Como entender o momento atual?

O Campo Democrático está diante de alguns desafios tremendos. Primeiro, ele precisa reconhecer que a crise institucional brasileira avançou muito. A redemocratização nos frustrou. O Governo FHC nos legou uma reeleição catastrófica: ontem, assistimos à recondução, em primeiro turno, de nada mais nada menos do que 14 governadores ao poder. Foi um grande desserviço prestado à Democracia pelo ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, que legislou em causa própria inclusive. Sem contar o boicote sistemático promovido pelo Partido dos Trabalhadores e o lulismo contra as instituições: sabotagem do Colégio Eleitoral em 1984, desprezo pela Constituição de 1988, práticas nefastas como aquelas encarnadas no mensalão e na corrupção desenfreada. Reverter isso agora, nas três semanas que nos separam das eleições no segundo turno, é uma tarefa complicada.

De outra parte, o Campo Democrático não está entendo as alterações que se processam no terreno das forças produtivas. É espantoso ver como o bolsonarismo obteve resultados eleitorais positivos nas áreas mais avançadas da economia brasileira. O PT ganhou nos grotões; é a nova Arena, quase. Precisamos encarar isso. O agronegócio, por exemplo, foi atacado o tempo todo pelo lulopetismo, quando, na verdade, representa o setor mais dinâmico da nossa economia hoje. Para alguns, a solução parece estar no Jeca Tatu. Apostou-se no pré-capitalismo contra o capitalismo. E por aí fomos. Deu no que deu.

Nunca é demais lembrar que o nazismo explodiu no país mais desenvolvido e culto da Europa naquele momento. Ou seja, na Alemanha. Mas a pátria de Goethe e Marx era também aquela que apresentava suas instituições em frangalhos. A Inglaterra era igualmente desenvolvida e culta (afinal, a Revolução Industrial eclodira por lá e o poeta William Shakespeare também). Mas, suas instituições liberais-democráticas conseguiram barrar a sanha autoritária. Que sirva de lição para nós, sobretudo neste momento.

Sem nos debruçarmos sobre a nova economia, que tem na automação e no trabalho por contra própria duas áreas muito sensíveis, não iremos a parte alguma mais. O mesmo vale para a defesa intransigente do quadro democrático. Um campo político que se reivindica do progressismo não pode, de maneira alguma, apoiar ditaduras de quinta categoria como aquelas da Nicarágua e da Venezuela, dirigidas por delinquentes. Adolfo Hitler representava isso: o lumpesinato, a ascensão dessa escória ao poder. Não há tortura de direita, nem tortura de esquerda: o que existe é tortura. Mais: a corrupção está para a economia como a tortura está para a política. 

O Campo Democrático, independentemente dos resultados das eleições presidenciais neste segundo turno, em outubro, tem que fazer uma reflexão profunda sobre muitos aspectos da nossa trajetória, pelo menos desde a redemocratização para cá. Repensar o papel do trabalho, entender melhor como combinar direitos sociais e direitos individuais, atentar para o papel do fator religioso. A sociedade está mudando, sinalizando para algo novo e os  partidos políticos não estão percebendo.

Ivan Alves Filho, historiador, documentarista e jornalista, autor de 20 livros em que se destacam Memorial dos Palmares, História Pré-Colonial do Brasil, Brasil, 500 anos em documentos, Velho Chico mineiro, O historiador e o tapeceiro, O caminho do alferes Tiradentes e A saída pela Democracia

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