Brexit e União Europeia: O que muda? Veja análise de Joan del Alcázar

Em artigo publicado na revista Política Democrática online da FAP (Fundação Astrojildo Pereira), historiador diz que bloco deve buscar unidade (Foto: Reprodução)

“Há importante déficit de liderança na Europa, sobretudo se recordarmos os líderes que tivemos no passado”.

A avaliação é do historiador Joan del Alcázar, catedrático em História Contemporânea da América Latina da Universidade de Valencia, na Espanha. Em artigo produzido exclusivamente para a nova edição da revista Política Democrática online (veja aqui), ele analisa o Brexit, que é a saída do Reino Unido da União Europeia, e diz que os europeus deverão tomar medidas para reforçar as instituições continentais.

Com colaboração de renomados especialistas e pesquisadores, revista mensal Política Democrática online é produzida e editada pela FAP (Fundação Astrojildo Pereira), vinculada ao partido político Cidadania. Todos os conteúdos podem ser acessados de forma gratuita no site (www.fundacaoastrojildo.com.br) e na página da fundação no Facebook.

De acordo com Alcázar, em momentos como o atual, os cidadãos devem assumir suas responsabilidades e saber transmitir aos mais variados dirigentes políticos que não resta outra opção, a não ser reforçar a União Europeia.

“A Europa, mais concretamente o território da União Europeia, é a região mais habitável do planeta Terra, e com diferenças, como verificaram todos e cada um dos que viajaram a qualquer outro continente nas últimas décadas”, analisa o autor, em outro trecho.

Considerando a segurança na cobertura social e a cultura de liberdades individuais como parâmetro, conforme o artigo publicado na revista Política Democrática online, a Europa permite uma qualidade de vida a seus cidadãos superior à de qualquer outra região.

“Infelizmente, como deixou patente nas últimas eleições britânicas – além dos resultados tanto para a Escócia como para a Irlanda do Norte –, a ideia da unidade europeia não é tão hegemônica como nos conviria”, afirma o historiador.

Segundo o autor, essa unidade é necessária, imprescindível, e não só para os cidadãos.

“Fez-se evidente na Cúpula do Clima, reunida em Madri, apesar dos desacordos sobre a obrigação de endurecer a redução de emissões”, escreve ele.

Alcázar também é autor de diversos livros, dentre os quais “Política y utopia en América Latina – las izquierdas en su lucha por un mundo nuevo” (Tirant humanidades, València, 2019). Além disso, ele é responsável pelo blog El cronista periferico (elcronistaperiferico.blogspot.com).

Todos os artigos desta edição da revista Política Democrática online serão divulgados no site e nas redes sociais da FAP ao longo dos próximos dias. O conselho editorial da publicação é composto por Alberto Aggio, Caetano Araújo, Francisco Almeida, Luiz Sérgio Henriques e Maria Alice Resende de Carvalho. (Cleomar Almeida/Assessor de Comunicação da FAP)

Monica De Bolle: A vingança

Foi o rei Jaime I quem estabeleceu a primeira colônia norte-americana no início do século 17 nas terras da Virgínia. Jaime I ascendeu ao trono da Inglaterra em 1603 e em 1607 já era claro que enxergava-se como o “pai de todos os habitantes da Virgínia” – a palavra “colônia” não havia ainda sido introduzida para designar a ocupação inglesa. O termo usado era “plantação”, não apenas devido à principal atividade econômica da região, mas porque Jaime I via a Virgínia como a (im)plantação da Inglaterra na “América”.

Cerca de 400 anos se passaram até Donald Trump pousar triunfante na ilha desmazelada pelas agruras do Brexit, dessa vez para uma visita de Estado com toda a pompa e circunstância que tais eventos requerem. É claro que há protestos espalhados por Londres, é evidente que o banquete oferecido pela rainha contou com notáveis ausências. É também óbvio que os desafetos de Trump, entre eles o prefeito de Londres e membros do Partido Trabalhista (Labour Party) tenham proferido palavras de profundo desagrado com a presença de Trump e de contrariedade à maneira como está sendo recebido.

A visita de Trump parece espécie de fechamento de um ciclo para o reinício de outro que, ao que tudo indica, será a evolução do primeiro. O voto a favor do Brexit foi desferido há quase exatos três anos, em junho de 2016. Poucos meses depois, em novembro do mesmo ano, Donald Trump seria consagrado nas urnas norte-americanas. Não é irrazoável pensar nesses dois eventos como os marcos do ressurgimento do populismo-nacionalista que desde então se tornou quase endêmico, quase fetiche. Se o Brexit se revelou absoluto desastre político para o Reino Unido, com a desintegração do Partido Conservador e a degradação do Partido Trabalhista, expondo todo tipo de incompetência de, o mesmo não pode ser dito de Donald Trump, ainda.

Por mais que Trump tenha virado de cabeça para baixo a política externa americana, aproximando-se da Rússia, da Hungria, e até da Coreia do Norte, além de brigar abertamente com aliados impondo-lhes tarifas de importação como espécie de sanção econômica ou solução para todos os males, os Estados Unidos permanecem com força. Força geopolítica, força econômica. É claro que a guerra comercial com a China e as ameaças ao México e ao funcionamento da poderosa máquina produtiva que opera na América do Norte graças ao Nafta e ao seu eventual acordo sucessor, o USMCA, ainda podem ter graves repercussões econômicas para os EUA. Mas Trump é sujeito que vive intensamente o momento. E, o momento atual lhe agrada, independentemente das investigações que o perseguem.

Tanto lhe agrada que ele soube desferir o golpe mais certeiro apesar das palavras proferidas pela rainha durante o banquete, por alguns políticos, pela ainda primeira-ministra Theresa May. Todos esses fizeram questão de frisar a importância do multilateralismo, o papel dos EUA como guardião da geopolítica, como um dos principais países responsáveis pela preservação da ordem mundial concebida no pós-guerra. Nada disso, entretanto, interessa Donald Trump. O presidente norte-americano está, nesse exato momento, interessado em duas coisas e duas coisas apenas: nas eleições presidenciais de 2020 nos EUA e na tentativa de transformar o Brexit sem acordo com a União Europeia – o chamado “hard Brexit” – um sucesso. Essas duas coisas não são exatamente separáveis: o sucesso em garantir o Brexit sem acordo é por ele visto como a vitória de sua marca populista-nacionalista peculiar, aproveitando para, com ela, mandar recados claros para esses globalistas que ainda pululam na Europa e torcem para ele o nariz. Para além de outras mensagens, seria essa vitória outro aceno para a sua base, antecipando os temas de campanha. Para os defensores do Brexit a qualquer preço, o gesto de Trump de mostrar-se aberto a um acordo de livre-comércio com o Reino Unido é música angelical, além de espetacular gesto obsceno para o continente.

Intitulei este artigo de “A vingança”, mas é claro que Trump não quer dar o troco em Jaime I. Quiçá nem sequer saiba quem foi o monarca, ou se sabe, pouco deve lhe interessar. Contudo, não deixa de ser vingança o fato de que 400 anos após Jaime I inaugurar as colônias na Virgínia, Trump esteja prestes a tornar o Reino Unido absolutamente dependente dos EUA. De Brexit para Trump para a colonização às avessas nos moldes populistas-nacionalistas do século 21. (O Estado de S. Paulo – 05/06/2019)

MONICA DE BOLLE, ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY