deusa mais bela presente à cerimônia. Nem Zeus quis se meter na confusão de das deusas presentes qual seria e mandou a batata quente, ou pomo pelando, para Páris. Afrodite o subornou com o prêmio de ter o amor da mais bela mulher que encontrasse. Essa era Helena que foge com Paris para Tróia. Menelau corno da vida, pede ajuda ao seu irmão Agamemnon, este junta o exército grego mas como não se fazia vento para zarpar, por vingança de Artemis a quem ofendera, sacrifica a própria filha para satisfazer a ira da deusa. Partem os gregos para a guerra. O primo de Aquiles, Pátroco é morto por Heitor, irmão de Páris, Aquiles se vinga e mata Heitor. Páris o mata em vingança. Ulysses que concebeu a estratégia do cavalo derruba uma estátua de Poseidon e se vinga e não o deixa voltar para casa.

Após a vitória sobre Tróia, Agamemnon retorna pra casa e é assassinado por sua esposa em vingança pela filha sacrificada e pela traição dele com Cassandra, também vítima de vingança de Apolo. Orestes, filho de Agamemnon, assassina a mãe. Pelo matricídio é perseguido pelas Fúrias, numa roda de vinganças sem fim, pois Menelau queria que matá-lo e um outro parente seu teria que por sua vez matar Menelau. Até que Apolo exige um julgamento no Olimpo para que essa loucura sem fim tenha uma solução. Atena, entre os deuses julgadores, dá seu voto de Minerva (seu nome latino) e absolve Orestes. Nasce a justiça.

A justiça institucional nasce para que não prevaleça a lógica do olho por olho, do sangue pagando sangue, mas que através de soluções institucionais, com lógicas pautadas em leis, regras públicas e impessoais, se resolvam as pendências. A justiça é o caminho da civilidade. Alguém ressentido pode ser perigoso, um ressentido com poder tende a ser trágico, assim como Medeia no teatro greco/aristotélico.

Atualmente no Brasil vivemos um governo de ressentidos. Ao ascenderem ao poder, buscam ajustar as contas, mas esquecem que governos passam. Como numa democracia grupos opostos tendem a se alternar, a revanche pode vir contra si. Tentar reescrever a história ou perseguir pretensos inimigos, pode satisfazer essa sanha revanchista, mas em nada contribui para que superemos as grandes dificuldades que se apresentam à nossa frente. A eleição de Bolsonaro foi em certa medida o voto do ressentimento contra a corrupção, contra a falência do Estado, contra o fracasso dos serviços públicos, contra a insegurança pública e econômica, contra os privilégios, contra a política tradicional, contra a impunidade, os erros da política econômica petista, contra o corporativismo, o descaso, contra o PT, o PSDB, o MST, a justiça, o STF, as pautas identitárias, os gays (LGBT+), as cotas, o funcionalismo público, os imigrantes, a mídia tradicional, os muçulmanos, aqueles que profanam Cristo, que ofendem a religião, os costumes, os artistas e suas obscenidades, as estatais etc. Há muita raiva direcionada a muita coisa “errada por aí”. A população pede ordem para garantir o progresso.

Veio alguém com “sangue nos olhos” pra enfrentar o sistema, a tudo e a todos, e como como se vê hoje, enfrentar até a quem o apoiou, mesmo os militares. É preciso dar um basta na roda dos ajustes de contas e governar para o futuro do Brasil. Nosso presidente, preso aos seus próprios ressentimentos, parece incapaz disso. É preciso segurar os arroubos “revolucionários”, como apregoam os bolsonaristas, mas que nada mais é do que revanchismo. Arroubos estes que procuram o confronto em todos os campos da sociedade, inclusive institucional, na doutrina altraight de que o eleito tem o direito a governar diretamente com o povo, por cima do congresso e do poder judiciário, sendo o dever destes se curvar ao eleito para ratificar e dar legitimidade ao seu poder emanado da vontade de Deus e do eleitor, cabendo à minoria derrotada acatar a vontade majoritária. A oposição necessária agora deve ser a de apoiar as pautas fundamentais para que o Brasil saia do atoleiro, busque seu crescimento econômico e desenvolvimento social. Não cabe opor a tudo, pois quem está sofrendo na pele são os milhões de desempregados, endividados, falidos, e nada de bom tende a surgir do caos econômico. Por outro lado, dentro de nossa tradição pecebista, como os velhos camaradas aprenderam e nos ensinaram, devemos liderar o processo de diálogo amplo em defesa da democracia, que significa a defesa das instituições, da constituição federal e dos direitos e garantias. Para tal será preciso abrir diálogo também com os eleitores de Bolsonaro. Muitos o elegeram para dar um basta, mas já perceberam que é preciso virar a página e deixar Orestes seguir em frente.

Paulo Siqueira é diretor de cinema e escritor

Paulo Siqueira: Antes da Chuva

Antes da Chuva de Milcho Manchevski (1994) é um filme que se passa em sua maior parte na Macedônia, ambientado no esfacelamento da Iugoslávia. Seu roteiro utiliza a técnica elíptica, utilizada também em Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994), essa técnica de narração embaralha o tempo cronológico em relação ao dramatúrgico, ou seja, o encadeamento início, meio e fim, não seguem a ordem cronológica natural, mas a que interessa para a narração do enredo e do entendimento da história real que o autor quer contar, se alternando. No caso, uma sociedade macedônia dividida em religiões antagônicas, que até poucos anos antes eram amigas e até tinham relações românticas, mas no momento do filme se preparam para a guerra e extermínio de um e de outro.

O nome do filme vem da frase repetida ao longo do filme com personagens olhando para o céu e avaliando as nuvens: vai para chover, uma analogia à guerra que virá. Como o filme tem o tempo elíptico, a guerra já pode ter ocorrido ou estar ocorrendo.

Olhando para o céu da política brasileira de hoje, nos traz também a impressão nítida de nuvens de chuva, a qual talvez já esteja ocorrendo sobre nós. As postagens nas redes Bolsonaristas que acabaram estancando a crise entre o presidente do executivo e o da câmara, associavam o Rodrigo Maia à prisão do ex-ministro Moreira Franco, além dos ataques ao STF, com deputados da base pedindo o impeachment de ministros do supremo. Radicalizando o discurso, o próprio presidente insinua que articulação política seja na verdade, as práticas criminosas de governos anteriores, estimulando a população ao seu projeto anti-político, afinal foi a narrativa que o elegeu, de descartar congresso e supremo e governar diretamente com a vontade popular, da qual ele seria o catalisador, manifestas nas rede sociais. Pois por ser um homem simples, que compra camisa do seu time de futebol no camelô, camisa pirata mesmo, e se reúne com ministros com roupas de ocasião, erra concordância, bem ao estilo Roriz, e vai as redes perguntar o que é Golden Shower, pergunta que poderia ter sido feita em privado a um assessor ou até mesmo ao GSI, se lhe fosse importante saber. Mas na verdade sua busca era a de provocar a balbúrdia que queria e conseguiu.

Apesar do peso, as redes sociais não são o povo brasileiro em sua totalidade, e na verdade são bolhas hipertrofiadas com uso de robôs. Ao que parece, até agora, a Força é refratária a aventuras golpistas e o demonstrou barrando as iniciativas do chanceler, seu filho Eduardo e do próprio presidente, de apoiar e até se envolver em ação militar na Venezuela.

A sociedade não joga parada e em recente jantar com empresários na FIESP, o vice-presidente Mourão precisou reforçar o apreço do presidente pela democracia. Jantar lotado, seu simbolismo é o de que os empresários já procuram Mourão, o que também traz o perigo conhecido de nossa república de vice-presidentes, tradição que se inicia logo no primeiro mandato com o Marechal Floriano, o marechal de ferro, que deu no que deu.

Ferro e fogo é o que o Brasil não precisa, pelo contrário é preciso que todos tenham a ciência de seu papel na república e no fortalecimento das instituições, para que a democracia resolva. Nenhum céu de brigadeiro irá nos iluminar se não superarmos a pauta econômica, e nesse caso, a probabilidade de chuva aumenta, e um vento pode evoluir pra ciclone tropical.

Paulo Siqueira é diretor de cinema e escritor