Fernando Gabeira: Um passaporte para o absurdo

O ano se encerra com mais uma das melancólicas polêmicas entre o negacionismo e a ciência. O tema, estimulado pela variante Ômicron, é a exigência de um passaporte sanitário para a entrada de estrangeiros no Brasil.

Bolsonaro é contra e disse que a Anvisa queria fechar o espaço aéreo brasileiro, uma conclusão absurda diante de um conselho mais que sensato. O ministro da Saúde foi mais longe com sua frase bombástica: “É melhor perder a vida do que a liberdade”.

Não dá para argumentar com pessoas tão fora da realidade. São tão malucos que diziam no princípio que o passaporte sanitário era ruim para a economia.

Acham que os turistas preferem mesmo os lugares onde não há preocupações sérias com a segurança. Supõem que a maioria das pessoas prefere viajar num mesmo avião com passageiros não vacinados e compartilhar hotéis, restaurantes, passeios com esses mártires da liberdade, que, na verdade, preferem morrer a se vacinar.

A solução econômica que encontraram é determinar quarentena de cinco dias para quem não for vacinado. Ao cabo desse período, eles podem não ter o vírus, mas continuarão não vacinados; portanto, vulneráveis, aumentando o risco coletivo.

Se fôssemos argumentar com o mesmo grau de absurdo, deveríamos lembrar as intensas campanhas que o Brasil fez contra a prostituição infantil. O país dizia claramente nos cartazes e na própria atuação da PF que era uma prática condenável, passível de cadeia. Os estrangeiros que vinham para o Nordeste fazer turismo sexual não eram bem-vindos. Era um tipo de liberdade que violava as leis nacionais. E os eventuais dólares que gastavam aqui não justificam nenhum nível de tolerância com suas práticas.

Quem recusa a vacina não entra em choque com a lei. Mas precisa assumir as consequências de sua decisão. Não é racional a frase de Queiroga, creio que ele dá uma banana para a racionalidade, que condena a discriminação aos não vacinados.

Bolsonaro diz que é Flamengo, algo em que não acredito, pois é apenas um caçador de votos. Se quiser visitar o clube de sua hipotética predileção, será justamente barrado. Ali, a norma é a aceitação de vacinados.

Dentro desse delírio negacionista, Onyx Lorenzoni queria impedir as empresas de exigir a vacinação de funcionários. Todas essas bobagens são ditas em nome da liberdade.

Existe a possibilidade de a variante Ômicron não ser tão pesada assim. Mas é necessário lembrar que no Hemisfério Norte ainda há ondas de contágio. Estão entrando no inverno e, possivelmente, veio da lá a influenza que se propaga rapidamente no Rio.

Talvez seja a última batalha do negacionismo, essa do passaporte. Bolsonaro tentou desacreditar a vacina, investiu contra a CoronaVac, insinuou que a Pfizer nos transformaria em jacaré.

Apesar de todo o esforço negacionista, a enxurrada de fake news na rede, a vacinação no Brasil tem sido um sucesso. Jornais da Alemanha mencionam esse êxito.

Derrotados em todas as linhas, os homens do governo investem contra o passaporte sanitário. A fórmula que encontraram para aceitar não vacinados pelo menos encarecerá em mais ou menos US$ 300 a estadia no Brasil, pois devem ficar isolados cinco dias.

No fundo, Bolsonaro e Queiroga sabem que, ao transferir o controle da quarentena para os municípios, o controle será missão impossível. Importante que seus turistas não vacinados não acreditem nisso. Suponhamos que algumas prefeituras se dediquem realmente à tarefa de controle. Voltarão arrependidos.

Aliás, os mais espertos perceberão que um governo que luta até a morte pela sua liberdade não é assim tão fanático, ao propor uma semana de prisão num quarto de hotel. Bolsonaro e seu ministro da Saúde simplesmente se enrolam na própria teimosia, são incapazes de ver o rumo da luta contra a pandemia no mundo.

Bolsonaro merecidamente deveria ser escolhido o idiota do ano. E nem poderia reclamar, pois é um título ainda suave para descrever sua performance. (O Globo – 13/12/2021)

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