Osmar Terra reafirma negacionismo na CPI, mas admite a Alessandro Vieira que responsabilidade final é do presidente

Deputado aliado de Bolsonaro alegou em depoimento à comissão que medidas de distanciamento social não ajudam a combater a pandemia e que deve valer a posição do presidente. Alessandro Vieira diz que ‘coragem e postura’ devem prevalecer à ‘subserviência’ (Foto: Pedro França/Agência Senado)

Apontado como “padrinho” do suposto “gabinete paralelo” que orientou o presidente na condução da pandemia, e visto como conselheiro próximo do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) reafirmou na CPI da Pandemia que o distanciamento e o isolamento social – considerados pilares no combate à Covid-19 – não ajudam a evitar a propagação do vírus.

“O senhor como profissional e gestor de saúde tem alguma dúvida de que a redução de mobilidade e medidas de distanciamento social ajudam a reduzir a propagação do vírus?”, perguntou o líder do Cidadania no Senado, Alessandro Vieira (SE), mais de uma vez, durante depoimento de Terra à comissão, nesta terça-feira (22).

“Numa pandemia não reduz, não reduz – como não reduziu”, insistiu Terra, que é médico.

Alessandro Vieira prometeu encaminhar a Terra estudos publicados na Science, Nature e Lancet, principais publicações sobre política científica do planeta, todos apontando eficiência de medidas de redução de mobilidade e isolamento.

Diante da insistência do deputado, de discurso repetido ao longo de todo o depoimento, de que o governo federal não teve poder de decidir nada por causa de decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que assegurou a estados e municípios a autonomia para tomar medidas contra a propagação da doença – Terra omitiu que a medida não eximiu a União de realizar ações -, Alessandro Vieira perguntou se o governo federal apresentou algum projeto ou planejamento de ação que foi impedido de execução pelo Supremo. Terra admitiu que não.

“Não estamos discutindo diferença de opiniões aqui, mas políticas públicas – se a política pública adequada foi adotada no combate à pandemia”, afirmou o senador.

Alessandro Vieira lembrou que, como gestor da Saúde no Rio Grande do Sul, por oito anos, Osmar Terra enfrentou uma pandemia recente, da gripe H1N1 – e que seu estado teve o 3º pior resultado do Brasil.

‘Desconexão entre o técnico e o político’

O senador do Cidadania quis saber de Osmar Terra se ele, como secretário de Saúde – função que ocupou na administração de Yeda Crusius -, aceitaria uma interferência política em seu trabalho que fosse contrária ao seu entendimento técnico. Foi esse desentendimento que levou à saída de dois ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich.

“Eu ia tentar convencer a pessoa a não fazer. Ou eu tenho razão, ou o outro tem razão”, disse.

“Eu nunca fiz nada que contrariasse princípios e convicções minhas”, completou Terra.

Ao falar especificamente de Mandetta, que diz ter ajudado a indicar disse:

“Sempre achei que o mais importante não era trocar o ministro, mas manter e ganhar o ministro, e discutir ideias que estivessem de acordo com o presidente. Quem tem a responsabilidade de conduzir é o presidente. Se der errado o culpado sempre vai ser o presidente”, admitiu.

“O senhor prestou uma grande contribuição para essa CPI, e para o Brasil, ao esclarecer que o presidente, se informando pelos meios que ele escolha, é o único responsável pelas decisões que toma. Não é uma pessoa com problemas mentais, até onde se sabe, e toma decisões como gestor dessa República”, apontou Alessandro Vieira, para quem um técnico nunca deve se adaptar a interesses políticos.

“Essa desconexão entre o técnico e o político exige coragem e postura, nunca subserviência. Ninguém se elege imperador do Brasil”, disse o senador.

Imunidade de rebanho

Osmar Terra negou durante o depoimento que defenda a tese da ‘imunidade de rebanho’ como ‘uma técnica ou uma estratégia de enfrentamento’ à Covid-19. Segundo o deputado, trata-se apenas do “resultado final de qualquer epidemia”.

“Não existe nenhuma proposta de deixar a população se contaminar livremente. Nunca se fez isso. Imunidade de rebanho é uma consequência, é como terminam todas as pandemias. A vacina é um vírus morto injetado na pessoa. É um raciocínio lógico: um vírus vivo provoca mais anticorpos que um vírus morto”, disse Terra e o senador Alessandro Vieira reagiu:

“Para que esta CPI não sirva de palco para a desinformação, não é possível apontar benefício na infecção natural em relação à vacina. A vacina é a contaminação em dose segura, o que não é o caso da contaminação natural. O senhor esteve internado numa UTI. Não dá para comparar com vacina, pelo amor de Deus — reclamou. (Assessoria do parlamentar/com Agência Senado)

Eliziane Gama repudia proposta de Bolsonaro para desobrigar máscaras para vacinados

“A tática [do presidente] é para confundir o povo e desviar o foco das investigações e da CPI [da Pandemia]. Quem deve, teme”, diz a senadora (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

A líder do bloco parlamentar Senado Independente, Eliziane Gama (Cidadania-MA), repudiou a tese de imunidade de rebanho defendida pelo presidente Jair Bolsonaro com o pedido ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, de um parecer ‘visando a desobrigar o uso de máscara por parte daqueles que foram vacinados ou que já foram contaminados’ pela Covid-19.

A senadora ressalta que é comprovada a possibilidade de reinfecção para pessoas que já contraíram a doença, e cobra de Queiroga uma posição firme contra o pedido do presidente.

“É claro que o presidente sabe que uma pessoa que foi infectada não está imune e que apenas a vacinação da maior parte da população trará segurança aos brasileiros. Pergunta que eu gostaria de ter feito para o ministro Queiroga: qual é o limite do senhor Queiroga entre a honra e um pedido de demissão?”, questionou a senadora na rede social

Desde que assumiu o Ministério da Saúde, Queiroga, que é médico, frequentemente defende o uso de máscara e o distanciamento social.

 “A tática [de Bolsonaro] é para confundir o povo e desviar o foco das investigações e da CPI [da Pandemia]. Quem deve, teme”, afirma Eliziane Gama.

Também chamada de imunidade de grupo e imunidade coletiva, a imunidade de rebanho consiste em atingir um ponto em que há uma quantidade suficiente de pessoas imunes ao vírus, interrompendo a transmissão comunitária.