William Waack: O peso das memórias

Não funcionou a tática das duas campanhas de apelar ao esquecimento

Na fase final da corrida eleitoral as campanhas se dedicam também à supressão de duas memórias coletivas. Ambas de altíssimo conteúdo emocional.

Por parte de Lula, é a tentativa de apagar da recente memória coletiva os enormes escândalos de corrupção do período petista. Esforço até aqui malsucedido: a rejeição de Lula subiu nas últimas semanas.

Por parte de Bolsonaro, é a tentativa de apagar da recente memória coletiva a dor e o sofrimento trazidos pela pandemia. São sentimentos de forte impacto sobretudo no eleitorado feminino. Esforço também malsucedido: a rejeição de Bolsonaro “melhorou”, mas continua superior à de Lula.

O que explica o empenho de duas campanhas profissionais em tentar relativizar acontecimentos bastante recentes de tamanhas amplitude e relevância?

Provavelmente o apego à convicção, nos operadores políticos profissionais, de que a essência da política é fazer a própria narrativa prevalecer, impedindo que a do adversário se sobreponha. Isso é tão velho quanto a política, mas parece ter assumido significância ainda maior no atual “espírito de nossa época”, que é o da criação de “fatos alternativos”.

O problema é o choque dessas táticas político-eleitorais com a realidade, pois parecem ter apostado numa monumental dissonância cognitiva coletiva. As duas campanhas aparentemente menosprezaram o peso de acontecimentos históricos cujo alcance se mostrou bem superior à capacidade de gerar “fatos alternativos”, mesmo com a predominância de redes sociais.

No caso de Lula, é o fato de que uma enorme parcela da população enxerga a corrupção como o pior problema do País e viu na Lava Jato uma resposta aos poderosos que sempre escapavam da Justiça. Ela não é vista como simplesmente uma operação policial ou vingança contra Lula: é encarada como evento a ser celebrado, não importa que erros possa ter cometido.

No caso de Bolsonaro, os mortos da pandemia pesam não só pelos números horríveis, mas, sobretudo, pela gritante falta de empatia frente ao sofrimento de centenas de milhares de famílias. É algo tão profundo, esse tipo de sentimento, que mal se consegue expressar em palavras – mas a rejeição é o sintoma. Ela traduz a falta do gesto de carinho, do abraço, da lágrima dividida com quem perdeu alguém.

É claro que na decisão do eleitor impactam fatores comuns a qualquer eleição em qualquer lugar, tais como economia, ideologias, valores, religião. E tudo se funde num tipo de emoção, em geral de esperança. No caso do Brasil, prevalece o medo. Nenhuma das duas campanhas conseguiu escapar da frase “teu passado te condena”. (O Estado de S. Paulo – 20/10/2022)

William Waack, jornalista e apresentador do programa WW, da CNN

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