Alberto Aggio: Do fantasma Pinochet ao risco Savonarola

Bolsonaro mantém seus apoios, mas já vê uma parte deles fugir por entre os dedos

Não foi preciso esperar cem dias para se admitir que os brasileiros elegeram um líder político com agudas dificuldades para o exercício do posto maior da República. Desde janeiro os atropelos se seguem, com bate-cabeça de auxiliares, recuo de ministros, demissão de dois deles, vários disse-desdisses do presidente, causando estupefação e desorientação. Tudo isso sem que houvesse influência direta da oposição.

Jair Messias Bolsonaro carrega um passivo de bravatas que lhe rendeu a imagem de homofóbico, racista, antiparlamentar, anti-institucional, antirreformista, antidemocrata, e assim por diante. Essa imagem negativa afeta o presidente da República e parece ser de difícil superação. Mesmo porque Jair Bolsonaro faz questão de se apresentar como o líder de um governo de “destruição” de tudo o que se havia construído nos 30 anos de vigência da Constituição de 1988, durante os quais se implementou, reformou e inovou, tanto quanto possível, o que previa a Carta Magna.

Não há sentido em sustentar a impostura de vincular os governos Fernando Henrique Cardoso ou mesmo os de Lula da Silva ao socialismo. Foram governos de políticas semelhantes e distintas entre si, dentre elas uma inclinação à privatização das empresas públicas e à manutenção do equilíbrio fiscal, pautas liberais que marcam os últimos decênios em nível mundial. Os problemas advindos do modelo de relação do Estado com a economia, que abrange excesso de estatização, controle de preços, hipertrofia fiscal, centralização de recursos, etc., vem de muito antes desses governos, em especial do período militar, que Bolsonaro louva tanto.

Quem bloqueou a adoção do modelo bolivariano no Brasil, que muitos petistas vocalizavam, foram a sociedade, a imprensa, a opinião pública e, em especial, os institutos políticos que emanam da Carta Constitucional de 1988. Isso precisa ficar claro, para que os bolsonaristas percam a ilusão de que foram eles que barraram a continuidade do petismo e também para que não imaginem que será fácil construir no Brasil, a partir da “destruição” a que se refere Bolsonaro, um novo regime político, fazendo sucumbir a nossa institucionalidade democrática perante uma plataforma de tipo iliberal. Bolsonaro admira um Donald Trump iliberal, mas se esquece de que os Estados Unidos permanecem uma democracia liberal institucionalmente consolidada.

Do governo Bolsonaro emanam vetores que se entrecruzam e até se opõem. Os claros e cada vez mais evidentes conflitos entre os generais que compõem o governo (o vice-presidente Hamilton Mourão incluso) e o grupo “palaciano” comandado pelos filhos do presidente, especialmente em relação ao tema da Venezuela, não são de pouca monta e podem provocar uma quebra irreparável na sustentação política do governo.

Mas o ponto mais agudo advém da reforma da Previdência, alcunhada de “Nova Previdência”. O ministro da Economia, Paulo Guedes, faz blague com a noção de “revolução”. Mas se a inspiração de Paulo Guedes é Chicago e sua aplicação no Chile de Augusto Pinochet, não deixa de haver sentido. Pinochet liderou uma “revolução neoliberal” inversa ao programa socialista em vigor nos anos de Salvador Allende. Enquanto Pinochet vocalizava que seu governo “não tinha prazos, mas metas”, seus ministros e intelectuais falavam de “revolução silenciosa”. Não há que estranhar a obsessão com a palavra. Contudo o cenário brasileiro é de democracia, sustentada pela Carta Constitucional e suas instituições, situação inteiramente distinta da do Chile nos anos Pinochet.

Imaginar uma ruptura política no Brasil está, por enquanto, apenas no plano das utopias e os militares parecem pouco inclinados a uma aventura como essa. No governo federal são poucos os que percebem que há que fazer política e que se trata de uma maratona de quatro anos, e não de poucos meses.

Na chamada área dos “costumes” ou mais “ideológica”, na qual predomina uma orientação católica ultramontana combinada com um pentecostalismo radical que se fia na letra da Bíblia como orientação para toda a vida social, institucional, educacional e pessoal – o que carrega uma boa dose de hipocrisia –, o governo Bolsonaro se faz parecer mais com o franquismo e o salazarismo, que tiveram a Igreja Católica como apoiadora essencial, do que com o fascismo e o nazismo, que se fundamentavam mais em dimensões econômicas do moderno.

Há, ainda, uma menção mais remota que se pode fazer, a título de reflexão, ressalvando os anacronismos. Se a dimensão religiosa se fixar como conduta central ou ponto de referência maior do governo, Bolsonaro, por seu evidente plebeísmo, poderá ser aproximado ao monge Girolamo Savonarola, que liderou, em 1494, uma revolta contra o poderio oligárquico dos Médicis em Florença.

Savonarola instaurou uma “República popular” fundada na religião e na condenação das artes e da vida social das elites, que, para ele, representavam a decadência de Florença. Savonarola adotou medidas drásticas, como um índex de livros proibidos e a queima deles em praça pública. Seu destino não foi propriamente feliz. Maquivel, em O Príncipe, diz que Savonarola “fracassou na sua tentativa de reforma quando o povo começou a não lhe dar crédito. E ele não tinha meios para manter firmes aqueles que haviam acreditado, nem para fazer com que os incrédulos acreditassem”.

Eleito democraticamente, Jair Bolsonaro mantém seus apoios, mas já vê uma parte deles fugir por entre os dedos. É ilusória sua fé obsessiva nos milhões de apoiadores das redes sociais, sem articulação política e sem que os resultados econômicos se produzam, e desastrosa sua desconfiança em relação aos membros do seu próprio governo, com exceção dos próprios filhos. (O Estado de S. Paulo – 24/04/2019)

ALBERTO AGGIO, HISTORIADOR, É PROFESSOR TITULAR DA UNESP

Mauricio Huertas: Sem dias de governo do presidente Bolsonaro

Eles conseguiram subverter até a velha máxima “Si hay gobierno, soy contra”.

Desde 1º de janeiro de 2019 “no hay gobierno, por eso estoy contra”.

Passamos mais de cem dias sem comando, sem planejamento, sem inteligência, sem estratégia, sem organização. Simplesmente não há governo.

Estamos nas mãos de um aparvalhado, despreparado, desqualificado que não sabe o que fazer nem o que dizer quando precisa demonstrar equilíbrio, sensatez e autoridade, até porque está numa posição equivocada. O meme que virou presidente não nasceu pra isso! O Brasil merece um destino melhor!

Feito a reencarnação da Magda do humorístico “Sai de Baixo”, o tuiteiro da 5ª série afirma, após uma semana de silêncio sobre o pobre coitado assassinado com 80 tiros, que “o Exército não matou ninguém”. Que falta faz o Caco Antibes numa hora dessas – até ele, que odeia pobre – pra mandar a anta calar a boca! Ignorar ou ser ignorante, eis a questão. Elegeram uma piada!

Ao se meter em Educação – fossa ideologizada deste (des)governo influenciado pelo astrólogo da Virgínia – cometeu a sandice de afirmar que o objetivo é formar “uma garotada que comece não a se interessar por política, como é atualmente dentro das escolas, mas comece a aprender coisas que possam levá-las ao espaço no futuro”. Coerente. Desse jeito nossos jovens e o futuro já estão mesmo indo pro espaço! Ou pra cucuia!

E a trapalhada irresponsável na hora de mandar a Petrobras recuar no reajuste do diesel? O tal mito do liberalismo virou um intervencionista sem vergonha, repetindo os piores momentos de Dilma Roussef e do tão odiado PT. A repercussão, obviamente, provoca uma catástrofe nos índices da economia. Vão quebrar o Brasil e a Petrobras? Será que os bolsominions investem na Bolsa?

Curioso que um dia desses o trio de fraquejadas políticas – Carluxo, Flavinho e Dudu – comemorou a alta recorde da Bovespa atribuída ao otimismo da sociedade com o papi Pateta. Agora ficaram caladinhos. A culpa é da imprensa, claro! E o “Posto Ipiranga”, o que tem a dizer? Nada!

Mas não basta ser alienado, aloprado, biruta, desatinado, destrambelhado, insano, mentecapto. Além de tudo isso também precisa ser assassino. Em cem dias, o sem governo libera 152 agrotóxicos. Boa parte dessa lista, diga-se, é proibida nos países minimamente civilizados, preocupados com a saúde de suas populações. Aqui, f***-se o brasileiro!

O retrocesso na área da sustentabilidade vem de todas as direções. Nosso exterminador do futuro tupiniquim, que já havia dizimado a Funai e o Serviço Florestal, resolveu também extinguir as multas ambientais. Faz sentido para quem estava há anos com uma multa do Ibama entalada na garganta – pior que espinha de peixe – depois de ser flagrado por pesca ilegal em área de preservação. Anula a própria punição e, ao contrário, pune o fiscal. Gênio da vingança, Bolsonaro!

Por decreto, nos cem dias o sem governo extingue ou esvazia conselhos, comitês e comissões de participação popular, incluindo o Conselho Nacional do Meio Ambiente e o Fórum Brasileiro de Mudança do Clima, essa invencionice esquerdista (que Donald Trump também despreza, graças a Deus e a Olavo de Carvalho), conspiração comunista de quem adora fake news!

Ah, vá, mas tem notícia boa: o Bolsa Família ficará com o maior poder aquisitivo da sua história, festeja o ministro Osmar Terra, retuitado pelo presidente. Diz ele que isso equivale a um aumento de 8,3% neste ano, que será pago integralmente em dezembro. Quase três vezes mais que a inflação. Viva*!

(* Uai, mas o governo Bolsonaro não era contra o Bolsa Família, prezado ministro Osmar Terra? Não se tratava de um programa assistencialista, caçador de votos, sem porta de saída e perpetuador da miséria? Não votaram nesse presidente justamente pra acabar com isso? Roubou a bandeira da esquerda, capitão?)

Pula para outro assunto: “O nazismo é de esquerda”. Hmmm. Outro. “É possível perdoar o Holocausto, mas não esquecer”. Outro, por favor. “No Brasil nunca teve ditadura”. Passa. “O nosso voto na ONU será baseado na Bíblia”. Algo mais ameno. “O que é golden shower?”. Meu Deus, os neurônios Tico e Teco não se entendem na cabeça do presidente! Socorro!

Depois de passar pelo Amapá, Bolsonaro se manifestou: Era o único estado que não tinha visitado durante a campanha, segundo ele (reproduzido textualmente) “devido a facada quase fatal que sofri de um ex-integrante do PSOL, braço esquerdo do PT e PCdoB”.

Convenhamos que é uma canalhice associar a “facada quase fatal” a esses partidos. Somos críticos dos métodos da velha esquerda tanto quanto da direita ressurgida das catacumbas. Certas atitudes e golpes abaixo da linha da cintura são inaceitáveis. Baixo nível, petismo e bolsonarismo, tudo a ver! Isso atenta contra o bom senso e a verdade. Sem limites.

Sem governança, sem transparência, sem participação popular, sem controle social, sem cidadania, sem democracia. Cem anos de atraso em cem dias sem governo. E sem oposição, porque o Brasil segue dividido entre as duas bolhas ideologizadas e idiotizadas: uma falsa esquerda, corrupta, desnorteada e incompetente contra uma direita pseudo liberal, mas tristemente preconceituosa, truculenta e retrógrada. Assim não dá mais, talquei?

Mauricio Huertas, jornalista, é secretário de Comunicação do #Cidadania23 em São Paulo, líder RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do #BlogCidadania23 e apresentador do #ProgramaDiferente.

Fernando Exman: Cem dias, momento de reflexão e inflexão

A marca dos 100 dias do mandato do presidente Jair Bolsonaro chega, para autoridades do próprio governo, como uma oportunidade para a reflexão em relação ao que foi realizado até agora, como foi feito e o que precisa mudar. Algumas dessas mudanças já são palpáveis. Outras ainda estão em gestação, mas todas elas são consideradas essenciais por auxiliares do presidente para que o Executivo consiga melhorar a sua imagem entre os eleitores que não se consideram bolsonaristas e mantenha um ambiente de otimismo entre empresários e investidores.

A avaliação das realizações feitas nos primeiros 100 dias de governo é uma tradição americana e passou a ser utilizada como referência em outros países, inclusive no Brasil. No entanto, a efeméride acabou se transformando numa armadilha política que o próprio Palácio do Planalto criou e agora está tentando desarmar.

Em janeiro, no afã de esfriar o noticiário negativo sobre movimentações financeiras suspeitas envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente, a Casa Civil reuniu a imprensa para divulgar um conjunto de 35 metas prioritárias para os primeiros 100 dias de governo. Bolsonaro estava fora do país, participando do Fórum Econômico Mundial, em Davos, e de pronto o documento passou a receber críticas por não ter sido formatado com outras do governo e excluir a reforma da Previdência Social. Justamente a proposta – e promessa de campanha – mais aguardada pelo mercado.

Na prática, o governo acabava de criar uma referência para a cobrança de suas realizações. Com isso, facilitou o trabalho de uma oposição que até hoje se preocupa mais em discutir como se organizar no Congresso e manter a campanha de libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que monitorar para valer o trabalho do Executivo.

Deve-se ponderar que a divulgação da agenda pode ser defendida como um avanço na prestação de contas e transparência do setor público. Por outro lado, ela acabou levando o próprio governo a ter que transformar uma data que poderia ser de apresentação de resultados concretos em mais uma plataforma de anúncios e compromissos a serem efetivados.

Entre as metas divulgadas, algumas atenderam diretamente ao eleitorado bolsonarista, como o decreto que facilitou o acesso a armas, o projeto de lei anticrime e a retirada do Brasil do padrão de passaporte do Mercosul. Outras obtiveram – e com justiça – um reconhecimento mais amplo, como os leilões da área de infraestrutura e a redução de cargos de confiança na máquina federal.

No entanto, nesse período Bolsonaro preferiu apostar na defesa de pautas capazes de animar sua militância, mas que não tinham relação direta com as metas prioritárias de seu próprio governo. Essa mesma agenda acabou colocando a Presidência como alvo de críticas e no epicentro de uma série de polêmicas. Foi o que ocorreu, por exemplo, com as discussões sobre a orientação ideológica do nazismo, o comportamento do folião no Carnaval, a narrativa do golpe militar e até mesmo a utilidade do horário de verão.

Nesse ritmo, Bolsonaro acabará colocando entre suas prioridades outras bandeiras caras à ala ideológica de seu governo, como a substituição das urnas eletrônicas, o abandono das regras do acordo ortográfico e até mesmo o fim da tomada de três pinos. Corre o risco de perder a chance de investir seu capital político na necessária aprovação da reforma da Previdência.

Há no governo quem mire outras frentes de batalha. Não é à toa, portanto, que na área de comunicação do governo ocorre mais uma mudança, justamente às vésperas da marca dos 100 dias, com a alteração do perfil da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Antes focada na busca por irregularidades em contratos assinados por gestões anteriores, agora a Secom deve tratar de ampliar a audiência do presidente, que tem usado as redes sociais como principal plataforma de divulgação de suas ideias, projetos e realizações. Isso porque cresce a pressão no governo para que Bolsonaro use mais sua prerrogativa de presidente da República e aproveite a capilaridade da rede nacional de rádio e televisão para levar sua imagem e seu discurso a toda população.

Outra crítica interna feita à estratégia até então adotada foi a ausência de viagens nacionais na agenda do presidente, pendência que tende a ser resolvida em breve. Até o momento, Bolsonaro privilegiou viagens internacionais ou compromissos fora do Palácio do Planalto quase sempre relacionados às Forças Armadas. Agora, estão previstas uma viagem para Campina Grande (PB) e outra para a região Norte, onde poderão ser lançadas medidas concretas relativas às metas fixadas para os 100 dias, como o 13o salário para beneficiários do Bolsa Família e iniciativas para o desenvolvimento de tecnologias de dessalinização de água.

No Planalto, outro objeto de questionamento é o processo de tomada de decisão do presidente. “A gente acha que convenceu ele de manhã e à tarde volta tudo como antes”, lamenta um assessor.

O mandato de Bolsonaro está apenas no início. Há tempo suficiente para mudanças de rota, mas é preciso senso de urgência devido às preocupantes perspectivas de desaceleração da economia global e foco no que realmente importa: retomada do emprego e reativação da economia doméstica.

Ainda na época da transição entre os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, um experiente líder do Centrão projetava: o presidente eleito logo seria levado a entender que seu discurso contra os partidos políticos tradicionais fora útil na campanha eleitoral, mas poderia representar um entrava para seus planos no Congresso Nacional. “Em seis meses ele percebe, mas aí a conversa com a gente vai ser num patamar diferente”, dizia essa liderança. Levou menos tempo do que esperavam os líderes do Centrão. Bolsonaro os convidou para uma conversa no Palácio do Planalto depois de aproximadamente três meses de tomar posse. (Valor Econômico – 09/04/2019)

Fernando Exman é coordenador do “Valor PRO” em Brasília – E-mail: fernando.exman@valor.com.br