Cristian Klein: República de bananas, hambúrguer e laranjas

Uma das explicações mais convincentes para a renitência de Jair Bolsonaro em defender o que é radical e estapafúrdio – mesmo depois de assumir o cargo de presidente – é o fato de nunca ter perdido uma eleição. A falta de derrotas – como aconteceu com Lula, por exemplo – teria preservado o temperamento. Conquistas sucessivas cultivaram a soberba com que, entre outros desatinos, o leva a querer indicar o próprio filho a embaixador em Washington. Caberá aos senadores decidir se alimentam ou não, no chefe do Executivo, o sentimento de soberania ilimitada, reforçado ao longo do tempo.

Bolsonaro ganhou a primeira eleição a vereador do Rio em 1988 e as sete seguintes (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14) para deputado federal. Em sua carreira, sempre foi um vitorioso nas urnas, apesar de ter perambulado pela Câmara, como um lobo solitário, à margem das representações partidárias. Abaixo da média do baixo clero, nunca influenciou o debate público em questões amplas ou profundas. Mas colheu muitos votos graças ao papel de sindicalista dos militares. Na tipologia de quadros políticos – que inclui o pragmático e o ideólogo – Bolsonaro é o lobista. O ocupante do Planalto foi um jogo de palavras: um lobo solitário lobista. Mas solitário em termos. Pois tem a prole.

O sucesso de Bolsonaro é maior quando se considera que sempre amealhou triunfos ao utilizar o capital político para emplacar os filhos no Legislativo. O mais velho, Flávio, ganhou cinco eleições: quatro a deputado estadual (2002, 06, 10 e 14) e uma a senador pelo Rio (18). Carlos, o Zero Dois, também venceu cinco disputas a vereador (2000, 04, 08, 12 e 16). O terceiro filho, Eduardo, elegeu-se deputado federal em 2014, por São Paulo, e sua reeleição bateu recorde, em 2018, na esteira da candidatura do pai à Presidência.

O único revés do clã Bolsonaro foi há três anos, quando Flávio concorreu à Prefeitura do Rio, à revelia do patriarca e dos irmãos. Vem daí a animosidade entre o senador e Carlos, que não o ajudou na campanha municipal e com quem mal fala, desde então. De olho na eleição presidencial, Bolsonaro temia que a derrota do filho à prefeitura pudesse lhe prejudicar – o que não se confirmou. Em 30 anos, o quarteto ganhou nada menos do que 21 de 22 eleições. Já seria uma façanha o desempenho até o ano passado (18 em 19). Mas a vitória ao Planalto – a despeito dos escassos recursos e de tempo de TV – somada à explosão do bolsonarismo elevou a sensação de invencibilidade do clã num outro patamar.

O pai, depois de uma facada, ganhou contornos de guerreiro imortal ao vencer o petismo. Flávio conquistou a primeira vaga ao Senado. Eduardo tornou-se o deputado federal mais votado da história. Catapultado pelo ex-capitão do Exército, o PSL, de legenda nanica, virou a segunda maior bancada na Câmara e a maior nas Assembleias Legislativas de quase todo o Sudeste (São Paulo, Rio e Espírito Santo) e do Paraná.

O atual ocupante do Planalto liderou, mas também é resultado, do maior fenômeno eleitoral já visto no país. Um acontecimento raro, surgido num ambiente de anomia, com escândalos de corrupção, descrédito da classe política, antipetismo ferrenho e a maior crise econômica da história brasileira. Incapaz de perceber os elementos estruturais da ascensão de um movimento que leva o seu nome, Bolsonaro dá demonstrações cotidianas de egolatria – ainda que contrarie o que dizia em campanha.

O homem que bradava “A mamata vai acabar!”, elogiava a meritocracia e criticava o Estado aparelhado pelos adversários políticos é o mesmo que defende a indicação de Eduardo a embaixador, sem as credenciais para o cargo, exceto a de ser filho de quem é e por ter “fritado hambúrguer” nos Estados Unidos. O salário – quase R$ 70 mil – passaria a ser o dobro do que recebe o deputado. E na embaixada, como destacou, o filho seria garantia de que “ninguém com estrelinha vermelha vai entrar”.

Para Bolsonaro, basta um ato de vontade para que o imoral, o ilegítimo, o inconstitucional ou o improvável se concretize. Da corrida de Fórmula 1 no Rio ao decreto sobre armas. O presidente se vê acima do bem, do mal, das instituições e da opinião alheia: “Se estão criticando é porque está certo”. As atualizações do “L’État c’est moi” foram realizadas com sucesso.

Bolsonaro tem um quê de Luís XIV mas também de Calígula. O imperador romano nomeou senador seu cavalo preferido, Incitatus, que, até onde se sabe, não estava preparado para exercer a função. Um cavalo investido de poderes é uma bizarrice. Mas pode ser menos ofensivo e imprudente do que um filho no lugar errado.

A indicação do Zero Três à embaixada em Washington pode ser considerada a próxima batalha eleitoral da família Bolsonaro, desta vez pelo voto dos 81 senadores. É um teste de força para o rebento apontado como plano B, caso o presidente não concorra à reeleição. A fotografia de Eduardo entre o pai e o presidente americano Donald Trump – ambos apontando para ele – é daquelas peças de marketing já prontas para a entrega.

Se desse importância para os assuntos internos, Bolsonaro escalaria o filho como articulador do governo no Congresso, onde, porém, tal como o pai era, só não pode ser chamado de zero à esquerda por uma contradição ideológica. Na Câmara, Eduardo já disse que se vê “engessado, quase sendo mais um entre os 513 deputados”.

Foi a resposta que deu, há dois dias, pelo Instagram, a um simpatizante que lhe pedia que fique no Brasil, para avançar “os projetos contra o Foro de São Paulo”. O deputado argumentou que no posto em Washington seria um “porta-voz” ideológico “não só para os EUA mas para boa parte da mídia internacional”. “Hoje os únicos que fazem essa conexão são da extrema esquerda”, escreveu, sem citar nome influente do PSTU ou do PCO que faça a cabeça da imprensa estrangeira.

Uma derrota de Eduardo no Senado representaria importante choque de realidade a Bolsonaro, cujos seguidores menos radicais se mostram silenciosos ou até contrários à indicação, dado o nepotismo flagrante. Referendar a escolha é reforçar a imagem de uma república que o presidente teima em construir: de hambúrguer, bananas e laranjas. (Valor Econômico – 19/07/2019)

Cristian Klein é repórter da sucursal do Rio. César Felício volta a escrever agosto – E-mail: cristian.klein@valor.com.br

Cristian Klein: Vitória ‘terrível’ para Bolsonaro

No dia em que a Câmara dos Deputados começava a aprovar a reforma mais requisitada pelo mercado, o presidente Jair Bolsonaro iniciou a manhã parafraseando a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, a quem já dedicou palavras pouco elogiosas. Em março, Bolsonaro disse que ouve “qualquer ministro, até a Damares”. Comparada a um patinho feio da Esplanada, a pastora – que no discurso de posse afirmou que “o Estado é laico, mas esta ministra é terrivelmente cristã” – parece ter ganhado e inspirado o coração e a mente do presidente. Em culto realizado na Câmara pela Frente Parlamentar Evangélica, Bolsonaro confirmou ontem o plano: “Poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal. Um deles será terrivelmente evangélico”.

Ao arremedar o advérbio tão caro a Damares, o presidente batiza as escolhas de seu governo. Arrisca ser comparado a Ivan, o Terrível (1530-1584), o primeiro czar russo. Autoritário, muito religioso, com mania de perseguição, Ivan teria matado o filho e o neto, depois de espancar e levar a nora ao aborto, porque julgou suas roupas indecentes. Historiadores atribuem a fama de Ivan tanto à crueldade – comum à época – quanto a graves transtornos mentais. Bolsonaro não é o czar. Até porque o codinome “Russo” já foi reservado, pelos procuradores da Lava-Jato, ao ministro da Justiça Sergio Moro, segundo mensagens vazadas pelo site “The Intercept”.

Com a declaração sobre o Supremo, Bolsonaro, quem sabe, até crie esperanças na ministra, que além de pastora é, furtivamente, advogada. Mas é o juiz federal da Lava-Jato no Rio, Marcelo Bretas, quem já se animou. Começa a recair sobre ele a expectativa da indicação. Frequentador da igreja Comunidade Evangélica Internacional da Zona Sul, Bretas foi criado numa família evangélica e tem um irmão pastor. Bastante ativo nas redes sociais, 20 das 70 mensagens (28,5%), desde novembro, que constam em seu perfil do Twitter tem conotação religiosa.

Citam versículos de livros da Bíblia (Provérbios, Salmos, Isaías, I Timóteo, Habacuque, Lamentações), mostram sua admiração pela cantora gospel Bruna Karla, elogiam e parabenizam pastores (Marco A. Peixoto e Israel Belo de Azevedo) e reinterpretam, de modo particular, “O espírito das leis” (1748) com a célebre instituição de freios e contrapesos: “A teoria da separação dos Poderes foi mesmo idealizada por Montesquieu? Veja o que o profeta Isaías escrevera aprox. 2.500 anos antes dele (por volta de 750 a.C): ‘Porque o Senhor é o nosso Juiz; o Senhor é o nosso Legislador; o Senhor é o nosso Rei; ele nos salvará'”.

É possível que numa eventual sabatina no Senado, algum parlamentar perguntasse a Bretas o que quis dizer com esse tuíte. A teocracia não deve fazer parte das convicções do magistrado. Mas ser indicado ao Supremo é, em suas próprias palavras, “o sonho de qualquer juiz” – foi o que disse em entrevista recente, sobre a possibilidade.

Como revelou em maio, Bolsonaro também tem um acordo com Moro, que teria aceito abandonar a carreira de juiz para ser ministro em troca da vaga no Supremo. “Eu fiz um compromisso com ele. Ele abriu mão de 22 anos de magistratura. A primeira vaga que tiver lá [no STF], estará à disposição”, disse o presidente.

O toma-lá-dá-cá, contudo, foi negado logo em seguida por Moro. E, desde então, o ministro da Justiça passou a ser acossado pelas publicações homeopáticas que dão conta de sua suposta parcialidade quando juiz responsável pela Lava-Jato em Curitiba. Com o governo Bolsonaro ancorado na popularidade de Moro – e no titular da Economia, Paulo Guedes – o ministro com o perfil de Bretas ganhou destaque nos planos de Bolsonaro.

Se na primeira vez em que abordou o assunto, em 31 de maio, o presidente deu um tom de conjectura – “Será que não está na hora de termos um ministro do STF evangélico?” – agora Bolsonaro afirma se tratar de um “compromisso”. Não à toa. Com a indicação, o presidente agradará ao segmento do eleitorado que lhe é mais fiel. Segundo a pesquisa do Datafolha do fim de semana, o país está dividido em três, igualmente, entre os que amam, os que detestam e os que acham a administração Bolsonaro apenas regular. No meio evangélico, porém, o apoio praticamente dobra.

Para o presidente também faz sentido usar o STF como moeda de troca substituta. A maior promessa de campanha feita aos evangélicos – a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém – é algo improvável e que Bolsonaro vem empurrando com a barriga, para a irritação nem sempre discreta dos líderes pentecostais.

A primeira das duas vagas a que Bolsonaro terá direito a preencher será a do decano Celso de Mello, que se aposenta em novembro do ano que vem. Antes de ser evangélico, contudo, o indicado deverá ser, com toda probabilidade, “terrivelmente” bolsonarista. Pelo Twitter, Bretas publica mensagens que jogam água no moinho do governo – como o apoio às manifestações de 26 de maio -, retuíta e responde posts de bolsonaristas como os deputados federais Carlos Jordy (PSL-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, agradece condecoração na Assembleia Legislativa proposta por deputada do PSL, estampa foto de Bolsonaro com o presidente americano Donald Trump e corrobora posições polêmicas do ocupante do Planalto, como a defesa do trabalho infantil. Quem precisa indicar Moro quando se tem Bretas?

Nova relação

Sem citar nominalmente Bolsonaro, nem Paulo Guedes, mas com menções ao ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e ao Centrão, o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ) fez de seu discurso da vitória, na aprovação da reforma da Previdência, uma declaração de independência do Parlamento, demonstração de força e desabafo. Com o placar elástico de 379 a 131 – 71 votos acima do necessário – Maia foi aclamado pela Casa e ‘roubou’ o resultado do Planalto, a quem deu o recado: “Vamos precisar construir uma relação diferente daqui para frente”. Lacrou. (Valor Econômico – 11/07/2019)

Cristian Klein é repórter da sucursal do Rio. Maria Cristina Fernandes volta a escrever em agosto – E-mail: cristian.klein@valor.com.br

Cristian Klein: Democracia de ‘bocas abertas’

Numa das cenas mais singulares do documentário “Democracia em vertigem”, da diretora Petra Costa, a então presidente Dilma Rousseff está no Palácio do Planalto assistindo aos votos que decidiam a abertura do impeachment. Circulando em pé, diante da TV, aparentando nervosismo, Dilma reage ao discurso de Glauber Braga (Psol-RJ). O deputado, dedo em riste, ataca o presidente da Câmara, que dirigia a sessão e havia sido o responsável pela admissão do processo que levaria à derrubada da petista. “Eduardo Cunha, você é um gângster. E o que dá sustentação à sua cadeira cheira a enxofre”. Numa expressão facial, Dilma mostra surpresa e aprovação pela braveza do parlamentar em sua defesa.

Não se sabe se o então juiz federal Sergio Moro prestou atenção ao voto do deputado, embora não seja difícil imaginar para que lado pendia. Cunha e Moro são grandes protagonistas de um mesmo processo que abateu o PT. O primeiro foi algoz de Dilma, o segundo, o do ex-presidente Lula. A legitimidade de Cunha, reconhecidamente um corrupto, para conduzir o impeachment contra uma presidente cujo crime de responsabilidade não se tratava de corrupção, pouco importou para a aparência de lisura do processo. A legitimidade de Moro, um juiz alegadamente parcial, de acordo com conversas reveladas pelo site “The Intercept”, tampouco compromete, para os adversários do PT, o conjunto da obra de quem prendeu Lula.

Para Glauber Braga, porém, um coadjuvante de destaque no enredo de tantos personagens da política brasileira dos últimos seis anos, Cunha e Moro são faces da mesma moeda. Se o primeiro mereceu o epíteto de “gângster”, o segundo é omo o árbitro de futebol que favorece um dos times em campo. “O senhor vai estar, sim, nos livros de história, como um juiz que se corrompeu, como um juiz ladrão”, vituperou, a poucas horas do Brasil x Argentina de terça-feira.

Da prisão, em Curitiba, não se sabe a reação de Lula diante da TV, como sabemos a de Dilma. Mas, na audiência da Câmara, a virulência do deputado causou revolta e instalou o furdunço entre os parlamentares que, de um lado, atacavam, e de outro, protegiam o (anti-)herói da Lava-Jato. Com o libelo de Braga, os grupos quase se atracam e o ministro da Justiça encerra seu depoimento aos gritos de “Fujão!”. O ex-juiz, na saída, justifica: “A culpa é desse deputado totalmente despreparado. Glauber, acho, Glauber alguma coisa. Sabe Deus de onde veio isso aí”.

Filho de uma ex-prefeita de Nova Friburgo (RJ) por dois mandatos, o parlamentar, de 37 anos, está na quarta legislatura seguida na Câmara. É duvidoso se Moro perguntou de onde vieram os deputados que o sabujaram. Carlos Jordy (PSL-RJ), também de 37 anos, outro integrante da bancada fluminense, vem de Niterói, onde se elegeu com o slogan “filhote de Bolsonaro”, no ano passado. Em 2016, o presidente, então deputado, já havia sido padrinho político de Jordy, que se elegera vereador pelo PSC.

Numa cena burlesca, Moro recebeu um troféu oferecido por outro aliado. Com carreira polêmica, Boca Aberta (Pros-PR) se elegeu vereador em 2016 pelo PSC, como Jordy, mas em Londrina, a 100km de Maringá, cidade natal de Moro. Pela proximidade, é mais provável que o ministro, em suas palavras, saiba de “onde veio isso aí”.

Operador de equipamento de rádio e televisão, Emerson Miguel Petriv teve o mandato na Câmara Municipal cassado, em 2017, por fazer vaquinha virtual para pagar multa eleitoral. Em 2016, foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal, por suspeita de organizar a invasão de um conjunto residencial. Em junho de 2018, foi condenado a quase nove meses de prisão em regime semiaberto por injúria e difamação cometidas em vídeo publicado em redes sociais contra o então prefeito Alexandre Kireeff, em 2013.

À época, Boca Aberta rodava as ruas da cidade a bordo de uma bicicleta, batizada de “Grace Kelly”, equipada com microfone e caixa de som para desancar o prefeito. Em abril deste ano, foi condenado a 22 dias de prisão em regime semiaberto por perturbar o trabalho de funcionários de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), quando era vereador. O parlamentar realizava uma fiscalização, que chamava de “blitz da saúde”, durante a madrugada, e teria gritado com médicos e enfermeiros para agilizar o atendimento. Sem foro privilegiado, mesmo sendo deputado federal, ele ainda pode recorrer à segunda instância.

Carlos Jordy e Boca Aberta são exemplos dos representantes eleitos na onda Bolsonaro. Um grupo, em regra, conservador, com pouca experiência e radical. Numa autocrítica, o despreparo a que Moro atribui a Glauber Braga seria, segundo Alexandre Frota (PSL-SP), um dos baluartes dessa bancada, a marca dos recém-chegados pela direita, em contraste a experientes adversários. “A esquerda, você tem que lembrar que o mais bobo ali tem quatro mandatos”, já disse Frota, ao criticar a falta de articulação do governo Bolsonaro no Congresso.

Em vários momentos, desde a posse, a base aliada se comporta como um “boca aberta”. Popularmente, “boca aberta” é alguém falastrão mas também o indivíduo desavisado, bobo, idiota, tolo, ou que se deslumbra facilmente. Foi nesse sentido que Moro se referiu aos “tontos do MBL”. É com esse significado, mas não só, que a esquerda observa os admiradores do ministro que vão às ruas para defendê-lo, numa cruzada contra a corrupção. Desse lado, a pergunta que se faz é por que não se indignaram e pressionaram o Congresso para aprovar as denúncias da PGR e a cassação da chapa de 2014 pelo TSE quando o alvo era Temer. Panelas silenciaram e bocas ficaram fechadas, interessada e inteligentemente.

Nova batalha

Quem continua abrindo o verbo, como sempre foi o pai, é o filho mais mercurial de Bolsonaro. Depois de ser chamado de “idiota inútil” e “pau-mandado” do escritor Olavo de Carvalho, Carlos rebateu o general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que saíra em defesa do ministro do GSI, general Augusto Heleno. “Militares que não suportam armas. Nunca lideraram nem guerra de travesseiros! O país dos absurdos”, publicou o vereador ontem no Twitter. Nova batalha. (Valor Econômico – 04/07/19)

Cristian Klein é repórter da sucursal do Rio. Maria Cristina Fernandes volta a escrever na última semana de julho – E-mail: cristian.klein@valor.com.br

Cristian Klein: ‘Pulhas’ acima de tudo

Há pouco mais de três anos, numa entrevista na varanda de sua casa no Rio – à vontade, de chinelos, bermuda da Nike, camisa polo da Adidas e relógio Casio no pulso – o então pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro afirmava que pediria, “pelo amor de Deus”, a seus eleitores para que votassem, dali a dois anos e meio, nos nomes que indicasse a senador e deputado federal. Se não tivesse um grupo parlamentar de apoio no Congresso – como ainda não tem – Bolsonaro antevia duas alternativas, ao reconhecer a radicalidade de suas ideias. “Vão cassar o meu mandato ou vou ser um pulha – como a Dilma é pulha, como Lula foi pulha, e como FHC foi também um… vendido”, dizia.

Por “pulha” Bolsonaro entendia os presidentes da República que têm necessidade de formar aliança, em sistemas multipartidários como o brasileiro. Antes mesmo de adotar os chavões da “velha política” e do “toma lá dá cá”, já antecipava o comportamento refratário que dispensaria aos parlamentares, equiparados à figura de sequestradores. O eleitor deveria votar nos seus candidatos, tão radicais quanto ele: “Se não, vou ser refém desses caras”.

Na tremenda onda conservadora, Bolsonaro viu suas preces atendidas, ao se eleger ao lado de uma bancada do PSL que, de nanica, tornou-se a segunda maior da Câmara, com 54 integrantes. Algo muito insuficiente, porém, para lhe dar maioria diante da extrema fragmentação do Congresso, ainda mais elevada nessa legislatura. A fatia do PSL é de meros 10,5% dos deputados e 5% dos senadores.

Em quase quatro meses de governo, Bolsonaro oscila entre o destemor com o precipício e a figura do “pulha” que imputa aos antecessores. O apoio de legendas do Centrão à aprovação da reforma da Previdência, na Comissão de Constituição e Justiça, na terça-feira, é sinal de que a crista empinada tem limite. A ideia de governar à margem dos partidos – com bancadas temáticas, como a ruralista, a evangélica ou a dos agentes da área de segurança – se mostrou um fracasso. Bem previsível, uma vez que a distribuição de poder e toda lógica interna do Congresso é partidária. Bolsonaro tentou inventar a roda e viu que a ideia o levaria a dar com os burros n’água. E, no caso do governo atual, não são poucos os jericos pelo caminho.

O presidente nem precisaria ser o “pulha”, o refém do Congresso, pois já tem problemas o suficiente diante da confusão e clima de beligerância entre os principais grupos que o sustentam. O duelo entre seu filho Carlos Bolsonaro e o guru Olavo de Carvalho contra o vice Hamilton Mourão beira à sandice mas expõe o nível de conflagração entre olavistas e militares, a despeito das tentativas – raras – de apaziguamento. Bolsonaro nunca foi e nunca será um pacificador. A neutralidade não é possível, já deixou claro, quando um dos lados é “sangue do meu sangue.”

Maquiavel afirmava que uma coisa é conquistar; outra, diferente, é manter o poder. Olavistas foram importantes na primeira etapa; os militares são a base da segunda fase, e estão presentes em vários postos da administração federal. Nesse conflito insanável, Bolsonaro se desgasta e mostra falta de liderança. Sua palavra não é respeitada pelo rebento que prefere seguir o ideólogo defensor da guerra contra um suposto marxismo cultural. De birra, depois de uma bronca, Carlos barra o acesso do pai à própria conta do Twitter presidencial.

As coisas se tornaram mais complexas para Bolsonaro e vão muito além de ser – ou não ser – o “pulha” perante o Congresso. O presidente já é refém – não propriamente dos profissionais da política – mas dos amadores, da enorme turma de voluntariosos que instalou no governo e que pretendem tutelá-lo. Não bastasse a fragmentação parlamentar, o partido não orgânico, com políticos inexperientes, a instabilidade é fomentada por atores ligados ao próprio Executivo e ao filho incontrolável.

Há um sequestro psicológico, emocional. Bolsonaro atribui a vitória eleitoral a Carlos – que fez as vezes de marqueteiro de sua campanha nas redes sociais. E foi, entre os três filhos que seguiram carreira política, o que aceitou a missão dada pelo pai, em 2000, de derrotar nas urnas a mãe e então vereadora Rogéria Bolsonaro. À época, com 17 anos, Carlos era o único dos três que morava com Jair Bolsonaro, a madrasta e o meio-irmão caçula, Jair Renan, enquanto Flávio e Eduardo viviam com a mãe. A política nacional não é mais analisável sem a ajuda da psicanálise. O (des)governo Bolsonaro não quer apenas “tirar Paulo Freire do pedaço”. Requer deixar de lado premissas da escolha racional.

Mas a balbúrdia e a desorganização favorecem o enredo geral desenhado pelo presidente que é o de confundir mais do que explicar, o de personalizar mais do que apresentar ideias e propostas concatenadas. A queda de braço entre olavistas e militares, entre Carlos e Mourão, não traz uma única substância em termos de política pública. Está no nível das acusações mútuas de traição e de ingerência descabida no governo. É espuma para a falta de conteúdo que caracteriza um mandatário hiperdependente da aprovação da reforma da Previdência e, em menor medida, do pacote anticrime de Moro.

Resta saber o que será de Bolsonaro quando, e se, a reforma passar e não houver mais a âncora que atrai os liberais ao seu governo. Se partirá para novas reformas – como a tributária – ou, se autoisolado, mergulhará na agenda de costumes. O posto Ipiranga de Paulo Guedes terá sido apenas o “pit stop” para voltar à caravana dos confrontos eleitorais, na estratégia de manter seus simpatizantes mobilizados até 2022.

Bolsonaro chegou ao poder num cenário de anomia – de descrédito com os partidos, com as elites, com “o sistema” – e nele se sente bem. Pinto no lixo. O bruxo da Virgínia ajuda a desmoralizar instituições, até mesmo as Forças Armadas, e o estrato superior delas, os generais.

Militares de alta patente tendem a acreditar menos em teorias da conspiração – como a hegemonia gramsciana da esquerda. O risco é a cooptação e politização de praças e oficiais em início de carreira. A Venezuela, com sinal invertido, pode ser aqui. (Valor Econômico – 26/04/2019)

Cristian Klein é repórter da sucursal do Rio. César Felício volta a escrever na próxima semana – E-mail: cristian.klein@valor.com.br