Veja as manchetes e editoriais dos principais jornais hoje (09/02/2022)

MANCHETES DA CAPA

O Globo

Avança no Congresso PEC com impacto de R$ 100 bi
Um ‘basta’ às falsas acusações a negros
Defesa do direito a partido nazista saiu cara
‘Despacho interno’ nos Alpes
Fuga de cérebros do Brasil virou ‘diáspora’
Na pandemia, cresce 66% o número de crianças analfabetas
Ben-Hur Ferraz Neto – ‘O fígado é traiçoeiro’
‘Comboio da liberdade’ se espalha para outros países
Bento XVI pede perdão a vítimas de abusos sexuais

O Estado de S. Paulo

ANS barra transferência de planos de saúde da Amil
Mercado eleva previsão de juros após alerta do Banco Central
Mudança na Lei Rouanet restringe cachê máximo de artistas e captação
Defesa de nazismo por youtuber testa limite da liberdade de expressão
Ala tucana que não quer candidatura pressiona Doria
TSE aprova fusão de DEM e PSL para criar União Brasil
Brasil registra novo pico de mortes por covid: 1.174 em 24h

Folha de S. Paulo

BC alerta que PEC dos combustíveis aumentará inflação
Ocupação de UTIs para Covid supera 80% em 8 estados e DF
Total de crianças de 6 e 7 que não sabem ler e escrever sobe a 41%
Quiosque seguiu aberto mesmo com corpo de Moïse
Apresentador perde patrocínio por fala de partido nazista
Afastado, Jefferson comando PTB, dizem mensagens
Lula banca Alckmin após contestação de Dilma
Bento 16 admite erros da igreja sobre abuso sexual
Jovem negro preso depois de comprar pão é solto

Valor Econômico

Isenção leva a corrida por geração própria de energia
Dissenso marca desoneração de combustíveis
Queda de massa salarial é reflexo de informais
Braskem deve adiar ‘follow-on’
Ata do Copom sinaliza aperto maior, sem definir estratégia
Teles tentam barrar venda da Oi Móvel
ANS suspende transferência de carteira da Amil

EDITORIAIS

O Globo

Ata do Copom traz aviso a Bolsonaro e ao Congresso sobre risco de inflação

É fundamental entender que, apesar do desempenho positivo registrado no ano passado, as contas públicas são frágeis

A cada 45 dias, o presidente do Banco Central (BC) e seus diretores, integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom), fazem reuniões para estabelecer a Selic, taxa básica de juros da economia, principal arma de combate à inflação. A decisão é divulgada por meio de um comunicado. A ata da reunião, com mais detalhes sobre as justificativas, é publicada na semana seguinte. Críticas a outras áreas do governo são raras. O tom costuma ser glacial. A divulgação da última ata, ontem, quebrou essa escrita.

A mensagem ao governo Bolsonaro e às lideranças do Congresso Nacional, que flertam com a irresponsabilidade diante do descontrole inflacionário, foi grave e clara. Traduzindo o jargão peculiar, o Copom avisou que as incertezas sobre a gestão das contas públicas aumentam a probabilidade de inflação maior no futuro. Bolsonaro e seus aliados no Congresso, se não mudarem de rumo, serão os responsáveis pela alta de preços, um mecanismo perverso que esfarinha o poder de compra da moeda e afeta sobretudo a população mais pobre.

Diante do aviso, o governo e as lideranças do Congresso deveriam abandonar duas propostas de emendas constitucionais, a PEC dos Combustíveis e a PEC Kamikaze, apresentadas na semana passada. Elas defendem uma renúncia fiscal e gastos extras bilionários, sob o pretexto de reduzir o custo da gasolina, do diesel e do gás de cozinha, criando, entre outros agrados a grupos próximos ao Planalto, um “vale” para caminhoneiros.

Na avaliação do próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, a PEC Kamikaze é uma bomba, com um custo que poderá chegar a R$ 130 bilhões. A PEC dos Combustíveis, é certo, tem um impacto menor, mas isso não impede que também seja classificada como péssima ideia.

É fundamental entender que, apesar do desempenho positivo registrado no ano passado, as contas públicas são frágeis. O recuo recente do dólar não deve criar ilusões: o endividamento brasileiro é alto comparado ao de economias emergentes. Medidas populistas aumentam a percepção de que o governo terá mais dificuldades para honrar sua dívida. Em certo momento, o prognóstico vira uma profecia autorrealizável — e o clima positivo das últimas semanas pode rapidamente virar. Temerosos, os investidores se refugiam no dólar; a alta da moeda inflaciona produtos e serviços, o BC é obrigado a manter juros altos, a economia desacelera, e a dívida segue crescendo. Conclusão: todos terminamos em situação pior.

Em momentos como o atual, as lideranças do Congresso com espírito público precisam se fazer ouvir. De Bolsonaro, seus aliados e filhos não há muito o que esperar. Ontem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) assinou a PEC Kamizaze. Pelo jeito, o plano é garantir diesel e gasolina para rodar até as eleições, mesmo correndo o risco de que o país depois caia num precipício.

O Estado de S. Paulo

O componente político da inflação

Incerteza fiscal e expectativas de inflação – justificativas da alta de juros – têm como grande fonte a açãopresidencial

O arrocho financeiro, com juros altos, crédito apertado e entraves à atividade econômica, vai continuar até a inflação ceder e se firmarem as expectativas em relação às metas. Anunciado logo depois do aumento da taxa básica para 10,75%, esse compromisso de rigor foi reafirmado na ata da última reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). Os próximos ajustes poderão ser menores que o último, de 1,5 ponto porcentual, mas novas altas estão prometidas e a taxa poderá chegar a 12% neste semestre e declinar na segunda metade do ano. A tarefa de conduzir a inflação à meta deverá ser completada, segundo a ata, até o próximo ano.

Incertezas sobre o futuro das contas públicas afetam as expectativas de inflação. Atitudes e decisões do presidente da República, de sua equipe e de seus aliados podem gerar pessimismo quanto à evolução dos preços. Sem mencionar o presidente, o Palácio do Planalto ou qualquer outro edifício da Praça dos Três Poderes, a ata é muito clara, no entanto, ao indicar os componentes políticos da inflação, já mencionados em muitos outros documentos do Copom.

Para conferir esse ponto é preciso, no entanto, desbravar um denso emaranhado verbal: as contas públicas podem ter melhorado, mas “a incerteza em relação ao arcabouço fiscal segue mantendo elevado o risco de desancoragem das expectativas de inflação e, portanto, a assimetria altista no balanço e riscos”. A referência ao “arcabouço fiscal” e ao risco de inflação fora do eixo aparece duas vezes na ata.

Na imprensa, no entanto, os mesmos indicadores de risco são visíveis todos os dias. Orçamento secreto, presidente submisso ao Centrão, transferência de poderes do Ministério da Economia para a Casa Civil, furos no teto de gastos, intervenções nos preços de combustíveis, programas improvisados e jogadas eleitorais compõem grande parte do noticiário de todos os dias. O palavrório da ata do Copom apenas traduz de forma complicada as barganhas, jogadas e distribuições de favores consumadas em Brasília, de forma continuada, com o dinheiro do contribuinte.

Nada mais fácil de entender, portanto, que a mistura de inflação elevada, juros altos, economia emperrada, amplo desemprego e enorme insegurança quanto à evolução das contas federais, da dívida pública e das condições de governança. O presidente Jair Bolsonaro nunca se ocupou de governar e continua distante desse tipo de atividade. O ministro da Economia, Paulo Guedes, ensaia, ocasionalmente, alguma resistência aos desmandos mais evidentes.

Mas, além de se submeter aos desmandos, o ministro permanece no cargo e insiste em falar como se a economia nacional andasse muito bem, houvesse enorme oferta de empregos, a inflação brasileira fosse apenas um reflexo de um problema global, as contas públicas fossem sólidas. O fiasco das privatizações é por ele atribuído à resistência da oposição ou a uma poderosa parcela de congressistas fisiológicos. A vinculação de seu chefe com os grupos mais fisiológicos é sempre esquecida, naturalmente, em suas declarações.

Ao mencionar os problemas globais, o ministro da Economia geralmente omite alguns detalhes muito significativos, como a diferença entre a inflação brasileira e as de outros países capitalistas (em geral muito menores) e a distância entre o desemprego no Brasil e aquele observado na maior parte das economias emergentes e desenvolvidas.

Além de pouco se esforçar pela melhora do trabalho e da vida da maior parte dos brasileiros, o presidente, concentrado em objetivos pessoais, dificulta a gestão do setor público. As incertezas quanto ao “arcabouço fiscal”, mencionadas na ata do Copom, são efeitos facilmente compreensíveis do comportamento presidencial e das falhas administrativas do Executivo (sem contar, é claro, a desastrosa atuação do Ministério da Saúde). Pode-se discutir se o custo econômico dos juros altos será compensado por uma vitória significativa sobre a inflação. Não há como duvidar, no entanto, dos fatores de preocupação citados na ata do Copom.

Folha de S. Paulo

Registrado em ata

Como aponta o Copom, populismo nos combustíveis ameaça elevar inflação e juros

Em sua linguagem peculiar, formulada em impessoalidade tecnocrática, o Banco Central alertou nesta terça (8) para os riscos de deterioração econômica ainda maior com o avanço de propostas eleitoreiras destinadas a derrubar a tributação sobre os combustíveis.

“Mesmo políticas fiscais que tenham efeitos baixistas sobre a inflação no curto prazo podem causar deterioração nos prêmios de risco, aumento das expectativas de inflação e, consequentemente, um efeito altista na inflação prospectiva”, diz a ata da reunião realizada na semana passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

Em termos mais mundanos, afirma-se ali que a ofensiva tresloucada do Planalto e do Congresso pela desoneração pode até reduzir de imediato os preços da gasolina, do diesel e de outros derivados; entretanto a perda brutal de arrecadação elevará o déficit do governo, o descrédito na gestão da economia e, cedo ou tarde, a inflação.

Se tais consequências podem parecer um tanto abstratas, recorde-se que as sucessivas demonstrações de incúria orçamentária de Jair Bolsonaro já alimentaram nos últimos dois anos a escalada das cotações do dólar —que agravou o encarecimento de combustíveis e demais produtos precificados internacionalmente.

O IPCA chegou aos dois dígitos em 2021, e o mesmo se deu agora com a taxa de juros do BC, fixada em 10,75% ao ano. A ata do Copom reforça que novas altas serão necessárias, com impactos funestos para o consumo, o investimento privado e a geração de empregos.

Com a reeleição sob ameaça, o presidente comete a proeza de sabotar o crescimento da economia, já prejudicado neste início de ano pelos sobressaltos provocados pela variante ômicron do novo coronavírus —como se viu, por exemplo, na queda dramática da produção de veículos em janeiro.

Entretanto a marcha insensata da desoneração dos combustíveis prossegue, mal levando em conta as débeis objeções do Ministério da Economia, em particular à proposta de emenda constitucional em tramitação no Senado.

Enquanto a pasta faz saber que considera a PEC suicida, o texto acaba de ganhar a assinatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), provável coordenador da campanha do pai.

Danos orçamentários de tal quilate são de reversão difícil e dolorosa, como o país já deveria ter aprendido após oito anos de idas e vindas na agenda reformista, na inflação e nas esperanças de retomada econômica. O governo atual conseguiu tornar mais complexa a superação desse ciclo.

Valor Econômico

Ata do Copom indica que juros precisam subir mais

O tripé doméstico que assim causa incerteza sobre o futuro da política monetária pode ainda causar mais estragos

A taxa de juros será maior que os 12% considerados no mais recente cenário de referência traçado na reunião do Comitê de Política Monetária na semana passada. No comunicado após o encontro, a decisão de sinalizar com ajuste adicional menor que 1,5 ponto percentual sugeriu que o pico da Selic talvez não chegasse a tanto. A ata divulgada ontem, porém, deixou claro que esse limite não existe, ainda que os ajustes estejam perto do fim.

O Banco Central pode estar disposto a ir mais longe com o ciclo de aperto porque os 12% não são suficientes para levar a inflação de 2022 à meta – com o que as projeções usadas no cenário de referência concordam – nem tampouco fazer isso em 2023, o que, pelo cenário, bastaria. Após a reunião do Copom, o Focus indicou uma taxa final de 11,75% ao ano. No entanto, o IPCA ficaria acima da meta nos dois anos – em 2023, repetiu a previsão anterior de 3,5% e, em 2022, elevou a taxa de 5,38%, antes da reunião, para 5,44% após a decisão.

Um dos motivos principais para considerar em seu cenário próprio o viés altista acima do básico foi o clima de algazarra fiscal patrocinada pelo Centrão com apoio do Planalto, com a PEC dos combustíveis. Ela acabou não sendo enviada diretamente pelo Executivo, mas por um deputado solicitado a fazê-lo pela Casa Civil. A PEC ganhou uma alma gêmea, bem mais feia, no Senado, ampliando subsídios para o consumo de energia elétrica, vales para caminhoneiros e consumidores de gás de botijão etc. O ministro Paulo Guedes ameaçou colocar ordem na casa com a proposta de uma inacreditável redução generalizada do IPI, insinuando ao país que todos os graves problemas fiscais tinham acabado.

A ata não atribui a ninguém responsabilidades. Mas menciona as novas tentativas de bagunçar o coreto fiscal e suas consequências. Em frase nova na ata, registra que “o Comitê nota que mesmo políticas fiscais que tenham efeitos baixistas sobre a inflação no curto prazo podem causar deterioração nos prêmios de risco, aumento das expectativas de inflação e, consequentemente, um efeito altista na inflação prospectiva”. Isto é, as PECs feitas para baixar artificialmente preços de forma imediatista pode ter efeitos contrários. Além disso, em parágrafo anterior, ainda sobre política fiscal, o BC menciona que incertezas a respeito de sua trajetória podem “impactar negativamente preços de ativos importantes e elevar os prêmios de risco do país”.

Na ata da reunião de dezembro, em que o pico da Selic apontado no cenário básico foi de 11,75%, o Copom já advertia que o ciclo de aperto monetário seria “mais contracionista” por todo o horizonte relevante. A mesma conclusão foi reiterada, desta vez com taxa limite de 12% ao ano. Para isso, como habitualmente faz, simulou efeitos de diferentes taxas finais, ritmos de ajuste e duração do aperto monetário. Optou por reduzir o ritmo de ajuste.

Restam então dois outros caminhos. Na ata de dezembro, com juro final de 11,75% (caindo a 11,25% ao fim de 2022), decidiu por aumento de 1,5 ponto percentual, ainda que as projeções do Focus, no cenário básico, eram de IPCA abaixo do teto em 2022 e na meta em 2023. Os juros subiram depois disso, assim como a inflação nos dois anos no cenário de fevereiro, com Selic a 12%.

A conclusão é que provavelmente o BC elevará os juros acima dos 12% e manterá a taxa por um período maior do que o antevisto, até “garantir a convergência da inflação ao longo do horizonte relevante, assim como a ancoragem das expectativas de prazos mais longos”.

Ao deixar em aberto a magnitude dos próximos ajustes, e apenas indicar que serão menores que o anterior, de 1,5 ponto, o BC mencionou “a incerteza particularmente elevada sobre preços de importantes ativos e commodities”. O ativo é o dólar, que se desvalorizou em 5,77% diante do real no ano até dia 7 de fevereiro. O comportamento das commodities, porém, foi frustrante para a política monetária, como aponta a ata: “Desde a última reunião, a maioria das commodities reverteu a queda observada no fim do ano e, em alguns casos, atingiram recordes recentes, reforçando o ambiente global de preços mais pressionados”.

O tripé doméstico que assim causa incerteza sobre o futuro da política monetária – dólar, commodities e situação fiscal – pode ainda causar mais estragos. Ao BC, sozinho na luta contra a inflação, só cabe aguardar e ajustar sua estratégia.

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