Eliseu Neto: O riso dos outros

Será que temos mesmo coragem de afirmar que a piada é só piada?
Que não nos cabe falar dos limites do humor, principalmente quando esse limite é a vida ou não das pessoas?

Enquanto psicopedagogo e responsável pela criminalização da lgbtfobia, me uni a educadores, artistas, escritores, professores, empreendedores e ativistas do livro e da leitura e formamos o coletivo Bancada do Livro, uma alternativa progressista contra as famosas bancadas da bala, do boi e da bíblia.

Muitos agentes culturais estão conosco nesse debate, dentre eles um que admiro muito e, segundo dizem, somos meio parecidos. Me refiro ao humorista Fábio Porchat, que em uma de nossas lives, instigado por mim, foi categórico ao afirmar que “humor não deve ter limites”.

O professor de Direito Discriminatório da Universidade Harvard, Adilson Moreira, afirma que o “humor racista é um tipo de discurso de ódio. É um tipo de mensagem que comunica desprezo, que comunica condescendência por minorias raciais”. O jurista também discute o conceito de micro agressões, de personagens de televisão símbolos de racismo recreativo e afirma ver como comum humoristas que se escondem por trás do argumento “é só uma piada” todas as vezes que são hostis a minorias raciais.

Os termos são excelentes para entendermos a função do humor na construção do ódio: “É só uma piada”, “não teve a intenção”, “temos que desconstruir”. Essas são as principais teses de quem defende esse tipo de humor, mas é preciso ver a diferença. Toda piada que humilha o outro tem seu viés cruel, isso é da origem do humor.

Freud aponta que o riso é um alívio inconsciente – “antes ele do que eu”. Quando um homem leva um chute em partes íntimas, o riso é de alívio – “Ufa, isso deve doer…”. Por outro lado, quando um homem beija uma mulher trans, o humor afia as facas do genocídio contra a população trans, o riso é sobre sua existência como mulher (trans).

Em julho deste ano (2020), o chamado “pânico gay” – um homem sai com uma mulher, tem relações e ao descobrir que é trans, o estado permitia o assassinato – deixou de ser usado como defesa para o assassinato de mulheres trans, no estado do Colorado, nos Estados Unidos. 

Não estou afirmando que os humoristas são assassinos, mas as piadas, os deboches, criam o desespero que gera o ódio. No estudo do nazismo, criou-se a Escala de Allport. Veja o que fala a antilocução:

“Antilocução significa um grupo majoritário fazendo piadas abertamente sobre um grupo minoritário. A fala se dá em termos de estereótipos e imagens negativas. Isto também é chamado de incitamento ao ódio. É, geralmente, vista como inofensiva pela maioria. A antilocução por si mesma pode não ser danosa, mas estabelece o cenário para erupções mais sérias de preconceito”.

Os pontos seguintes da escala são esquiva, discriminação, ataque físico, até chegar ao extermínio.

O Brasil é um dos países que mais mata lgbts, a idade média de uma travesti é de 35 anos, os homens escondem suas parceiras trans e as empresas recusam empregos. Será que temos mesmo coragem de afirmar que a piada é só piada? Que não nos cabe falar dos limites do humor, principalmente quando esse limite é a vida ou não das pessoas? Vale a reflexão. (Publicado originalmente no jornal O Dia).

Eliseu Neto é psicólogo, psicanalista, psicopedagogo e coordenador do Diversidade 23

Igualdade 23 destaca importância do Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial

O Igualdade 23 divulgou nota (veja abaixo) pelo Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial comemorado nesta quarta-feira, 3 de julho. O documento destaca que a data proporciona reflexão sobre o racismo no Brasil, assim como a importância da adoção de políticas afirmativas que possam reverter o problema. 

O Igualdade 23 também reforça a necessidade de um combate mais aprofundado contra crimes praticados contra a comidade negra brasileira.

A data celebra a aprovação da Lei nº 1.390/1951, mais conhecida como Lei Afonso Arinos, que determina como infração penal o preconceito por raça ou cor.

Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial

Nesta quarta-feira, dia 3 de julho, é comemorado o Dia Nacional do Combate ao Racismo. No entendimento do Coletivo Igualdade 23 do Cidadania 23, a data é propícia para reflexão do contexto brasileiro, uma vez que o país vem experimentado a adoção de políticas públicas voltadas para combater as mazelas do racismo o que é uma conquista da sociedade.

Por outro lado, a compreensão é que muito ainda há que se avançar nesse campo, pois o legado da escravidão deixou marcas profundas no País. Por essas razões, todos os momentos pertinentes que possam servir para ampliar a consciência socioeconômica, política e cultural sobre o tema são relevantes.

Igualdade 23