Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (03/06/2022)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

PIB cresce 1%, mas incertezas podem frear alta
Ala política quer usar decreto de calamidade
Ciência estuda superimunes ao coronavírus
Teto do ICMS abalaria piso dos professores
Número de ataques racistas a crianças aumenta no Rio
Guerra na Ucrânia chega aos 100 dias sem fim à vista

O Estado de S. Paulo

PIB avança 1% no 1º trimestre; projeção para o ano melhora
Senadores sugerem a Fux ouvir Exército sobre real intenção de Bolsonaro
Ministério decide liberar 4ª dose da vacina para maiores de 50 anos
Bolsonaro pressiona Guedes por decreto de calamidade
Reserva para compra de ações da Eletrobras começa hoje
Famílias tentam resgatar parentes na Cracolândia em dispersão
Junho chegou para tirar a poeira das festas, após dois anos
Rússia já controla 20% do território da Ucrânia

Folha de S. Paulo

Governo Bolsonaro inunda reduto aliado de ambulâncias
PIB sobe 1% no 1º trimestre, mas cenário do ano preocupa
Presidente acomoda seu médico pessoal em órgão brasileiro nos EUA
Kassio derruba decisão do TSE que cassou bolsonarista
Próximos 4 anos serão de colheita, afirma Flávio
Criança é baleada no Rio comprando pipoca com a mãe
Tímido, Genivaldo queria fazer do filho um doutor
Cracolândia tem nova operação após tumulto
Guerra da Ucrânia chega ao centésimo dia em sinal de como acabará

Valor Econômico

Economia cresce, mas quadro adverso ameaça o 2º semestre
Risco fiscal aumenta e puxa juros
Grupo Sonae negocia fatia em shopping
Real digital ganha seus contornos
PEC permite parlamentares em embaixadas

EDITORIAIS

O Globo

PIB confirma desalento da economia

Na ponta do lápis, a atividade econômica está 1,7% abaixo do ponto mais alto já registrado

Os resultados do PIB do primeiro trimestre corroboram o desalento que se abate sobre a economia brasileira no final do governo Jair Bolsonaro. É certo que o Brasil continua a crescer, mas a mistura de incerteza eleitoral, inflação, petróleo em alta e um cenário global em desalinho revela o custo elevadíssimo a que o país está sujeito pela dificuldade em enfrentar os problemas que impedem um crescimento mais robusto — os mesmos que o assombram há décadas.

Na ponta do lápis, a atividade econômica está 1,7% abaixo do ponto mais alto já registrado, no primeiro trimestre de 2014. Isso significa basicamente oito anos sem engatar um ritmo minimamente aceitável de crescimento, período em que a população aumentou, e o mundo não ficou parado. O retorno da inflação a um patamar superior a 10% só contribuiu para tornar o brasileiro ainda mais pobre. É essa a realidade visível nas ruas das nossas cidades.

Quem olha a curva do PIB acumulado em quatro trimestres observa nitidamente que o número registrado em março (4,7%) parece representar o pico da recuperação pós-pandemia. Sinais de esgotamento foram captados em diversos setores: agropecuária, indústria de máquinas e aparelhos elétricos, metal, plásticos, borrachas, móveis ou farmacêuticos. O ímpeto positivo que manteve o crescimento veio do setor de serviços, com a retomada das atividades presenciais. Obviamente é algo que não se repetirá — e nada significa em termos de perspectivas.

Talvez o dado mais preocupante seja a queda na taxa de investimentos, de 19,7% do PIB para 18,7% — quando o mínimo necessário para o país recuperar infraestrutura e competitividade está em torno de 25%. Jamais atingimos esse ponto, mas a recuperação que se desenhava desde o terceiro trimestre de 2020 se inverteu, em razão da incerteza política e do ambiente cronicamente inóspito para negócios.

Seria fácil e confortável atribuir a Bolsonaro toda a responsabilidade pelos resultados decepcionantes. Ele certamente haverá de pagar o preço nas urnas, já que inflação e economia são apontadas como principais preocupações do eleitorado. Seria fácil e confortável, mas injusto. Apesar da tentativa descabida de intervir na Petrobras e nos mercados de energia, Bolsonaro não é culpado pelo choque do petróleo, pela desaceleração global ou pela inflação externa. Tudo isso é resultado do conflito na Ucrânia, da queda da demanda chinesa e do choque logístico provocado pela pandemia. Sua responsabilidade não é muito distinta da que cabe a vários antecessores: ele foi incapaz de promover uma agenda que tornasse o Brasil um país acolhedor para investimentos e de tornar nossa economia mais vibrante e inovadora.

É uma agenda que todos conhecem de cor. Inclui privatizações, reformas tributária e administrativa, desburocratização e modernização das relações trabalhistas. Também inclui investimentos em educação básica, produção de conhecimento científico e tecnologia. Inclui, por fim, uma visão estratégica capaz de entender as vantagens comparativas do Brasil — entre elas, preservação ambiental e agronegócio — e de promover uma inserção inteligente do país num cenário global desafiador. Em 2018, Bolsonaro enganou muita gente com um programa de governo que prometia fazer deslanchar parte dessa agenda e, uma vez no poder, fez muito pouco ou retrocedeu. Em 2022, não engana mais ninguém.

O Estado de S. Paulo

É isto um democrata?

Lula pretende se apresentar como ‘salvador da democracia’ no País, mas sua natureza autoritária seimpõe, ao debochar do PSDB e da inteligência do eleitor

Há poucos dias, diante de simpatizantes reunidos em um teatro da capital paulista, o ex-presidente Lula da Silva decretou o fim do PSDB, com ar de deboche. “Um senador do PFL disse uma vez que era preciso acabar com a ‘desgraça do PT’, o Jorge Bornhausen. O PFL acabou. Agora, quem acabou foi o PSDB”, disse o eterno candidato petista à Presidência.

Eis aí a natureza de Lula em seu esplendor. O chefão petista diz e repete que pretende ser líder de um amplo movimento suprapartidário para nada menos que “salvar a democracia”, mas, quando está entre os seus, deixa claro o que entende por “democracia”: um regime em que o PT governa sem oposição.

Um genuíno democrata, especialmente quem se arvora em líder insubstituível de uma formidável “frente ampla” pela democracia, jamais celebraria o fim de um partido. E não é o fim de um partido qualquer, mas um que desde sua fundação, em 1988, legou à sociedade brasileira um vistoso conjunto de conquistas civilizatórias como poucos partidos jamais farão. O PT de Lula sempre negou todas essas conquistas.

Mais tarde, talvez advertido por assessores sobre a gravidade dessa agressão gratuita, especialmente no momento em que tenta atrair o apoio de lideranças tucanas para sua candidatura, Lula tentou contemporizar, afirmando que o Brasil “era feliz quando a polarização era entre PT e PSDB”. Segundo o petista, tratava-se de uma relação “civilizada”. Nada mais distante da realidade.

Quando estiveram na oposição, os petistas pediram o impeachment do tucano Fernando Henrique Cardoso e sabotaram os esforços para estabilizar a economia, resumidos no Plano Real. Em São Paulo, são inesquecíveis as imagens da agressão física cometida por militantes petistas contra o então governador de São Paulo, Mário Covas, em junho de 2000. “Eles (os tucanos) têm de apanhar nas ruas e nas urnas”, disse à época o prócer petista José Dirceu. O Brasil não era feliz e sabia.

Uma vez no poder, Lula inventou que havia recebido uma “herança maldita” dos governos tucanos, criando um inimigo para levar a culpa por todos os problemas e, de quebra, excitar a militância petista contra qualquer forma de oposição. Não há malandragem discursiva capaz de mudar essa história – que, de resto, está na gênese do esgarçamento das relações sociais que culminaram com a desmoralização da política como meio de concertação democrática no Brasil. Triunfou o vale-tudo.

Fosse Lula um candidato nanico, nada disso teria muita importância. Mas o petista é o líder das pesquisas de intenção de voto e aparece hoje como favorito para vencer a eleição de outubro, razão pela qual tudo o que diz sinaliza o que potencialmente está por vir. E a perspectiva é sombria.

O perigo de uma eventual vitória de Lula não se manifesta somente nos momentos em que reafirma sua vocação autoritária. Preocupa igualmente sua visão tacanha de mundo. Em vários momentos, Lula parece que está disputando a direção de um centro acadêmico, não a Presidência da República.

Num discurso constrangedor, disse que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, “nunca fez um discurso para dar 1 dólar para quem está morrendo de fome na África” enquanto destina US$ 40 bilhões à Ucrânia para “comprar armas”. Imagine-se o regozijo da militância petista, para quem os Estados Unidos são o que há de pior no mundo, mas o pior ainda estava por vir: na sequência, Lula prometeu cancelar a privatização da Eletrobras e ainda sugeriu que as empresas privadas querem se apropriar não só da energia, mas “das águas dos nossos rios”.

Num mesmo fôlego, Lula – que se apresenta ao País como “democrata” e que se pretende “moderno”, em contraste com o atraso bolsonarista – exercitou o mais retrógrado antiamericanismo, demonstrou profunda ignorância sobre a agressão criminosa da Rússia contra a Ucrânia, ameaçou romper contratos de privatização e, de quebra, caracterizou investidores privados como piratas insaciáveis dos recursos naturais do País.

Esse é o Lula – irredutível demagogo e incorrigível autoritário – que quer ser visto como o redentor do Brasil.

Folha de S. Paulo

Ameaças eleitorais

Tensão política leva PF a adotar plano para proteger os candidatos a presidente

A campanha eleitoral nem começou, mas o cenário de tensão política já provoca notícias incômodas acerca do pleito de outubro.

Na terça-feira (31), a Polícia Federal apresentou um esquema de proteção inédito para os candidatos à Presidência da República. Entre outros pontos, planeja-se criar um grupo de inteligência e definir uma metodologia para identificar riscos a cada um dos postulantes.

Reportagem desta Folha mostrou como a preocupação com a segurança tem levado o PT a adaptar as agendas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Uma semana antes, soube-se que uma palestra a ser realizada em Bento Gonçalves (RS) foi cancelada porque, após pressão de bolsonaristas, a organização do evento passou a temer pela segurança do conferencista —ninguém menos que Luiz Fux, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal).

O pano de fundo comum aos episódios é a polarização entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro (PL). Os dois, segundo o mais recente Datafolha, mantêm folgada distância dos demais competidores.

Sozinha, contudo, essa variável não explica muito. Diversas disputas presidenciais entre o PT e o PSDB começaram e terminaram sem que o nível de preocupação com a truculência de manifestantes chegasse aos patamares atuais.

O que mudou? Para a PF, ao menos dois elementos são novos: o histórico do pleito de 2018, quando Bolsonaro levou uma facada, e a ampla disseminação das redes sociais, que não só ampliam os canais de mobilização como estimulam um clima de hostilidade.

A agressividade que o próprio presidente da República alimenta contra instituições poderia ser acrescentada a essa equação.

Não se pode menosprezar o retrocesso representado por esse clima de violência. Ele ameaça uma grande qualidade da democracia, que é permitir disputas pelo poder e resolvê-las de forma pacífica.

Se há uma boa notícia nesse quadro é que a PF se mostra disposta a agir. Espera-se que ela e todas as forças de segurança cumpram o compromisso constitucional de preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do patrimônio, mantendo-se distantes das paixões políticas.

Valor Econômico

Queda de investimento limita avanço do PIB a 1%

É muito provável que o avanço do primeiro trimestre será o maior do ano

O desempenho da economia no primeiro trimestre de 2022 foi bom: o PIB cresceu 1% em relação ao último trimestre de 2021 e 1,7% ante o primeiro do ano passado. As previsões pessimistas do início do ano, de pequena expansão ou mesmo recessão não se confirmaram, mas, por outro lado, a dificuldade em crescer permanece intacta em um resultado que ainda não reflete aumentos de 10,75 pontos percentuais na taxa básica de juros. É muito provável que o avanço do primeiro trimestre será o maior do ano. Ao transmitir impulso maior para os três meses seguintes, o PIB do ano poderá ser semelhante à média medíocre dos últimos anos, 1,5%.

A expectativa para o segundo trimestre, segundo pesquisa feita com 82 instituições pelo Valor, é de crescimento de 0,4%. O que acontecerá no segundo semestre explica a gangorra recente das previsões. Para os analistas, o PIB de 2022 será melhor do que o antevisto, mas as expectativas para o do próximo ano foram bastante rebaixadas. Fatores negativos em série podem levar a economia para dois trimestres de retração a partir de julho.

O PIB cresceu puxado por serviços, especialmente outros serviços (hotéis, restaurantes etc, com peso de 21,9% no setor) e transporte, armazenagem e correios. Houve a normalização do setor mais atingido pela pandemia nos últimos dois anos, após a disseminação das vacinas e o fim das restrições à mobilidade. Porém grande parte das atividades de serviços são dependentes da evolução do emprego e dos salários. Enquanto o primeiro melhora (10,5% no trimestre encerrado em abril), o segundo só piora – queda de 8% em 12 meses. Não é possível esperar um fôlego maior dos serviços diante do recuo salarial, que tende a ser acentuado pela própria recomposição de preços do setor, que caminha para os dois dígitos.

Os mesmos fatores, e outros mais, afetam negativamente o consumo das famílias, que avançou 0,7% no primeiro trimestre e 2,2% em relação ao mesmo período do ano passado. O consumo depende não só da renda, mas também da capacidade de saldar ou não compromissos financeiros assumidos (grau de endividamento e inadimplência) e da oferta de crédito a preço acessível. O endividamento não é pequeno, a inadimplência não é baixa e os juros dispararam. Há três trimestres a evolução do consumo é a mesma, 0,8%-0,7%.

O PIB do primeiro trimestre não mostrou uma composição promissora. A demanda doméstica, na verdade, caiu 0,3%, enquanto que a do setor externo somou 1,32 ponto percentual do resultado, calcula Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do Goldman Sachs. Os investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo) recuaram 3,5%, mesmo com a soma positiva da variação de estoques (R$ 29,9 bilhões, a maior desde os primeiros três meses de 2021). O consumo privado aumentou 0,4 ponto.

Não há motivos para esperar uma reação razoável dos investimentos diante das incertezas conjugadas de eleições presidenciais, aumento dos juros internos e aperto monetário nos principais países desenvolvidos. Segundo o BIS, de 38 BCs, mais de 60% passaram a subir juros entre o fim de 2021 e maio deste ano (Valor, ontem). Incluído o BCE, 80% dos países do G-20 estão em ciclo de restrição monetária. Com isso, a atividade econômica global deve desacelerar, com a contribuição importante da China, assim como se tornará mais difícil financiar investimentos com dívida externa, no caso de países emergentes.

A desaceleração global pode também suavizar os preços das commodities, um dos principais impulsos ao crescimento em 2022 (Ricardo Barboza e Bráulio Borges, “O PIB comoditizado”, Valor, 17-5). Além disso, a interrupção de fornecimentos que abala as cadeias produtivas, tanto pelo choque da guerra como pelas paradas súbitas no coração industrial do mundo, a China, ajudam a retardar a tímida recuperação da indústria de transformação no Brasil (1,4% no primeiro trimestre). O choque climático antes, e agora o aumento de preços e possível escassez relativa de insumos para a próxima safra agrícola (especialmente fertilizantes) devem retirar vigor futuro da agropecuária, em queda há três trimestres consecutivos.

O governo tem dado estímulos eleitorais de curto prazo, enquanto prepara encrencas de longa duração, como intervenções nos preços dos combustíveis, que provavelmente se esgotarão antes das eleições. Seja quem for vencedor, terá de enfrentar sem mágicas o desafio do baixo crescimento.

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