Nota de pesar – Jacó Bittar

Nota de Pesar

Em nome do Cidadania e em meu nome pessoal, lamento, pesaroso, a morte do estimado Jacó Bittar, ex-prefeito de Campinas e um dos importantes líderes do movimento pela redemocratização do Brasil. Honrosamente, estivemos juntos na resistência à ditadura, eu pelo velho PCB, ele, pelo sindicalismo, como um dos fundadores da CUT. Nos conclaves, espaços de reorganização do movimento sindical nacional, Jacó Bittar ajudou a plantar as sementes de um país mais fraterno, justo e livre. À família e a todos os amigos, os nossos profundos sentimentos.

Roberto Freire
Presidente Nacional do Cidadania

Nota de pesar – Thiago de Mello

Lamento em meu nome e do Cidadania a morte do grande poeta brasileiro Thiago de Mello, a quem conheci e com quem convivi desde nosso encontro na casa do amigo em comum, Marcelo Cerqueira, dia em que vi nascer o poema “Clara”, em homenagem à filha do anfitrião.

Thiago havia recém retornado do exílio, imposto por uma ditadura que abominava a luz e a inteligência, como o fazem os hoje saudosistas do arbítrio. O poeta nos deixa aos 95 anos, mas sua obra permanecerá imortal.

Faz escuro nesse Brasil dos estertores do bolsonarismo, não tanto quanto na época em que essas linhas foram escritas, mas todos precisamos cantar. Cantar a vida e a liberdade, que será, em breve, suprimida do pântano enganoso das bocas.

Que possamos como nos Estatutos do Homem, estabelecer o reinado permanente da justiça e da claridade e abrir as janelas da democracia para o verde onde cresce a esperança. Todas as homenagens a esse ilustre amazonense e grande nome da cultura nacional. E nossos sentimentos aos familiares.

Roberto Freire
Presidente Nacional do Cidadania

Alberto Aggio analisa simpatia de Lula pelas ditaduras de esquerda

Historiador participou do episódio do Estadão Notícias e comentou a polêmica entrevista do ex-presidente ao jornal espanhol El País na qual comparou Daniel Ortega a Angela Merkel (Foto: Reprodução)

O historiador Aggio, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), participou nesta quarta-feira (24) do episódio do Estadão Notícias (ouça aqui) e comentou a polêmica entrevista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao jornal espanhol El País, e comparar o regime ditatorial de Daniel Ortega, na Nicarágua, aos anos de governo de Angela Merkel, na Alemanha.

“Me parece que ainda existe dentro do PT e de alguns outros partidos da esquerda brasileira um certo resíduo do que nós poderíamos chamar de o paradigma da revolução, em detrimento do paradigma da democracia”, disse Aggio, ao expor algumas reflexões sobre as declarações do ex-presidente.

Para o petista, não há diferença entre as duas nações, se comparar os anos de gestão à frente de seus países. Daniel Ortega conquistou o seu quarto mandato consecutivo, após uma eleição de fachada, em que concorreu com candidatos que eram a favor do seu governo. Dias antes do pleito, o governo promoveu a prisão de opositores sob a acusação de diversos crimes, entre eles, lavagem de dinheiro.

Na mesma entrevista, Lula relativizou a decisão do governo cubano que, neste mês, proibiu a realização de atos da oposição, e colocou militares nas ruas para garantir que permanecessem vazias. Os protestos eram contrários à ditadura do País, e foram motivados pelos cortes de luz, perseguição a dissidentes e a falta de alimentos e remédios. (Com informações do Estadão Notícias)

Freire: Artigo de Bolívar Lamounier no Estadão é leitura obrigatória para os democratas

O presidente do Cidadania, Roberto Freire, avaliou como fundamental artigo publicado neste sábado (14), no jornal O Estado de São Paulo, pelo sociólogo Bolívar Lamounier convocando o centro democrático a escolher o candidato certo para as eleições de 2022, capaz de furar a polarização, garantir a democracia e abrir caminho para a reconstrução do sistema político nacional, incorporando à vida pública o que ele chama de “possuidores de recursos”.

“Todos os que detenham renda, riqueza, escolaridade, capacidade de argumentação e até, simplesmente, tempo, disponibilidade de tempo, recurso sem o qual um cidadão pouco pode fazer pela vida pública de seu país”, argumenta. Segundo Bolívar, que é filiado ao Cidadania, trata-se de um “apelo a um sujeito real, de carne e osso, que poderia estar efetivamente presente nas trincheiras de defesa da democracia”. “Mas não encontra forma de o fazer, dadas a irrelevância e o caráter oligárquico de nossos partidos políticos”, observa.

É essa transição que o partido, segundo Freire, busca fazer, ao renovar-se a partir de movimentos cívicos, como Renova, Agora, Livres e outros. Assim como Bolívar, o ex-deputado e ex-senador considera tarefa emergencial a escolha de um candidato para enfrentar o populismo em 2022, aglutinando forças para se contrapor de imediato à ameaça antidemocrática representada por Bolsonaro e seus áulicos, dentro e fora do governo, que, diariamente, atacam as instituições republicanas.

Leia o artigo abaixo:

Reflexões sobre um país invertebrado

Somos desprovidos de qualquer travejamento que confira sustentação às instituições formais

*Bolívar Lamounier

Só os muito obtusos têm o direito de subestimar a gravidade dos males que a imposição de uma ditadura traria ao Brasil. A esses é também dado o direito de ignorar que Jair Bolsonaro – coadjuvado por um número decrescente, mas ainda expressivo, de bolsonaristas fanáticos – não pensa noutra coisa.

Os demais podem ser classificados em dois grupos: os democratas e um grupo amorfo, formado por bolsonaristas a caminho da desilusão e indiferentes. Os democratas sabem perfeitamente o que têm de fazer: protestar contra os desatinos diários do inquilino do Planalto e trabalhar ativamente pela formação de uma candidatura capaz de se opor aos extremos populistas na eleição de 2022.

Isto posto, penso que a sustentação do regime democrático está na dependência de dois fatores. O primeiro é, obviamente, o centro. A polarização eleitoral de 2018, cujos efeitos foram agravados pela pandemia, esmagou os partidos, já de si débeis, que tentavam ocupar esse espaço. Em médio prazo, é imperativo reconstituir tais partidos, mas o momento que vivemos é uma emergência. O que ela exige é uma solução rápida e eficaz: escolher o candidato certo para a eleição, tendo em mente que já estamos na contagem regressiva. Reconstituir todo o nosso esfarelado sistema de partidos não é algo que se possa efetivar da noite para o dia.

Dentro desse quadro, o segundo fator que me propus discutir adquire importância singular, pois diz respeito ao longo prazo, mas precisa ser iniciado o quanto antes. Refiro-me à própria coluna vertebral do sistema político.

Até os anos 50 do século passado, ou seja, no imediato após-guerra, demos por assentado que uma elite relativamente exígua e o texto constitucional adotado em 1946 cumpririam a função básica de vertebrar o regime democrático. Nosso principal erro foi subestimar a corrosão do sistema político pelo antagonismo getulismo x antigetulismo, das discordâncias referentes à estratégia de crescimento econômico e pelo onipresente veneno da guerra fria.

No momento atual, urge-nos encarar a realidade com mais sobriedade e lucidez. Não só os problemas que temos pela frente se agigantaram, mas as ameaças à democracia são proferidas, às vezes de forma explícita e sem nenhum pudor, por titulares de funções públicas elevadas. Entre os antídotos a considerar, peço licença para me concentrar na questão da elite. Uma elite exígua e limitada à esfera política, como a que povoava nossas mentes nos anos 50 do século passado, hoje, manifestamente, não é possível nem desejável. Somos agora um país muito maior e com carências dantescamente mais graves. Digamos, abreviadamente, que a governabilidade se tornou um problema agudo, mesmo na hipótese de voltarmos brevemente a tempos normais. O contraponto à nossa antiga imagem da elite é a mistificação populista do “povo”, uma entidade amorfa, indefinível, como convém a esse gênero de política. O líder populista tipicamente apela à totalidade do “povo” para se legitimar e convoca seus militantes fanáticos para ameaçar as instituições democráticas.

A verdade é que democracia alguma jamais funcionou a contento quando se deixou arrastar para um desses extremos. Precisamos de mais convicção democrática e mais envolvimento e participação, mas a convocação que nos cumpre fazer é aos possuidores de recursos (resource owners), vale dizer, a todos os que detenham renda, riqueza, escolaridade, capacidade de argumentação e até, simplesmente, tempo, disponibilidade de tempo, recurso sem o qual um cidadão pouco pode fazer pela vida pública de seu país. Em números, os resource owners distam muito do “povo” dos populistas, mas são muitas vezes mais numerosos que a elite que tínhamos em mente no século passado.

O que venho de expor não é uma alternativa a qualquer das questões de substância que têm sido consideradas em nosso debate público. Não é um substituto para a reforma política. Não dispensa alterações constitucionais que impeçam os criminosos de colarinho branco de se refugiarem atrás do “trânsito em julgado”. É, isso sim, um apelo a um sujeito real, de carne e osso, que poderia estar efetivamente presente nas trincheiras de defesa da democracia, mas não encontra forma de o fazer, dadas a irrelevância e o caráter oligárquico de nossos partidos políticos.

O problema, como o vejo, é que passamos décadas e décadas vituperando “as elites”, quando, na verdade, somos um país rigorosamente desprovido de elites, ou de qualquer travejamento que confira substância e sustentação às instituições formais. Por difusa e dispersa que seja, a comunidade dos possuidores de recursos pode vir a ser o anteparo sem o qual jamais teremos uma reforma política séria. Esta constatação tem tudo que ver com nosso futuro econômico e social. Não vejo possibilidade de o Brasil retomar o crescimento econômico em bases sustentáveis sem uma reforma política abrangente e profunda. E não me parece plausível que o Congresso Nacional venha, sponte sua, a realizar tal reforma.

*Bolívar Lamounier é sócio-diretor da Augurium Consiltoria é Membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências (Fonte: O Estado de São Paulo)