George Gurgel de Oliveira: A reunião do G7, a pandemia e o imperativo da sustentabilidade

Estamos vivendo uma situação mundial de crises econômicas, sociais e ambientais, a exemplo da crise climática, do aumento da fome, do desemprego e da falta de vacinas para as populações e países pobres do planeta, inclusive no Brasil, entre outras tragédias já no segundo ano de pandemia.

A pandemia colocou em evidência a insustentabilidade econômica, social e ambiental da sociedade contemporânea, herdeira da revolução industrial e urbana do século XVIII, aos olhos de hoje insustentável.

A partir dos anos 60, do século XX, coloca-se como nunca o imperativo de defesa e ampliação da democracia como caminho de novas relações políticas, econômicas e sociais em defesa da vida e da preservação do meio ambiente. A possibilidade desta construção alternativa ao capitalismo e a própria experiência do socialismo real, valorizando a democracia, continua nos desafiando neste século XXI, em plena pandemia, desnudando as fragilidades dos nossos sistemas político, econômico e social no Brasil e no mundo.

O confinamento social está nos proporcionando uma necessária reflexão individual e coletiva da sociedade brasileira e de toda a humanidade. Sob qual perspectiva nos colocamos durante a pandemia e a pós-pandemia? O que temos a dizer como sociedade brasileira e mundial?

Neste contexto é que devemos avaliar a recente reunião dos países mais desenvolvidos, o chamado Grupo do 7 (G7), no último 11, na Inglaterra, e os impactos das deliberações e declarações do G7 antes, durante e depois da reunião e os seus desdobramentos no cenário político e econômico mundial.

O Grupo dos Sete (G7) é o grupo dos países mais industrializados do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Ainda com a representação da União Européia. Foi fundado em 1975 e faz reuniões anuais para discutir as questões urgentes do cenário internacional. Na agenda da sua última reunião predominaram as questões relacionadas a mudanças climáticas, ameaças à democracia, recuperação da economia mundial e a própria pandemia. Ainda como fato político importante destaque-se a iniciativa dos EUA e da União Européia de um possível realinhamento com a China e a Rússia, apesar de uma posição critica do G7 em relação a estes países.

A pandemia e seus impactos econômicos, sociais e ambientais tomou conta da agenda da reunião. Antes do evento, houve uma importante declaração dos ministros de finanças do G7 se comprometendo com o aumento da cobrança de impostos das empresas multinacionais, nos países onde funcionam, no valor de 15% a serem investidos em Programas Sustentáveis nos próprios países onde funcionam essas empresas multinacionais.

A reaproximação com a China e a Rússia, particularmente dos EUA, neste início de Governo Biden, foi outro fato político a ser destacado dessa reunião. No caso concreto da Rússia, o encontro em Genebra, posterior à reunião do G7, já teve desdobramentos positivos: a volta à normalidade nas relações diplomáticas entre os dois países e das respectivas embaixadas em Moscou e em Washington. As relações China e EUA continuam e devem continuar conflitantes em razão das disputas em torno da hegemonia econômica mundial. As discussões da última reunião do G7 vão continuar a repercutir e pautar os cenários político, econômico e social nos planos nacional e internacional.

A pandemia, já no segundo ano, vem acelerando mudanças no mundo do trabalho e da cultura, em toda a parte. A vida em home office já está proporcionando mudanças significativas no cotidiano da humanidade. Muitas dessas novas relações vieram para ficar. O isolamento social está nos fazendo pensar e agir de outra maneira, entendendo melhor as nossas limitações e fragilidades individuais e coletivas da sociedade e do mundo em que vivemos, nesse novo normal. Há urgentes demandas cotidianas inadiáveis a favor da cooperação, da solidariedade, da luta pela igualdade, liberdade e fraternidade e as nossas relações com a própria natureza – a casa de toda a humanidade. A realidade grita a favor dos excluídos, nos agride com as contradições econômicas e sociais da sociedade contemporânea, ampliadas desde o início da pandemia.

Nesse contexto, o que o G7 tem a nos dizer sobre esta realidade?

Os desafios da sustentabilidade

A política do espetáculo construída nas redes sociais inauguram novas maneiras de ser e estar na sociedade contemporânea. As fakes news pautam a vida política, econômica, social e ambiental, no dia a dia dos meios de comunicação e do cotidiano das pessoas, a nível mundial e nacional.

As sociedades mundial e nacional estão desafiadas ao enfrentamento dos reais problemas cotidianos, de superação da pandemia e da nossa difícil realidade social e econômica que exclui a maioria da população nos seus espaços de trabalho e moradia das conquistas econômicas e sociais modernas. O cotidiano nas ruas e nas redes sociais apresenta a tragédia social de bilhões de pessoas em todo o planeta, excluídas do direito ao trabalho, alimentação, moradia e saúde-saneamento, educação e mobilidade urbana O futuro da sociedade e da democracia deve ser trabalhado em uma perspectiva sustentável modificando as relações políticas, econômicas e sociais nos planos nacional e internacional, histórica e atualmente insustentáveis.

A tecelagem de uma alternativa democrática às crises política, econômica e social, a nível internacional e de cada sociedade nacional, é o desafio de trabalhar a unidade das forças democráticas, dialogando com a cidadania, com o mundo do trabalho e da cultura no caminho da sustentabilidade política, econômica e social a ser construída.

A pandemia desafia a tudo e a todos. A própria vida. A ciência, como nunca, é imprescindível, frente aos negacionismos e aos populismos tanto de direita quanto de esquerda, que constroem suas realidades paralelas e se retroalimentam. Há espaço para as amplas avenidas da democracia, no caminho de novas relações políticas, econômicas e sociais nos planos nacional e internacional, com mudanças substantivas nas organizações multilaterais a exemplo da ONU, FMI, Banco Mundial, OIT, entre os blocos continentais e regionais já existentes envolvendo países e organizações governamentais e não governamentais, inclusive em relação ao funcionamento do próprio G7, democratizando as relações internacionais em prol desta almejada sustentabilidade mundial.

Assim, as opções entre a democracia e a barbárie continuam postas. A democracia venceu os grandes embates no século XX. É um processo em construção, em vigilância e defesa permanente. A questão democrática se impõe como um valor para as sociedades nacionais e a nível mundial, nas relações estabelecidas entre a própria sociedade e com a natureza.

A pandemia nos impacta e abre caminhos alternativos à realidade atual. As condições materiais, econômicas, sociais e a insustentabilidade da sociedade contemporânea estão na berlinda e podem ser superadas. As sustentabilidades política, econômica e social são processos em curso e em disputa, no dia a dia da sociedade, no cotidiano de cada um de nós. As participações da cidadania e de toda a sociedade são os fundamentos desta sustentabilidade almejada.

São desafios históricos que continuam atuais.

Seremos capazes? (Blog Democracia Política e novo Reformismo – 20/06/2021)

George Gurgel de Oliveira, professor-doutor da Oficina da Cátedra da UNESCO em Sustentabilidade da UFBA

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