Eliane Cantanhêde: O “02” e as forças ocultas

É muito arriscada a estratégia do governo de atiçar manifestações, que agora têm até vídeos do chefe do GSI, general Augusto Heleno, de boné e camiseta amarela, pulando uma cerca, assumindo lugar de honra no palanque, empunhando microfone e vociferando contra os “canalhas” e “esquerdopatas”. O ponto alto do domingo. Já ontem, as divisões pipocaram dentro do próprio governo, com o “02”, vereador Carlos Bolsonaro, ostentando sua mania de perseguição e postando coisas sem nexo.

Joga suspeitas sobre os seguranças do GSI do general Heleno, diz que está “sozinho nessa” e é “alvo mais fácil ainda tanto pelos de fora tanto por outros”. Quais os “de fora”? E quem seriam os “outros”? Já há quem veja mais um general no alvo dos olavistas. E um general fundamental para Bolsonaro. A mensagem do filho do presidente termina com um tom épico.

Após dizer que eles (quem?) vieram deixar “uma mensagem”, ele concluiu: “Creio que essa (?!) faz uma parte dela (da mensagem?!), mesmo que isso custe a minha vida!” O que é isso? E, hoje, temos a votação do parecer da reforma da Previdência na Comissão Especial e o depoimento do ministro Sérgio Moro para três comissões simultaneamente. Os governadores do Nordeste, todos eles do PT ou ligados ao partido, ignoraram a reforma e fizeram uma nota unicamente para atacar Moro e os procuradores e, indiretamente, mas nem tanto, defender a liberdade do ex-presidente Lula.

Na nota, um óbvio contraponto às manifestações de domingo, os governadores consideram as conversas entre Moro e procuradores da Lava Jato, reveladas pelo site The Intercept Brasil, como “de extrema gravidade” e condenam: “ao lixo o direito”… Eles são do PCdoB, do MDB, do PSB, além do PT, e calaram sobre a reforma da Previdência, fundamental para o futuro não só do Brasil, mas dos seus Estados. Com o governo apoiando ostensivamente as manifestações pró-Lava Jato e os governadores nordestinos condenando, o Brasil aprofunda uma polarização insana que gera tensão e expectativas e alimenta manifestações.

Por enquanto, elas são pacíficas, como destacou o presidente Jair Bolsonaro, mas o governo só tem seis meses. Até quando dura a paz nas ruas? Em São Paulo, ficou bem claro como a polarização vai abrindo divisões dentro dos próprios movimentos. Boa parte da sociedade é cegamente a favor de Bolsonaro e boa parte, também cegamente, a favor de Lula. Mas há quem seja pró-Moro, mas não morra de amores por Bolsonaro, e quem seja pró-Bolsonaro, mas desconfiando das conversas de Moro e procuradores da Lava Jato, pelo combate à corrupção.

Divisões fortes, com o Nordeste se assumindo como um bolsão vermelho e o Sul, como a principal base bolsonarista – única região onde o presidente, em vez de cair, subiu no Ibope. Em resumo: o governo estimula manifestações que, daqui e dali, atacam o Congresso, o Supremo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Governadores de uma região inteira invertem prioridades. O general do GSI assume pela primeira vez sua veia palanqueira, com viés belicoso.

E o filho do presidente teme misteriosas forças ocultas, de dentro e de fora do governo, que podem até custar a sua vida. Tudo isso quando o Planalto deveria estar comemorando o acordo com a União Europeia e as energias do presidente da República, do governo, dos governadores e da sociedade deveriam estar concentradas na reforma da Previdência.

Não é assim. Os mesmos manifestantes que defendem a reforma e atacam o Congresso não percebem que é ele, o Congresso, que está salvando a reforma, o equilíbrio fiscal e o futuro do País. Viva o Congresso! Aliás, um viva às instituições! (O Estado de S. Paulo – 02/07/2019)

Eliziane Gama critica tentativa do governo Bolsonaro pressionar Congresso Nacional em manifestações

A líder do Cidadania no Senado, Eliziane Gama (MA), criticou no jornal “O Globo” (veja abaixo a matéria) a tentativa de o governo Bolsonaro pressionar o Congresso Nacional com as manifestações realizadas no mês passado.

“Restou muito clara uma tentativa do governo de colocar a população contra o Congresso. Isso é um tiro no pé. Temos um processo democrático que precisa ser valorizado, e o Estado Democrático de Direito inclui o Congresso. O Poder Executivo não vai governar sem ter uma relação harmoniosa com o Congresso. É uma ação não inteligente do governo”, afirmou Eliziane Gama.

Na matéria, a senadora também considerou um “verdadeiro absurdo” a critica do senador Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que chamou senadores que pressionaram o ministro da Justiça Sergio Moro, na audiência no Senado, de “vagabundos”.

“Um verdadeiro absurdo. Quando o ministro Sergio Moro foi o Senado, ele foi para ser questionado. E os senadores tinham todo o direito de fazer as perguntas que achassem necessário. Uma posição dessas é uma posição que não respeita as prerrogativas parlamentares. O exercício do mandato não é vagabundagem”, afirmou ao jornal.

Bolsonaristas querem ‘bois de terno e gravata’ no lugar do Congresso, diz líder do MBL

Kim Kataguiri (DEM-SP) criticou a ofensiva contra o grupo por parte de manifestantes no domingo

Natália Portinari, Daniel Gullino e Jussara Soares – O Globo

BRASÍLIA – Para o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), o conflito entre manifestantes bolsonaristas e integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) nas manifestações do último domingo foi responsabilidade de radicais que não toleram divergências. Kataguiri é um dos principais líderes do MBL e ficou conhecido pela atuação favorável ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

— Eles (bolsonaristas) não querem um Congresso, querem bois de terno e gravata que atendam ao berrante do presidente — disse ao GLOBO.

Em São Paulo, representantes do grupo Direita SP se aproximaram do palanque do MBL e começaram a xingar os membros do movimento, usando amplificadores de voz. A Polícia Militar teve que intervir e separar os grupos. No Rio, o MBL também foi vaiado por alguns.

Segundo Kim, as ofensas partiram de um grupo de bolsonaristas mais radicais, que antagonizam com o MBL por discordar do fato do grupo “fazer política” e dialogar com quem pensa diferente.

— Não é pelo fato de eu ter virado parlamentar. É pelo fato de eu criticar quando o presidente erra e elogiar quando acerta — afirmou. — Criticam o MBL por ter uma postura política, por a gente ser liberal politicamente, por defender a existência da imprensa. Essa ala do governo, que tem certa representação popular, não acredita nisso.

O MBL não participou da manifestação da direita no dia 26 de maio por considerar que a pauta era pedir o fechamento do Congresso, diz Kim. A manifestação deste domingo, convocada pelo MBL, também contou com a ala da direita que ataca os parlamentares da Câmara dos Deputados e do Senado, mas seu mote era a defesa da Operação Lava-Jato.

— As manifestações vão perdendo força e o governo vai radicalizando mais, vai falando cada dia mais com os doidos — diz Paulinho (SD-SP), da Força Sindical. — General já está indo para o palanque, esse grupo de extrema-direita vai se fechando cada dia mais.

Para André de Paula (PSD-PE), os ataques ao Congresso já não surpreendem e estão dentro do esperado.

— Está caindo na rotina, se incorporando à paisagem, então não faz muita diferença. Estamos num momento em que precisamos de ações concretas para que a economia volte a funcionar, e passeata e rede social tem menor importância.

Para o líder do Podemos, José Nelto (GO), o governo Bolsonaro é “de tensão” e joga com as redes sociais, mas será cobrado pela recuperação da economia mais do que o Legislativo. Ele atribui os ataques ao Congresso nas manifestações ao recrudescimento da direita no país e nega que isso vá afetar o clima entre os parlamentares.

— A turma está com couro grosso. No início, assustava com redes sociais, hoje acabou. Quem não se acostumar com o xingatório das redes sociais está fora da política. Hoje há uma extrema-direita que não existia no Brasil, e temos que viver com ela. O radicalismo doentio da extrema-direita se parece com o da extrema-esquerda.

Ele critica Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que chamou senadores que pressionaram Sergio Moro de “vagabundos”.

— Isso aí ele errou feio. Não posso dizer que tenho colegas no Senado vagabundos. O xingatório não vai construir nada.

Questionado se as declarações do deputado Eduardo Bolsonaro e a manifestação do presidente nas redes sociais exaltando a manifestação eram um indicativo de que o governo passaria adotar a pressão como forma de relacionamento com os demais poderes, o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, respondeu:

— O presidente qualifica, e eu ratifico as palavras por meio do Twitter que já foi postado anteriormente, que ele reconheceu um movimento ordeiro, um movimento em que as pessoas expressam suas opiniões – disse, e acrescentou: — A opinião do deputado Eduardo Bolsonaro é qualificada como opinião do deputado Eduardo Bolsonaro.

Repercussão no Senado

Senadores também criticaram a tentativa do governo de pressionar o Congresso. O presidente Jair Bolsonaro afirmou que as manifestações passaram uma mensagem para “todas as autoridades” sobre o combate à corrupção.

— Restou muito clara uma tentativa do governo de colocar a população contra o Congresso. Isso é um tiro no pé. Temos um processo democrático que precisa ser valorizado, e o Estado Democrático de Direito inclui o Congresso. O Poder Executivo não vai governar sem ter uma relação harmoniosa com o Congresso. É uma ação não inteligente do governo — afirmou a líder do PPS, Eliziane Gama (PPS-MA).

Para Rogério Carvalho (PT-SE), esse tipo de ação do governo já virou rotina:

— O governo o tempo todo quer jogar a população contra o Congresso. O governo não acredita na normalidade. Se apostasse, não faria determinada afirmações.

O líder do MDB, Eduardo Braga (AM), não acredita que há uma pressão sobre o Congresso porque, na visão dele, já está claro que a população defende a continuidade de investigações. Braga, contudo, alfinetou Bolsonaro:

— O nosso presidente não tem como uma de suas grandes virtudes a questão das declarações dele.

Os senadores também criticaram as declarações de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Rogério Carvalho diz que a fala demonstra falta de respeito à democracia:

— Se um senador eleito é considerado vagabundo, dá para inferir que não tem respeito nenhum pela democracia e pela vontade popular.

Eliziane aponta que questionar Moro era um direito dos senadores:

— Um verdadeiro absurdo. Quando o ministro Sergio Moro foi o Senado, ele foi para ser questionado. E os senadores tinham todo o direito de fazer as perguntas que achassem necessário. Uma posição dessas é uma posição que não respeita as prerrogativas parlamentares. O exercício do mandato não é vagabundagem.

Roberto Freire: Manifestações são democráticas, mas é preciso respeitar a pluralidade e democracia

O presidente do Cidadania, Roberto Freire (SP), afirmou nesta segunda-feira (01), ao avaliar as manifestações do fim de semana em diversas cidades do País, que é preciso respeitar a pluralidade da sociedade e, principalmente, as instituições democráticas e a Constituição.

“É preciso tolerância”

“A democracia precisa de manifestações e é fundamental respeitá-las. As ruas são, efetivamente, o melhor espaço para a realização dessas expressões da cidadania. Mas é preciso alertar sobre aqueles que querem ser os arautos e buscam definir aquilo que o povo quer. Esses falam muito do clamor das ruas e que é preciso obedecer [esse clamor]. Isso é um linguajar próprio de quem pensa que uma sociedade se rege por um pensamento único ou daqueles que amam ditaduras”, criticou.

Freire destacou que é preciso entender que a sociedade brasileira é “plural e diversa”. Ele lamentou o fato de parcela da sociedade ir contra os valores republicanos e a democracia.

“É preciso entender que a sociedade é plural. Existe uma diversidade. Existem aqueles que apoiam Bolsonaro. Aqueles que são antidemocratas e buscam o fechamento dos poderes democráticos, como o Congresso e o STF [Supremo Tribunal Federal], e que tentam desmoralizar as autoridades republicanas. E claro, aqueles que são contra essas palavras de ordem e, inclusive, contra o Bolsonaro. A sociedade brasileira é democrática, é pluralista e isso é fundamental. Tem de que ser tolerante, algo que está faltando muito no Brasil, lamentou.

Manifestações

Neste domingo (30), foram realizadas manifestações em diversas cidades brasileiras com pautas diversas, como a defesa do ministro da Justiça Sérgio Moro e da Operação Lava-Jato, inclusive as criticavam a atuação do Congresso Nacional e do STF.

Movimentos promovem atos em 26 estados e no DF em apoio a Moro e à Lava Jato

Movimentos como o Nas Ruas, Vem Pra Rua e o MBL (Brasil Livre) realizaram neste domingo (30) em várias cidades brasileiras manifestações de apoio à aprovação de mudanças nas regras para aposentadoria e do chamado pacote anticrime.

Os atos também serviram de defesa à Operação Lava Jato, com a qual o MPF (Ministério Público Federal) e a Polícia Federal investigam um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo políticos e empresários, e ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Segundo os organizadores, os atos foram convocados em mais de 200 municípios e ocorreram em 26 estados e no Distrito Federal.

Rio de Janeiro

A manifestação pró-ministro Sergio Moro e em apoio às medidas econômicas do governo federal, convocada por vários movimentos da sociedade civil, levou milhares de pessoas à praia de Copacabana, zona sul da capital fluminense. Bandeiras gigantes nas cores verde e amarelo cobriram várias ruas de Copacabana a partir das 10h.

Os manifestantes se estenderam do Posto 5, na altura da Rua Sá Ferreira, até a Rua Barão de Ipanema, portando bandeiras do Brasil, faixas e cartazes onde se liam frases como “Nova Previdência Já”, “Para a Frente Brasil”, “Apoiamos as instituições íntegras” e “Se parar a Lava Jato, o Brasil Morre”.

Sete carros de som animavam as pessoas com convidados especiais e palavras de ordem.

Policiais militares acompanhavam de perto a manifestação para garantir a segurança dos participantes do evento.

Brasília

Na capital federal, os manifestantes se reuniram na Esplanada dos Ministérios. Com faixas, cartazes e discursos de apoio à Operação Lava Jato e ao ministro Sergio Moro, eles pediam o fortalecimento das ações de combate à corrupção e a aprovação do pacote anticrime – projeto que o governo federal enviou ao Congresso Nacional com proposta de mudanças em várias leis, visando a combater o crime organizado, a corrupção e os crimes violentos.

Os primeiros participantes começaram a chegar ao local de concentração, em frente ao Museu da República, por volta das 10h. Sob sol forte e acompanhado por quatro carros de som, o grupo aumentou à medida que marchava em direção ao Congresso Nacional. O público começou a dispersar-se pouco depois das 13h. A Polícia Militar não calculou o número de participantes.

Parlamentares como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara, Felipe Francischini (PSL-PR), e o ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, Augusto Heleno, participaram do evento, discursando para o público.

São Paulo

Convocado pelos movimentos MBL e Vem Pra Rua, o ato foi realizado na avenida Paulista, em São Paulo, em defesa da Operação Lava Jato, da reforma da Previdência e do pacote anticrime do ministro Sergio Moro.

Quatro carros de som concentraram-se em três quarteirões da avenida. Um deles, com faixas “Direita São Paulo”, defendia a flexibilização na legislação para que cada cidadão possa ter sua arma de fogo.

Um carro de som do MBL exibia uma faixa em apoio à Lava Jato. O movimento Nas Ruas inflou um boneco gigante com a imagem de Moro ao lado de um carro de som.

Manifestantes de todas as idades, vestidos de verde e amarelo, com bandeiras do Brasil, cartazes e faixas em defesa de Moro, se misturaram a quem passava pela avenida.

Houve confusão entre participantes. Segundo o MBL, membros do movimento Direita São Paulo chegaram em frente ao caminhão do movimento, agredindo ativistas no meio de famílias e crianças, e foram detidos pela polícia.

Outras capitais

Em Porto Alegre, a manifestação foi realizada sob forte chuva por volta as 15h30 na Avenida Goethe, ao lado do Parque Moinhos de Vento, na Região Central de Porto Alegre. Convocado pelo MBL, o ato tinha pautas a favor da reforma da Previdência, do pacote anticrime e também em apoio ao ministro Sergio Moro e à Operação Lava Jato.

Em Curitiba, o ato foi realizado na Boca Maldita, no centro da cidade. Os manifestantes vestidos de camisas verde-amarelas se reuniram em torno de um carro de som por volta das 15h.

No Recife, os atos começaram às 14h, no bairro de Boa Viagem, zona sul da capital pernambucana. Os atos foram realizados em apoio a Moro e à Lava Jato. Acompanhados por dois trios elétricos, os manifestantes cantaram o hino nacional e carregavam bandeiras do Brasil. (Agência Brasil)

Fernando Gabeira: Ruas, corredores e gabinetes

Vivemos um momento de manifestações, de um lado e de outro, até com a velha disputa: a minha é maior que a sua. Não sou teórico no assunto, mas o fato de ter vivido muitas manifestações ao longo de 60 anos me autoriza a especular sobre elas de modo geral.

Para começar, sei que observadores de fora sempre são vistos com desconfiança. Há uma constante tensão entre manifestações e os modos de calcular seu alcance: técnicas aritméticas de contá-las, diferenças entre o que viram os manifestantes e a PM, os cálculos nunca coincidem. Enfim uma constante sensação de que os movimentos não foram devidamente reconhecidos.

Falando sobre o falso dilema entre governar com conchavos e obter o que o governo quer apenas com pressão popular, ouvi de uma leitora que estava equivocado. Ela parou de ler o texto supondo que condenaria as manifestações pró-governo. Pena, porque alguns parágrafos adiante descrevia as condições em que essas manifestações são perfeitamente possíveis: quando há convergência de propósitos entre manifestantes e governos, um momento em que é preciso mostrar a demanda social por um tema em debate.

Manifestar-se, para mim, é uma forma de autoexpressão válida em si. Jamais analiso as manifestações apenas por seu tamanho. Existem outros critérios decisivos. Até que ponto elas transcendem a pura autoexpressão e contribuem para a solução real do problema? Neste último caso, elas são medidas por seu grau de eficiência. E isso não depende apenas dos manifestantes, mas de como as forças políticas que eles apoiam vão aproveitar seu impulso positivo.

Tanto nas manifestações pró-governo como nas contrárias a ele procuro encontrar essa lógica. Um pouco como no futebol: a equipe cria condições de gol, mas são os atacantes, em geral, que o completam. Nas manifestações pelas reformas era de esperar que, dentro das instituições, as aspirações coincidentes fossem levadas adiante.

Bolsonaro deu um passo, parecendo compreender a complementaridade política-manifestantes: a assinatura de um pacto com o Congresso e o STF. Acho o pacto inócuo. Não exclui as negociações específicas para que as pautas de reforma caminhem, o que significa obter de fato os votos necessários à sua aprovação. No caso do Coaf nas mãos de Sergio Moro, houve um curto-circuito entre o que as pessoas pediam nas ruas e alguns políticos do governo prometiam. A realidade é que os prazos e ritos parlamentares tornariam muito arriscado devolver o Coaf ao Ministério da Justiça. Era possível perder toda a reforma do Ministério apenas para salvar um aspecto dela.

Em outro plano, as manifestações pela educação são ainda defensivas. Trata-se de não perder verbas essenciais para seu funcionamento. Mas um tema dessa dimensão para o País sempre se alarga quando entra em debate. Não se trata apenas de verbas, mas da necessidade de manter a educação no topo da agenda. Nesse caso, cabe uma questão básica: estamos satisfeitos com a qualidade da educação? Como virar esse jogo?

Manifestantes trazem calor, despertam a esperança de uma grande ação para valorizar realmente esse tema no Brasil. Mas quem pode utilizar esse impulso são os grupos políticos. A oposição apoia o que acontece nas ruas, mas não propõe ainda uma saída. Os dois ministros da Educação que vi passar pelo Congresso foram questionados sobre um plano estratégico. Não tinham. Senti que alguns deputados se contentaram em mostrar que a discussão, da parte do governo, está limitada ao marxismo cultural e ao método Paulo Freire. Não há ao menos um esboço do que deve ser feito nessa frente, a partir do olhar da oposição.

São espaços abertos. Assim como o governo, fortalecido com as manifestações, precisa aprimorar seus métodos de negociação para conseguir as reformas, a oposição será forçada a pensar o tema educacional com mais amplitude. E tentar algumas vitórias. Quando as equipes jogarem com um mínimo de coordenação entre rua e Parlamento, o ritmo político no Brasil deixará de ser erradio e ineficaz. A sociedade está dando régua e compasso. Apoiar uma ou outra manifestação, tirar selfies e louvá-las nas redes e mesmo votar de acordo com o prometido não basta. É preciso algo mais que demonstrações isoladas.

É possível argumentar que essa sintonia entre ruas e Parlamentos deveria ser pensada por partidos. Mas a verdade é que eles não existem como intérpretes e realizadores das aspirações. Em ambos os casos, nas reformas e na educação, será preciso criar frentes suprapartidárias para responder com algo mais profundo que um simples tapa nas costas ou um like nas redes sociais.

Possivelmente ainda encontraremos nas ruas grupos antidemocráticos nas suas propostas, como o fechamento do Congresso, ou mesmo na prática, como a violência ou o vandalismo. Essas forças ainda são minoritárias e insignificantes. Mas o que as alimenta é precisamente a ideia de que as manifestações não mudam nada.

Se houver sintonia entre instituições e as ruas, resultados práticos, a tendência é de manifestações cada vez mais pacíficas. E talvez menos frequentes. Ser parlamentar com as ruas constantemente cheias é uma experiência interessante. Não há o que temer, apenas vislumbrar a oportunidade histórica que não tiveram mandatos em fases de indiferença.

Ali dentro do Parlamento, sozinho ninguém avança. O passo é descobrir quem está percebendo a mesma realidade ou vivendo a mesma ilusão. Só a prática vai mostrar. Tudo isso acontece num momento difícil. Índices de crescimento baixos, perigo de recessão, gastos nas alturas. O governo depende de um crédito suplementar de R$ 249 bilhões. Isso dá à palavra experiência um interessante sotaque chinês da velha maldição: que vivam tempos interessantes. (O Globo – 31/05/2019)

Educação: Manifestações ocorrem em 22 estados e no DF

Protestos pela Educação são registrados em pelo menos 22 Estados e DF

André Guilherme Vieira, Carolina Freitas, Isadora Peron, Cristian Klein e Marcos de Moura e Souza – Valor Econômico/Folhapress

Até às 21h28, foram registrados no portal “G1” e em redes sociais atos contra os cortes na Educação em 136 cidades, distribuídas em 25 Estados e no DF. Este é o segundo protesto nacional contra os cortes feitos pelo governo Bolsonaro. O último ocorreu no dia 15 de maio.

Entre as maiores mobilizações estão as de Salvador, onde há uma greve estadual da educação há mais de 40 dias, além de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em algumas cidades, houve paralisação com adesão de professores em instituições federais de ensino. Há bloqueios em prédios de instituições e também em algumas rodovias. No Amambaí, no Mato Grosso do Sul, um grupo de indígenas bloqueou uma rodovia.

Os primeiros atos ocorreram em 220 cidades de 26 Estados e do Distrito Federal.

Em decreto publicado em março que bloqueou R$ 29 milhões do orçamento deste ano, o governo federal contingenciou R$ 5,1 bilhões da área da Educação. Desse montante, R$ 1,7 bilhão envolve diretamente o ensino superior federal.

Rio

Ainda que menor do que o primeiro ato do dia 15, a manifestação ocupa toda a avenida Rio Branco, no Centro Rio. Milhares de manifestantes, cerca de um terço do protesto de duas semanas atrás, que registrou por volta de 150 mil pessoas, lotam a principal via do centro carioca, da Candelária à Cinelândia.

No primeiro ato, houve greve e as escolas e universidades não funcionaram, facilitando a mobilização durante todo o dia, concentrando a mobilização já no meio da tarde. Dessa vez, o protesto cresceu em onda, rapidamente, depois das 17h, com o fim do horário de expediente tradicional.

Manifestantes portam faixas, cartazes e adesivos contra os cortes do orçamento de universidade e institutos federais, contra o presidente Jair Bolsonaro e a favor do ex-presidente Lula. Numa cartolina, lê-se: “Reforma da Presidência”, numa ironia à proposta do governo de reformar o sistema de previdência.

Para a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), já era esperado que esse ato fosse menor, embora a parlamentar considere que ele reúna mais pessoas do que a manifestação de apoio a Bolsonaro, feita em Copacabana, no domingo.

Jandira diz que o protesto do dia 15 foi maior porque se tratava de uma greve nacional de educação. Hoje o funcionamento das escolas foi normal, tanto o setor público quanto o privado, lembra. E a manifestação foi convocada por entidades estudantis, sem o aparato de sindicatos.

A menos de cem metros da parlamentar, o ex-deputado federal Chico Alencar, do Psol, considerou um sucesso a presença de manifestantes. “A bandeira contra as atrocidades do governo na educação está mais firme do que nunca”, disse.

O ex-deputado afirmou ser “remanescente de 1968” e lembrou que as manifestações contra a ditadura militar foram cumulativas. “Tinha umas maiores, outras menores, mas havia uma chama acesa de prosseguir, de lutar”, disse.

Os manifestantes fazem muito barulho com bumbos e carregam cartazes como “Educação é ordem; ciência é progresso”,

“A burrice no poder é toda orgulho” e “Idiota inútil é o conje”, numa alusão à fala do ministro da Justiça, Sergio Moro, ao querer expressar a palavra “cônjuge”. O protesto seguirá rumo à Cinelândia.

São Paulo

Em São Paulo, estudantes se concentraram no Largo da Batata, na zona oeste da capital paulista, e depois seguiram em caminhada em direção à avenida Paulista. Estão representados em bandeiras e bancas que vendem camisetas e livros PT, Psol, PDT e MST.

Centrais sindicais também se fazem presentes com balões gigantes e um boneco inflável de Bolsonaro com a faixa de presidente do “Laranjal do PSL”. A presidente da União Nacional dos Estudantes, Marianna Dias, avaliou bem os protestos pela manhã e prometeu um ato “gigante” em São Paulo, Rio e Belo Horizonte agora à tarde.

Circula abaixo-assinado contra a reforma da Previdência, que também é criticada em uma grande faixa preta em frente à Kombi com alto falantes da Sintusp em que lideranças do movimento discursam, em uma aula pública. Um jovem representante do PT falou ao microfone e pediu aplausos para os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff.

A convocação para uma greve geral em 14 de junho dá o tom dos discursos e palavras de ordem em São Paulo. Lideranças dos estudantes e de sindicatos reforçam a mobilização para a próxima manifestação da esquerda, para manter quente a mobilização contra o governo.

Os organizadores estimaram o público na concentração em 60 mil pessoas. Pedro Gorki, presidente da Ubes, discursou em jogral com os manifestantes: “Nós estudantes hoje viemos dar uma aula ao presidente e ao ministro da Educação. Se eles querem nos ver na fila do sistema penitenciário, que eles saibam que a juventude não arreda o pé até mostrar para esse ministro que a educação é importante”.

A deputada estadual e cantora Leci Brandão, do PCdoB, pediu que Bolsonaro pegue sua “caneta” e assine um texto dizendo que está indo embora. Foi muito aplaudida.

Guilherme Boulos, líder do MTST, foi uma das lideranças mais aplaudidas pelo público ao ser anunciado.

Salvador

Milhares de estudantes concentram-se em Salvador na praça do Campo Grande, de onde sairão em passeata. Com faixas e cartazes, manifestantes protestam contra Bolsonaro. Em cima de um trio elétrico, líderes estudantis discursam e puxam gritos de guerra. O ato trava o trânsito na região central de Salvador.

O protesto na capital baiana também tem como alvo o governador da Bahia, Rui Costa (PT). Professores das universidades estaduais, em greve há mais de 40 dias, criticam os cortes no orçamento e pedem reposição salarial. “A luta pela educação une toda a esquerda, independente de quem é o alvo do protesto”, afirma o Laurenio Sombra, 52, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana. Há ainda faixas em apoio a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Brasília

Em Brasília, a concentração começou em frente à Biblioteca Nacional e seguiu para o Congresso.

Um grupo de manifestantes parou em frente ao Ministério do Meio Ambiente e protesta contra o ministro Ricardo Salles. Além de pedir a saída do ministro do cargo, gritam palavras de ordem contra a gestão de Salles. “Ricardo Salles, incompetente, é inimigo do Meio Ambiente”, dizem. O grupo está vestido de verde e carrega bandeiras da associação do Ibama.

Recife

O ato no Recife reúne um público visivelmente menor do que a manifestação realizada no último dia 15. A concentração, na rua da Aurora, área central da cidade, conta em sua grande maioria com estudantes secundaristas da rede pública de ensino.

Além dos protestos contra o contingenciamento promovido por Bolsonaro, os manifestantes atacam a reforma da Previdência e exaltam Lula.

Belo Horizonte

O ato na capital de Minas Gerais saiu com uma hora de atraso do horário previsto e caminhava em direção à avenida Afonso Pena. Às 20h30, uma multidão bloqueava parcialmente o trânsito em frente à Praça da Estação – o endereço que nas eleições é o preferido de candidatos do PT.

Em faixas, slogans e nas camisetas, os participantes faziam criticas à reforma da Previdência e também contra outras medidas do governo Jair Bolsonaro, como o decreto das armas. O mote “Lula Livre” também esteve presente.

Sindicatos de professores e de servidores, CUT e outras entidades ajudaram a organizar o ato. A Polícia Militar não fez estimativa de publico, mas os organizadores chegaram a falar em 30 mil pessoas. É o mesmo número citado por apoiadores de Bolsonaro que se reuniram domingo (26) na cidade.

“A gente sabia que haveria muita gente, mas ficamos felizes de ver que houve essa resposta maior. A pauta é importante”, diz Maria Rosaria Barbato, vice-presidente do Sindicato de Professores da UFMG (Apubh). Ela diz ainda que o ato desta quinta é uma preparação para a greve geral do dia 14 de junho, contra a reforma da Previdência.

Curitiba

Estudantes e professores que participam do ato em Curitiba instalaram uma nova faixa na fachada do prédio histórico da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

No domingo (26), uma faixa com a frase “em defesa da Educação” pendurada no mesmo local havia sido retirada sob aplausos por manifestantes pró-Bolsonaro.

A nova faixa é maior que a anterior e foi colocada num local mais alto da fachada do prédio da UFPR, numa operação que contou com andaimes.

“Isso mostra que toda vez que a educação for atacada estaremos aqui para defendê-la e colocá-la num ponto ainda mais alto”, disse Paulo Vieira Neto, presidente da Associação dos Professores da UFPR, uma das entidades que participam do ato em Curitiba.

A nova faixa traz novamente a frase “em defesa da Educação”.

A retirada repercutiu. Nesta quinta, diferentes campi da UFPR receberam uma faixa parecida com a do prédio histórico. Faixas com os dizeres “em defesa da Educação” também foram instaladas em universidades do Ceará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Espírito Santo.

“A faixa virou um símbolo”, disse o professor Vieira Neto.

William Waak: O poder da caneta

As pessoas que foram às ruas no domingo atendendo a chamado do presidente e as que vão às ruas nesta quinta-feira para  protestar contra o governo deram uma demonstração de política real. Uma e outra sugerem a Jair Bolsonaro que ele teria  prevalecido num teste de forças que, na verdade, está apenas no começo e no qual a caneta Bic do presidente é  insuficiente para vencer. Começa pelo tal “pacto” dos três Poderes que nem tem como existir (o STF assinando pactos?).

A ênfase retórica no “pacto” é, em parte, o resultado da percepção de Bolsonaro de que os termos da vitória eleitoral e  “as ruas” lhe teriam permitido enfrentar os outros dois Poderes, e que levou o ministro Paulo Guedes a dizer que “não há  antagonismo” entre eles (os Poderes) – frase que só provocou risadas entre seus pares no mundo real da economia e  finanças. Tudo bem, reconheça-se que um dos pilares do governo não poderia mesmo declarar outra coisa em público, ainda  que fosse para segurar o dólar. “As ruas” – ou o que Bolsonaro entende por isso – teriam também dito ao presidente que  ele não precisa se esforçar muito em conseguir uma base estável no Congresso, pois o ronco das multidões que o apoiam  superaria em caso de necessidade os cochichos dos participantes do nefasto conchavo que o impede de realizar os anseios  do povo.

O problema aqui é o de desafiar um dado estrutural do sistema de governo brasileiro (admita-se, o pior do mundo), que  obriga Executivo e Legislativo a se entender de alguma maneira. Nesse sentido, Bolsonaro está conseguindo o inverso do  que pretende. O Congresso está caminhando até com certa rapidez para fortalecer suas prerrogativas e com pautas próprias  (na área tributária, por exemplo). Mais complicado ainda para o presidente, o mundo parlamentar se impressionou menos do  que ele acredita com as manifestações de rua.

Ao contrário, está tomando a guerra deflagrada pelo bolsonarismo nas redes sociais como incentivo para reduzir as  prerrogativas do Executivo em dois setores-chave: alocação de recursos pelo orçamento e uso de medidas provisórias. Ao  aderir a simplificações brutais da (admita-se) complexa e dificílima relação com o Legislativo, Bolsonaro ignora um  outro dado relevante da realidade dos fatos. Parlamentares reagem, sim, não só “às ruas”, mas, também, a uma série de  pressões políticas, sociais, econômicas e regionais que os empurram, por exemplo, para a aprovação de alguma reforma da  Previdência – é o que explica, em parte, o entendimento relativamente muito mais fácil entre o próprio Guedes e os  presidentes das casas legislativas, que estabeleceram há tempos linha direta com importantes segmentos da atividade  econômica.

As elites da economia estão há tempos totalmente convencidas de que não há um plano B para a não aprovação de alguma  reforma da Previdência. Mais ainda: clamam por algo que mexa com a sufocante questão dos impostos (nem estamos falando  da carga). Alguma surpresa com o fato, mencionado acima, de o Legislativo querer seguir adiante com uma pauta “própria”  de reforma tributária? Ou das expectativas dos agentes de mercado voltadas agora menos para Bolsonaro e mais para o  Congresso? Aos cinco meses de governo, está se ampliando a noção de que a formação de uma base coesa e estável de  Bolsonaro no Legislativo não só continua distante, mas, talvez, nunca se concretize.

O presidente não se mostra disposto a liderar nada nesse sentido, e já deixou a própria bancada mais de uma vez na mão.  Confia estar na rota política correta. É a que vai ajudar a diminuir muito o poder da sua caneta. (O Estado de S. Paulo  – 30/05/2019)

Luiz Carlos Azedo: O tamanho do “mito”

NAS ENTRELINHAS – CORREIO BRAZILIENSE

Quem apostou no fracasso das manifestações de apoio ao presidente Jair Bolsonaro no último domingo perdeu. Foi uma dupla demonstração de força: primeiro, do poder de mobilização de uma militância aguerrida e ideologicamente alinhada com seu líder; segundo, da capacidade de direção política dos protestos, que foram convocados para confrontar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), mas acabaram redirecionados para apoiar o presidente da República e a reforma da Previdência. Não é pouco.

Também perdeu quem apostou no emparedamento do Congresso e do Supremo, ainda que Bolsonaro tenha acarinhado seus partidários radicais com sua declaração de que o ato foi um protesto contra as “velhas práticas”. Motivação inicial dos protestos, essa intenção foi sendo frustrada por setores que apoiam o presidente da República, mas não são radicais, situam-se no espectro da centro-direita. Esses setores mais moderados estão ancorados nos ministros políticos, militares e técnicos que compõem o governo e não reproduzem a lógica do grupo ideológico que cerca o clã Bolsonaro. O agrupamento moderado faz o presidente da República ser maior do que o “mito”.

Como nos ensina o mestre Norberto Bobbio, todo governo é a forma mais concentrada de poder; porque as funções essenciais do Estado, que são normatizar, arrecadar e coagir, fazem dele o eixo da vida nacional. O poder do Estado, cujo vértice é a Presidência, é muito maior do que o carisma do líder, ainda que esse carisma seja uma via de chegada e conservação do poder. Essa relação é ainda mais complexa na democracia, porque existem as mediações do Congresso (que normatiza) e do Supremo (que delimita a autoridade). Talvez a melhor conclusão que possa se tirar das manifestações de domingo seja a separação das coisas, ou seja, deram mais nitidez entre o que é o poder do Estado e o carisma do “mito”.

Isso é bom para todos, porque há gente no governo que ainda não sabe separar alhos de bugalhos. Misturar essas coisas foi um dos defeitos do governo Lula, cujo enorme carisma era acompanhado também de grande capacidade de negociação. Juntando o poder do Estado com seu magnetismo popular, o petista abduziu do Congresso a grande política, levando toda a mediação do mundo dos interesses, tanto do trabalho como do capital, para o Palácio do Planalto. Restou ao parlamento a pequena política, cujo subproduto foi a propina miúda dos negócios, porque as grandes negociatas, essas rolavam mesmo é nos ministérios e nas estatais, sobretudo a Petrobras. Dilma não tinha a mesma capacidade de mediação, enveredou por um caminho desastroso na economia e acabou apeada do poder, pelo povo na rua e pelas raposas do Congresso. A Operação Lava-Jato se encarregou, depois, de passar o rodo em quase todo mundo que meteu os pés pelas mãos.

Grande política

Ao não lotear o governo e recusar o chamado toma lá dá cá, o presidente Bolsonaro devolve a grande política ao Congresso, que está recuperando sua capacidade de mediação com a sociedade, embora o custo disso seja certa instabilidade política e muitos desencontros com o governo, inclusive de sua base. O fato de o governo ter fortes características bonapartistas é contrabalançado pelo fortalecimento do Congresso como espaço da grande política e da negociação com a sociedade, e não do transformismo e do cretinismo parlamentar. Essa é uma visão otimista, digamos assim, mas verdadeira. O debate sobre a reforma da Previdência revela que a Câmara está nesse rumo; o fato de a reforma tributária entrar em discussão à revelia do Palácio do Planalto, para fortalecer a Federação, tem o mesmo significado. Pode ser que dessas tensões com o Executivo resulte uma relação mais saudável entre os poderes da República.

Isso também vai depender do Congresso, em particular das forças de centro-esquerda que apoiam as reformas e da esquerda formada pelo PT e seus aliados históricos. Fragilizadas pelo resultado das urnas — ficaram de fora do segundo turno —, as forças de centro-esquerda se rearticulam no Congresso em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do apoio às reformas. A emergência de outros atores nos governos estaduais, sobretudo João Doria (PSDB), em São Paulo, pode até resultar no surgimento de uma alternativa de poder fora do eixo da polarização Bolsonaro-Lula.

Já que falamos no nome do santo, vamos falar do milagre: o Lula livre! é um beco sem saída para o PT, serve para manter o partido agrupado e aguerrido, mas não para romper o isolamento. Retroalimenta a narrativa olavista e sua capacidade de mobilização. Essa polarização, que se impôs no primeiro turno das eleições passadas, pavimentou o caminho das alianças de Bolsonaro com os setores moderados. Vem daí a falta de iniciativa política dos partidos de esquerda a reboque do petismo, cuja bandeira de resistência absoluta às reformas é uma espécie de quanto pior, melhor. (Correio Braziliense – 28/05/2019)

Roberto Freire: Manifestações não corresponderam às expectativas de Bolsonaro, mas chamaram atenção para reformas

O presidente do Cidadania, Roberto Freire (SP), afirmou, ao analisar as manifestações pró-governo ocorridas em todo o País neste domingo (26), que o movimento não correspondeu às expectativas do governo Bolsonaro devido a baixa adesão em diversas cidades brasileiras. De acordo com levantamento do portal de notícias G1 (veja aqui), os atos em apoio ao presidente foram realizados em 156 cidades de 26 estados e no Distrito Federal. 

“Governo precisa articular”

“Do ponto de vistas de comparecimento em âmbito nacional ela [a manifestação] não tenha preenchido todas as expectativas, salvo algumas cidades, mas no resto do País foi a baixo do que eles [governo] esperavam”, disse.

Roberto Freire destacou, contudo, a capacidade de o governo transformar um movimento de caráter golpista e contrário as instituições brasileiras, como o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal), em algo favorável às reformas que a sociedade tanto exige.

“É preciso salientar a capacidade que o governo teve de interferir nos objetos da manifestação e, no meio da semana, ter colocado uma agenda de demanda nacional e não em uma de caráter golpista contra dos poderes da Republica”, avaliou

Articulação política

Para o dirigente,  o ato deveria servir de incentivo ao presidente para ele trabalhar pela aprovação das reformas, sobretudo da Previdência, e do pacote de combate à corrupção enviado pelo governo ao Congresso Nacional. Ele também espera que as manifestações mostrem a Bolsonaro a real necessidade da articulação política.

“Vamos ver se isso ajuda que se aprove efetivamente a reforma da Previdência, o pacote de combate à corrupção e, quem sabe, despertar o próprio governo a capacidade de saber que é preciso articular. E o mais importante, saber que não só as ruas que irão resolver [os problemas enfrentados pelo País]”, afirmou.

Deputados do Cidadania avaliam manifestações pró-Bolsonaro

O líder do Cidadania na Câmara, deputado Daniel Coelho (PE) e o deputado federal Marcelo Calero (RJ) analisaram as manifestações ocorridas neste domingo (26) em apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Daniel Coelho destacou, em sua conta no Twitter, a demonstração de apoio à reforma da Previdência.

“Esqueça se você gosta ou não de Bolsonaro, não há como negar, é a primeira vez na história que tem gente na rua defendendo uma reforma da previdência. Impensável há pouco tempo. Não é sobre a política, é sobre o povo que está mudando”, afirmou.

Daniel Coelho disse ainda que a população foi às ruas de forma democrática e pacífica.

“No primeiro dia, por dinheiro para a educação, ontem para dar apoio à reforma da Previdência e ao pacote anticrime. Atos devem ser respeitados, observados e entendidos em uma democracia”, salientou.

Marcelo Calero disse, também no Twitter, que as manifestações enfocaram questões fundamentais para o Brasil, como reforma da Previdência e o pacote anticrime. Para o parlamentar, essas pautas “não poderiam ser instrumentalizadas por político em busca de prestígio pessoal, muito menos pelo presidente”. Segundo o deputado, feita essa associação, os temas acabam enfraquecidos, o que é “uma lástima”.

Ainda na rede social, Calero rechaçou muitos dos sentimentos que ligam alguns seguidores ao presidente Bolsonaro.

“Histeria, descontrole, adoração, idolatria, cegueira. Aonde isso vai nos levar? Outro salvador da pátria, acima do bem e do mal, um mocinho no meio de bandidos, sem pecados, sempre certo, os demais errados…é nisso que acreditamos? Isso fará o Brasil melhor? Lutamos pra isso? ”, escreveu em sua conta na rede social.

#BlogCidadania23 – Brasil: O que virá depois da onda bolsonarista?

Nosso sincero respeito aos brasileiros bem intencionados que saíram às ruas nas manifestações deste domingo, acreditando piamente que estavam ali para defender as reformas que o Brasil precisa (e que o presidente Jair Bolsonaro se comprometeu a fazer), uma política com mais ética e o pacote de segurança do ministro Sérgio Moro. Parece uma pauta justa.

Por outro lado, o nosso mais completo desprezo por aqueles que pregam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, defendem um golpe militar ou algo do tipo. Repudiamos inclusive os imbecis que perseguiram uma mulher pelo “crime” de vestir uma camiseta com o nome de Marielle Franco. “Marielle morreu, acabou, babaca!”, foi uma das sentenças dos manifestantes bolsonaristas.

Não é possível que a maioria do eleitorado de Bolsonaro seja lunática, intolerante e antidemocrática. É provável que algumas pessoas não tenham percebido ainda que é incoerente defender uma “nova política” estando na linha de frente do bolsonarismo. Mas esse aprendizado virá com o tempo. A política é cíclica.

Já passamos recentemente por diversas ondas de iludidos (que se frustraram e voltaram à realidade): dos fiscais do Sarney nos anos 80 a essa nova direita que viu em Bolsonaro uma esperança, passando pela eleição de Collor, o caçador de marajás, em 1989, pelos efeitos do Plano Real na eleição e reeleição de FHC e depois pelas quatro vitórias consecutivas do petismo, com Lula e Dilma.

Todos surfaram em índices altíssimos de popularidade até, invariavelmente, morrerem na praia. Não será diferente com o bolsonarismo. O que precisamos, do lado de cá, aqui de fora dessa polarização entre os extremos mais radicais, é construir uma saída viável, sensata e equilibrada, que mantenha a normalidade democrática e institucional do País.

E que venham junto os que acordarem para a realidade, sejam ex-petistas ou ex-bolsonaristas. O Brasil agradece! (#BlogCidadania23)

Roberto Freire critica manifestações pró-governo e conclama forças democráticas a lutarem pelo Estado de Direito

O presidente do Cidadania, Roberto Freire (SP), criticou por meio das redes sociais as manifestações programadas para o próximo domingo (26) em apoio ao governo Bolsonaro, e afirmou que o ato representa uma afronta contra as instituições democráticas e os poderes da República. Para Freire, o apoio dado pelo próprio presidente ao ato revela um viés antidemocrático e politicamente irresponsável. Ele afirmou que as forças democráticas brasileiras devem lutar pelo Estado de Direito.

“Propósito golpista”

“Um presidente da República compartilhar e portanto endossar/convocar manifestação contra os outros Poderes da República é ser comprovadamente um antidemocrata e politicamente irresponsável. A evidência de que não tem competência para ser presidente é plena e total. O que está evidente também é sua falta de respeito à Constituição e às instituições democráticas, conforme se depreende da manifestação golpista convocada por bolso-olavistas e contando com seu beneplácito”, disse.

“Propósito golpista”

O dirigente lembrou que o direito de manifestação é garantido pela Constituição, mas que o ato tem propósito golpista por tentar atingir os Poderes Legislativos e Judiciário.

“Ninguém está propondo proibir manifestação alguma. Digo que ela está convocada com propósitos nitidamente golpistas, contra instituições democráticas e poderes da República. Nas manifestações do impeachment [de Dilma Rousseff ] havia adeptos do golpe militar, mas nunca convocada com “simpatia” palaciana. Claro que na democracia todos são livres para se manifestarem de acordo com a Constituição. O que estamos contestando são as posições golpistas contra os Poderes Legislativo e Judiciário dos bolsonaolavistas e do próprio Bolsonaro. E daí a necessidade de denunciar tais propósitos”, afirmou.

Apoio democrata

Freire conclamou as forças democráticas do País a lutarem em defesa do Estado de Direito e suas instituições para impedir intenções golpistas de apoiadores de Jair Bolsonaro. Ele também saudou aliados do governo a se posicionarem contrários à manifestação.

“O País necessita neste momento que todas as forças democráticas, sejam de direita, centro ou esquerda, busquem lutar por uma frente de defesa do Estado de Direito, suas instituições e pela continuidade do processo democrático, impedindo intentos golpistas dos bolsonarolovistas. Alguns apoiadores do presidente Bolsonaro, e já começam a ser numerosos e representativos – destaques para o MBL [Movimento Brasil Livre], [partido] Novo e [deputada estadual] Janaína Pascoal -, se posicionam contrariamente à manifestação governista com apoio de Bolsonaro. É preciso saudar as atitudes corajosas que contestam manifestações de rua com propósitos antidemocráticos e golpistas. E mais, a lucidez com que enfrenta estultices e messianismos”, ressaltou.

 

Roberto Freire diz que é preciso pôr fim à tirania e restabelecer a democracia na Venezuela

O presidente do Cidadania, Roberto Freire, afirmou, nesta terça-feira (30), ao comentar as manifestações que eclodiram na Venezuela com apoio significativo das Forças Armadas, que é preciso acabar com a “tirania contra o povo” e restabelecer a democracia no País vizinho. Segundo ele, todo o mundo acompanha atentamente a crise venezuelana.

“Respaldar eleições livres”

“Os democratas do mundo acompanham atentamente essa situação e esperam que as Forças Armadas respaldem a sociedade que se encontra na rua lutando por sua liberdade. Que eles [Forças Armadas] tenham consciência que não podem sustentar uma tirania contra o povo. Que respaldem essa primeira movimentação de dissidentes militares em prol das eleições livres o mais rápido possível na Venezuela, e que se inicie o processo de restauração econômica, política e social”, defendeu.

Roberto Freire afirmou que ainda é difícil saber se o levante colocará um fim na ditadura de Nicolás Maduro, mas destacou que, caso a dissidência militar aumente, não haverá duvidas sobre o fim do regime bolivariano.

“Ninguém sabe se vai [derrubar Maduro]. Por isso é preciso fazer a movimentação e a integração popular. Se a dissidência militar crescer, não tenho dúvidas que teremos um novo governo e a perspectiva de restauração da democracia e liberdade”, disse.

Manifestações

A crise política na Venezuela voltou a ficar tensa no início desta terça-feira após o presidente interino Juan Guaidó – reconhecido como presidente do País pela Assembleia Nacional e mais de 50 países – conduzir a soltura do líder opositor Leopoldo López que estava em prisão domiciliar. Ao lado de militares dissidentes do regime bolivariano, Guaidó convocou a população para forçar a saída de Maduro do governo.