Adelson Vidal Alves: O racismo em perspectiva histórica

No século XVIII, Lineu classificou as raças humanas em quatro: europeus, americanos, asiáticos e africanos. No mesmo século, o antropólogo Johann Blumenbach acrescentou mais uma raça, a raça malaia. Blumenbach não chegou a ser um racista, apesar de considerar os caucasianos (o termo é dele) uma raça mais bonita. Somente no século XIX é que o racismo, enfim, ganha suas bases científicas, embora a obra fundadora não tenha vindo de um grande cientista, mas de um aristocrata francês. Em 1855, Arthur de Gobineau, que foi embaixador francês no Brasil, publicou “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” onde propunha a divisão racial da espécie humana em branca, amarela e negra. O diplomata considerava que o fracasso de impérios e nações estava associado a misturas raciais, que proporcionavam degeneração. Gobineau tratava os arianos (raça branca) como a raça superior.

Dai em diante, apareceram cientistas dispostos a referendar as afirmações de Gobineau. Entre os destacados do racismo científico, podemos citar o médico americano Samuel Morton, que reuniu uma ampla coleção de crânios humanos para depois classifica-los racialmente, atribuindo características hierárquicas a cada uma das raças que identificou. Na verdade, mais do que raças, ele acreditava que os variados grupos humanos na verdade seriam espécies distintas.

A raça superior, segundo Morton, seria a dos europeus “os mais belos habitantes da terra”, enquanto os negros ocupariam a parte mais baixa da hierarquia racial por “terem pouca inteligência”, só conseguirem obter “capacidades imitativas” e aprenderem “artes mecânicas”. Morton foi referência para vários estudos durante muito tempo, e só foi desacreditado com a publicação de “A falsa medida do homem”, em 1981, do biólogo Stephen Jay Gould, que detalhou os erros na medição craniana do médico da Filadélfia.

Eugenia e a perversão humana

Francis Galton era primo de Charles Darwin, autor do revolucionário A origem das espécies. O antropólogo e matemático inglês trouxe grandes contribuições científicas, sobretudo no que toca ao campo das estatísticas. Seu nome estaria entre os grandes cientistas da humanidade, não fosse um deslize que cometeu em sua vida intelectual. Foi ele o fundador da eugenia – teoria que defende a seleção dos melhores humanos na criação raças superiores.

Galton acreditava que seria possível construir uma humanidade melhor selecionando a reprodução humana. Seria preciso selecionar os geneticamente superiores e incentivar a reprodução desses. Ainda que hoje saibamos o quanto mal a eugenia fez ao mundo, é uma injustiça atribuir toda a culpa a Galton. Refletindo com os valores do seu tempo, ele só pensava em como fazer a humanidade se aperfeiçoar através de seleção reprodutiva das raças. Dificilmente ele apoiaria os horrores cometidos em nome da sua ciência.

É que muitos cientistas e pensadores resolveram levar para a prática as ideias de Galton, no estilo mais bárbaro da perversão humana. Um dos nomes destacados é do conservacionista Madison Grant, autor de “A morte da grande raça”. Ele defendeu a superioridade da raça branca, e a necessidade de construir nações fortes partindo da criação de uma raça superior, conforme sua visão racial. Seu pensamento foi tão nocivo à humanidade que o mais ilustre de seus leitores era nada mais nada menos que Adolf Hitler, que classificou o livro de Grant como “minha bíblia”. Na prática, a eugenia produziu esterilizações cruéis de pessoas consideradas inferiores (incluindo crianças), promoveu leis anti-imigração, segregação e no seu ápice, justificou o terror do Nazismo.

O novo racismo científico

As teses do racismo científico estão desacreditadas, como veremos adiante. No entanto, há quem persista com teses de que raças humanas existem. Recentemente, o biólogo molecular James Watson, que ajudou a descobrir a estrutura molecular do DNA no Projeto Genoma, declarou ao jornal The Sunday Times “ser pessimista sobre a África porque as políticas ocidentais para os países africanos eram, erroneamente, baseadas na presunção de que os negros seriam tão inteligentes quanto os brancos quando, na verdade ‘testes’ sugerem o contrário. Disse também que “pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdadeiro”[1]. E disse mais: “Não há nenhuma razão sólida para antecipar que as capacidades intelectuais de pessoas geograficamente separadas em sua evolução provem ter evoluído de forma idêntica” (…) Nosso desejo de reservar poderes iguais de raciocínio como alguma herança universal da humanidade não será suficiente para fazer com que assim seja”[2] [2].

O cientista americano voltou atrás em suas declarações, mas não por convicção. Depois de sua entrevista ele perdeu palestras, foi afastado do laboratório onde trabalhava e foi duramente criticado por vários de seus colegas. Não é mera especulação imaginar que Watson acredita na existência de raças, temos motivos para isso ao pesquisarmos outras declarações suas.

Só que a ousadia maior dos nossos tempos no campo da ciência das raças não veio de um cientista profissional, mas de um jornalista científico. O inglês Nicolas Wade publicou o livro “Uma herança incômoda: genes, raça e história humana”. Nele, Wade defende que raças não são construções sociais, mas uma realidade biológica. Ele separa as raças humanas em cinco: caucasianos, asiáticos orientais, aborígenes australianos, americanos nativos e africanos. Mais do que isso, ele indica que a existência de raças biológicas interferiu na construção de instituições e nos rumos da história. Sua tese é de que, ao serem pressionadas pelo ambiente e a seleção natural, as raças humanas desenvolveram capacidades e comportamentos sociais distintos, o que fez com que alguns povos desenvolvessem organizações de sociedade mais complexas e prósperas, como os europeus e os asiáticos, enquanto outros mal conseguiram sair de suas tribos, como os africanos. Ainda que rejeitando categoricamente ser racista, Wade ofereceu aos racistas sólidos argumentos para seguirem com suas teses de ódio e intolerância.

A ciência contra o racismo

A ciência da raça forneceu bases para as ideologias mais desumanas que apareceram na história moderna e contemporânea. Regimes políticos como o Apartheid e o Nazismo baseavam-se na crença inabalável da existência de raças inferiores e superiores entre os humanos. Contudo, tais crenças não fazem o menor sentido nos dias atuais, a se julgar pelas pesquisas mais completas e conclusivas da genética moderna.

O mito da raça começou a ser desmontado no ano de 1972, pelo geneticista populacional Richard Lewontin. Em seus trabalhos, o cientista americano demonstrou que as diferenças humanas são mínimas para podermos afirmar a existência de diferentes unidades biológicas. Ele afirmou: “De toda a variação humana, 85% é entre as pessoas individuais dentro de uma nação ou de uma tribo”, concluindo que “as raças humanas e os indivíduos são notadamente similares entre si”. Depois de Lewontin, outros testes genéticos vieram para corroborar os resultados de suas pesquisas.

A verdade científica é que raças humanas não existem, pelo simples fato de que raças só poderiam existir caso nossa espécie tivesse sido exposta a evolução de coletivos humanos isolados, sob a mesma pressão evolutiva ambiental. Como isso não aconteceu, as diferenças biológicas entre os vários grupos da espécie Homo Sapiens são insignificantes e insuficientes para definirem raças humanas.

Se raças não existem na natureza, por que o racismo e o uso do termo ainda persistem? O conceito de raça saiu do dicionário biológico para entrar no dicionário sociológico. Ele é usado basicamente na formulação de políticas afirmativas e os movimentos que defendem tais políticas reformulam identidades relacionando a ideia de raça com a de cultura.

No Brasil, o movimento negro vem pressionando o poder público na elaboração de políticas públicas especificas em direção ao povo negro. Seria uma forma de reparação histórica ao período de escravidão que essa “raça” sofreu em pelo menos quatro séculos de nossa história. O grande problema, aqui, é que tais políticas não fazem sentido na realidade mestiça brasileira, e em geral, perpetuam a falsa ideia de divisão racial.

É comum que muitos estabeleçam traços culturais como forma de construção de identidade, transferindo a consciência nacional brasileira para continentes raciais, especialmente a África. Os brasileiros não seriam pessoas de pele negra que nasceram no Brasil, mas filhos de uma diáspora racial. De alguma forma, os racialistas de hoje cometem o mesmo mal do racismo científico, principalmente por insistirem em separar humanos em famílias raciais. Assim, alimentam o racismo. Nas palavras do já citado Richard Lewontin: “A classificação racial humana não possui valor social e é positivamente destrutiva para as relações sociais e humanas”.

A história do racismo penetrou as ciências naturais e foi capaz de marcar grupos humanos com uma falsa e discriminatória hierarquia moral e intelectual. Mas pela ciência moderna tem seu estatuto científico cancelado, anulando qualquer legitimidade nas narrativas da diferença, seja pelos racistas ou pelos que defendem políticas afirmativas. A solução para uma sociedade tolerante só pode ser a universalização das políticas públicas e da quebra de todas as falsas barreiras erguidas em nome do mito da raça. (Horizontes Democráticos – 10/05/2022 https://horizontesdemocraticos.com.br/o-racismo-em-perspectiva-historica/)

Referencias:

FRY, Peter. A persistência da raça: Ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África Austral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2005.

MAGGIE, Yvonne. Divisões perigosas: Políticas raciais no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 2007.

MAGNOLI, Demétrio. Uma Gota de Sangue: História do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009.

WADE, Nicholas. Uma Herança Incômoda: Genes, raça e história humana. São Paulo: Três Estrelas, 2014.


[1] Cf. https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/nobel-da-medicina-choca-geneticistas-ao-afirmar-que-negros-sao-menos-inteligentes-4147567, 17/10/2017.

[2] Cf. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1810200703.htm, 18/10/2017.

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