OCDE alerta que surto de coronavírus pode gerar nova recessão global

O órgão pediu a governos e bancos centrais que lutem para evitar uma queda ainda mais profunda da atividade (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Coronavírus pode gerar nova recessão global, alerta OCDE

Países ricos planejam ações econômicas em conjunto para estabilizar mercados

Folha de S. Paulo/Reuters

O surto de coronavírus está levando a economia mundial à sua pior recessão desde a crise financeira global de 2008/2009, afirmou nesta segunda-feira (2) a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O órgão pediu a governos e bancos centrais que lutem para evitar uma queda ainda mais profunda da atividade.

A economia global deve crescer apenas 2,4% este ano, o nível mais baixo desde 2009 e ante expectativa de 2,9% em novembro, disse a OCDE.

Se o vírus se espalhar pela Ásia, pela Europa e pela América do Norte, o crescimento poderá cair para 1,5% neste ano.

A organização projetou que a economia possa se recuperar com um crescimento de 3,3% em 2021, caso a epidemia atinja o pico na China no 1º trimestre deste ano e outros surtos sejam contidos.

Para o Brasil, a OCDE manteve a expectativa de expansão de 1,7% em 2020 e 1,8% no ano seguinte. A projeção dos analistas consultados pelo Banco Central estão em, respectivamente, 2,17% e 2,5%.

“A principal mensagem para esse cenário de recuo é que ele colocará muitos países em recessão, motivo pelo qual pedimos que medidas urgentes sejam adotadas nas áreas afetadas o mais rápido possível”, afirmou a economista-chefe da OCDE, Laurence Boone.

Ela disse que os governos precisam dar suporte aos sistemas de saúde, com pagamentos extras ou benefícios fiscais para trabalhadores que fazem hora extra, além de permitir esquemas de trabalho para empresas que enfrentam recuo na demanda.

No cenário da OCDE, em que a situação não se deteriora de forma dramática, a China sofrerá o maior impacto. A organização reduziu a estimativa de crescimento do país para a mínima de 30 anos, 4,9%, ante projeção de 5,7% em novembro.

Na zona do euro, onde o número de casos está aumentando rápido, a expansão foi estimada em 0,8%, ante 1,1% em novembro, com a Itália registrando estagnação neste ano. O vírus deve ter impacto limitado sobre o crescimento dos EUA, estimado em 1,9% (2% em novembro), acelerando a 2,1% em 2021.

Também nesta segunda, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial disseram que estão prontos para ajudar os países-membros a enfrentar os desafios hum anos e econômicos, inclusive por meio de financiamento de emergência.

Em declaração conjunta, as instituições disseram estar concentradas especialmente nos países pobres, onde os sistemas de saúde são mais fracos, e instaram os países-membros a fortalecer a vigilância sanitária e os sistemas de resposta contra o vírus.

Os ministros da Economia do G7 —grupo dos países mais industrializados que reúne Japão, França, Reino Unido, EUA, Alemanha, Canadá e Itália— farão uma teleconferência nesta terça (3) para debater como limitar os danos causados na economia.

Segundo o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, as principais economias do G7 tomarão ações combinadas e devem discutir a melhor abordagem.

Ainda nesta segunda, o presidente do banco central do Japão, Haruhiko Kuroda, disse que a autoridade tomará as medidas necessárias para estabilizar os mercados.

A Itália vai colocar em prática medidas no valor de € 3,6 bilhões (R$ 18 bilhões).

Na sexta passada (28), Jerome Powell, presidente do Fed (banco central dos EUA), afirmou que agirá para apoiar a economia diante dos riscos para a atividade econômica.

Estrategistas de Wall Street têm reduzido as previsões de lucro das empresas americanas neste ano e estimam agora que o impacto econômico do vírus deva afetar os resultados além do 1º trimestre.

O estrategista do Citigroup Tobias Levkovich prevê uma pequena queda em 2020, com o impacto ocorrendo na primeira metade do ano, à medida que surgem paralisações na produção e as viagens são canceladas. No caso de uma recessão global, os lucros poderiam cair perto de 25%.

Na quinta (27), estrategistas da Goldman Sachs disseram que agora esperam que os lucros das empresas S&P 500 fiquem estáveis em 2020.

No Brasil, o governo recebeu relatos de efeitos pontuais sobre os fluxos de comércio do país, mas o surto não teve impacto sobre os dados da balança comercial em fevereiro. Exportadores de carne relataram baixo movimento no começo do mês por não conseguirem desembarcar suas mercadorias por falta de contêiner e mão de obra nos portos chineses.

O Brasil registrou superávit de US$ 3,1 bilhões em fevereiro. As exportações subiram 15,5% na comparação com igual período do ano passado. As importações avançaram 16,7%. “No agregado não conseguimos enxergar impacto significativo agora, a não ser relato das empresas, que é mais rápido”, disse o subsecretário do Ministério da Economia Herlon Brandão.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/coronavirus-deve-puxar-economia-global-para-nivel-mais-baixo-desde-2009-diz-ocde.shtml

OCDE reduz previsão de crescimento econômico do Brasil

OCDE reduz drasticamente previsões de crescimento para Brasil, Argentina e México

O Globo

PARIS – A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reduziu drasticamente em apenas quatro meses suas previsões de crescimento para as três maiores economias da América Latina — Brasil, Argentina e México — para este ano e o próximo, de acordo com uma projeção publicada nesta quinta-feira.

A OCDE reduziu em mais 0,6 ponto percentual ou mais sua previsão de crescimento para 2019 e 2020 do Brasil e Argentina, as duas maiores economias da América do Sul.

No Brasil, a entidade espera uma recuperação gradual, a partir de uma expansão de 0,8% neste ano, para cerca de 1,75% em 2020, devido a uma queda nas taxas de juros reais que suportam o consumo privado.

No caso da Argentina, as perspectivas se deterioraram significativamente devido à depreciação do peso e à imposição de controles de capital. As expectativas são de uma contração econômica de 2,7% em 2019 e 1,8% em 2020.

“A incerteza sobre as políticas é alta e a inflação aumentou novamente. A produção deverá contrair-se fortemente no final de 2019 e no início de 2020”, afirmou o relatório.

“Após as eleições de outubro, o próximo governo argentino terá de revelar em detalhes seus planos para políticas macroeconômicas que ajudem a recuperar a confiança e garantir a estabilidade”, acrescentou o texto.

Para o México, a partir de uma expansão de 0,5% este ano, a previsão para o próximo ano é de 1,5%, devido a fatores de curto prazo, como greves e incertezas políticas.

Quanto à economia global, ela deve ter em 2019 seu crescimento mais baixo em 10 anos, segundo a entidade.

A OCDE reduziu suas estimativas de crescimento para quase todos os países que acompanha e prevê que o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos ao longo de um ano) global terá expansão de só 2,9% – a menor em uma década.

A organização atribui o fraco crescimento global ao acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China e a um aumento do protecionismo entre os principais países do mundo.

Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/ocde-reduz-drasticamente-previsoes-de-crescimento-para-brasil-argentina-mexico-23958242

OCDE: Brasil tem uma das piores taxas de ensino superior do mundo

Além disso, estamos entre os três piores quando o assunto é doutorado. A pesquisa da OCDE foi divulgada em meio a um cenário de cortes na educação

Taís Ilhéu – Guia do Estudante

O Brasil é um dos países com menos pessoas com Ensino Superior completo e com menores taxas de doutores. É o que revela o relatório “Education at a Glance“, publicado nesta terça (10) pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que avaliou as 45 nações membros ou parceiras da organização. Segundo o documento, apenas 21% dos brasileiros de 25 a 34 anos têm Ensino Superior completo, enquanto a média dos países que fazem parte da OCDE é em torno de 44%.

Quando falamos de níveis mais altos de instrução, como mestrado e doutorado, os números são ainda mais desanimadores: apenas 0,8% das pessoas de 25 a 64 anos no Brasil concluíram o mestrado e 0,2% chegaram ao doutorado — das 35 nações que disponibilizaram dados sobre o doutorado, o Brasil ficou entre as três piores.

O relatório da OCDE é divulgado em meio a um cenário de cortes na educação, do ensino superior ao básico, mas especialmente na pesquisa. As universidades públicas, onde se concentram 80% dos alunos de mestrado e doutorado, sofreram um corte de 30% de sua verba discricionária em maio.

Embora entre 2010 e 2016 o investimento nessas instituições tivesse crescido, ele ainda era inferior ao da média dos outros países membros da organização. A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), um dos maiores órgãos de financiamento à pesquisa, cortou 11.800 bolsas neste ano.

Muito investimento?

Um outro dado relevante trazido pela pesquisa é que, apesar de o Brasil investir uma porcentagem do PIB em educação à destinada por nações desenvolvidas, o investimento por aluno acaba sendo muito menor. Enquanto no Brasil o investimento é de 4,2% do PIB, a média da OCDE é de 3,2%.

O PIB direcionado à educação é um argumento frequentemente evocado para justificar que se gasta muito com o setor no país, sem considerar, por exemplo, que em países como a Alemanha (sempre alvo de comparações) a população e o número de jovens em idade escolar é muito menor que no Brasil. A população da Alemanha, hoje, é de 82,8 milhões de pessoas, enquanto a brasileira é de 210 milhões. Alem disso, a população alemã entre 15 e 24 anos representa 5,1% do total, enquanto essa faixa etária no Brasil corresponde a 8,3% do total. São muito mais jovens brasileiros do que alemães, e um PIB bem menor para se comparar (US$ 3,6 trilhões da Alemanha, ante US$ 2 trilhões do Brasil). Com isso, o investimento aqui acaba sendo menor. No Ensino Superior, enquanto a Alemanha investe cerca de US$ 17,1 mil por aluno por ano, o Brasil dedica US$ 11,7 mil ao ano.

A OCDE também compara o número de estudantes em Ensino Superior privado e público. Enquanto o primeiro grupo cresce vertiginosamente no país, entre os desenvolvidos menos de um terço estão em instituições particulares. Segundo o relatório, o predomínio de instituições privadas representa “um ambiente complexo para os formuladores de políticas que buscam garantir que o acesso ao ensino superior não seja prejudicado pelo status socioeconômico dos estudantes”.

Fonte: https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/brasil-tem-um-das-piores-taxas-de-ensino-superior-do-mundo-diz-ocde/

Luiz Paulo Vellozo: País não precisa abrir mão de status na OMC para pleitear ingresso na OCDE

Brasil trabalha sua entrada na OCDE há muito tempo, afirma Luiz Paulo Vellozo à revista Política Democrática online

O Brasil não precisa abrir mão de nenhum status ou prerrogativa na OMC (Organização Mundial de Comércio), presidida pelo diplomata brasileiro Roberto Azevêdo, para pleitear seu ingresso na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). A afirmação é de Luiz Paulo Vellozo, em artigo na sexta edição da revista Política Democrática online (veja aqui), produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao Cidadania, novo nome do PPS (Partido Popular Socialista).

De acordo com o autor, o Brasil trabalha sua entrada na OCDE há muito tempo.

“Hoje tem status de País observador. É uma decisão que coroaria a transição do projeto nacional desenvolvimentista para uma estratégia de integração competitiva na economia mundial, coerente com a visão de que precisamos nos inserir nas cadeias globais de agregação de valor. Não nos transforma em nação desenvolvida num passe de mágica, mas afirma perante o mundo ser essa nossa pretensão”, escreve o autor.

Mais do que isso, segundo ele, mostra que o País um projeto de nação contemporânea, na qual se enxerga mais as oportunidades do que as ameaças na globalização.

“Que queremos apostar no aperfeiçoamento das instituições internacionais; que confiamos no multilateralismo mas também queremos aprofundar relações bilaterais; que sonhamos um dia poder ostentar os mesmos indicadores de prosperidade e qualidade de vida que os países desenvolvidos e, principalmente, que decidimos e estamos dispostos a trabalhar com persistência enquanto nação para construir este sonho civilizatório”, diz o autor.

O mercado americano, segundo Vellozo, tem muitas oportunidades não exploradas para nosso País, e a economia brasileira também interessa aos americanos, vejam o caso da parceria entre a Embraer e Boeing.

“Claramente o ingresso na OCDE não deve fazer parte da pauta das relações bilaterais com os EUA. Muito menos nossas questões e interesses na OMC”, analisa. (Assessoria FAP/Cleomar Almeida)

Pesquisa da OCDE mostra que Brasil lidera ranking de violência contra professores

Brasil lidera ranking da OCDE de violência contra professores

Pesquisa usa dados de 2013; 12,5% dos docentes relataram agressões semanais

Folha de S. Paulo

Após 20 anos de magistério, Paulo Rafael Procópio, 62, irá abandonar a profissão. A decisão foi tomada no fim do mês passado, após ter sido agredido por um estudante de 14 anos que jogou um caderno em seu rosto e o atingiu com socos.

Paulo lecionava em uma escola estadual em Lins —município paulista com menos de 80 mil habitantes, que registrou outros dois casos de agressão física contra professores em menos de uma semana. A sequência de casos na região reabre o debate sobre um grave problema do contexto educacional brasileiro.

O país lidera um ranking de violência nas escolas elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com mais de 100 mil professores e diretores de escola do segundo ciclo do Ensino Fundamental e do Ensino Médio (alunos de 11 a 16 anos).

O levantamento considera dados de 2013, quando 12,5% dos professores brasileiros ouvidos relataram ser vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos ao menos uma vez por semana. A média entre os 34 países pesquisados é de 3,4%. O Brasil é seguido por Estônia (11%) e Austrália (9,7%).

Além das agressões físicas e verbais, as condições de trabalho são muito estressantes em algumas regiões. No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, professores convivem com confrontos armados nos arredores das escolas onde trabalham e ameaças recorrentes de estudantes e familiares.

As consequências dessa realidade para os profissionais da educação são graves. Em 2018, a Secretaria Municipal de Educação concedeu 3.055 licenças por doenças como transtorno ou reação ao estresse, depressão e esquizofrenia – o que equivale a uma licença a cada três horas. O número corresponde a 8% do quadro de professores do município.

O quadro é extremamente complexo e envolve causas de diferentes naturezas. Porém, especialistas ouvidas pela DW Brasil apontam uma relação fundamental entre a violência e a ausência de uma política de convivência escolar no Brasil. Sem um plano que oriente as escolas a prevenir e lidar com o problema, fica-se refém de iniciativas pontuais, que dependem da presença de gestores específicos e podem não ter continuidade, apontam.

A pesquisadora Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM), alerta para o fato de que os estudos sobre a violência contra professores costumam agrupar casos de agressões verbais e físicas, como é o caso do ranking da OCDE.

“A violência contra professores tem que chocar mesmo, é inadmissível. Mas não é tão frequente como as pessoas colocam. O dado também inclui agressões verbais. Não dá para por as duas coisas no mesmo balaio. Às vezes, o aluno reage com um palavrão a algo dito pelo professor. É claro que não poderia falar desse jeito, mas é bem diferente de agredir fisicamente. Alunos que agem assim são ofensivos, mas, por vezes, levam a linguagem que usam cotidianamente entre os pares para a sala de aula”, avalia.

Um estudo realizado pela pesquisadora Maria Díaz-Agudo, na Espanha, em 2015, mostrou que havia características comuns entre os alunos que admitiam ter cometido agressões físicas e verbais contra professores, a maioria meninos entre 12 e 14 anos: múltiplas situações de risco e ausência de proteção; problemas acadêmicos e dificuldades na aprendizagem; maiores taxas de repetência; maior número de faltas sem justificativa e o recebimento de punições com maior frequência.

De acordo com a professora da Unicamp, levantamentos realizados no Brasil revelam um perfil bem semelhante dos jovens que cometem esse tipo de ação violenta. Ela cita como exemplo o estudante de 15 anos que, em agosto de 2017, agrediu a professora Marcia Friggi, em Santa Catarina.

Tratava-se de um adolescente com histórico de violência familiar, que via o pai chegar alcoolizado em casa com frequência e havia sido espancado por ele mais de uma vez. Na ocasião, ele já realizava trabalhos comunitários por ter agredido colegas e era medicado contra ataques de raiva. Além disso, o rapaz apresentava histórico de uso de drogas.

“Chama atenção o fato de que esses alunos são bem conhecidos dos educadores. A relação de suas famílias com a escola é menos frequente. Geralmente, os responsáveis não querem mais ouvir que o filho é agressivo, pois já não sabem o que fazer sobre isso. Se a escola sabe desse perfil, é possível atuar de outra forma”, afirma Telma.

MEDIDAS PARA MELHORAR CONVIVÊNCIA

São diversas as ações apontadas pela pesquisadora como possíveis medidas para melhorar a convivência escolar. Ela lembra que ações coercivas mais duras, como a expulsão do jovem, não irão impedir que ele reproduza o comportamento em outros ambientes. As medidas sugeridas incluem organizar assembleias em salas de aula em que os conflitos possam ser permanentemente trabalhados e envolver os estudantes na elaboração e aplicação de regras.

No estudo realizado na Espanha, foi observado que mais da metade dos jovens que agrediram fisicamente seus professores alegam ter sido agredidos por eles, inclusive fisicamente. O dado revela uma percepção distorcida das ações praticadas por esses estudantes e da assimetria na relação de sala de aula.

Essa característica é associada a uma dificuldade de regulação da raiva, que leva a ações mais impulsivas. Por isso, a atitude de confrontação pode ser um dos principais gatilhos para a violência nesses casos — como uma ordem para que o aluno se retire de sala.

Nesse sentido, a ausência do debate sobre convivência escolar na formação dos professores representa um grande desafio. Na Faculdade de Educação da Unicamp, referência na formação de professores, não há uma disciplina sequer que trabalhe o tema das relações interpessoais.

A ausência desse debate também foi observada nas pesquisas conduzidas pela socióloga Miriam Abramovay, coordenadora da Área de Estudos e Políticas sobre a Juventude da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que há duas décadas estuda o tema da violência no ambiente escolar.

“A forma de ver quem são os adolescentes e jovens que estão nas escolas não foi repensada, tampouco a forma como nós vamos responder aos seus anseios”, analisa.

Buscando contribuir para suprir a lacuna detectada na formação dos professores, a Flacso lançou recentemente um curso online de um ano e meio sobre juventude, adolescência, violência nas escolas, sexualidade e drogas, voltado a professores e outros profissionais da área de educação.

Uma experiência recente organizada pela Flacso em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou o potencial dessa iniciativa. Em Teresina (Piauí), um formato mais simples do curso foi oferecido de forma presencial a educadores e guardas municipais.

O objetivo, segundo Abramovay, é fazer com que esses profissionais possam olhar para a escola de forma mais científica, saindo do senso comum. “É impressionante como eles descobrem outro mundo, uma escola que não imaginavam”, conta.

Abramovay lamenta, ainda, que as políticas públicas não considerem a relação entre o tema da convivência escolar e indicadores de desempenho.

“Quando acontecem casos de violência, não só o professor se prejudica pessoalmente, como também a escola e todos os alunos. Há consequências na aprendizagem, evasão e repetência. O clima escolar é fundamental para termos escolas de melhor qualidade, que é nossa discussão essencial. Tenho a impressão de que só uma política pública de convivência escolar pode melhorar esse problema”, opina.